4.2.12

A síndrome do sobrevivente

You haven't looked at me that way in years,
But I'm still here.

Hoje parei. Algo me chamou a atenção.
Ao descer a rua costumo olhar de viés para a direita. Emoldurada por cortinados e ladeada de vasos de sardinheiras lá está sempre a velha. A velha olhando a rua.
Em que estará pensando uma pessoa cujo rosto nunca muda de expressão?
Parece uma estátua de madeira de oliveira com as nervuras concêntricas a pronunciarem as maçãs do rosto. Eu passo, as demais pessoas passam; todos passamos e a velha fica.
Dia após dia, ali, vendo o movimento do trânsito e o de algum ocasional peão, pedestre, caminhante, ou sei lá como chamar-lhe, que cada vez é mais raro; tão raro que a velha já não nos segue com o olhar ao passarmos, apenas dirige o olhar para o trânsito que vê como uma fiada de casulos metálicos presumivelmente com gente dentro.
De cada vez que passo, dá-me a ideia que se vê menos, cada vez mais encoberta pelas cortinas, sempre olhando a rua, a madeira de oliveira do rosto, mais nodosa, mais macilenta, mais mirrada.
Será que sai dali para comer, para dormir? Será que vêm visitá-la?
Os olhos acinzentados perdem brilho a cada dia que passa, como se lentamente, também, fossem perdendo a capacidade de ver. A sua imaginação reduzida à imagem de uma ocorrência resgatada do esquecimento: um diapositivo projetado na tela da memória, ao acaso, imóvel ele também, sem o alívio de se ver rendido por outro diapositivo que lhe venha dar descanso.
Se fosse possível assistir ao diaporama das suas memórias ordenadamente, e não como um puzzle feito dessas imagens apanhadas ao acaso e colocadas no projetor da memória sem critério, haveríamos de ver a alternância usual dos prazeres e das dores, da esperança e do desalento, dos amores e dos ódios; de todas as coisas de sinal contrário que compõem a vida de uma pessoa, e, algures, há muitos anos já, haveríamos de encontrar o seu rosto jovem a ver-se ao espelho, a arranjar-se para um encontro; o seu rosto luminoso, expressivo e belo.
Por favor, que tenha sido bela esta mulher que agora definha olhando o mundo.
Diapositivo após diapositivo, e agora, uma imagem de quando era tida como um ser precioso para alguém, um ser amado pela pureza, pela candura, como resultado de um outro amor anterior a ela. Quando foi que isso acabou? Quando deixou de ser amada assim?
Houve uma mudança, entre ser amada assim e começar a ver-se mulher nos olhos dos que a desejavam, como então, há muitos anos já, ao ver-se a si própria ao espelho, antecipando o prazer de ser desfrutada.
Algures na fiada dos dias que é impossível reconstituir agora, algo provavelmente aconteceu que alterou a sua vida, uma partida, uma morte talvez. Talvez a eclosão da guerra em África lhe tenha interrompido um romance; uma guerra quase do outro lado do mundo e ela vítima aqui, como um dano colateral.
Ou simplesmente uma decisão que alguém tomou, ou um incidente sem grande relevância mas que alterou a trajetória da sua vida; talvez apenas a correnteza dos dias, talvez tão só a fiada das horas, a teimosia dos segundos a caírem um após outro para pontilharem a linha cruel do tempo.
A ver-se ao espelho. A desfrutar a própria beleza. Há algo de solitário nisso, algo de esfíngico, de intemporal. O olhar a prender a beleza e a ignorar a perspetiva do tempo. Um momento bela – bela para sempre. A desmentir que a beleza não passa de uma ilusão, ou pelo menos de uma simples contingência que a mente humana amplia para compensar a consciência de se saber degradável e perecível.
Mas é essa ilusão e a consciência disso que nos faz divinos.
A ver-se ao espelho. Os seios levantando e descendo ligeiramente, como algo feito para se lhes ver o peso, ao ritmo do peito que arfa de ansiedade. A roupa apenas sobre o corpo. Há tão pouco tempo vestida, que parece só pousada e se adivinha o corpo sem ela. A esperança no olhar a ser devolvida pelo espelho, uma esperança de mulher bela que não antecipa uma aventura mas uma vida de ventura, justamente por se saber bela.
De tudo isso, se isso houve, ficou um resto, uma coisa esquecida à beira da vida, à beira de uma estrada, sem ao menos chamar à atenção de quem passa. Uma sombra sem objeto que observa o mundo a que não pertence já, como uma não-existência apenas adiada.
Será que foi mesmo bela? Será que foi amada? Será que teve uma vida de ventura? Será que foi jovem?
Como é esta aritmética da vida, onde não conseguimos ver os seus 18 anos, de entre os 81 que já terá?
Quem sabe, não terá sido apenas uma mulher comum, com um percurso linear, sem grandes paixões nem grandes sobressaltos. Parada no espaço, mas viajante no tempo. Com uma vida longa, em que foi deixando pelo caminho todos os seus companheiros de viagem.
Habituei-me à sua figura, sem lhe dar atenção. Será que também se terá habituado a ver-me passar, e assim me tenha tornado familiar para ela? Será que se eu tivesse parado, uma vez que fosse, e lhe tivesse dirigido o olhar, ela me teria sorrido? Naquela rua onde ninguém passa a pé, éramos, a maior parte das vezes, os únicos seres humanos visíveis, e no entanto, eu passei sempre sem parar, sempre sem olhar para ela, porque esta vida urbana nos desumaniza, e encararmos um semelhante tornou-se um ato de impudência ou de devassa. Habituei-me à sua presença silenciosa do mesmo modo que nos habituamos a um ruído de fundo.
Hoje parei. Algo me chamou a atenção. A ausência da sua silhueta esfíngica atraiu-me o olhar. A janela está vazia como um olho vazado. Atrás das cortinas de renda apenas o negrume de uma sala sem alma. E de repente toda aquela fachada do prédio se transformou num corpo morto a que só falta cair para o lado, porque cresceu em mim a certeza absoluta de que não voltarei a sentir o cálido alento de humanidade que a figura daquela senhora idosa me oferecia. Porque me parece irremissível o despovoamento da cidade e do mundo, de cada vez que um só dos seus habitantes nos abandone.
Será que é por causa deste trauma obsessivo, que não me deixará nunca, de ter visto a meu lado caírem desumanamente pessoas que eu não conhecia antes, mas que a solidão, o sofrimento e a guerra me ofereceram como amigos?
Os feridos e os mortos partem e os sobreviventes continuam com a ilusão de que têm algo importante para fazer, sem se darem conta que a sua progressão os irá aproximar da morte. Todos os caminhos se encontrarão nesse objetivo comum da vida, e, se pararmos um pouco antes de darmos o derradeiro passo, poderemos reverter ilusoriamente o tempo através da memória, e se o fizermos, talvez nos lembremos de como não demos verdadeiramente importância à felicidade de um dia termos estado todos juntos.
Os carros, em filas de latas atrás de latas, a poluírem a rua com fealdade, mais do que com monóxido de carbono. Os rostos por detrás dos para-brisas a envelhecerem assustadoramente como crisálidas dentro daqueles casulos móveis, sem a esperança de uma metamorfose que um dia lhes dê asas.
De repente a cidade tão grande. De repente a rua deserta. Regresso a casa de luto. Um sobrevivente desamparado pela rua abaixo.
A janela vazia como um olho vazado, uma moldura sem quadro; uma janela que deixa antever a noite aprisionada para sempre dentro de casa.
Vou descendo a rua sentindo que ficou algo para trás, algo de irrecuperável, porque o rio do trânsito que desce a rua leva consigo a veleidade de um tempo presente em que seria possível deixar uma impressão pessoal, uma marca que resistisse para além da memória.
É sempre isso que nos faz caminhar. Tentar ultrapassar essa torrente que na verdade acabará por nos deixar ficar a todos para trás, como nós fomos deixando os outros, enquanto tentávamos sobreviver. Mas ao sobrevivermos a todos, não acabaremos por morrer sozinhos?
Um após outro, pelo caminho, quantos perdemos? Quantos tombaram enquanto progredíamos ao encontro do inimigo? E de cada vez, que parte de nós perdemos também?
O capitão a chorar, com as mãos no tablier da Berliet como se fosse a amurada de um navio, olhando os helicópteros que levavam os mortos e os feridos, enquanto a coluna finalmente seguia para o objetivo. E na sala do comando, em Mueda, espetaram um alfinete no mapa com alívio, marcando o local onde íamos morrendo todos. Como é difícil o trabalho dos burocratas da guerra!
E depois a coluna seguiu, o sangue regressou ao corpo. E apesar de menos, sentimos o conforto da companhia uns dos outros, porque é muito mais difícil morrer sozinho.

28.1.12

Pássaros como que de fogo


"Soon, oh soon the light
Pass within and sooth this endless night"


