4.9.11

A Enfermeira que vinha do céu – Final


Custam-me a sair as palavras. Era assim que acontecia sempre que morria um dos nossos. Uma coisa sem sossego no peito e nós todos calados de os olhos postos no chão.
Mas se nos calarmos, que seja por pouco tempo, o minuto cerimonial e mais nada, depois falemos, contemos a toda a gente quem foi a enfermeira paraquedista Piedade Gouveia. Ela merece ser recordada de cabeça levantada e em continência, como só os verdadeiros heróis merecem.
Chamei-lhe "A enfermeira que vinha do céu" e todos os soldados que um dia combateram perceberam logo porquê.
Um dia foi-lhe confiada a minha vida, e na meia hora mais dramática que vivi até hoje, a Piedade cuidou dela com desvelo.
Eram dias dramáticos, tinha-se um sentimento de vida à beira do abismo, de experiência limite, e todos nós, os que combatíamos, obrigados ou não, sentíamos, pelo menos durante algum tempo, que cumpríamos um dever inelutável.
Outros momentos dramáticos se sucederam neste país limítrofe, sempre à beira de um abismo qualquer; mas ser combatente não é só ter capacidade para pegar em armas, e o exemplo das enfermeiras paraquedistas, as únicas mulheres combatentes na guerra colonial, ensina-nos como a coragem para enfrentar o perigo e o medo, e a generosidade e a disponibilidade para com os outros, podem salvar-nos a todos do recorrente abismo. Nós que as conhecemos, não deixemos que os portugueses se esqueçam disso.
Hoje partiu a enfermeira que vinha do céu. Vai só.
O héli que a leva não regressará com ela para nos salvar quando tombarmos de novo. Ficámos mais sós também.

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4 comentários:

SOL da Esteva disse...

Caro Camarada, Companheiro...

Tento reprimir o que sinto.
Contudo, o que deves sentir é bem mais pesado que o que pode aparentar.
Apenas os que acreditaram e tiveram confiança que os Anjos desciam do Céu, pode aferir da mágoa e tristeza que agora nos toma.

Abraço solidário

SOL da Esteva
http://acordarsonhando.blogspot.com/

António P. Almeida disse...

... parafraseando o poeta, ao libertar-se da lei da vida, foi um anjo, ou um pássaro, que deixou de sobrevoar Mueda, lá onde a vida valia quantos momentos nos permitiam, ainda, viver as mulheres-páraquedistas que lá passavam para nos salvar.
Um abraço ao Manuel Bastos.
António Almeida/Cart 3503

JottaElle disse...

Um abraço comovido, caro amigo!
Curvo-me perante a memória desta extraordinária mulher!!!!

Anónimo disse...

Ela, como outras mulheres que vinham do céu, ajudou a salvar muitas vidas, lembro-me das enfermeiras paraquedistas em Mueda e no mato, arriscando a vida.
Tive o privilégio e a alegria de 35 anos depois voltar a encontrar a Piedade e estar num almoço contigo e com ela recordando aqueles tempos que tanto marcaram as nossas vidas.
A Piedade acompanhou e tratou feridos da nossa companhia, como é uma das nossas, nunca a esqueceremos.
Um abraço do Silvestre