15.5.18

Saudades de Mueda



São frias as noites em Mueda. São curtas e frias. São húmidas. E tristes.
A manhã chega depressa e traz a guerra. Logo sentiremos os tiros que já não nos assustam, antes nos lembram que estamos vivos. Mas estar vivo num lugar onde o objetivo é matar, não augura nada de bom.
Todos os dias se sofre em Mueda. Todos os dias se sofre e faz sofrer. Morre-se. E mata-se.
Há uma monotonia trágica em Mueda, como se Deus se tivesse esquecido da máquina da guerra a trabalhar enquanto se entretinha com outra coisa. Deus esqueceu-se de Mueda e deixou os homens enlouquecer à vontade; e aqui, a loucura parece ser a maior virtude dos homens.
Todos os dias há alguém que pensa em Deus. Todos os dias há alguém que para desconcertado com a maldade humana e com o alheamento divino, e que depois tem que seguir em frente, invariavelmente na direção em que vai encontrar mais sofrimento e morte, e maior ausência de Deus.
De Mueda sai-se seguindo sempre em frente, só se volta para trás quando se fizer suficiente mal a alguém. Dezenas de soldados, uns atrás dos outros, ordenados, coordenados, alinhados; de helicóptero, de Berliet, ou a pé; sempre sem que Deus pareça interferir na sua determinação de irem em busca da morte.
Tão diferentes, os soldados que saem de Mueda, dos que regressam. Algo no meio da mata misteriosa modifica os soldados, algo lhes tira brilho e cor, lhes assombra o olhar, lhes suja o rosto. Algo os envelhece.
Ver um camarada cair habitua-nos à ideia de que somos perecíveis e a ideia da morte torna-se-nos familiar, não como algo que nos espera adiante, mas como algo que nos acompanha a cada passo que damos. E a cada passo envelhecemos com a ideia da morte.
A coragem às vezes é a única solução. Podemos nunca saber o que é a coragem até não nos restar mais nada para garantir a sobrevivência.
Há quem esteja morto em vida por nunca ter chegado à beira do abismo e nunca ter conhecido o fim do caminho; nunca ter conhecido o rosto de quem caminhou todo o dia à nossa procura para nos matar, porque, na aritmética da guerra um de nós tem que ser subtraído à existência. E estarmos nós à sua espera de arma na mão coloca as coisas em termos simples, em termos fáceis de perceber: somos peças de um jogo.
Mas não podemos fugir de Mueda, porque de Mueda não se vai para lado nenhum, senão em direção à guerra; o mundo acaba aqui. Mueda é uma ilha rodeada de morte por todos os lados.
Há um cheiro de morte em cada cheiro que se nos cola ao corpo. O bedum do óleo e da pólvora queimada da G3, o bafo do escape das Berliets, a catinga da floresta, o nosso ininterrupto odor corporal.
Às vezes tornamo-nos um pouco mais humanos, quando recordamos as coisas que constituíram a vida antes de Mueda. Eu tenho saudade de acordar e sentir logo vontade de correr. Saudade da frescura do café pela manhã, da boroa acabada de cozer, da fragância da relva orvalhada nas manhãs de Inverno . Fazem-me falta os cheiros dos campos, desde a essência doce do pólen até ao fedor bom do estrume.
Agora acordo com a exsudação húmida do cacimbo e adormeço com o hálito metálico da trovoada.  
Quando isto acabar e outra geração se suceder à nossa, vai parecer impossível que nos tenhamos sujeitado à escravidão e que não tenha havido forma de lhe escapar. Vai parecer irrisório que apenas a ignorância tenha sido suficiente para nos impedir de refratar, como faz a luz ao encontrar um meio que lhe dificulta o caminho. E a ignorância é o meio mais eficaz para dificultar a propagação de toda a luz.
Mas não se julgue que a guerra consegue apagar toda a luz de um homem; às vezes é preciso até um pouco de escuridão para descobrirmos se brilha ou não algo dentro de nós.
É de sonho e pesadelo o destino de um soldado, como eu agora aqui, perdido em pensamentos, enquanto voo em direção ao inferno. É de coragem e de medo esta vida cumprida a ferro e fogo.
Com o braço, aperto a máquina fotográfica contra as costelas e seguro a G3 entre as pernas, porque o helicóptero adornou um pouco para a direita. Afasto mais os pés para aumentar a base de apoio e percebo que estamos perto do objetivo. Sinto uma serenidade muito grande, todo o meu ser se prepara para a violência que se vai seguir, não tenho tempo agora para sentir medo, algo em mim se suspende, nada me pode distrair a partir de agora.

Da fundura do tempo venho à superfície como uma rolha  de cortiça que não aguenta muito tempo imersa.
Sei que o helicóptero pairou a três metros do solo, sei que saltámos e que seguimos pela mata dentro como se algo de lá nos atraísse a todos. Sei que se seguiram momentos de perigo e sei que não morri lá, o resto parece apenas um pesadelo difuso que o tempo foi esbatendo a pouco e pouco. Sei também que alguns de nós não regressaram e que a maioria dos que regressaram trouxeram a guerra gravada a fogo na memória, como uma tatuagem na alma, ou sei lá onde, entre a pele e essa luz que encontrámos a brilhar dentro de nós nos momentos de maior negrume no inferno tenebroso da guerra.
Sei que havia um cemitério em Mueda, onde se dissolviam na terra alaranjada de Moçambique os corpos dos que deram tudo a troco de nada, e que nenhuma luz de humanidade devolveu à terra mãe de onde partiram, porque a pátria madrasta que nos obrigou a combater se envergonhava dos mortos sacrificados em seu nome.
Agora dissolvem-se na terra onde foram esquecidos e talvez lá devam ficar para sempre, porque os seus corpos já se confundem com a terra que os acolheu, e ninguém merece que o seu regresso venha a apagar a ignomínia de os lá terem deixado. Que a vergonha dure para sempre.
Estive lá. A guerra não se fez sem mim. Acreditei em oitocentos anos de História, mas a realidade incumbiu-se de me mostrar em poucos meses que quase tudo o que me ensinaram era mentira, não sem antes aprender que não é difícil matar um homem, difícil é viver depois disso; difícil é passar o resto da vida a tentar fazer com que os nossos mortos façam sentido.
Mas o que é estranho, é o nascimento da saudade desses tempos, como se a superação da tragédia fosse glória bastante. É esta a fútil glória do sobrevivente.
Durante imenso tempo, vivi uma vida que não era a minha, uma vida postiça, e fui uma personagem de uma história mal engendrada. Como diabo posso eu ter saudades disso? Poderemos nós ter saudades dos pesadelos de um tempo em que a única coisa boa era sermos jovens?
É de mim que tenho saudades, e olhando para trás confundo a história com a personagem e confundo a personagem com o cenário, ou, de certo, é a humana capacidade de perdoar que procura algo de bom para redimir o passado.
Mueda revisitada e perdoada, nós, os que sobrevivemos, precisamos de perdoar para continuar a viver.
Que os mortos nos perdoem também.