Se eu pudesse levar algo de África, levava esta praia.
Quero levar, pelo menos, a memória de cá ter estado.
Daqui a pouco vai nascer o Sol. Um pouco antes, um homem chegará de bicicleta, abrirá aquele barraco e acenderá o fogo num destes bidões, e eu sentar-me-ei numa daquelas pedras e tomarei aqui o pequeno-almoço pela segunda vez. E será essa a minha despedida de África.
No momento de virar as costas o que pesa mais? A antecipação da saudade ou o receio de virmos a ser esquecidos? Partirei com o absurdo desejo de que as madrugadas da Praia das Chocas guardem uma boa memória de mim.
Eu encherei os olhos de luz e de mar e depois partirei. Atravessarei dois oceanos e jamais voltarei aqui.
Entristece-me pensar que um dia me terei esquecido disto, que tudo isto se desvanecerá como uma aguarela à chuva, e que por fim, ficará apenas uma memória duvidosa, como se não tivesse passado de algo com que sonhei.
As ostras não me sabem tão bem como da primeira vez; os prazeres premeditados perdem sempre sabor.
Quase, quase nasce o sol. Um bando de aves aproxima-se. Tão grande e denso que parece uma nuvem.
O sol demora a nascer e as ostras estão a acabar. É difícil viver segundo um guião. Queria apenas despedir-me de África, repetindo um dos melhores momentos que vivi aqui, mas parece que estou a posar para uma fotografia, a representar para um filme. Um prazer premeditado é como um crime premeditado, não tem a atenuante da paixão.
Parece que estou a decalcar um desenho para que fique bem marcado na minha memória. Para levar comigo. Para impedir que o tempo o apague facilmente. Porém sabe-me a falso; não é possível ser feliz seguindo um plano.
É possível estar distraído a desfrutar do prazer, é possível deslumbrarmo-nos com uma beleza inesperada, é possível a antecipação do prazer na imaginação, mas a felicidade é a acumulação do prazer na memória; só é possível em diferido.
O Sol parece estar a demorar a aparecer. Eu a poupar as ostras…
A nuvem de aves é enorme. Enormes as aves também. Flamingos!
Flamingos, numa fragilidade de esculturas de vidro soprado, numa delicadeza de branco e rosa, pousando com as suas pernas longas de inseto, na franja ondulante do Índico.
Continuam a chegar. A maré rasa da praia das Chocas entra em ebulição. Um rebuliço de vida.
Não dezenas, não centenas; muitos milhares de aves. Flamingos com o seu bico de colher a coar a tona da água. Muitos milhares de flamingos. Muitos milhares de colheres coando a água do mar. Eles com a cabeça de lado e depois com a colher do bico a retirar não sei o quê da água. E o Sol a prometer luz, ainda não o Sol, ainda não a luz, apenas uma promessa no azul quase prateado do céu, lá muito ao longe.
E finalmente o Sol!
Primeiro uma borbulha luminosa na linha da água, depois, em câmara lenta, uma explosão de ouro incandescente, incendiando os flamingos, ruborizando o cor-de-rosa em todos os cambiantes até ao carmim, até se tornarem chamas vivas à beira da praia, e transformando o mundo visível no que de mais glorioso me foi presenteado na vida.
Não voltarei aqui. Nunca mais voltarei aqui. Quero levar esta imagem comigo para usar num dia triste. Tenho a certeza que nunca mais verei nada assim. Só um dia o teu rosto. Num outro nascer do sol. Um nascer do sol sem mar, que na minha terra o sol nasce na serra. Sem flamingos. Sem pássaros de fogo.
Se a felicidade total fosse possível, estarias aqui comigo, estarias aqui e agora; mas nem te conheço ainda. Não sei se te encontrarei um dia para achar que faltam flamingos nesse outro nascer do Sol que há de vir.
Há quem se satisfaça por atribuir a autoria de momentos como este à inspiração artística de um criador magnífico, mas o meu êxtase, a minha epifania consiste em ter a certeza que a Natureza é como é, sem emoção nem beleza, sem memória nem criatividade, e somos nós que possuímos esses atributos. O humano milagre de criar e recriar o belo.
Não inventamos o belo apenas, olhando os ocasionais incidentes naturais, damos-lhe um propósito e uma persistência para além do momento corrente.
Nada disto seria mais do que um bando de pássaros a pousar na baixa-mar da praia das Chocas da Ilha de Moçambique se eu não sentisse já uma saudade a haver desta madrugada, se eu não sentisse já o prazer futuro da evocação deste momento, como um relâmpago vindo do passado, um sonho que a imaginação tornará vígil e lúcido como se tivesse acabado de acontecer. A memória da minha despedida de África tão vívida que parecerá uma invenção minha.
Há uns cinco meses atrás, à minha chegada a Lourenço Marques, fiquei deslumbrado com um nascer do sol nesta praia, enquanto comia ostras cruas com lima, mas entretanto fui acumulando os pesadelos de uma guerra. Uma guerra sem objetivo nem prazo. Uma guerra em ciclo vicioso. Uma guerra que não parece ser feita para ganhar nem para perder, apenas para aguentar o país em estado vegetativo. Um estado comatoso que mantém a morte em lume brando. A indústria nacional da matança, sem a desculpa sequer de um falso motivo. A matança como meio de vida. Como desígnio nacional.
E o que há cinco meses me pareceu deslumbrante não passaria hoje de uma pobre representação, sem a capacidade humana para a poesia e o deslumbramento que transforma as simples ocorrências, aleatórias e insignificativas, na gloriosa exuberância da Natureza.
De que é feita a poesia? De que são feitos os flamingos?
Aves transfiguradas pela imaginação. Como um sonho vivido em África, unindo para sempre este momento a todos os outros momentos em que a memória os evoque, e em que serei feliz hoje de novo amanhã e sempre que me recordar desta madrugada, como se o tempo decorrido não importasse. Um prazer diacrónico a que chamarei saudade se me faltar inspiração.
Um momento guardado em mim, que África me ofereceu depois de me ter tirado quase tudo, para me servir de alento enquanto não te conhecer e tiver que alimentar a esperança de vir a ser feliz, porque a felicidade é como uma conta corrente em que é preciso fazer créditos para levantar em dias de penúria.
Pássaros como que de vidro. Se os não tivesse visto modelar na feira da Moita de Anadia – o meu avô a contas com o cavalo enquanto a minha avó regateava um avental com uma freguesa – não os reconheceria agora. Eu maravilhado com a delicadeza daquelas mãos rudes ali ao lado a criarem beleza com vidro e fogo. E entre dois sopros de vida que davam alma ao vidro: "100 mil réis, ó freguês!"
Agora reconheço-os pousando na fímbria do mar com os seus passos desengonçados de inseto.
Pássaros como que de fogo. O teu rosto ao nascer do dia incendiará em mim de novo o rosa flamejante destas aves, e nos meus olhos, a luz dos teus terá a emoção desta praia de África no momento de partir, no momento de regressar a casa. E África para mim permanecerá para sempre feita de extremos: o terror e a exultação.
Pássaros como que de sonho. Enfeitando cada nascer do Sol de hoje em diante. O prazer de hoje de novo amanhã e o prazer de amanhã antecipado hoje.
E a beleza maior de todas, a alegria maior: o êxtase de ver a beleza noutro ser humano. Um ser como um reflexo de nós, mas já outro e sublimado, como se fossemos, eu Narciso perante o lago e tu a imagem divinizada no lago perante mim; mas sem a insipidez da solidão, sem a monotonia da clonagem. Com a diferença no outro; com o fascínio da alteridade. E tudo sem bom senso, sem parcimónia; na exuberância exultante da felicidade.
Em mim, já, o teu rosto a haver, a tua beleza ainda não conhecida. Apenas um prenúncio da felicidade futura. Esta madrugada sem ti, ganha por antecipação o prazer de te ver sorrir para mim, quando já tiver esquecido tudo isto, a não ser pelo que em mim permaneça na memória de te ter amado antecipadamente, quando um bando de aves pousou num assombro de beleza no meu último nascer do sol em África.
Vivemos permanentemente a dois tempos, recordando o passado e projetando o futuro, numa ubiquidade cronológica; onde estamos menos é no presente, que quando pensamos nele é fugidio, e ao tentar retê-lo, não fazemos mais do que vivê-lo em função do que dele nos haveremos de lembrar um dia, ou do que a nossa experiência passada nos habilitou a ver nele. Nós vivemos na nossa memória e na nossa imaginação, não nos nossos atos.
Mas sinto hoje intensamente que tudo se reunirá num êxtase – memória e imaginação, sonho e ato – quando sorrires para mim como o Sol pela madrugada. O sol a prometer luz, ainda não a luz, só a promessa da luz, como se a felicidade estivesse sempre a espreitar na linha do horizonte.
O momento corrente pode dar prazer, pode fazer-nos tombar de plenitude, mas não passará nunca de uma etapa para a felicidade. E a soma de todos esses momentos será a felicidade? Pelo menos foi o caminho.
E chegados ao último êxtase, virando a cabeça para trás, que vemos? Vemos que percorremos um longo caminho de busca. E que, afinal, caminhando chegámos a casa. E que, afinal, era isto que buscávamos, era sempre isto: a nossa casa.
Enquanto a não encontrámos procurámos sempre, e agora iremos habitar aqui. Podemos dizer sustendo as lágrimas: – Eras sempre tu. Tu és a minha casa e sempre que amei foi a ti.
E nessa altura seremos mais felizes, porque eu levo daqui, já um lastro de beleza ao teu encontro.

20.1.12

Bananeiras

As Águas - Mueda
Foto retirada daqui e posteriormente editada.
Texto de António Almeida
[...]
Relativamente perto das Bananeiras deu-se o reencontro com os homens vindos de Nancatary. Assim, suspendemos a picagem, já que a picada acabara de ser passada pelos recém-chegados de Nancatary, e mais aceleradamente, já todos quantos iriam assegurar a construção da ponte, rolamos para o local determinado que uma vez atingido, e porque naquelas paragens anoitecia muito cedo, toca a derrubar umas quantas árvores, de modo a melhor instalar o acampamento, atentos todos os dispositivos de segurança.
A queda de uma das árvores acabou por despoletar um enxame de abelhas, que rapidamente se espalhou pelo local tomado pelos militares e começou a atacá-los. O alvoroço de todos e o pânico de muitos, recorrendo a granadas de fumo, às próprias viaturas com os canos de escape a exalar fumos, fugindo para as respectivas cabines ou lançando-se para debaixo das mesmas, foi a forma encontrada para combater um tal “ataque”.
Entre os vários militares picados pelas abelhas um teve mesmo de ser evacuado, atenta a gravidade do seu estado de saúde.
Socorrido por um heli que logo foi chamado de Mueda, o ferido foi evacuado. Logo à chegada, a primeira baixa.
Terminado o ataque das abelhas, que trouxera à memória uma situação semelhante aquando da passagem, exactamente, pelo mesmo local, da coluna que trouxera, em 1972, muitos daqueles homens para Mueda e onde sofreram logo, num ataque, também de abelhas, a evacuação do seu primeiro elemento, um dos alferes, que não voltou mais à companhia. Mau agoiro, pensaram muitos.
Agora, todos ao trabalho, na montagem e organização do acampamento, com especial incidência na manutenção da segurança, porque a tarde apressadamente ia desaparecendo e a noite, a “noite de fim de ano”, rapidamente se aproximava.
Instalados, caída a noite, foi impossível não recordar passagens de ano anteriores, sobretudo algures em Portugal. Os homens da 3503 que haviam carregado algumas bebidas recolhidas na árvore de Natal que tinham “plantado” na sua camarata, por todos fizeram uma distribuição para que ninguém ficasse sem brindar ao ano que nasceria à meia-noite.
Chovia torrencialmente quando bateu a meia-noite e, desde gritos e vivas, a tiros para o ar, enfim, um barulho em pleno mato, impossível de controlar, foi a forma que os militares estacionados nas Bananeiras encontraram para festejar a chegada do novo ano, aliás, que seria o último para os homens da duas companhias de atiradores ali presentes, as Cart´s 3501 e 3503, tirando um ou outro homem que havia chegado em rendição individual, caso do capitão e que ainda estava no princípio da sua comissão, enquanto os demais, sem contar com o mata-bicho, isto é, mais uns três meses, terminariam a comissão nos primeiros dias, exactamente, do mês de Janeiro que estava a nascer.
[...]
Texto de António de Almeida
Ler texto completo aqui

8.1.12

Ana, vítima de guerra



"And I am not frightened of dying, any time will do, I Don't mind.
Why should I be frightened of dying?
There's no reason for it, you've gotta go sometime."

--------------------------------------------------

Ana Rute disse-me que não é feliz.
A primeira reação íntima que tive foi a de não acreditar no
que me disse.
Uma jovem mulher de 26 anos, com um curso de enfermagem,
senhora de uma vivacidade a que o seu belo rosto empresta um inegável encanto,
olhando-me de frente e como se estivesse a falar de algo que toda a gente
deveria saber, diz-me que não é feliz.
Ana Rute é vítima da Guerra Colonial.
Quando a Ana nasceu já a guerra tinha acabado há muito, e
por isso, nenhum tiro, nenhum estilhaço, nenhum horror da guerra a pode ter
atingido, e no entanto a Ana é infeliz por causa da guerra.
Mas ela sabe o que são tiros, ela sabe o que são estilhaços,
e o que ela mais sabe é o que são os horrores da guerra.
Já sentiu o medo, já sentiu a ansiedade, já ouviu os gritos,
já acordou a meio da noite em sobressalto, já teve que se proteger para não ser
abatida, mas nunca fugiu. A Ana continua no seu posto tão contrariada como
todos os soldados que se veem obrigados a ficar no seu posto quanto todos
fogem.
Foi-lhe roubada a juventude como a todos os combatentes. Foi
adiando um relacionamento sério, porque um dever que lhe foi imposto não lhe
deixa espaço para os afetos. E hoje ao falar disso, parece um veterano a
queixar-se que às vezes a chamavam de maluca por deixar transparecer os seus
traumas.
Sim, a Ana Rute tem traumas de guerra. Traumas a que nenhuma
junta médica reconhecerá qualquer nexo de causalidade com o serviço militar e
muito menos com o teatro de guerra.
O estado, que tem dificuldade em aceitar que os seus
combatentes, que foram recrutados, mobilizados e massacrados no açougue da
guerra, sejam condignamente reconhecidos como vítimas desse processo todo e portadores de sequelas geradoras
de sofrimento, concedendo-lhes o estatuto de DFA, jamais aceitaria sequer a
hipótese de olhar a Ana como uma vítima também.
E no entanto, a Ana fez durante anos o que o estado deveria
ter feito. O que alguém deveria ter feito, mas ninguém fez: tratar do seu pai.
O seu pai tem 16 dos 17 sintomas que se usam para
diagnosticar a Perturbação Pós-Stress Traumático, em que 5 seriam suficientes
para um diagnóstico seguro, e a Ana tem sido vítima de todos esses sintomas.
A violência verbal e física em torno de si, a deserção, um a
um de todos os familiares, primeiro a mãe e depois os irmãos; e por fim,
indefesa, sozinha, convivendo dia e noite com a Guerra Colonial debaixo do
mesmo teto.
Os colegas da escola que lhe diziam que ela era maluca como
o pai e se afastavam. Uma professora que lhe disse em frente de todos que ela
não deveria poder frequentar a sua aula porque era filha de um combatente
maluco e era maluca também; a quem a Ana moveu um processo que resultou numa
simples chamada de atenção à professora e numa
reprovação para si, conforme tinha sido ameaçada. Os rapazes que se afastavam
dela com medo do pai. As festas a que não foi. O atraso na conclusão do curso
de enfermagem, o que
contribuiu para que agora não arranje colocação. E uma vida afetiva que foi
impossível paginar com este verdadeiro serviço de campanha numa missão pouco
menos que impossível.
Quando ela saiu do gabinete onde a recebi vieram-me à cabeça
as palavras que uma visitante do Facebook me enviou. "Não vives demasiado
no passado? Não devias procurar coisas alegres e esquecer a guerra?"
Ana Rute, uma jovem mulher que deveria viver nesse meu
futuro, onde supostamente haveria coisas alegres para procurar. E que me diz
que não é feliz, como eu digo que não sou alentejano: um facto indiscutível,
que toda a gente já sabe. Uma coisa que se diz embora se saiba que é óbvia e
consensual.
Mas a Ana não anda em busca de piedade ou de comiseração,
anda em busca de justiça e reconhecimento. Para o seu pai. Que ela, como todos
os lutadores, sabe que se se fizer justiça sairá recompensada.
O pai precisa de cuidados médicos especializados que não tem
por falta de dinheiro. Precisa de medicamentos que às vezes não compra por
falta de dinheiro, precisa de algum conforto para si
e para ela, que não obtém por falta de
dinheiro. É isso mesmo: tudo por falta de dinheiro.
E há coisas que a Ana não entende: se os médicos são
unânimes em afirmar que o pai sofre de uma doença que se apanha na guerra, como
podem as autoridades médicas militares dizerem que essa doença não tem relação
nenhuma, nem com a guerra onde ele combateu e que trouxe para casa, nem sequer
com o serviço militar? Eu bem tento explicar que se trata de um problema
processual, uma coisa burocrática, que o que é preciso é delinear uma
estratégia para tentar desenovelar isto tudo, mas a verdade é que também não
entendo.
Ana Rute é vítima da Guerra Colonial. Um dano colateral, um
dano diferido, mas uma vítima. E eu que deveria olhar mais para o presente do
que para o passado, em busca de coisas alegres, segundo a minha visitante do
Facebook, fico com a impressão que ganhei o dia, porque alguém me olhou nos
olhos com a coragem dos heróis e me disse: "Não sou feliz." Não como
um lamento, também não como se fosse eu a dizer que não sou alentejano. Não.
Foi uma declaração de quem se conhece e sabe o que quer. De quem está em guerra
e não vai baixar as armas. De quem está habituada a deixar pelo caminho os
desertores e os cobardes e que olha de frente as pessoas com quem lida para
saber se pode contar com elas.
Ana Rute, nós somos uma associação de combatentes, de sobreviventes,
de camaradas que depois da guerra ter acabado escolhemos continuar nela, porque
outros não conseguem sair dela; que conseguimos ainda assim ser felizes, pelo
menos alguns de nós, e continuar combatendo.
Enquanto houver uma jovem que nos diga que não é feliz por causa da
Guerra Colonial, nós também não esqueceremos esse passado de pesadelo, para ir em busca da fácil alegria do presente, e também não baixaremos as armas. Cada drama de um só de nós será um drama de todos. E a Ana Rute é um de nós.
Publicado no jornal Elo da ADFA

20.12.11

Nunca se regressa de África


Os soldados baixaram-se todos, o furriel Bastos começou a espreitar pela máquina fotográfica e o cabo Bento sozinho lá à frente na picada a tentar levantar a mina anticarro.
Parece um filme na minha cabeça. Sempre a repetir a mesma coisa: o palerma do furriel a tirar fotos a tudo, os soldados alapados e o Bento ajoelhado como se estivesse a rezar.
A minha G3 cheirava à máquina de costura da minha mãe.
Não ouvi o rebentamento da mina. Não me lembro. Dizem que andei à procura dos restos do Bento, mas também não me lembro. Dizem de tudo. Cada um a sua versão, mas eu que estava a olhar para o Bento, não me lembro de mais nada. Só mais tarde, um poncho enrolado com qualquer coisa lá dentro, e o enfermeiro Costa desfigurado, abanando a cabeça.
Será que Deus apaga da nossa memória aquilo que acha que é demais para nós? Parece que estou a ouvir o furriel a dizer "Ó Sousa, se Deus pode fazer alguma coisa, que acabe a Guerra de uma vez e pronto!" Às vezes parece parvo, para que quer ele as fotos daquelas desgraças?
A minha G3 depois de oleada cheirava tal e qual a máquina de costura da minha mãe.
Se calhar é melhor assim, se Deus não pôde acabar com a guerra ao menos que apague as lembranças que nós trouxemos.
Mas às vezes parece-me muito estranho que não me lembre de certas coisas, como quando te vi a falar com o Adelino. Tenho a certeza que vi qualquer coisa: uma mão, um sorriso, um gesto. Fiquei para morrer. Tu ali, de frente para ele, debaixo do alpendre.
- Estavas a falar com quem?
E tu: - Ninguém, era o Adelino.
Eu fiquei em silêncio uma data de tempo, e tu: - Qual é o problema? Ele parou para saber se estava tudo bem comigo, e eu disse-lhe que sim.
E eu, nada.
E passou mais uma data de tempo, e tu: - Isso não te passa nunca, é?
E foste embora para o trabalho.
Não passa não, Zulmira. Parece que são borboletas no meu peito. Borboletas a gritar. Sei que nunca entenderias. Elas gritam batendo as asas. Milhões de borboletas dentro do meu peito.
Parece que os pesadelos nunca passam. Que foi que eu vi, Zulmira? O que vi eu na picada em África, que me plantou um cardo no peito que me faz sangrar, sem eu saber porquê, e que vi eu no alpendre que me faz sentir as asas das borboletas a ferver, a ferver sem descanso? Não sei, mas é como acordarmos de um pesadelo. Não sabemos bem com que sonhamos, mas sabemos que foi um pesadelo porque sentimos o coração aflito e falta de ar. Mas não passa, não desaparece. É como se fosse uma memória encravada, que não anda nem desanda. Uma tatuagem feita com um ferro em brasa não sei onde, mas que me queima a alma. Uma alma tatuada. Tatuada com uma memória invisível que dói.
A minha G3 era uma máquina de costura.
Sinto-me cansado. Tão cansado. Queria abrir uma janela no peito e tirar os cardos e deixar sair as borboletas.
Que pena não me teres amado antes, Zulmira. Que pena não me teres amado quando viajávamos sem este fardo e estávamos no princípio da viagem.
Tu chegavas devagar, sempre tão devagar, que parecia uma aparição, e abria-se uma janela algures quando tu chegavas. Quando eu olhava para ti, parecia dia de festa, e ficava quedo e mudo, porque eu não estava preparado para a tua beleza.
Se eu dizia "Ó Zulmira, uma mulher linda como tu não tem o direito de estar triste", tu zangavas-te. É que era estranho que a tua beleza fizesse os outros felizes e a ti não.
O furriel um dia viu a tua foto e disse que tinhas um ar de mulher fatal.
E depois disse: - Coitada!
E eu: - Coitada, porquê?
E ele: - As mulheres fatais matam de amor e morrem de solidão.
Falava de mais o furriel.
A nossa história é só um desencontro Zulmira, nunca deu certo. Quando eu te amava, tu até troçavas de mim; agora que me procuras de noite na cama, eu sinto um frio tão grande como se o meu corpo fosse um cadáver e tu tivesses vindo chorar sobre o meu caixão.
Gostaria de contar a nossa história a alguém, gostaria de escrever a nossa história para fazer chorar alguém com ela, de maneira a não me sentir tão só, mas como não serei capaz de a escrever, hei de plantar uma árvore que dure quinhentos anos, e hei de pôr-lhe o teu nome; sempre que o vento passar por entre os seus ramos ficará a saber um pouco de nós.
Já não te amo, Zulmira, mas lembro-me bem de te ter amado, e por baixo das borboletas e dos cardos, trago no peito um grande amor por ti. Um amor que ainda tenho dentro de mim, mas já não sinto, como uma dor de cabeça que deixou de doer por causa do remédio, mas que a gente sente que ainda está lá.
A minha G3 era uma máquina de costura, não era mais do que uma máquina de costura.
O furriel a tirar fotografias àquela desgraça. A cara do enfermeiro Costa desfigurada. Toda a gente aterrorizada. Às vezes penso que tudo aquilo foi um pesadelo que tive. Um pesadelo como os que ainda tenho, onde vejo tudo sempre a repetir-se, mesmo a meio do dia. Mas nunca vejo os rostos nem ouço os gritos. Como não me lembro da mina a explodir.
Depois deu-me uma vontade de destruir. Não era vontade de matar, Zulmira, era uma vontade de destruir. Destruir a guerra, se fosse possível.
O Bento desapareceu. Não morreu, desapareceu. Só encontraram uma bota com um pé lá dentro e um fio de ouro com a Nossa Senhora de Fátima.
- Se Deus existe, anda a gozar connosco. - Disse o furriel.
E eu olhei para o poncho a embrulhar a bota do Bento e depois virei-me prá malta ali à volta e disse que queria ser enterrado na minha terra, como devia ser.
E ele: - Não achas que deves morrer primeiro?
Porque precisava ele de dizer aquelas coisas?
Que se vê naquelas fotos? Floresta, soldados, mortos e feridos. Coisas paradas como se não tivessem alma. Uma foto não apanha o cheiro da minha G3, não apanha a dor, não apanha o último pensamento do soldado que vai morrer.
Em que pensou o Bento, quando estava debruçado sobre a mina como se estivesse a rezar? Que foto pode guardar isso? Será que o furriel vai mostrar essa foto a alguém e depois vai dizer "Este gajo morreu logo", como fazem os caçadores com os troféus de caça?
Depois rebentou a emboscada e eu descarreguei a G3 para o capim. Não sei se matei alguém. Só apertei o gatilho.
Eu disparava a G3, e ela trabalhava afinadinha como uma máquina de costura. Ta-ta-ta-ta. Era tão fácil. Ta-ta-ta-ta. Costurava o medo.
Depois: silêncio. Quando penso nisso, fico com a ideia que desde então não se passou nem se disse nada, só silêncio. Alguns vultos a passar à frente da luz, mas eu encandeado, não distingo mais nada. Não sei se me estou a lembrar da guerra ou do pesadelo da guerra. Há luz a mais, não vejo bem o que se passa. Ficou um vazio cheio de uma luz que cega. E esse vazio tem vozes e gritos tão dolorosos que eu não os ouço. Tem dores e medos tão assustadores que eu não vejo os rostos das pessoas assustadas.
Às vezes eu sei que é um pesadelo, um pesadelo apenas, mas quero acordar e não sou capaz. Quero sair dali, quero vir embora e não é possível; a gente vai à guerra e nunca mais sai de lá. Nunca se regressa de África. Nunca se regressa da guerra, Zulmira.
Que medo é este? Que dor é esta que Deus, por piedade de mim, me impede de conhecer? Sinto que não é um medo meu. Sinto que é o medo de todos os mortos da guerra, todos juntos, a sentirem medo de si próprios.
Só me lembro do furriel a tirar fotos, o Bento ajoelhado, a cara do Costa desfigurada, eu a disparar a minha G3 para o capim, tal e qual a máquina da minha mãe. A costurar o medo. E enquanto disparava não sentia medo, nem raiva, nem nada. Será que morreu alguém por causa disso? Será que matei alguém?
E depois o silêncio. Um silêncio como uma luz que encandeia. É esse silêncio que me mata.
Não matei ninguém, os turras eram fantasmas, estavam lá apenas para nos meterem medo a nós, e nós estávamos lá também só para assustarmos esses fantasmas.
Ta-ta-ta-ta!
Era só a máquina de costura da minha mãe. Ta-ta-ta-ta.
Ninguém morria com uma máquina de costura, pois não mãe?

10.11.11

Encontros e desencontros


Neve
Não hei de amar a neve que há de cair amanhã. Haveria de amar vê-la cair contigo a meu lado. Nada neste mundo é belo ou feio, é apenas mundo. A beleza está em eu poder dizer-te isto enquanto a neve cai.