13.3.18

Roubam-me deus, outros o diabo


A minha cabeça é uma casa assombrada.
Dentro de mim, um tumulto de almas penadas espiando culpas de que estão inocentes.
Caminho por entre pessoas que não entendo, como se o riso fosse uma alucinação e a alegria uma obscenidade.
As minhas memórias são fantasmas que me acompanham para onde for. Amigos que tombaram pelo caminho, que me recuso a esquecer. Juntos, rimos e lutámos, e agora falamos em segredo, para não acordar a indiferença do mundo.
Querem que a gente volte da guerra como se nada tivesse acontecido, porque não querem ser assombrados com os pormenores. Nós falamos dos tiros e dos furos das balas na pele. Das minas e do interior dos corpos que fica à vista. Dos sons da guerra próximos do limite da frequência sonora audível, e que às vezes ultrapassam esse limite e deixam de se ouvir, como se estivéssemos num filme mudo. Falamos do cheiro do sangue fresco e da carne ainda pulsante. O osso limpo, os tendões cortados e as fibras dos músculos rasgadas. Durante meses não se pode ver uma coxa de frango; depois acabamos por falar disso como se fala de um ofício a que nos dedicámos.
O Manel até tirava fotografias. Eu: Ó furriel, essas fotos são pra não se esquecer disto? E ele para mim: Ó Zé, nós nunca nos vamos esquecer disto até morrer.
Acho que ele, com o tempo, foi criando uma raiva contra aquilo tudo, enquanto eu ia aceitando as coisas para poder aguentar, para poder sobreviver. Andámos ao contrário para obter a mesma coisa. Depois, de repente, disseram-nos que tudo o que dantes era inevitável, tinha de acabar, e deixámos de ser precisos. Só servíamos para alimentar a guerra, como lenha para a fogueira, e decidiram apagar a fogueira e deitar a lenha fora. Regressámos a um país diferente daquele que nos enviou para lá, e tudo o que fizemos passou a estar errado, do dia para a noite. Num país em que a ignorância é obrigatória por lei, podemos ser apanhados com uma arma na mão como um bombeiro de mangueira em punho para apagar um fogo onde há uma inundação.
O Manel a tirar fotografias, como se quisesse reunir provas para demonstrar que a estupidez humana realmente existe. E eu via-o como um turista que não levava aquilo a sério para não ficar louco. Se não tivesse lerpado com uma mina, estava agora pior do que eu, tenho a certeza.
Mas eu não estou traumatizado, não, eu tenho é saudades da guerra. Deram-nos uma missão importante para cumprir e nós demos a nossa vida por essa missão. Ensinaram-nos desde sempre que isso era o nosso dever e ensinaram-nos também a sentir orgulho por ele nos ter sido confiado. Há alguma coisa pior do que descobrir que nos enganaram? Que a nossa missão era um crime e que o nosso dever era uma maldição?
Que fazer agora com os mortos? Como resgatar os inocentes sacrificados? Como reverter a dor depois de sentida?
Tenho saudades de me sentir do lado certo da História, de me sentir um soldado a servir uma causa justa.
Anseio por uma causa justa por que lutar.
Só que me roubaram a fé. Roubaram-me Deus. Fiquei de mãos vazias e sujas de guerra. Não se pode rezar com as mãos sujas de guerra e não se pode ser herói numa ato criminoso.
Roubaram-me Deus e roubaram-me o Diabo, por quem lutarei?
Esfrego a pele para limpar a tatuagem do meu patriotismo e a tatuagem não sai. Amei o meu país com um amor impúbere e fui abandonado por ele, prenhe de pesadelos. A tatuagem das minhas memórias é um ferro em brasa que me não saí do pensamento. Ninguém regressa do inferno inocente, ninguém regressa vivo do calvário.
O que vês, Zulmira, quando fechas os olhos? Será que vês o que eu vejo?
Sou uma homem-bomba pronto a explodir de memórias.
Sou um comboio em chamas rasgando a noite escura, exorcizando os fantasmas no meio das trevas da indiferença dos que nunca fazendo perguntas estão sempre de bem com Deus e com o Diabo.
Se ao menos ainda te amasse, Zulmira, deitava-me ao teu lado e adormecia ignorante, que o conhecimento incomoda, mas alguém me roubou também o meu amor por ti.
Deixa, ainda assim, meu amor passado, que me deite ao teu lado, deixa que arrefeça esta acha ainda em chamas, tirada da fogueira em que arderam os meus sonhos de criança. Eu, de mim dei o que dão os heróis, mas coube-me o papel errado. Sou um personagem criado por uma história escrita por criminosos.
Esta noite sonhei que era uma criança inocente brincando. Será que acordei para a realidade ou agora sou um velho soldado com que uma criança inocente está a ter um pesadelo?
Tanta coisa acontece na vida de um homem e tanta coisa é esquecida, lembramo-nos apenas de meia dúzia de coisas boas, mas das tragédias lembramo-nos bem.
Sei que passei horas de convívio caloroso e camarada como nunca se consegue passar em tempo de paz, porque as coisas escassas são mais preciosas, mas não me recordo de quase nenhuma. E os amigos que fiz e que esqueci? É como se não tivesse vivido esses momentos, porque o que ficou na memória foram sobretudo as experiências dolorosas.
A felicidade é o luxo da mente, e o luxo é uma fraude. Não é real, é um cenário montado para exibir a opulência de uma minoria que ofusque o ruído e o desconforto de que é feita a imperfeição da vida para a maioria. Resta o amor. O amor é sempre possível, mas deveria haver mais do que uma palavra para dizer amor. Há amor que mata e amor que salva, há amor que castiga e amor que redime, há amor que revigora e amor por que se morre.
Dizem que se o amor acaba, é porque não era amor de verdade, então quando um homem morre é porque nunca viveu de verdade também? Que pensa um homem olhando o cano da arma com que vai matar-se? Que nada na sua história merece mais um dia de vida, ou que a sua história é tão preciosa que o futuro previsível não merece ser vivido?
 O inflexível arco do tempo não sai nunca do mesmo lugar, nós é que somos perecíveis.
Tudo o que acontece é passado. O que fizemos no passado é que faz de nós o que somos hoje, e o que somos hoje é que dá forma ao passado, que o passado só é passado quando o vemos do presente. Igualmente, o que fazemos agora será passado amanha; não preparamos o futuro, preparamos um passado que mereça os dias de vida que temos para viver.
Sem ti, Zulmira, para recuperar a ignorância original, recosto-me no sofá, vítima do conhecimento do inferno imposto à minha juventude perdida.
O LP no gira-discos entre estalidos. O cantor cantando o poeta. As lágrimas que não seguro. E as palavras do poeta na voz do cantor, como facas:
Roubam-me Deus, outros o Diabo.
Quem cantarei?
Roubam-me a pátria e a humanidade, outros ma roubam.
Quem cantarei?
Um dia cantarás a revolução. Nesse dia, cantor, as lágrimas serão de esperança.

16.2.18

As primeiras chuvas


(In História de amor com guerra ao fundo)