Janela
Passo à tua porta.
A tua janela entreaberta. A luz coada pela cortina. Entre a janela e a parede um risco nítido de luz. Às vezes, a luz quase se apaga porque a tua sombra se projeta na janela.
Passo à tua porta.
A solidão é uma noite com a tua janela inacessível e a tua sombra nela. Entre essa sombra e eu há um espaço vazio, um infinito sideral, a irreversibilidade de um momento já passado.
Passo à tua porta…
Agora que conheço o teu quarto, a tua janela já não tem mistério nenhum.

Miragem
Não há um tempo para nós. Não há um lugar para nós. Somos duas metades de duas peças diferentes que nenhuma oportunidade unirá. Cada um de nós é o sonho do outro, mas na vigília é que sabemos o quanto dói entender a impossibilidade de ser feliz e ter imaginação.
Mas é por isso que o nosso amor é perfeito. Nada pode pôr fim de facto ao que ainda não começou senão em desejo.
Se nos tivéssemos amado livremente e saciado os nossos corpos famintos, que fome nos restaria para nos continuarmos amando? Que outros caminhos tomaríamos nesta busca incessante pela miragem a que pusemos o nome de felicidade?
Os amores bem sucedidos morrem lentamente, como a tarde morre no crepúsculo, sofrendo em cinzento com a saudade do dia colorido.

Despojos
Sinto claramente que cheguei tarde. Tens um ar de fim de festa, como se já tivesses gasto todo o champanhe e agora estivesses a água mineral para a ressaca.
As tuas palavras são de náufraga e as tuas roupas, pousadas no corpo com negligência, criam em mim a imagem de despojos de uma batalha abandonados à pilhagem.
Tentas um sorriso que morre antes de se ver, e não te ocorre uma única palavra que possa salvar este encontro.
Há, no entanto, nesse teu desalinho, uma poesia crepuscular, uma beleza sobreviva que comove, como o sol em certas tardes dramáticas de outono a oferecer a última reserva de calor.
Sinto claramente que cheguei tarde, ou então, não soubeste esperar por mim.

Bipolaridade
Tudo é uma coisa e o seu contrário. Tudo vale pela sua presença, tanto quanto pela sua ausência. Crescemos sucumbindo ao prazer, mas é superando a dor que somos grandes.
Desgraça e fortuna, amor e ódio, derrota e vitória fazem-nos de igual modo viver intensamente, e, nesse ganho de intensidade, é que crescemos para além da mera cápsula de gozo a que nos reduz a monótona fiada de prazeres que parece ser a promessa de felicidade.
É por isso, percebes? …que distante, estás às vezes mais perto que as pessoas que chocam comigo no passeio.
É por isso, percebes?

Ternura
Ele ajeitou duas farripas de cabelo sobre a calvície, e constatou o insucesso no espelho da pala do carro, enquanto um vulto volumoso de mulher atravessava a rua na sua direção.
Ela olhou de relance a sua própria imagem na parede de vidro do Hotel, conformada com a sua silhueta elefantíaca.
Da esplanada do café alguns olhares medem-lhe o volume do corpo e nem sonham a menina frágil que ali vai. Um coração delicado em busca de um pouco de ternura e prazer.
Ele sai do carro, numa agilidade precária. O coração bate a descompasso, mas não é uma arritmia, é um coração de adolescente antecipando a aventura.
Sorriem.
Que pintor conceberia um quadro onde aqueles dois corpos fossem o símbolo da paixão? E no entanto daqui a pouco, no quarto do hotel, esgrimirão todos os gestos do prazer. Mas depois, exaustos, vão olhar a descompostura dos seus corpos nus sobre a roupa em desalinho, sem o adorno da beleza, e um enjoo tomará conta do resto da tarde.
Ao separarem-se de novo, um relance de ternura promete uma futura redenção do prazer. Mas ela passa junto à parede de vidro do Hotel olhando para o outro lado, e ele recolhe a pala do sol antes de entrar no carro.

Poesia
A minha avó vinha aqui à travessa da rua da loja consultar o Sr. Augusto enfermeiro. O Sr. Augusto enfermeiro era na verdade o médico da aldeia. Eu esperava sentado no chão empedrado da travessa da rua da loja, que fazia as vezes de sala de espera, e achei o livro. Não era grande o livro. Parecia um pequeno taco de madeira suja, de folhas grossas.
"Não faças teu o que não é teu" era o aforismo da minha mãe para que procurasse sempre o dono das coisas que encontrasse e assim perdesse o prazer da descoberta e os favores da fortuna.
Guardei o livro com o gozo de quem lança mão de um furto e todas as noites o olhava secretamente, tentando interpretar as manchas de tinta que sabia chamarem-se letras.
Fui entendendo o que estava escrito à velocidade com que fui aprendendo a ler. Letra a letra, palavra a palavra.
Mas um conjunto de palavras não é um texto, como um conjunto de ramos não é uma árvore. Tem sempre que haver um tronco comum para que as palavras façam sentido. Esse tronco demorou tanto a aparecer que as palavras ficaram soltas na minha memória antes de lhes ter captado o sentido.
As palavras bailavam na minha mente. Não eram uma história, eram um bailado de palavras.
Tenho hoje a certeza: a poesia nasceu em mim, muito antes de eu saber ler.

Vazio
Nunca vi partir um vapor de um cais pela neblina da manhã, onde viajasses, para ir ter com o homem da tua vida enquanto eu ficasse, de cabelo escorrido pela morrinha matinal, olhando as insignificâncias do ancoradouro para não sentir o vácuo que o vapor ia deixando no meu peito, à medida que se afastava.
Nunca vi partir um vapor, porque deixaram de existir antes de eu ter nascido, sinto apenas esta saudade, como se tivesse a memória de ter visto partir um, contigo lá dentro. Partires de uma estação de caminho de ferro no TGV, não seria a mesma coisa; a rapidez tira drama à vida. E até os amores impossíveis precisam de um tempo certo, e, vermos afastar-se um vapor numa manhã de nevoeiro, enquanto a morrinha matinal nos escorra o cabelo, a acentuar o desgosto, é ainda mais doloroso que ver-te partir, porque partires é algo teoricamente reversível; e uma esperança, embora tão ténue e efémera como o fumo do vapor que a morrinha dissolve antes de chegar a mim, ficaria a unir-nos; porém, ver um vapor afastar-se lentamente, quando já não existem a não ser no nosso imaginário, é mais do que doloroso, é simbolicamente doloroso, o que quer dizer que será a conjunção de todas as dores dentro de mim e não apenas a dor de te perder.
A dor de ver-te partir teria ao menos o conforto de ser o reverso de um momento hipoteticamente feliz que, pelo menos na minha memória, ainda persistiria para preencher o vazio que iria crescendo com o tempo e com a distância.
Mas para preencher este vazio não há anverso desta dor, porque não há vapor, nem partida...
Nem tu.

Indignados
Ganhaste direito a escolher, mas não a escolher os que te tiram esse direito; que ao tirarem-to, no-lo tiram a todos. A liberdade é um conceito biunívoco, sistémico e inalienável; quem a use para a destruir perde-lhe o direito, ainda que constitua a maioria.
Chegou a altura de te dizer isto, porque a tua desistência da liberdade começa a ameaçar a nossa.

Metáforas
O que quer que haja de corsa em cada passo que dás, o que quer que haja de gaivota no modo como dizes "Vamos?", o que quer que haja no que quer que seja em ti, não explica nada do que sinto.
Não há uma boa metáfora para o teu encanto.

Milagre
Era de vagar que falávamos:
– Desde quando, mãe?
– Desde que senti o teu coração bater pela primeira vez.
– E como era isso?
– Era um milagre.
– E nunca perdeste a esperança?
– Muita vez.
– E depois?
– E depois a esperança nascia de novo, como quando senti o teu coração pela primeira vez.
(Era de amor que falávamos.)

11.9.11

Crónica de uma operação falhada

Texto de José Raimundo

[...] A manhã estava fresquinha e o orvalho existente na vegetação ia penetrando pelo camuflado, mas o sol começava a raiar tornando aquela caminhada silenciosa em algo surreal, pois ninguém dizia fosse o que fosse, e a coluna movimenta-se como sombras ora mais rápida em campo aberto ora mais lenta em zona densamente arborizada ou com muito capim. Cerca das sete da manhã a coluna parou. Que aconteceu, perguntam lá de trás, nada, responde-se da cabeça da coluna, apenas temos um milheiral pela frente. O Tubarão, elemento que seguia na cabeça da coluna ao sair de uma zona arborizada depa
ra-se com uma plantação de milho de grande extensão e parou. Chamou o Raimundo à frente o qual observou o milheiral que teria forçosamente mais de dois metros de altura e concluiu que o melhor para seguir em frente era atravessar a plantação, solução que foi aprovada pelo Capitão e a marcha seguiu. A companhia esteve toda dentro do milheiral e cerca de 100 homens em fila indiana ainda representam uns bons metros podendo-se aquilatar por aqui a extensão daquela plantação. À medida que iamos avançando no atravessamento do milheiral começamos a distinguir uns sons os quais estavam cada vez mais próximos e que eram nada mais nada menos do que vozes de homens conversando animadamente. Feita a respectiva transmissão para a traseira da coluna, no sentido de haver o máximo cuidado e evitar todo e qualquer barulho fomo-nos aproximando do fim do milheiral. Quando a cabeça da coluna aí chegou, Raimundo e Tubarão pararam, agacharam e mediram a envolvência. A mata desenrolava-se novamente a cerca de cinco-dez metros do fim da plantação do milho, pelo que haveria de se ter o maior cuidado na travessia do campo descoberto. À esquerda do local onde atingimos a orla do milheiral havia uma espécie de banca, com alguma dimensão, repleta de abóboras e outros produtos agrícolas que certamente estavam ali a secar. As vozes ouviam-se mais para a esquerda dessa banca, mas deveriam estar a uma distância relativamente curta tal a nitidez com que se chegavam até nós.
Com o máximo cuidado mas também com a rapidez possível numa situação daquelas embrenhamo-nos na mata tendo toda a coluna feito a transposição sem qualquer problema. As vozes iam agora desaparecendo aos poucos e poucos. E também pouco a pouco a companhia foi avançando na mata rumo ao objectivo. O sol começa a apertar e o ritmo da marcha abrandava um pouco. Perto da oito da manhã chegamos ao local onde em tempos, por altura da operação Nó Górdio, tinha estado estacionada uma bateria de artilharia, pelo que aproveitando o local, foi dada ordem de paragem para descansar. O pessoal espalhou-se pelo terreno, aproveitando os “buracos” dos obuses ou estendendo-se ao longo de um trilho que ali passava, e enquanto uns apenas descansavam outros comiam, outros dormiam ou pelo menos tentavam e outros ainda, escondendo-se nas traseiras de qualquer árvore ou arbusto ali existente satisfaziam as suas necessidades fisiológicas. O local onde tinham estacionado os obuses era, como não podia deixar de ser, uma clareira, onde apenas alguns arbustos e capim tinham crescido naquele espaço, pelo que dada a sua largueza foi aproveitado pelo Capitão e pelos furriéis para fazer uma breve “reunião” tendo em vista o ponto de situação, finda a qual cada um voltou à sua posição.
[...]
Escrito 39 anos depois dos acontecimentos.

Texto de José Raimundo


4.9.11

A Enfermeira que vinha do céu – Final


Custam-me a sair as palavras. Era assim que acontecia sempre que morria um dos nossos. Uma coisa sem sossego no peito e nós todos calados de os olhos postos no chão.
Mas se nos calarmos, que seja por pouco tempo, o minuto cerimonial e mais nada, depois falemos, contemos a toda a gente quem foi a enfermeira paraquedista Piedade Gouveia. Ela merece ser recordada de cabeça levantada e em continência, como só os verdadeiros heróis merecem.
Chamei-lhe "A enfermeira que vinha do céu" e todos os soldados que um dia combateram perceberam logo porquê.
Um dia foi-lhe confiada a minha vida, e na meia hora mais dramática que vivi até hoje, a Piedade cuidou dela com desvelo.
Eram dias dramáticos, tinha-se um sentimento de vida à beira do abismo, de experiência limite, e todos nós, os que combatíamos, obrigados ou não, sentíamos, pelo menos durante algum tempo, que cumpríamos um dever inelutável.
Outros momentos dramáticos se sucederam neste país limítrofe, sempre à beira de um abismo qualquer; mas ser combatente não é só ter capacidade para pegar em armas, e o exemplo das enfermeiras paraquedistas, as únicas mulheres combatentes na guerra colonial, ensina-nos como a coragem para enfrentar o perigo e o medo, e a generosidade e a disponibilidade para com os outros, podem salvar-nos a todos do recorrente abismo. Nós que as conhecemos, não deixemos que os portugueses se esqueçam disso.
Hoje partiu a enfermeira que vinha do céu. Vai só.
O héli que a leva não regressará com ela para nos salvar quando tombarmos de novo. Ficámos mais sós também.

Leia também sobre esta enfermeira paraquedista:

2.9.11

A Mulher na Praia

Texto de José Caseiro

[…]
A notícia de que havia mortos preocupou-me, pelo algo estranho que senti quando os hélis estavam a passar por mim, minutos antes. Tendo um bom relacionamento com o 1º sargento do hospital, na primeira oportunidade que tive fui pedir-lhe que me deixasse ver os nomes dos feridos e dos mortos que tinham dado entrada naquele dia, na esperança de não encontrar lá o nome do meu amigo.
Foi um choque enorme, um nó na garganta, uma raiva. Foram mil e um pensamentos e palavrões que dirigi naquele momento aos autores da morte daquele meu amigo de infância, quando li o seu nome na lista dos mortos.
Pedi para ir ver o corpo mas não foi possível, porque tinha ido para a casa mortuária e esta já se encontrava fechada.
Bastante abalado fui para a flat escrever um aerograma a uma pessoa amiga e vizinha dos pais do falecido, aerograma que levaria, em média, quatro a cinco dias a chegar ao destino, pensando eu, que quando o aerograma chegasse, os pais já eram conhecedores da morte do filho, e aquele aerograma seria a explicação de como aconteceu, o que, segundo a informação que me deram, com a explosão, foi projectado, e ao cair, bateu com a cabeça numa pedra e teve morte imediata. Só que o aerograma chegou no mesmo dia que os dois telegramas que foram enviados aos pais, o primeiro da parte da manhã a dizer que o filho tinha sido gravemente ferido e o segundo da parte da tarde a dizer que não tinha resistido aos ferimentos e tinha falecido.
A pessoa amiga a quem escrevi, quando chegou a casa depois de um dia de trabalho, deparou com os vizinhos aos gritos e com os pais em pranto pela morte do filho, esteve um pouco junto deles e foi depois para casa, onde só então viu na caixa do correio o meu aerograma. Diz-se que as más notícias correm velozes, mas quando chegam todas ao mesmo tempo, fazem pensar que o destino é demasiado cruel.
[...]
Texto de José Caseiro

Leia o texto completo aqui

7.8.11

O Recobro da Primavera



A chuva a atormentar as folhas da laranjeira, e dentro de casa a ideia que o mundo é diferente: um conforto de mantas e escalfetas e a ausência do vento, só a chuva impotente de encontro às vidraças. O Inverno acaba por passar para os corpos. Os pés e as mãos a escaldarem em frente do lume e um frio cá dentro ainda. O rádio a crepitar estalidos com uma música de piano lá no fundo, tão no fundo, que parecem dois mundos também, o dos ruídos e o da música.
A minha mãe de termómetro na mão a ler o tamanho da minha gripe. O meu pai à porta, à espera de ler nos olhos dela o que ela lê no tubinho de vidro. E depois eu a ler nos olhos dele o que ele leu nos dela.
A minha mãe sacode a minha gripe do tubinho. Sacode, sacode e olha desanimada para o meu pai.
– 39!
– 39?!
– 39.
Esta casa é tão alegre quando não chove. Na sala, os retratos de antepassados defuntos não me tiram os olhos de cima, mas quando não chove nascem flores no cachepô da mesa.
Agora a chuva lá fora a criar bolor nas paredes cá dentro, a humidade a desenhar figuras nas paredes.
Olhando de certa maneira:
– Um cão, mãe.
De outra:
– Uma pomba.
– É a febre, meu filho.
Devia faltar pouco para o Carnaval, porque chegada a noite, lá fora, alguém usava um funil de almude como megafone para lançar pulhas ao namorado de uma vizinha, enquanto um coro ao lado uivava a cada provocação:
– É verdade! É verdade!
E na sala, os defuntos pendurados nas paredes sem tirarem os olhos de mim.
Muitos anos mais tarde, haveria de substituir os retratos todos por telas sujas de tinta com títulos inteligentes para serem tomados por obras de arte. E a minha mãe dividida entre a saudade dos olhos dos defuntos e o afeto pelas minhas manchas de tinta.
Mas nessa altura, ainda, os olhos da minha bisavó, pendurada na parede acima da cómoda, a olharem-me pela frincha da porta. E a aflição das folhas da laranjeira. E os dedos esqueléticos da figueira a lutarem com o vento. E o inverno no interior do corpo, embora tanto calor no rosto. E a minha avó a insultar a gripe:
– Aquela cadela que não o larga!
O sono era um delírio com as cores da vigília em negativo. Só que o quarto não tinha paredes e a mesma imagem teimosa a repetir-se vezes sem conta: um rio de tintas escuras e eu a afogar-me, a afogar-me. Depois desapareceu tudo e passou uma eternidade. Ou um instante, tanto faz; quando se perde a noção do tempo, tanto faz.
Acordei.
E quando acordei, a cabeça tão leve, uma dorzinha de fome tão boa, os sons da rua a enfeitarem o silêncio, uma voz que se aproxima lentamente, tão lentamente. Que passa e continua lentamente, tão lentamente.
As pessoas vão-se levantando e os ruídos da casa repentinos, estremunhados.
Alguma coisa mudou no mundo e não foi só a minha febre, a minha dor de cabeça, a preguiça que me dissolvia todos os músculos do corpo. Sinto uma lucidez que me vem de fora. Da luz que altera as cores do quarto, dos sons que parecem decididos.
Tudo parece ter um propósito qualquer.
Havia um ruído indeciso que desapareceu. Havia uma velatura amorfa que se dissolveu. Uma humidade pesada que enxugou, deixando a superfície das coisas nítida e sólida.
Mas a luz ainda húmida.
Um dedo da figueira toca na vidraça um código de morse a anunciar que algo alegre se aproxima.
Não havia mais música que o som da bigorna do Ti Zé e o perfilar das vozes que vinham todas do lugar e se dirigiam todas para o campo. Primeiro só algumas madrugadoras sem pressa, depois em maior número como um coro no compasso certo, e por fim as tardias, que passavam quase a correr. Não havia mais música do que isso, e se houvesse seria de mais, porque uma alegria amanhecia no corpo, uma euforia de festa que entrava com a luz da janela e que tornaria toda a música desnecessária.
A minha mãe à porta num júbilo de puérpera a ver-me despertar. A minha avó arrependida da imprecação da véspera:
– Aquela cadela! Que deus me perdoe.
O meu pai a aliviar da memória o agouro da pneumónica e a lutar com uma lágrima embaraçosa.
Em breve eu livre dos abafos e das portas fechadas. Em breve a corrida por entre as vozes dos meus pares como um coelho entre coelhos, como um pardal entre pardais.
Será que só retive o essencial ou era tudo verde? Recordo quando muito uns pingos de amarelo sobre o trevo, e umas erupções de púrpura na bungavília que enfeitava com as suas flores de papel o muro do Senhor Afonso Bandarra. Ali, eu sabia um ninho de pintassilgo. Sabia eu e o gato da Ti Maria Adôa.
Uma madrugada, os gravetos e a penugem no chão e uma pintassilga quieta num ramo. Uma comoção de pólen no nariz e lágrimas de alergia nos olhos; ou então, eu a entender o júbilo de puérpera da minha mãe.
Nada acontecia de especial em Aguim quando chegava a Primavera. Tirando o arraial do São José. Uma festa meio cristã meio pagã. As bandas a tocarem ao despique e uma parelha de cavadores a desenterrarem a Pedra-da-sesta.
Mas quando a Pedra-da-sesta ficava ali à espera da festa do Castro para ser enterrada de novo e os coretos, desfeitos no chão em despojos de palmas e açucenas, davam a ideia de que se travara ali um combate, regressava o sentimento de que todo o som era quase música, e que mais música seria de mais; a não ser, às vezes em dias muito especiais, quando o Sr. Manuel da Leonarda decidia acompanhar ao violino o concerto do Ti Zé na bigorna.
Nada acontecia de especial porque o Sol fazia a festa sozinho. Que tinha o Sol da minha infância que nunca mais o vi assim? Nascia mesmo por detrás do Monte Grande e já vinha em festa, e punha-se ainda alegre atrás da torre da capela.
À noite apetecia dormir e de manhã apetecia acordar. Tudo estava certo na Primavera.
Na verdade, tudo me parece ter estado certo nesse tempo. É costume, quando se olha o que já aconteceu, porque as coisas más já não podem fazer-nos mal; como quando olhamos pelo retrovisor desvalorizando as derrapagens perigosas que fizemos e amando já a estrada percorrida.
E nesta viagem em que parei algumas vezes para corporizar esse amor, as cidades foram as minhas verdadeiras amantes: Coimbra, a mulher tricana de todos os meus dias. Lisboa, a promíscua, tão fiel de dia e tão infiel de noite. Hamburgo, a altiva, com as suas cicatrizes de guerra a ensinar-me que há vida depois da morte. Mueda, a grande prostituta, onde desci ao mais baixo patamar da humanidade, que me levou quase tudo e que apesar disso me deixou, não sei em que parte de mim, um amor fatal e doloroso. E Aguim. Aguim trigueira, tisnada do sol, elevada sobre uma colina para parecer mais alta, onde tudo o que há em mim nasceu.
Nasceram as palavras na sua pronúncia um tanto abrupta no início das frases e cantada nas vogais finais, e, onde não havia vogais, a acrescentar um i.
Nasceu a música. O violino velho do meu pai de onde só saía o som dorido da única corda sobreviva, e o milagre da metamorfose do ruído em música, quando em dias especiais o violino do Sr. Manuel da Leonarda transformava a bigorna do Ti Zé Sécio no mais glorioso timbale que se pode conceber.
Nasceu esta minha fidelidade de rafeiro doméstico pelos meus amigos, que julgava tão poucos, e afinal muitos; tanto que, vão morrendo já e continuam meus amigos.
E nasceu esta minha paixão de gato vadio pelos becos e pelos telhados, pela tessitura prolixa das cidades e pelo deslumbramento da Natureza; tanto quanto me lembro, desde que via o Sol a erguer-se por detrás do Monte Grande já em festa e ainda convalescente do Inverno.


8.7.11

Diário inconstante – 2011



Janeiro, 6

Da fundura do tempo a memória do Dia de Reis, na época em que me cabia a tarefa de desmanchar o presépio. O presépio era uma versão íntima de uma cascata S. Joanina, e o Menino Jesus ainda não tinha envelhecido ao ponto de parecer um pantomineiro de feira com a sua cara de bêbado e barbas de franja de reposteiro, e para cúmulo do mau gosto, envergando um pijama garrido oferecido pela Coca-Cola.
Um dia, lá em casa, por alturas do início da minha escola primária, substituímos as figuras da Natividade por um profano píncaro de pinheiro, esgrouviado e meio torto, enfeitado com neve de algodão e uns penduricalhos de plástico, e rendemo-nos modestamente ao consumismo capitalista. E o Menino Jesus envelheceu subitamente e tornou-se no Pai Natal, com aquela cara de avô gaiteiro. Que mão é esta que reduz todas as coisas que nos enfeitam a vida a objetos sem alma?

Fevereiro, 6
– Os soldados, os homens que um dia combaterem, têm dias assim, em que ficam de olhos parados procurando a distância…
– Vocês fazem isso por terem saudade dos combates?
– Não minha filha, os combatentes não têm saudade dos combates, têm saudade de si mesmos enquanto combatiam.
– Então não deviam procurar a distância com o olhar, deviam procurar dentro de si.