Cansados de Verão, respiramos melhor no ar purificado pelos primeiros frios, confortáveis no aconchego da roupa mais pesada, depois da lassidão transpirada dos corpos sob panos leves.
A todo o momento a chuva ameaça surpreender os otimistas que saíram à rua de corpinho bem feito. Olho-os do carro, certo de que a chuva apenas aguarda que eu ponha o pé na estrada para repentinamente desabar sobre mim numa carga de água.
Sei que ela passará por aqui. Sairá daquela porta e entrará no carro para ir ao meu encontro. Quero antecipar o prazer de a ter, olhando-a. Quero ver-lhe os gestos, ou menos que os gestos, apenas o movimento. O movimento é o que a conduzirá a mim, e, posso senti-lo como certo, o movimento dela será o que me dará o maior prazer.
O seu movimento é apenas de garça pousando, quando chega e graciosamente alarga a saia para se sentar na cama. E depois o seu movimento é de gazela quando se ergue, e já de felina quando se levanta. O seu movimento, todo ele de caça e de caçadora, adivinha-se e surpreende, como tudo o que é belo para o olhar e tentador para o espírito. Uma beleza que faz do cérebro a principal zona erógena.
A chuva cai de um odre rasgado, sem dó nem piedade, sobre os desafortunados otimistas, ensopando-os imediatamente. Os pessimistas, esses, repentinamente transfigurados, os guarda-chuvas a transformá-los em cogumelos animados, sempre têm a ilusão de se protegerem um pouco.
Há uma certa perversidade no prazer que sentimos com o conforto de um abrigo como o meu, aqui no carro, enquanto vemos os transeuntes encharcados a correrem na rua.
No carro ao lado, sem, afinal, eu ter dado por ela, e ela sem ter dado por mim, vejo-a como uma inesperada aparição.
Deve ter escapado à torrente da chuva. Parece tão serena, tão disponível. Parada, como se estivesse a dar tempo à transição do ritmo expedito do trabalho que terminou, para o ritmo lânguido do prazer que antecipa.
Sente o corpo no conforto da roupa. Um prazer sexual. Quando tem assim consciência do corpo, sente-se nua. A estranha sensação de estar nua por debaixo da roupa.
Na verdade, somos animais nus, mais nus que os outros animais. Nascemos pelados, sem nada a cobrir a nossa pele, e continuaremos nus até morrer. Só impedimos que os outros vejam a nossa nudez, cobrindo-a com a roupa.
Ela sente-se nua, numa hiperconsciência de si, na reversão do pecado original, na inversão da alegoria do paraíso, na transformação do castigo divino do pudor numa graça de libidinosa impudência.
A chuva, repentinamente, em rajadas, a querer furar o tejadilho do carro; os transeuntes encurvados para a frente, a quererem empurrar a chuva; as árvores furiosas, a quererem enxotar o vento e ela dentro do carro a querer sentir o corpo todo nu no conforto do invólucro erógeno da roupa.
De súbito, um desejo tentador de sair para a chuva, de deixar que a água lhe cole a roupa à pele, de sentir os fios da água a percorrer todas as reentrâncias anatómicas numa escorrência orgástica.
Vê-se a si própria exposta ao mundo, nessa hiperconsciência de si.
Sente algo de excessivo no seu corpo, algo de hiperbólico; algo de flor desabrochando, algo de fruto protuberando a oferecer-se, pronto a ser colhido por um predador incauto que venha mergulhar na sua liquidez suculenta até ser consumido.
Sente a força animal de fêmea no cio, o poder divino da transcendência, a perfídia diabólica da devassidão, numa disrupção inconciliável do seu ser. O Símbolo que une e o Diábolo que separa, o Mal que corrompe e o Bem que redime, o fogo que consome e a água que regenera; e tudo isto junto e simultâneo numa erupção que transborda.
Sente claramente que não deve ir para casa ao encontro do seu marido, do seu homem que faz de si sua mulher, como um direito adquirido; precisa de evadir-se, de rebelar-se, de correr perigo.
Arranca violentamente e acelera o carro como se se masturbasse.
Sente a conjugação do seu corpo com a máquina, o domínio da sua vontade sobre a máquina; sente a potência do motor, a voracidade do motor; sente o frémito da velocidade, a vertigem da velocidade, o delírio da velocidade. E a estrada a ser absorvida numa invaginação de presa devorando o pregador.
À frente só céu e mar. A chuva de fim de Verão vencida, por um momento, pelo sol. E o carro finalmente em roda livre até parar junto à areia, como besta cansada, como macho em extenuação orgástica. Abriu a porta do carro sem sair para sentir a maresia que inundava tudo em redor, em vagas de odor seminal da rebentação convulsa do mar sobre a avidez feminina da praia.
E o mundo todo, que até agora era um vago esboço em torno de si, ganhou densidade, e a pouco e pouco, resolveu-se a paisagem e todo o som circundante, enquanto o corpo serena, como terra escaldante que o Sol esbraseou numa tarde de Verão tardio, e que começou a despertar com a frescura das primeiras chuvas.
Um homem jamais saberá o que é ser mulher, jamais entenderá a força contida na delicadeza de um só gesto feminil. Bendita a abissal diferença dos géneros que gera o mistério mais virtuosa da natureza.
Vejo-a ali, ao fundo, junto ao mar, como uma amante saciada em leito de luxúria; mas sinto-a tão intocada e íntegra para o mundo; enquanto eu, a sua antípoda abominação, congemino desejos secretos, fraquezas carnais, e desço ao estado de predador impotente perante a sua nobre condição de fêmea superior.
Abre a porta do carro e sai. Livra-se dos sapatos, mal chega à areia molhada da praia, e caminha em direção ao mar.
O vestido leve esvoaça ao ritmo da espuma, que a ressaca das ondas deixa ao sabor do vento, e oferece a beleza das pernas nuas.
Desejo-a, não como presa, não como fruto; desejo-a como algo que jamais se poderá possuir completamente, e que assim, não se esgote nunca esta tentação de sabê-la; mais que possuí-la ou tê-la.
Um bando disperso de gaivotas a estridular, a água quase a chegar-lhe aos pés, num toca e foge provocatório, e o vento impudico a levantar-lhe o vestido. E ela numa imobilidade de esfinge.
Deus, a Natureza - ou a simples conjugação do desejo que o instinto molda, com a forma da coisa humana que vem ao encontro do instinto - fazem dum momento assim o pináculo da beleza imaginada. A única beleza afinal, aquela que o cérebro humano formula; o único sítio do mundo onde se formulam coisas apenas pelo prazer de as formular.
Estar ela ali, entregue toda ela aos elementos, como que protelando o encontro, e estar eu aqui a vê-la, antecipando o encontro é um jogo de predador e presa, e a clandestinidade e o improviso fazem que cada jogo seja sempre o primeiro.
A chuva recomeça, vencendo agora o Sol.
Ela abandona o corpo às primeiras gotas de água, que se confundem com o aerossol da rebentação, como oferecem os ferreiros, o ferro em brasa saído da forja, á água fria, para o temperar. Quem tivesse o rosto colado à superfície afogueada do seu corpo, sentiria a evaporação da água destas primeiras chuvas.
É a sede dessa água que atrai toda masculinidade do meu ser. Sem essa líquida feminilidade nenhum prazer seria possível na aridez do mundo.
De repente, a urgência de a sentir perto.
Escrevo uma SMS para lhe mandar: "Estou a caminho", mas não carreguei na setinha para enviar, fiquei a olhar ora para a SMS ora para ela a dirigir-se para o carro, mas sem fugir da chuva que ia engrossando.
Ela agora dentro do carro, recostada no banco, com o motor au ralenti, a chuva forte e o mar revolto, e no peito, imagino, a serenidade que se segue às grandes aventuras. No meu telemóvel a SMS aguardando o toque de envio, mas o dedo pasmado e eu de olhos encandeados, como os olhos da cobra à espera que a ave se mexa para a abocanhar.
Passou uma eternidade de dois minutos e o telemóvel, já esquecido na mão, cantarolou. Acordo do encantamento e leio a mensagem.