Fevereiro, 10
Há anos que não vinha aqui. Parei o carro e subi a vereda do Monte Grande. Tudo parece pequeno, como acontece com as árvores de Natal: nós crescemos e elas ficaram com o tamanho da infância.
Caminho, ouvindo as pedras a gemerem debaixo dos ténis. Conheço esta música. Sorrio, porque não tenho medo agora.
No outono de 74 vim aqui um dia só para cheirar a urze, ouvir o sussurro do pinhal e fumar um cigarro, e entrei em pânico. As pedras a gemerem debaixo dos pés, e eu ali num trilho deserto, sem arma, sem companhia.
O chão era o nosso inimigo e as picadas de Cabo Delgado traiçoeiras. Não se pode lutar contra o chão, cada passo era um ato heroico de sobrevivência.
Levei anos a reconciliar-me com os caminhos e as veredas.
Só de longe em longe, quando me apanha distraído, ainda a visão das goelas carnívoras da Terra abocanhando-me uma perna.

Março, 8
Os dedos que o cigarro alonga. Uma história que deve vir de tão longe, e de há tanto tempo que são mais as fantasias que as memórias. Uma história que passa por aquela mesa da pastelaria da Avenida e vai continuar até a vida ser um cansaço insuportável.
Um fio de fumo soprado quase na vertical e uma perna esticada devagar, numa provocação um pouco menos que elegante, atraindo os olhares dos homens.
Os olhares dos homens fazem parte da sua forma de vida.
Um dedo negligente no bordo do copo dá a impressão que o resto está ausente: corpo e mente. E um olhar de loba sobre o rebanho. Uma loba olhando os cabritos como se avaliasse o valor nutritivo de cada um deles.
Quando o olhar passou por mim, senti-me reduzido a um almoço.

Março, 28
– As fotos são momentos que ficam presos no papel para sempre. Uma ínfima parte da vida de uma pessoa a desafiar a eternidade…
– Mas nessa foto não se vê ninguém, para que serve então?
– Serve, minha filha, para lembrar o local onde morreram soldados numa guerra.
– É um local triste, achas que ficou assim por causa dos soldados que morreram?
– Não é o que acontece num local que o torna triste, minha filha, é a tristeza que fica em nós que nos faz vê-lo assim.
– Então não devias tirar fotos a lugares onde morreram soldados.

Abril, 13
Paúl de Santa Cristina. A serra sobranceira torna a aldeia mais pequena. Ali há uma casa que tem uma nesga de terreno a servir de pátio. Ao canto do pátio um limonete encosta-se à parede da casa e lança pela janela de um quarto o seu perfume eternamente fresco.
Ninguém vive há muitos anos nessa casa, ninguém dorme já naquele quarto. Será que ainda lá está sobre a cama o colchão de farpelas de milho e a travesseira de sumaúma?
Acordar com o suavíssimo cheiro a erva seca da sumaúma, o odor intenso a aparas de madeira das farpelas de milho e o perfume cítrico do limonete e ter pela frente as Férias Grandes, convidava a não fazer nada.
Pobres dos que nunca aprenderam a amar a vida por terem sempre que fazer.

Abril, 18
Era mais ou menos aqui que estava a bomba do arco de ferro. O corpo cilíndrico da cobertura do poço escondia um mundo misterioso e subterrâneo. Ainda se sente a calma das tardes de verão, em que a vida à superfície do mundo, na sua aparente inconsequência, de vez em quando alterava levemente a substância das coisas. Tenho a certeza que a luz era mais doce. Tenho a certeza que o relógio do tempo tinha outros vagares. Tenho a certeza que se vivia mais; não porque os anos fossem mais numerosos, mas porque os segundos eram mais longos, muito mais longos.
O Tempo anda à velocidade por que passamos pelas coisas, e, no tempo em que havia aqui uma bomba de arco de ferro, eu não passava; vivia aqui.

Junho, 4
– Não há a menor equidade neste mundo, por isso é que as desgraças não estão melhor distribuídas.
– Mas nós já tivemos bem a nossa conta, Manel. Dizias tu, parecendo não te conformar com a teoria.
E eu sempre pessimista: – Quando ultrapassamos uma desgraça o contador volta ao zero e tudo começa de novo, sem respeito nenhum pela equidade.
Depois olhámos meio pasmados o casario, naquela arquitetura de mau gosto da Solum e ficamos ambos com pena de eu ter razão.
Finalmente remataste com aquele teu jeito impaciente: – Pois, anda!
Agora veio a notícia. Como o som sinistro de uma mina antipessoal. Ouvi a notícia e baixei-me um pouco como quando isso acontecia na guerra e um dos nossos era ferido.
Passado o choque inicial a que a razão recusa habituar-se, ficou a sensação de que algo ficou a meio, uma conversa adiada, um lugar vazio à mesa. Porque me lembro só de coisas insignificantes? Parte um amigo e só me ocorre que me esqueci de lhe contar a última anedota, que lhe fiquei a dever um almoço. Deve ser o sentimento que me ficou do tempo da guerra, de quando os amigos me eram tirados a meio de uma conversa. Mas nessa altura não havia tempo para o luto, a guerra não respeita sobretudo os que caem. E a esta enorme distância dá a impressão que todos fomos abatidos na guerra, todos morremos um pouco. Mas a verdade, Padilha, é que nós sobrevivemos para podermos ser vítimas de novo, para morrermos de novo.
– Também ganhámos alguma coisa na guerra. Dizias tu, com o teu otimismo teimoso.
Eu torcia o nariz sem argumentos. Hoje reconheço: pelo menos tu ganhaste. Ganhaste esse aprumo e essa dignidade genuínas, que eu sempre achei falsas na tropa. Ganhaste uma verticalidade que na tropa é apenas arrogância. Mas sobretudo aprendeste, por contraste, a ser feliz na vida e a partilhar essa felicidade com aqueles de quem gostas.
Gostaria de te dizer como Cantanhede saiu à rua para te acompanhar, como foram solenes as honras militares que te prestaram, como a tua mulher estava digna, como as tuas filhas são corajosas, como a tua neta estava linda. Devias ter visto, ias gostar!
Não devia recusar-se uma última visão das coisas a que um homem dá valor.
Que pena, Padilha, tinha uma anedota porreira para te contar. Agora fiquei com ela atravessada aqui na garganta e parece-me estúpida.
Se calhar tens razão. Se calhar já tivemos a nossa conta. Se houvesse compaixão neste mundo uma desgraça por pessoa já bastava.

Junho, 6
Na estrada de Vale-de-Cide, daquele lado, onde o muro do arvoredo criava uma cabeceira em que apetecia encostar a cabeça para dormir a sesta, havia um pó finíssimo, sobre o qual os camponeses deixavam uma nítida impressão plantar a cada passada.
Nessa altura homem e planeta eram uma comunhão. No meu egoísmo bucólico ignoro toda a dor precisa para imprimir cada uma daquelas pegadas na poeira da estrada morna, como borralha aquecida na fornalha do Sol.
Hoje ninguém passa a pé naquela estrada com o peso de um dia de lavoura às costas, e sobre o alcatrão não há uma só marca humana.
Há de haver uma forma de sermos felizes sem desumanizarmos o mundo.

Junho, 7
– Onde caíram os soldados, onde tombaram, onde o seu sangue tornou a terra vermelha, nascem às vezes flores…
– Então porque não há aqui flores? Ninguém amava os soldados que morreram?
– Não é por falta de amor que as flores não nascem, minha filha, é por não ser primavera.
– E porque nascem os soldados, por ser inverno?
– Não minha filha, os soldados nascem todo o ano, por falta de amor.
– Então porque não nascem flores todo o ano em vez de soldados?

26.6.11

Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial


Organizada por
Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi
Publicada pelas Edições Afrontamento

Enquadramento da obra
Entre 1961-1974 Portugal manteve com as suas então colónias de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau uma guerra, mobilizando perto de um milhão de homens e tocando praticamente todas as famílias portuguesas. A experiência da participação portuguesa neste evento de indefinida colocação historiográfica, quer pela denegação que oficialmente o caracterizou, quer pela radical reformulação geopolítica do país que a partir dele se engendrou com a descolonização, tornou este acontecimento um dos mais complexos, mas também um dos mais trágicos eventos da contemporaneidade portuguesa.

A experiência colectiva e individual da participação dos portugueses neste evento teve, e continua a ter, o seu registo de expressão narrativa e crítica, e o seu registo estético nas mais variadas formas de arte – da pintura e escultura à narrativa, do cinema ao teatro, da música à poesia. Foi sem dúvida na literatura que este registo de reelaboração colectiva e individual do evento se tornou mais marcante, dando origem a cerca de uma centena de romances e a milhares de poemas. Esta poesia, de autores directa ou indirectamente envolvidos na guerra, e elaborada, ou no momento da vivência do evento bélico, ou em seguida, enquanto espaço de memória e de elaboração pós-traumática, foi objecto de estudo do projecto Poesia da Guerra Colonial: “ontologia” de um eu estilhaçado, que decorreu nos últimos anos no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, sob orientaçao científica dos dois organizadores da presente antologia e o financiamento da Fundação da Ciência e Tecnologia. A Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial é o resultado visível deste projecto, reunindo mais de centenas de poemas de cento e oitenta poetas.
... incluindo o autor deste blog, com dois poemas: O Cacimbo e Nunca Voltarei a Mueda

14.6.11

Estupidário II


Telemóvel

Um casal passa por mim. Ambos falando ao telemóvel. Falam, ela apreensiva e comedida, ele autoritário e exuberante. Fazem sinais para comunicarem entre si. Ele aponta o relógio de pulso a dizer que já é tarde, ela bate levemente no telemóvel e abre a mão em sinal de impotência. Ele estica o queixo em direção ao telemóvel dela a perguntar quem é, e ela abre a mão na direção dele a pedir que espere. E falam sempre para os seus contactos; ele autoritário, ela comedida. Passam por mim e dirigem-se para o parque de estacionamento. Antes de entrarem, cada um em seu carro, ele ainda aponta o indicador para ela e depois estica o polegar e o mínimo como se medisse a distância entre o ouvido e a boca, a pedir-lhe que lhe telefone mais tarde, e ela levanta o polegar a concordar.

Seguem cada um para seu lado, com a certeza que estarão sempre em contacto, porque é facílimo falar com as pessoas ausentes.

Quando terão tempo para sentir o tempo compartilhado como a água quieta de uma lagoa, e as palavras trocadas com todas as frequências da voz humana?

Alguém lhes diga que a voz humana não cabe na largura de banda de um telemóvel. Que a frequência que não se ouve e cria a ereção de todos os pelos do corpo precisa da intimidade sem intermediação; que o que a boca não diz e os olhos mostram se percebe apenas por uma diferença de estado de alma; que há coisas que se têm de dizer com o corpo todo e que precisam do corpo todo para ser entendidas.

Que alguém lhes diga que há um tempo para isso, e que depois esse tempo passa e fica um vazio que levamos para todo o lado; uma viuvez sem o conforto da saudade.


Chaves

Sabia exatamente onde guardavas as chaves: saías, fechavas a porta, mexias no tapete com uma mão só para enganar, e com a outra deixavas cair a chave num vaso. Será que suspeitavas que eu te espiava? Fazias isso tão distraída que a mão que se via melhor era a que levava a chave. Será que era uma precaução extra despida de qualquer critério?

Apetecia-me ir lá, pegar a chave, devassar a tua intimidade, deixar pegadas por todo o lado e depois deixar a chave debaixo do tapete. Irritam-me as diligências inúteis.

Hoje vi-te passar, ainda és bonita. Entras no carro, observas o bilhete do estacionamento, conferes no relógio que ultrapassaste o tempo pago, vais repor a diferença no parquímetro e depois vais embora deixando o estacionamento pago para ninguém.

Fico a ver-te ir embora, com a certeza de que te espiava no passado apenas com a curiosidade com que se olha um macaco numa jaula.


Chato

Tomo a minha bica tentando fingir que presto atenção ao que o meu interlocutor diz. Fala comigo de política, invariavelmente com um tom pedagógico, como se algures no seu passado lhe tivessem atribuído a incumbência de me converter a um credo estranho, usando uma língua que nenhum de nós fala. O mínimo que posso dizer dele é que é um chato.