ZULMIRA
Hoje não dá. To na escola pra levar o puto p causa da chuva. Bjs

23.1.18

Lucubrações da minha varanda

Muita gente no meu lugar preferia ser feliz, eu quero apenas sentir. A felicidade deve encontrar-se, no máximo, a cinco segundos de acontecer.
Três dioptrias separam-me da felicidade de gozar da beleza da mulher que passa na estrada, 15,5 Khertz de um acufeno impedem-me a felicidade de gozar o silêncio circundante e falta o teu metro e 67 para eu gozar da tua companhia nesta varanda.
Sou apenas quase feliz, não corro o risco de um clímax castrador.
Não acredito em muita coisa mas as poucas coisas que tenho como certas, aprendi-as por acreditar em alguém, porém, soam todos os alarmes do meu ceticismo quando uma pessoa diz despudoradamente que é muito feliz. Estando eu em conformidade com o lugar onde estou, estando eu de acordo com o que me rodeia, sinto esse equilíbrio como a coisa mais gratificante que se pode ter.
Os ambientes são para mim como um vestuário que se vai fazendo ao corpo. Há sítios à minha medida e sítios que me não assentam bem. Este lugar no meio da serra ainda não me assenta bem. Ainda não sou daqui, sou de Coimbra, mas foram precisos 31 anos e 17 dias para eu ser de Coimbra e deixar de ser de Aguim. Deixei de ser de Aguim no exato momento em que vi a nova capela de S. José. Eram cinco e vinte e três da tarde. Nesse momento fiquei sem referências. Os amantes precisam de referências comuns. Os familiares também. E os amigos. De que falaríamos, sem referências comuns? Agora, eu e Aguim ainda temos uma relação afetiva forte, mas não temos assunto para grandes conversas.
Aquilo a que chamam o "espírito do lugar" é a modelação do nosso sentimento às coisas que nos rodeiam. Se nos ausentarmos e voltarmos anos mais tarde nunca encontramos o que deixámos, o tempo profana a relação de familiaridade com o cenário; a ausência torna-nos estranhos àquilo que apenas existe na nossa memória. A nossa terra não é aquela em que vivemos, mas a que vive em nós.
Se ser feliz é estar plenamente satisfeito, viver plenamente é estar constantemente insatisfeito; qualquer bêbado sabe isso.
Pouco depois de acabar o beijo, acaba o prazer; o segundo já não dá o mesmo prazer que o primeiro; e ainda bem, porque a humanidade há muito se teria extinguido se o prazer do beijo fosse cem por cento saciante.
Cultivo a insaciedade como um sádico que leva a tortura a noventa e nove por cento, para poder continuar a fazer sofrer sem matar a vítima.
É por isso que o livro repousa espalmado, com as páginas 76 e 77 sobre a tua cadeira, aguardando, para que se me não esgote o prazer da leitura, e também porque gosto de estar sem fazer nada, quase tanto como de ler.
Fazer coisas entretém; mata-se o tempo. Só a ociosidade não mata o tempo, cada segundo é um segundo de vida. Estou vivendo intensamente agora mesmo, aqui nesta varanda, ociosamente tiquetaqueando o tempo.
O pecado da preguiça é um pecado virtuoso. Na verdade, é um pecado que quando praticado com grande frequência chega a impedir que tenhamos força de vontade suficiente para praticar os restantes.
É preciso ter a paciência das árvores. É preciso deixar que os frutos aconteçam ao ritmo das estações do ano. Dividir o tempo em frações mais pequenas foi o maior disparate da humanidade. Cada vez dividimos em parcelas mais pequenas a nossa vida. Os nossos relógios marcam tarefas ao segundo. A precisão é a escravidão do século XXI. Eu quero a velocidade de uma árvore a gerar um fruto, eu quero a maravilhosa imprecisão da Natureza.
Ver a Natureza a acontecer é das coisas mais emocionantes que há.
De Aguim via a serra do Bussaco, de Coimbra via o Vale de Canas, daqui vejo um laranjal e uma plantação de abóboras. Uma mulher cava na plantação de abóboras a 686 metros e oitenta centímetros de mim, porque o som está atrasado exatamente dois segundos em relação ao golpe da enxada e estão 20 ° de temperatura. E porque é de desprezar a velocidade da luz. É pena não saber a humidade do ar, para ser mais preciso.
A mulher cava a terra fazendo lembrar um filme com a banda sonora dessincronizada. E o Sol começa a esboçar um poente.
Não existe nem ordem nem estética na natureza, só no espírito e na obra humana. O “Campo de Trigo sob Nuvens de Tempestade” de Van Gogh é belo, a paisagem que lhe serviu de modelo, no entanto, era apenas o resultado aleatório dos acidentes naturais, da interação ecológica e das condições atmosféricas.
Pensar que uma paisagem é bela dá sentido à paisagem. O nosso cérebro não está tão preocupado com a ordem das coisas como com o seu significado, só tende a por as coisas em ordem para as perceber melhor. Damos ordem às coisas que não têm ordem nenhuma, porque não concebemos que elas não tenham um propósito, que estejam ali por mero acaso e que sejam absolutamente inúteis. Não concebemos que não estejam lá por nós.
Para além de ser um exercício de estética, a arte não serve para nada, é um luxo do intelecto. Exceto, é claro, que uma vez recriadas por nós, as coisas passam a ter significado; são finalmente o resultado de um propósito. É essa transfiguração que eu acho bela.
Calcular esse propósito primeiro, para executar uma obra depois, isto é, criar segundo uma fórmula, é inverter o processo; é por isso que a arte Kitsch desagrada a algumas pessoas. É como fazer sexo com um manual de instruções na mão. É fazer batota para conseguir uma performance medíocre.
São dezanove e vinte e oito, e passou um pássaro. Agrada-me que os pássaros não passem a horas certas. Gosto de ser surpreendido. Ser surpreendido é ser privado das referências; de certo modo, portanto, agrada-me que tenham substituído a velha capelinha de S. José por um exemplo particularmente orgulhoso de arquitetura kitsch. A arte kitsch tem essa virtude; surpreende-nos sempre pelo orgulho da própria mediocridade.
Daqui a pouco o Sol vai transformar o céu, e um número de pessoas que me é impossível calcular vai maravilhar-se se olhar para Poente, embora um pôr-do-sol não seja lindo nem feio, é como é porque a luz azul é mais refratável que a vermelha.
Gosto disso, porque a beleza que existe neste mundo está cem por cento dentro de nós. Os mais exigentes e perfeccionistas, portanto, têm menos beleza dentro de si. Segundo este cálculo, a nova capela de S. José é mais bonita que a anterior porque tem mais gente que gosta dela e com um conceito de beleza mais abrangente.
Existe um muito maior consenso quanto a referir a beleza de uma paisagem ou de um corpo de mulher do que de uma obra de arte, porque chamamos belo ao que nos agrada e dispõe bem, e a beleza de uma obra de arte pouco tem a ver com a boa disposição com que ficamos depois de a apreciarmos, ou só por masoquismo assistiríamos a uma peça trágica ou apreciaríamos o fresco de Goya “Saturno Devorando um Filho”. É isso que explica o consenso em torno da penalização da pedofilia e simultaneamente a aceitação de obras como "Lolita" e "Morte em Veneza".
Uma obra de arte tem uma beleza intrínseca.
O rosto tosco e enrugado da Madre Teresa de Calcutá, enquanto modelo de um retrato, é esteticamente mais rico e interessante do que o rosto sensual e viçoso da Marilyn Monroe.
É arte uma bela execução de algo que pode ser feio, mas nunca uma feia execução seja do que for.
Mas ter exigências de beleza mais abrangentes e tolerantes, ou, portanto, ter mais beleza dentro de nós, de modo a gostar de mais coisas é só promiscuidade estética. Para gostar de uma coisa é preciso ter educação; quase ninguém gosta da primeira cerveja que experimenta, é preciso educar o palato. É como gostar de alguém; porque gostar de alguém é eleger quem tem merecimento. Trata-se portanto de saber fazer seleções.
Escolher entre uma zurrapa e um bom vinho exige educação; quase nenhum bêbado sabe isso mas um escanção sabe. A arte é elitista, o gosto popular como a justiça popular, sem educação, são dois grandes equívocos civilizacionais, e não podem ser desculpados com a democracia, porque não há democracia sem informação.
A tarde ficou húmida e se calhar vai chover. O tempo que o som da enxada demora a chegar até mim deve por isso ter diminuído. Um número indeterminado de pássaros passou por aqui. Uma incerteza muito grande domina tudo em redor.
As coisas precisas e previsíveis podem dar um falso sentido de segurança; eu prefiro pensar que tudo pode acontecer e que tenho uma grande margem de manobra. Posso ter um plano de ação, mas assim que parto para a ação esqueço o plano. Ou não seja eu um velho soldado português que na guerra tinha sempre à mão uma arma e uma máquina fotográfica, e que disparava a máquina fotográfica nos momentos de maior perigo.


4.1.18

O Sorriso do Santos

Que faço eu aqui?
O céu está estranho hoje. À minha frente os soldados caminham como sonâmbulos. Olho para trás. Sonâmbulos também.
Atrás das duas filas de soldados a longa coluna de viaturas, todas em péssimo estado. Sonâmbulas.
O ronronar dos motores, o gemido metálico das carroçarias meias destroçadas, o som áspero das picas a furarem a areia em busca das minas, o ranger da areia debaixo das botas, o respirar do soldado à minha frente; e por cima destes sons todos, um silêncio de funeral. A natureza parece demonstrar uma clara hostilidade contra nós.
Um Fiat passa rasante por cima da coluna.
O soldado à minha frente olha para trás. É o Santos. Eu encolho os ombros. Ele sorriu. Porque nos rimos nós, no meio da guerra? Deve ser por estarmos cansados de caminhar vendo as costas uns dos outros, e termos sido feitos para nos olharmos assim, cara a cara.
À frente de todos, os soldados do ancinho que vão esgravatando a picada. O da esquerda parou. Baixou-se para ver o que o ancinho detetou. Parámos todos.
O Santos aproveitou a paragem para urinar, sem sair do lugar onde estava. O soldado à frente dele rodou a cabeça para trás, sem correr o risco de mudar a posição do corpo, para se certificar de que estava fora do alcance do jato de urina.
O soldado do ancinho levantou-se e continuou a esgravatar o trilho. A fila recomeçou a andar atrás dele, cada soldado um bocadinho depois do soldado da frente, como se fossemos carruagens de um comboio a iniciar a viagem.
O céu está estranho, porque é céu de trovoada. Um trovão ao longe imitando penedos a rolar num sobrado de madeira. Alguns soldados a olharem para o céu em busca de chuva.
O Fiat regressa rasante de novo, deixando um pequeno risco no ar atrás da ponta de cada asa. Vi nitidamente o piloto olhando para nós.
Quando o som do avião desaparece, fica a ouvir-se melhor a trovoada distante, que parece afastar-se.
Avançamos a passo muito lento, e cada um de nós tenta por os pés nas pegadas deixadas pelos soldados da frente, o que obriga a estar a olhar constantemente para o chão. Eu ando a aprender a fazer isso sem olhar para o chão, o que tem duas vantagens: prestar mais atenção ao meu flanco e não ficar cego se pisar uma mina.
De um lado e do outro da picada o capim altíssimo encobre a floresta. Às vezes o Lemos, que leva a MG42, dispara uma rajada preventiva para algum lugar suspeito.
O soldado de trás chama-me e faz-me sinal para parar. Eu passo a palavra, e em breve toda a gente para de novo.
Todos olham para trás para tentar perceber o que se passa.
Estou farto disto.
Sem aviso, a imagem de um corpo nu de mulher ocupa-me a imaginação por algum tempo. A mulher caminha à minha frente de saltos altos e completamente nua. Os glúteos balançam-se e os joelhos afastam-se um pouco quando as pernas avançam, devido aos saltos altos. Tento focar esta imagem o mais tempo possível, mas a dada altura a imagem na minha imaginação começa a desvanecer-se, e acaba por desaparecer, e o que vejo agora são duas filas de soldados de costas para mim, imóveis, como se tivessem parado o filme da guerra.
O suor junta-se ao pó e começa a desenhar riscos nas nossas caras e a pintar manchas escuras onde o pano do camuflado toca no corpo.
Os turras devem detetar-nos pelo cheiro, a quilómetros de distância. Felizmente que a natureza nos dotou de um mecanismo que desliga o sentido do olfato quando estamos muito tempo sujeitos a um odor. É conhecido como “fadiga olfativa” e parece que servia para evitar que os nossos ancestrais não ficassem inibidos de detetar o cheiro dos predadores por causa do seu próprio odor. Agora serve para não desmaiarmos com o cheiro uns dos outros.
A imagem do corpo nu de uma mulher volta a atravessar-me por momentos o pensamento. Mas por pouco tempo; parece que a realidade torpe é mais importante agora, para o meu cérebro, do que a graciosa fantasia.
Não há sinais de podermos recomeçar a progressão e a imobilidade aumenta a temperatura do corpo. O sol marra. O ar sufoca. Os mosquitos divertem-se em torno dos meus olhos. A tensão faz apitar os ouvidos. A G3 aumentou de peso. A própria farda parece de chumbo. É óbvio que um ser humano normal não foi feito para isto.
Olho para trás e giro o indicador junto à cabeça e abro a mão em sinal de pedido de esclarecimento. Em resposta o capitão estica o mínimo e o polegar e encosta a mão ao rosto imitando um telefone e depois bate com o dedo no relógio. Entendo que aguardamos instruções para prosseguir.
A coluna auto que vem de Omar ao nosso encontro deve estar com problemas.
O Fiat volta a aparecer, rasante de novo.
Os soldados torcem o corpo para olhar para trás, sem mover os pés, assim que o ouvem ao longe, e destorcem-no para o seguir com o olhar até ele desaparecer onde a picada se afunila em vértice na linha do horizonte, á nossa frente.
Não entendo o que se passa. Começo a ficar em stress. Na guerra não gostamos de surpresas nem de grandes mistérios.
Agora houve-se a tosse convulsa caraterística do Alouette III. São dois. À medida que se aproximam, a tosse vê-se que é acompanhada da pieira habitual.
Houve merda! Diz o Santos.
Desta vez não sorriu.
Não aguento este silêncio e esta incerteza. Estou a meio da fila de soldados, e ir até à Berliet do capitão para saber o que se passa, constitui um perigo muito grande para mim e para os soldados por quem passar.
Está quase a escurecer. Dentro de pouco tempo não poderemos prosseguir com a coluna porque se fará tarde demais para ir e voltar para um lugar seguro, dado que o local de encontro seria o pior possível para pernoitar.
Baixo-me e esgravato a areia em torno de mim com cuidado para me certificar que será seguro sentar-me. Marco no chão o local perscrutado por mim, para saber onde posso colocar as mãos e os pés. O Santos imita-me.
Pelo canto do olho, vejo, de cima da Berliet, o capitão a fazer um enquadramento sobre mim com a zoom da sua máquina fotográfica, e eu aperfeiçoou disfarçadamente a minha pose. Mais tarde quando me der a foto vou escrever a legenda:
Que faço eu aqui?
O céu estranho foi-se tornando normal à medida que a trovoada distante se desvaneceu. O calor baixou um pouco.
O capitão faz-me sinal para regressar às Berliets e eu passo a palavra para a frente e para trás.
Regressamos agora, pisando as nossas próprias pegadas. Certifico-me que o Lemos e o soldado do ancinho trocam de posição e que ele e o outro apontador de MG42 são agora os últimos, caminhando de marcha atrás com estremo cuidado, de metralhadora apontada para o longo funil da picada.
Lá ao longe, onde a picada parece terminar no lombo de uma colina, o céu prepara as coisas para se fazer noite. Do lado de lá houve merda.
Apesar da humidade perto da saturação, tenho a boca seca. Daqui a pouco o abaixamento da temperatura provocará a condensação da humidade do ar em pequenas gotículas, a que chamamos cacimbo, e o efeito de estufa atingirá o limite. Depois, a temperatura vai descendo até tornar as nossas fardas em farrapos encharcados de água fria sobre o corpo, e pela madrugada a baixa temperatura far-nos-á bater o dente. Adormecemos no verão e acordaremos no inverno.
O Fiat faz longos volteios, como uma ave de rapina sobre uma presa ferida, e depois abala em direção a Mueda. Pouco depois regressam os Alouett III.
Foi um ataque de abelhas. Diz-me o capitão quando subo para a Berliet.
Sei bem o que um simples enxame de abelhas africanas pode fazer a uma companhia inteira, e diz-se que os turras nos atiram sacos com colmeias sobre as colunas para nos atacarem enquanto estamos no meio da confusão.
Será que nada nesta terra nos tolera?
Mas a nós, hoje, ninguém nos fez mal. Hoje, não fizemos mal a ninguém.
Fico a admirar o por do sol em busca de um sinal de reconciliação da Natureza.
Uma paleta de vermelhos, rosas e violetas dão cor a um céu pintado por mão infantil e a floresta luxuriante e o capim alto são um plágio ao traço naïf de Henri Rousseau. Preparo-me para descansar, experimentando um pouco de alívio finalmente.
Penso que daqui alguns anos, estes momentos de serenidade serão o que de melhor teremos para recordar, e não os intensos momentos de ação onde a adrenalina não deixa lugar para o pensamento.
Ponho-me a pensar que haverá algum escritor futuro, que não tendo saído da segurança dos quarteis ou do aconchego dos hospitais; nem tendo disparado uma arma sobre ninguém, nem sentido que a sua cabeça era a muche do alvo de uma kalash, falará de horrores que de facto não sofreu nem fez sofrer, só para dar autenticidade aos seus escritos, e sinto antecipadamente um desrespeito enorme por ele. Não conheço maior indignidade do que plagiar o sofrimento alheio para ter uma boa história para contar.
Preparo-me para dormir.
No meio daqueles soldados todos, o olhar do Santos cruza-se com o meu. Eu ajeito a mochila para me servir de almofada, ele ajeita o poncho de borracha como se fosse uma manta. É preciso tão pouco para dar conforto a um soldado.
Eu encolho os ombros, o Santos sorriu.