Quando tem oportunidade de projetar a voz para um número de vítimas que se assemelhe a uma assembleia, é que ele dá largas ao seu gosto doentio pelo discurso inflamado – no registo da cólera; na aceção que se usa para designar de "bebés coléricos" os recém-nascidos insaciáveis de mimo e que levam por vezes os pais ao suicídio.

O seu conceito de progresso que, como uma interminável epifania, tomou conta de toda a sua atividade intelectual pela vida fora, é uma confusão mental que nunca o deixou viver tranquilo. E a aridez dos seus ideais alimentou-se dessa truculência verbal, sem que ele nunca tenha sentido a necessidade de maiores explicações do que a redução do raciocínio à negação primária.

Como se a capacidade de dizer não a torto e a direito, acusando ao mesmo tempo os nossos pares de todas as infâmias, exigisse alguma coragem, ainda que mínima, sobretudo quando sabemos de antemão que podemos contar com a compaixão daqueles que afrontamos.

É óbvio que confunde coragem com desfaçatez; a coragem leva um homem a correr riscos e a aceitar a consequência dos seus atos, a desfaçatez é a pulhice que pode levar um homem a matar pai e mãe, e depois a comparecer em frente do juiz reclamando despudoradamente clemência por ser um pobre orfãozinho abandonado.

É sempre possível dizer tudo de todas as coisas; é sempre possível pôr em palavras o que não realizámos em atos; é sempre possível sentirmo-nos felizes com o que podia ter acontecido se tivéssemos tido a coragem de termos sido, de facto, o que apenas fomos em discurso. E é possível contar com a distração dos outros, de modo a convencê-los por via do sentimentalismo.

Se se der o improvável acaso de leres estas palavras, deixa-me usar a tua argumentação preferida:

– Não!

Não, não basta de vez em quando subires ao púlpito da tua presunção lançando pulhas sobre os que trabalham para ti, na vil ilusão de poderes desculpar a tua indigência, como fazes com a poeira filosófica do teu discurso político, esse patchwork de citações mal assimiladas, para encobrir o vazio que te vai cabeça.


Orgasmo

Ela quer ser feliz, ele quer sexo. Dos dois, só ele vai sentir-se realizado, porque o sexo é uma coisa que toda a gente sabe o que é, a felicidade não.

Ele adormece depois do orgasmo porque se sente farto, ela fica acordada porque apenas teve prazer e não sabe se era isto que queria.

A felicidade é sempre algo que desconhecemos, algo que fica sempre um passo além do horizonte alcançável. Felizmente que nunca a encontramos, para que valha a pena ficarmos acordados a perguntar se era isto que queríamos. Nunca passará de uma lúcida dúvida pós orgástica enquanto ao nosso lado alguém mais estúpido adormece satisfeito.


Bestialidade

E no Palácio soaram de novo as nossas vozes. O nosso castelo – disse o Maia. Para ali, cobardemente, nos apontou as armas o Jaime, ou lá quem era ele; mais uma corja de escravos domesticados, fazendo instantaneamente de nós heróis.

É esse o destino destes robertos caceteiros na sua pantomima patética de feira – matraquilhos fardados, teimosos bonecos de corda com alma de trapos, rancorosos derrotados dos verdadeiros combates, desertores de todas as nobres causas da vida, fraca imitação de gente, arreganhando a dentuça de rafeiros, a mostrarem a sanha por nos julgarem indefesos – é esse o seu destino: fazerem-nos sentir a que enorme altura a sublime humanidade nos eleva, muito, muito acima da sua torpe bestialidade.


Explosão

O cabo Bento era um vulto verde-sujo lá à frente. Um joelho no chão e dobrado sobre si, como um crente em oração. Olhou a mina anticarro por um instante antes de se mexer. O coração dele acelerou e as mãos abrandaram. Cada segundo continha um dia de vida, cada pequeno gesto consumia a atividade mental de uma obra ciclópica.

Não esperávamos ouvir aquela explosão, que aconteceu?

Nunca entendemos o que aconteceu quando morre um dos nossos.

Ficámos a olhar o lugar onde o cabo Bento devia estar, até a poeira assentar e ficar visível na picada, o buraco negro da sua ausência, marcando o nível zero da compaixão divina.


Fealdade

Na homenagem a Otelo ouve-se de repente alguém dizer de si próprio e da sua participação na Guerra Colonial: "Eu era da secreta", e depois com a voz embargada pela autocomiseração perguntar ao herói de abril qualquer coisa sobre o financiamento dos terroristas. Não param de me surpreender estes zombies erguidos do túmulo fascista para emporcalhar com o seu insuportável fedor os atos democráticos de gente asseada.

Está bem, deixemo-los usar a liberdade que nos negaram, porque lhes somos superiores, mas não podíamos ao menos oferecer-lhes um espelho para que morressem de nojo com a sua letal fealdade?


Troika

O que foi que nos escapou? Não estava previsto tudo isto? Não ouvimos nunca dizer que isto ia acontecer?

Mas os previsores económicos e os analistas políticos, cuja profissão é fabricarem as nossas opiniões, não continuam no seu poleiro mediático como se a crise não tivesse vindo provar que não nos servem para nada?

Enquanto nos preparam para pagar as dívidas que foram avalizadas pela sua incompetência, lá continuam eles cheios de cisma com o seu ar didático a explicarem-nos agora o que uma minoria de entre nós já assegurava antes, seguros de que lhes daremos novamente atenção e crédito, porque contam com a nossa comprovada estupidez.

Se tivéssemos alguma inteligência, deveríamos mandá-los todos para o desemprego.

E os nossos responsáveis políticos? E os nossos agentes económicos? Que deveríamos fazer com eles?

Garanto-vos que não iremos fazer nada, porque o mal dos nossos políticos e capitalistas não é serem políticos e capitalistas nem mentirosos e ladrões, é serem ainda mais incompetentes e estúpidos do que nós.

Felizmente que há sempre uma troika que vem ensiná-los a mentirem-nos e a roubarem-nos com competência e inteligência, poupando-nos à humilhação de aceitarmos o castigo por cobardia.

Uff! Que alívio! Já podemos fingir que está tudo bem sem nos sentirmos ofendidos no nosso amor-próprio.

14.5.11

Volúpia dos cinco sentidos




Olfato
Não há uma palavra para o odor do teu corpo; não o teu perfume feito de modulações complexas como uma sinfonia de aldeídos florais, mas o odor do teu corpo por debaixo do teu perfume, com este vestindo-o, cobrindo-o, mas não completamente; deixando à transparência, que a nudez desse odor fresco, fresco mas não por uma questão de temperatura, antes por uma questão de viço, consiga perceber-se, embora apenas levemente, como a nudez de um corpo sob uma túnica de seda fina, ou como uma música que se ouvisse por conseguir atravessar o manto esparso, composto pela tessitura dos ruídos da rua, e viesse despertar em mim a sensação de que o dia voltou a amanhecer, e que algo de inesperado, como uma notícia há muito aguardada e já esquecida de todo, acabasse de ser anunciada, de tal modo, que despertasse em mim esta alegria infantil, e tão inocente que me apetece seguir-te por entre os cheiros dissonantes que emanam das casas e as fragrâncias harmoniosas que se soltam das flores, com o propósito de partilhar essa alegria contigo, só porque sinto que o teu odor é irmão do meu; irmão não: parceiro; algo que me falta e que sobra em ti, ou algo que em mim é convexo e é em ti côncavo, assim como duas mãos que se entrelaçam, como se dançassem, não que alguma vez tivéssemos dançado, não; mas o teu odor parece ter notas musicais que fazem balançar algo em mim, e no entanto há um silêncio no teu odor que me tira a lucidez e me atrai, como o abismo atrai o suicida, como a luz atrai o inseto; porém, agora que falo nisso, se o teu odor tem luz, é aquela luz irreal que existe nas praias frias do Norte, uma luz que não faz sombra, e onde as pessoas, ao imergirem da água, parecem só alma, mal interrompendo a bruma do mar, como o teu odor mal interrompe a torrente de cheiros da rua; mas está presente, ou antes: flui, e isso dá-me uma esperança infinita, como o caminho dá esperança ao caminheiro errante, quando, depois de cansado da lonjura, sente que chegou a hora de regressar a casa, porque nele se fará a viagem de regresso, como pelo teu odor se pode fazer a viagem para ti, sobretudo quando o banho ao fim do dia te despe do teu perfume e te deixa só com o teu odor, um odor que o banho não consegue tirar totalmente, apenas suaviza, deixando-te mais exposta aos meus sentidos; mal comparando, como se sobre ti apenas pousasse um desejo, e esse desejo é feito desse teu odor sem nome, esse odor que te aumenta a nudez, como uma praia matinal na maré-baixa, à mercê do vento, parece mais desamparada, sobretudo, se ainda emana da areia, quase impercetível, o hálito fresco do mar.

Visão
Falavas, e a bem dizer eu não te ouvia, distraído pelos movimentos dos teus lábios e pela forma como sobre a fronte uma pregazinha de pele franzia e alisava, alisava e franzia; para além de estar intrigado pela humidade que se formava junto às têmporas, a fazer adivinhar que se formariam ali, muito em breve, algumas gotículas de suor que tornariam o teu rosto ainda mais sensual; porém, eram os teus lábios que me atraiam mais; embora me surpreendesse que os teus olhos parecessem mais claros agora sob o efeito da luz, assim, entre a cor de avelã e o pistáchio, isto é, um castanho que de tão doce ameaçava esverdear um pouco, a sugerir a tua remota origem celta, ou quem sabe a querer denunciar algum invasor napoleónico que tivesse impregnado a paleta dos teus genes quando se aboletou na casa de alguma distante trisavó tua durante a guerra peninsular, porque mais nenhuma feição nórdica se vislumbra nos teus traços gerais, a não ser talvez na tua tês demasiadamente clara, já que em tudo o mais são predominantes as características trigueiras dos povos mediterrânicos; e daí, talvez nem seja tanto assim, porque há qualquer coisa de oriental no amendoado dos teus olhos que agora me encararam mais, ao mesmo tempo que o teu rosto ganhou uma iridescência de malmequer em que tivesse incidido um raio de luz do sol, talvez porque eu tenha respondido a alguma pergunta tua com um disparate qualquer, por não ter prestado atenção ao que dizias, embevecido que estou pelo encanto do teu rosto, e agora ainda mais, que se acendeu essa luz nele, ao sorrires; que persiste, dado o meu embaraço ao constatar que não prestava atenção ao que dizias, porque estava lendo cada gesto teu, todas as cambiantes da luz nos teus olhos e a mínima mudança de volume sob a pele do teu colo, onde as carótidas pulsam a um ritmo cada vez mais acelerado, levando-me a pensar que o teu ritmo cardíaco aumentou por teres adivinhado que o meu também aumentara, só de nos olharmos um ao outro; o desejo mise en abîme, como dois espelhos frente a frente, que se multiplicam reciprocamente, ao infinito.

Audição
A tua voz à beira-sonho afaga-me, e embala-me, à medida que os meus olhos adormecem, enquanto a mente ainda lúcida apenas se solta um pouco do corpo e se liberta; um tudo-nada como o riso liberta a alma, e nem a censura do bom senso segura a imaginação, de tal maneira, que parece que estou em queda livre por dentro da tua voz; como se houvesse abismos e tentações em cada palavra, que tivessem o sortilégio de redimir em vez de condenar, fosse qual fosse o credo, fosse qual fosse o deus; isto é, ouço a tua voz quando estou neste meio transe, e não há perdões impossíveis: mouros e cruzados ajoelhados numa expiação de todos os crimes mutuamente cometidos ao longo dos séculos, numa comunhão ecuménica que convocasse todo o perdão, mas tudo por dentro da tua voz, tudo a viajar no som das tuas palavras, que chega até bem dentro de mim; não apenas como ondas acústicas, mas como uma vibração da alma, em todas as frequências possíveis, desde a ternura até ao gozo, desde o júbilo até à mágoa, mas tudo de uma forma serena, mais serena ainda que uma asa de ave na noite calma, riscando a pele virgem de um lago sob o rosto complacente da lua, e tudo na tua voz; tal como o apelo do mar, misterioso e antiquíssimo, desde os nossos egrégios avós, aumentando o conceito do longe e da aventura e a ânsia louca de chegar, de chegar seja onde for, só pelo prazer de chegar a algum lado, e tudo na tua voz; na tua voz como numa viagem, onde imagino navegantes seguindo as estrelas, pela noite do desconhecido; na tua voz como numa partida onde eu, perdido numa praia deserta, ouvisse o orgasmo do mar e ardesse com o ciúme de ver partir as caravelas, enquanto ficasse para trás, longe da ação e da aventura, triste e só, masturbando-me ao luar; e tudo, tudo, na tua voz.