10.12.17

O Formidável Lica

(In: Aguim Em Mim - Western Ginato)

O sino da torre da capela da Nossa Senhora do Ó de Aguim bateu três vezes, e o som das horas cobriu em três ondas sucessivas o casario prolixo, até se desvanecer em silêncio nos pinhais e olivais derredor. Bateu três vezes e calou-se. Dentro em breve repetirá as três badaladas, entretanto, tanta coisa se passará, mas o sino ignorará tudo, porque para ele serão ainda três horas da madrugada.
Um vulto na noite. Um vulto mal distinto na noite lúgubre que deixava a palidez da lua iluminar a rua da Portela, ou escurecer, porque ainda não nasceu quem saiba ao certo quando é pouca a luz ou muita a escuridão, ou vice-versa.
O vulto é de um homem que espera alguma coisa ou alguém, com ar ameaçador, ou assustado; que a coragem e o medo distinguem-se tão bem uma do outro como vimos que acontece com a luz e a escuridão.
A pequenos espaços de tempo, vão aparecendo outros vultos, estes sobressaindo da escuridão como fantasmas, devido ao manto branco com que se cobrem, que esvoaçaria ao vento, se houvesse vento, mas naquela noite iluminada, ou escurecida, pela palidez da lua não bulia a menor aragem para que desse modo a cena de um crime que estava prestes a acontecer tivesse a maior carga dramática possível.
Um a um, os embuçados vão saindo dos becos e ruelas adjacentes, empunhando varapaus e cercando o vulto no meio da rua da Portela. Só depois aparece uma figura formidável, de rosto descoberto, apenas envergando um barino e com uma enorme moca na mão, de onde nascia um verdadeiro espinheiro de pregos. Era o temível e tão admirado como odiado Lica.
Esta é a história fantástica e lendária do rei dos embuçados de Aguim. Passou de ancião para jovem e depois esperou que o jovem se tornasse ancião e passou para outro jovem, de geração em geração até chegar a minha vez de a contar aos jovens de hoje.
E embora não bulisse a menor aragem, quem conta esta história jura que a aba do seu varino ondulava ao vento.
De tudo quanto se sabe sobre ele, poucos são os que acreditam em metade do que se conta, como sempre acontece com as figuras que superam os seus pares. A imaginação dos espíritos mais criativos fantasia o que não se sabe de fonte segura e a inveja dos medíocres e dos covardes tenta diminuir a importância dos feitos que temem ser verdadeiros porque os menorizam a eles.
Diz-se que, quando uma junta de bois não conseguiu tirar de um atoleiro o carro que puxava, o Lica desatascou o carro; empurrando o carro, a carrada e os bois. Diz-se que um dia fez uma aposta com um lavrador abastado, prometendo que levaria às costas para sua casa uma pipa cheia de vinho se o lavrador lha oferecesse, e o lavrador incrédulo aceitou o desafio e perdeu assim uma pipa do seu melhor vinho.
Dizem-se do Lica mil e uma coisas em que não acreditamos, porque a maior parte de nós são pessoas medíocres que usam a incredulidade para esconder a sua mediocridade, a sua cobardia, a sua falta de aceitação das coisas, pessoas e fenómenos que transcendem a insignificância das suas vidas desinteressantes.
Era essa figura temível e fantástica que saiu da rua do Chães de S. Miguel e caminhou a passadas calmas mas seguras até ao meio da rua da Portela e que depois se virou para olhar de frente o vulto que há pouco poderia parecer assustador mas que repentinamente se tornou na silhueta insignificante de um homenzinho assustado.
O Lica era um homem olhando outro homem, mas o Lica era maior do que o homem que era, porque, na verdade todos os homens têm um valor diferente daquilo que são e que aparentam, todos os homens ganham valor, ou perdem, pela história que vão construindo de si e que os acompanha pela vida fora, e até para além da vida, como se vê por este relato.
De um lado, um vulto de homem mediano, que a palidez da lua não deixava reconhecer, que tremia de medo, rodeado por quatro embuçados que lhe impediriam a fuga. Do outro lado o colosso de moca ornada de pregos, de cujo rosto se via apenas o branco dos olhos, mas que qualquer habitante de Aguim reconheceria como sendo o lendário Lica.
A coragem do homem acossado, afinal, seria digna da maior admiração, não fora o peso no bolso que lhe fazia descair um pouco o casaco para a direita, o peso do revólver de cão recuado que sobre a coxa lhe dava a garantia de aqui, hoje, nesta noite lúgubre, lhe saldar a dívida pela humilhação de que fora vítima ao ter-lhe sido furtada a pureza da mulher prometida, decerto à força, por aquele brutamontes que agora enfrentava.
Os quatro embuçados que o rodeavam, imobilizados pela consternação de um massacre já inevitável, encostavam-se às paredes das casas que ladeavam a cena, com remorsos antecipados por participarem no confronto desigual entre aquele algoz e tão débil criatura.
O Lica deu o primeiro passo devagar, deu o segundo passo mais rapidamente e prestes a lançar-se sobre a sua presa, ergueu a moca cheia de pregos.
O sino da torre da capela da Nossa Senhora do Ó de Aguim, que dá as horas sempre em duplicado, bateu de novo três vezes, fazendo vibrar o seu bronze vigoroso e lançando por três vezes de novo as ondas sonoras sobre o casario prolixo da velha vila, até que o som e o eco do som se venha a perder, agora definitivamente nos pinhais e olivais derredor.
Que não se estranhe que tanta coisa se tenha passado entre as duas vezes que o sino deu as três horas, como se quisesse apagar tudo o que se passou entrementes, tal qual acontece tanta vez com a indiferença dos homens a respeito das coisas que não entendem ou não são capazes de valorizar. Não se estranhe, porque, contrariamente, a nossa memória das coisas tende a dilatar os acontecimentos dramáticos que vivemos, e a memória de muitas pessoas, como as que transmitiram estes acontecimentos no decurso de mais de um século, tende a dilatá-los proporcionalmente.
Na verdade, tudo o que aconteceu, aconteceu entre as duas vezes que o sino deu as horas, e é de estranhar que tanta coisa se saiba.
Aquele vulto, depois de consumar a sua vingança, há de fugir para o Brasil, mas antes esconder-se-á das autoridades num tonel vazio de postigo trancado, aonde a sua irmã fará chegar pelo batoque a comida e a bebida para ele sobreviver durante um mês. O que ele fez ao que o corpo não aproveitou e sempre tem de expelir, não sabemos; são pormenores que agora também não deixaremos que venham estragar a nossa história.
O sino deu a terceira badalada, o Lica já se lança sobre a vítima desgraçada, a última onda sonora ainda não se perdeu pelos pinhais e olivais derredor e já outro som desassossega o ar desta noite lúgubre, em ondas mais rápidas, por se tratar do inconfundível estampido de um tiro que atravessou o coração de touro do embuçado mais temível de sempre. Mas isso não o fez parar. O Lica morreu correndo atrás do seu miserável matador por mais de dez ou vinte metros, conforme a credulidade de cada narrador.
Esta história acabou, já há muito que não vive ninguém que tenha conhecido os seus personagens, já são muito poucos os que ouviram falar dela. De ancião para jovem, de geração em geração esta história chegou até aqui, e entretanto, este povo, a quem alguém atribuiu brandos costumes, viu assassinar um rei, o seu sucessor, um presidente, um primeiro-ministro e o seu ministro da defesa, além disso, manteve uma guerra em três frentes do outro lado do mundo durante mais de uma década e por fim, não contente com estas reviravoltas que deu à História, fez uma revolução para começar tudo de novo. Agora luta arduamente para sair de uma crise económica e civilizacional em que nos colocaram os medíocres e covardes. Porém, este povo pode não descender de homens como o Lica, mas descende seguramente de homens capazes de dar reviravoltas à História.
Cuidado ó medíocres e covardes!

18.7.16

O último olhar do Dentinho

Pouco mais do que o seu olhar regressou com ele de África. Nem um gesto completo. O olhar, o movimento do rosto, um único dedo que obedecia à sua vontade e dentro do pesado escafandro do corpo que o aprisionava, um teimoso sopro de vida que aguentou 45 anos, e que ontem, cansado de lutar, se apeou dessa viagem.
Quanto de um homem se pode tirar para que, ainda assim, o sofrimento continue a ser possível? E quanto precisamos para valer a pena viver? O Dentinho vivia nessa fronteira entre o sofrimento inútil e a vida possível, mas acredito que se lhe tivessem feito essas perguntas, antes do seu ténue sopro de vida se ter esgotado, ele não teria uma resposta categórica para dar. Responderia com o seu último olhar, antes de partir; entre a revolta e a resignação, entre a coragem e a desilusão, entre uma ténue mas persistente vontade de continuar e a avassaladora impotência – esse seu olhar vindo desse centro geométrico onde se gera a dúvida, que é a habitual reação dos sábios às perguntas retóricas dos tolos. Esse olhar sobrevivente, que trouxe de África, com que dizia o que as palavras não dizem. E quando regressávamos a casa depois de o visitarmos, parecia que nos tinha dado uma lição sobre algo tão difícil de entender que nem sabíamos bem o que era, mas que nos tinha modificado para melhor, ou fosse lá o que fosse, que sentíamos no peito, como, às vezes, em dias de chuva, quando um pouco de sol rompe as nuvens e nos faz sentir um ténue afago de luz. Era o olhar do Dentinho. Um olhar de gratidão, de camaradagem, tão genuíno que o afago de luz que sentíamos era a nossa gratidão por nos sentirmos importantes na sua vida. Ontem esse olhar foi-lhe tirado também.

45 anos. O corpo inerte, inútil, insensível sobre a cama, a não ser por uma dor permanente que o atormentava. Um cérebro que guardava a cartografia íntegra do corpo que já morrera há muito e que lho ressuscitava em forma de dor. Esse maravilhoso cérebro humano que nos recria o mundo numa representação virtual cheia de beleza, dando-nos a ilusão de que é o mundo real que conhecemos. O cérebro teimoso a sobreviver ao próprio corpo e a dizer-lhe perversamente que o corpo ainda estava lá, não para as coisas boas que um corpo nos pode dar mas apenas para a dor. A dor fantasma dos amputados, em que o cérebro nem precisa do corpo para gerar dor, a fazer crer que a dor é a derradeira consciência que temos de nós.
Choraram na sua partida, mais porque as partidas fazem sempre chorar, do que por esse desfecho ter constituído uma enorme tragédia para alguém. De que nos apetecia chorar a todos? Do pesadelo que foi a sua vida ou da morte que o libertou? Uma jovem ao meu lado perguntava não sei a quem, talvez a Deus, o que teria feito ele para merecer a vida que viveu, depois deu um suspiro, que deve ter sido a melhor resposta que conseguiu encontrar.
Perguntar ao Deus omnipotente uma coisa destas é quase uma acusação. Se um cidadão pudesse e não tivesse salvo o Dentinho, poderia ter sido acusado de omissão de auxílio à vítima. Se um pai negligenciasse os seus deveres que estivessem assim ao seu alcance para acudir a um filho em sofrimento atroz, seria decerto acusado de violência doméstica e a Segurança Social retirar-lhe-ia o poder paternal.
É impossível resistir a esta filosofia barata quando nos sentimos impotentes perante estes mistérios existenciais sem solução, mas inventar um deus psicopata para os explicar é ainda o mais estúpido que podemos fazer.
O seu funeral atrapalhava o trânsito na rua estreita do Casal Novo de Meãs do Campo, o último incómodo que o Dentinho provocou a este mundo, ele que, condenado à vida confinada a um corpo morto, teve o amor de uma mulher prometido para o resto da sua vida vazia, e recusou. Pode oferecer-se amor recusando-o, ensinou-nos assim o Dentinho, ao libertar a sua namorada da prisão de que ninguém o libertou a ele.
Hoje, descansou finalmente o Dentinho, se o sono que dele se apossou não for, ele também, um sono povoado de pesadelos. Se a dor persiste num corpo insensível, se persiste mesmo para além do corpo, será que sobrevive algum tempo à própria morte?
Que um Deus piedoso exista, ao menos só por hoje, para ti, camarada; e que seja um deus à altura da tua lição de amor, e que te liberte definitivamente da vida de dor em que te manteve preso, ou então que se cumpra a Natureza e que regresses ao lugar de onde vieste, a esse lugar nenhum de onde viemos todos, e para onde inevitavelmente regressaremos todos um dia, e que a vida não passe de um dramático pestanejar do infinito onde, por um maravilhoso acaso se gerou a consciência humana, esta consciência que nos faz delirar de prazer e horrorizar de dor.
Nós, os teus pares, cobrimos a cabeceira do teu caixão com a bandeira do teu país, para termos uma última ilusão da sua gratidão por ti. Quando um soldado morre não deviam chorar apenas os que dele terão saudades; alguém devia, em nome do seu país, prestar-lhe homenagem pela dádiva de sangue que lhe exigiram. Se se medisse a importância de um soldado pelo seu sofrimento, terias honras de general, porque não conhecemos ninguém a quem a dor tivesse condecorado com tão grande distinção.
Mas, não fosse a bandeira verde-rubra que te levámos e ninguém se lembraria que um dia acreditaste que valia a pena lutar por este país.
Lembrámo-lo nós que combatemos contigo. Na guerra, e depois da guerra pela dignidade possível; e levámos-te também a nossa bandeira, que criámos para esse combate do pós-guerra, para cobrir-te modestamente os pés e, claro, a faixa rubra do teu clube, que ao menos na despedida é preciso respeitar as paixões mais irracionais de um homem.
À noite, reparei na lua enorme e fui olhá-la do terraço. Ali, sobre o Tovim, onde as ondas eletromagnéticas do Sol, a que chamamos luz, traduzidas pelo meu cérebro, me faziam ver, não o enorme calhau redondo que regula as marés e o ciclo menstrual das fêmeas dos mamíferos, mas sim a face iluminada da deusa da noite aprisionada pelo abraço gravitacional da Terra, que inspira os poetas e maravilha os tolos como eu.