Tato
Conheço-te melhor desde o dia em que o teu braço roçou no meu, nem sei se roçou, mas imaginei que sim, pelo menos eu senti uma pequena corrente elétrica subindo até algures na coluna cervical; sim, logo abaixo da nuca, onde ainda hoje sinto prazer quando me tocas, embora depois percorra todo o corpo, mas é dali que emana, especialmente, se não estou a contar que uma mão tua me procure imitando uma gaivota pousando numa arriba como prenúncio de mar bravo, quando ainda a água está calma e os pensamentos distraídos não passam de albatrozes sentados no vento, e é aí que subitamente tudo se agita, porque as tempestades começam quando essa primeira gaivota poisa em terra, quando ainda ninguém espera que o dia se embrulhe todo como um turbilhão de corpos em luta, tal e qual como acaba por acontecer connosco algum tempo depois de nos tocarmos, e depois que um pequeno choque elétrico liga não sei que interruptor logo aqui abaixo da nuca, o que é estranho, porque quando sou eu a procurar a superfície da tua pele, tudo parece tão lúcido em mim, tão lúcido que cada milímetro quadrado é um continente inexplorado, tão lúcido que sinto os teus poros na polpa dos dedos ao percorrer os vãos e desvãos do teu corpo, mal te tocando, não te tocando mesmo, apenas cada mão minha imitando uma ave de rapina em voo rasante sobre a pradaria, não sentindo tu nada, senão por um movimento no ar, senão por uma diferença de temperatura; nem tanto: apenas por uma troca subtil de eletrões entre a minha pele e a tua; ou menos ainda: só pela atração universal da matéria, tão impercetível que nem dá para acreditar que arquitete o Universo todo, e a nós faça com que, perdidos no vácuo cósmico deste quarto, sintamos a gravidade da Terra em cada dedo; de tal forma, que todos os frutos já maduros do teu corpo anseiem por ser colhidos, e a minha fome de tocá-los, não ainda de colhe-los ou de comê-los, mas apenas de tocá-los, crie este magnetismo entre fome e fruto, o que me convence que nós somos um todo, apenas aguardado a conjunção dos nossos corpos, enquanto desde o interior de cada um de nós cresce esta vontade incontrolável de contacto, em mim de dentro para fora, e em ti de fora para dentro, como um vórtice que ora gira para um lado ora para o outro, conforme se encontre de um ou de outro lado do equador, e se alimenta a si próprio até todas as forças eólicas se equilibrarem, mas antes há a tempestade, antes há a agitação, e ainda antes de tudo isso há o toque quase inadvertido do teu braço no meu que desperta em mim a certeza de te conhecer desde sempre, e aciona a ignição de todo o desejo.

Paladar
Acordei na tua boca como fruto intumescido e ardente.
Eu indefeso, tu felina devorando a minha carne eminente.
Tanto prazer até dói.
A tua alma girou dentro do teu corpo como se a Terra invertesse a polaridade.
Neste beijo excêntrico, o que em ti é sul, é norte em mim, cumprindo a lei da atração dos contrários.
Flor carnívora, que esmagas em mim a corola rubra do teu corpo, a que me sabes tu?
Ostra ou açafrão?
E a que te saibo eu?
Jasmim ou maçapão?
Tu em equilíbrios de fogo e gelo. Eu tentando suster a espiral de uma galáxia.
De um lado desfaleces desfolhada, do outro espirro desfeito.
Acabamos, tu pétala a pétala sob o meu rosto, eu gota a gota no teu peito.

(Segundo a nova ortografia)

11.4.11

O Deslumbramento do inverno



O cavaco de cerne fumarento preso na pinça da candeia de lata nunca deixava a Ti Maria Adôa às escuras.
As sombras assombrando as paredes.
A imagem de uma família humilde a comer as batatas da ceia sentada na minha memória para sempre. Um dia reconheci-a num quadro de Van Gogh.
Em minha casa a luz elétrica faltava sempre quando era mais precisa. Virá ainda hoje? Não virá? A incerteza à luz de uma vela é sempre mais vacilante, e as sombras do cavaco de cerne a mudarem-se para as paredes da minha cozinha.
Se não chovesse eu dava uma corrida até ao Rebelho para ver o Ti Zé Quiaios a manejar os fusíveis da cabine elétrica como um organista a puxar os registos de um órgão de igreja. O Ti Zé Quiaios era quase cego, com os olhos dilatados pelas lentes de cu de garrafa, mas as suas mãos tinham uma precisão de milímetros. Ou era ele que conhecia a cabine elétrica, ou então era a cabine que o conhecia a ele.
– Ai no auguentas? Espera aí que já cospes!
A ferramenta e a mão, o nervo e a eletricidade, a cegueira e a luz. Tudo tão irmanado. Tão afeiçoados um ao outro homem e máquina. E Aguim iluminava-se por fases e apagava-se por fases, e os fusíveis a estourarem, e o Ti Zé Quiaios a reforçar os bornes. Uma luta; não uma luta: um jogo. Um jogo não: um namoro, uma sedução mútua entre a tecnologia e a humanidade; porque nesse tempo a tecnologia casava com a humanidade.
Quando Aguim finalmente ganhava a cintilação dos presépios, o Ti Zé Quiaios regressava a casa dele vitorioso, e eu à minha deslumbrado.
Os invernos eram eternos. E dava a ideia que começavam sempre antes do tempo. Eternos, porque quando ainda não conhecemos suficientemente o presente, ele parece não ter fim; a eternidade é apenas a ignorância dos limites. Habituámo-nos ao verão e de repente o tempo a tomar balanço no outono para a chuva nos apanhar desprevenidos.
– Podia esperar que apanhássemos os cachos da Casqueira.
O meu avô e o clima poucas vezes estavam de acordo, mas o meu avô já sabia de mais para se deixar surpreender; só os inocentes têm esse privilégio.
O inverno, na verdade, começava muitas vezes a meio do outono, como a morte começa a meio da vida. Quando começamos a morrer? Sei lá! Mas há sempre uma primeira chuvada que nos estraga a vindima, uma chuvada que nos apanha sempre desprevenidos. Acho que era por isso que o meu avô não gostava do inverno.
Vista do alpendre do pátio a vida na rua era um filme.
O Ti F'lipe batendo com um maço na madeira e transformando uma molhada de aduelas numa pipa de vinho. O novo aprendiz de pé sobre um dos tampos a segurar as aduelas pelo interior como uma margarida de pétalas abertas, enquanto por fora o Ti F'lipe as ia fechando. Quando a margarida se fechava, nascia uma tulipa de madeira que surpreendia o aprendiz, preso lá dentro aos berros.
O Ti Zé Sécio com uma enorme tenaz encaixava um aro em brasa numa roda de um carro de bois. Batia-lhe com o malho à vez com dois ajudantes. O fogo a dilatar o ferro, os malhos a domá-lo e a água a contraí-lo em torno da roda; tudo envolto em fumo, vapor e algazarra.
O Ti Antóino Mateus dedilhando os vimes como um tocador de harpa, e quem havia de dizer que aquela harpa de vimes ia acabar num poceiro para a vindima!
Tudo tão vivo, tudo tão animado. Uma coreografia que olhada assim de perto parecia não ter outro propósito que deslumbrar o meu olhar. Mas olhando de perto nunca se percebe bem o propósito da vida; só muitos anos mais tarde percebi tudo numa ópera de Verdi.
No enquadramento do portão, Aguim desfilava num traveling rápido, com uma banda sonora ao vivo. O Ti Zé Sécio ferreiro nos metais, do Ti F'lipe tanoeiro nas madeiras e o Ti Antóino Mateus cesteiro nas cordas. E a voz de falsete da moça serrana a fazer as camas de lavado sob o olhar oblíquo do meu avô. – Andas-me muito delambida… – Enquanto passava a carda com vagares de barbeiro no lombo do cavalo.
Aos primeiros pingos, a chuva fazia acelerar o filme do portão do pátio, com as pessoas a fugirem e a falarem mais alto, mas logo a abrandarem de novo conformadas. Um saco de estopa com um dos cantos encaixado para dentro do outro, e pronto, aí está um capote reforçado. A chuva molhava à mesma mas pelo menos dava-se-lhe luta.
E nisto o assombro dos trovões. A minha avó a dizer uma ladainha elevando a voz à medida que a trovoada aumentava, não fosse Santa Bárbara não ouvir bem por causa do barulho, e a confirmar se a cruz de alecrim benzida no Dia de Ramos estava atrás da porta para afastar todos os agouros.
E resultava, porque a trovoada afastava-se e ia fazer barulho para outro lado. E depois ficava a chuva apenas, e o som da chuva parecia silêncio.
– Ela é cá precisa.
– Podia esperar que apanhássemos os cachos da Casqueira.
– Este ano vai ter menos grau.
– Pró ano começamos mais cedo.
As conversas à lareira da cozinha do forno só faziam sentido para os adultos. Falavam para si próprios como se estivessem sós, mas cientes de que se falassem todos a mesmo tempo, as várias solidões se uniriam para criar uma confraternidade. Mas eu acho que era o encantamento do lume na lareira que tornava aquelas sombras taciturnas nos rostos luminosos da minha família. O lume a fazer gemer as cavacas molhadas. Às vezes um estalido e os tições a aconchegarem-se uns aos outros. E a trovoada tão longe agora que a ladainha da minha avó era só por mera precaução um simples tremelicar dos lábios.
Dias e dias, noites e noites, sem parar. A chuva era eterna também. Passada a surpresa, as coisas permaneciam para ficar, não davam um único indício de que teriam um fim. Havia lagos no Largo do Sobreirinho e rios que desaguavam na minha valeta. A água era uma constante à face da terra.
Mas uma noite, todo aquele dilúvio acalmava como um pranto de viúva esgotada de mágoa e resignada ao vazio do corpo.
Primeiro começava por nos surpreender o silêncio. O silêncio é o que ouvimos quando termina um ruído. Agora o silêncio era o xilofone das gotas grossas dos beirais a baterem nas latas à porta da oficina do Ti Zé Sécio. O vento norte foi-se embora desvairado pelo Caminho dos Poços abaixo e a noite sossegava finalmente. E logo mais, a madrugada acordava sem outro sobressalto que a brisa a trazer consigo os primeiros frios.
Um vidro a cobrir a água do tanque, a bomba de alavanca que não deitava uma gota, o cavalo a resfolegar na cavalariça, os gatos em novelos pelos cantos e a minha mãe a enchouriçar-me de roupa. Eu tinha que caminhar de braços e pernas abertas por causa das várias camadas de pano que me transformavam numa cebola ambulante.
– Cuidado com as correntes de ar.
Em minha casa nunca havia duas portas abertas ao mesmo tempo. Para mudar de divisão tínhamos os cuidados de um mergulhador na câmara de descompressão de um submarino.
Em breve o frio e a geada passavam a ser eternos também.
E lá faltava a luz de novo.
Logo aparecia uma vela acesa mas quase tudo ficava na escuridão, porém, as coisas importantes sobressaíam a esta luz. Acho que é daí que vem a crença que é mais romântica. Se foi esta incapacidade de ver para além de certos limites que nos permitiu criar a conceção de infinito, foi ela também que nos permitiu criar a da intimidade. Se não, de onde me vem esta ideia de que jantávamos abraçados uns aos outros?
E a luz voltou. Apagávamos a vela e as baratas regressavam ao pátio. E quando nos preparávamos para continuar a ceia, voltava a falhar a luz e acendíamos a vela de novo.
E eu imaginava o Ti Zé Quiaios quase cego enrolando e desenrolando fios nos bornes dos fusíveis, pontificando do seu púlpito da mais avançada tecnologia a eterna luta entre a luz e as trevas, e a dizer sentencioso: – Ai no auguentas? Espera aí que já cospes!

(Escrito segundo o acordo ortográfico)