É difícil conceber tudo isto sem um motivo transcendente, é difícil aceitar este mundo – que hoje o nosso irmão de armas abandonou, vítima de uma guerra já distante, por nada nem ninguém lhe merecer o seu sofrimento – é difícil aceitar este mundo sem propósito nem poesia nenhuma, não fora o maravilhoso cérebro humano que no-lo recria pleno de beleza para que a vida não seja apenas um erro inútil do cosmos.

Para deficientes visuais, ouça a versão áudio em ADFA-Portugal.com, na rubrica Episódios, aqui.

23.6.16

Enquanto o comboio não parte

Na Estação Velha de Coimbra, a esta hora, há sempre meia dúzia de pessoas a dormirem nos bancos. Passageiros com a viagem interrompida por algum motivo. Como se a noite os tivesse encontrado a meio da sua rota por mero acaso e eles sentissem que o relógio do corpo começara a ficar sem corda e que os membros, como ponteiros flácidos, começassem a perder toda a tenacidade, e a consciência se volatilizasse num prazer fluído pelo corpo todo.
O prazer de ir na corrente, de deixar que a gravidade nos puxe para o fundo até sermos apenas uma sombra de nós mesmos, apenas uma sombra difusa. Lá em cima, acima da linha de água, alguém às vezes chamando por nós, e a tentação de ir ao fundo, a vertigem da queda no abismo, a preguiça de lutar pela consciência… ou o medo.
Acordar para quê? A voz a chamar por nós, e uma parte de nós a querer responder e a outra a querer deixar-se ir.
A realidade pode ser intolerável. Nunca sabemos, ao acordar, onde estamos a acordar. Será que ao nosso lado vamos encontrar o rosto que chama por nós de sorriso cúmplice, por entender muito bem o motivo da nossa preguiça matinal, ou será que ao ouvirmos a voz que chama por nós, não vamos sentir coragem nenhuma de abrir os olhos porque o pesadelo que tivemos pode ser a realidade que nos espera? – Acorda! Acorda! Dão-me palmadas no rosto. Soldados a gritar à minha volta e o pó ainda quente da explosão da mina a descer devagar sobre mim.
Ou será que vamos acordar numa cama imunda de hospital? O cheiro nauseante da creolina e do éter, e a ilusão de que afinal o corpo está todo ali, porque todo ele dói. A dor em cada dedo do pé que vi desaparecer na picada ressuscitado inexplicavelmente. A reconfortante, a maravilhosa, a miraculosa dor! Excruciante, como se uma turquês estivesse a esmagar cada osso, cada tendão, cada nervo, mas ao mesmo tempo tão redentora, a devolver-me o pé perdido na explosão da mina. Será? Ou mais um pouquinho de lucidez e ao fundo, na cama, apenas um alto sob o lençol? E o cabo enfermeiro a explicar: "São dores fantasmas, furriel, pecebe?" Enquanto na cama ao meu lado o Lemos delira sob o efeito da morfina: "Sou um pirata da perna de pau, olho de vidro e cara de mau".
Perante o meu olhar atónito o enfermeiro tenta uma comparação: “Se cortarmos esse fio e mudarmos o interruptor para o corredor, lá dentro a luz acende à mesma na cama 6, pecebe?”
Acordar apenas para a dor. A dor inútil. A dor sem corpo. A dor fora do corpo. A dor no local onde deveria estar a coisa que dói, mas que não está lá. Só lá está a dor. Uma dor em cada dedo, onde não há dedo nenhum. A dor ali, no ar, a dois palmos do coto. A dor por cima do lençol sem nenhum relevo sobre a cama, a dor mesmo no local onde se lê "Hospital Militar".
O comboio está aqui parado há imenso tempo, e pelos altifalantes somos avisados de que se encontra uma composição avariada a obstruir a linha. Imagino-me a caminhar na gare. Recordo as inúmeras vezes que caminhei na gare de uma estação aguardando por um comboio que tardava, sem pressa de partir, sem urgência para chegar a lado algum, apenas esperando que o comboio viesse, parasse e me levasse, e, enquanto isso, caminhando maquinalmente para um lado e para o outro só para não estar parado, sem dar conta que era feliz por não me preocupar com o tempo que perdia, porque, afinal, a solidão não é tempo perdido, dado que é tempo que passamos a sós com a pessoa que conhecemos melhor. Às vezes puxava de mais um cigarro para fazer um parágrafo nos meus pensamentos. Para abrir um parêntesis, para mudar de página.
Um vulto composto por uma enorme mochila com uma pessoa por baixo passa à frente da janela caminhando na gare. Como estou de costas para a frente do comboio tenho que me virar para trás para seguir o vulto e vê-lo a transformar-se numa jovem de cabelos cor de palha, à medida que se vai desfazendo de tudo quanto trazia às costas e pendurado à cinta. Senta-se no chão, na posição de Buda, e desdobra um mapa que fica a estudar calmamente.
Poucas pessoas entenderão como pode parecer absurda a paz no rosto de uma jovem sentada no chão, debruçada sobre um mapa. Temo pela sua segurança, assim despreocupada sem arma nem proteção, enquanto uma saudade incompreensível se apodera de mim como se aquele ato me tivesse sido subtraído, como se fosse um papel que me coubesse desempenhar a mim e que dele tivesse sido excluído. Acho que poucas pessoas entenderão que podemos sentir falta de desdobrar um mapa sobre a G3 a servir de mesa, pousada nas pernas cruzadas, e puxar da bússola azimutal, com o único propósito de descobrirmos onde estamos, enquanto árvores centenárias construíam a nave verdejante de uma catedral viva por cima de nós.
Quase me levanto para caminhar ao longo da carruagem, só para não estar parado e fazer um parágrafo nos meus pensamentos sem a ajuda do cigarro, enquanto o comboio não parte, mas o pé que me dói não está lá para me apoiar, só a dor a desenhar a sua forma precisa; agora apenas um formigueiro como se apenas tivesse estado dormente.
De vez em quando olho pela janela e, de cada vez que olho, vejo a jovem cada vez mais recostada na mochila, prestes a adormecer.

Na Estação Velha a esta hora há sempre meia dúzia de pessoas a dormirem nos bancos. Pessoas, quero crer, que apenas adormeceram de cansaço e que vão acordar serenamente para continuarem as suas vidas. Um intervalo apenas para continuarem viagem. Pessoas que despertarão do sono sem medo de que a voz que as chama, acima da linha de água da inconsciência, as faça acordar para um pesadelo.
Pessoas para quem essa voz apenas despertará nelas, dos abismos do subconsciente, desejo vivamente, a doce memória da voz maternal a sobrepor-se aos ruídos do mundo ainda desconhecido, quando dormiam o sono intra-uterino e primordial.

Muitas horas depois de ter parado aqui, o comboio dá um grande estremeção, um enorme despertar metálico que faz estalar toda a composição, depois começa lentamente a mover-se, e reparo que o dia já nasceu e sinto que me vou afastando para sempre do que me ligava às histórias das pessoas que ficaram na gare da Estação de Coimbra. Cada vez que um comboio parte, ficam muitas histórias por contar. Fica também algo da nossa vida para trás. Uma parte de mim também não embarcou, ficou sentada na gare da Estação de Coimbra a consultar um mapa, uma última evocação de um tempo passado, dela já nada se liga a mim, agora que desapareceu. Outra parte de mim ficou nesse tempo, em África, dela trago apenas a sua forma nítida desenhada a dor. Nunca levamos tudo quando partimos de viagem.
O comboio ganha velocidade e eu vou-me afastando irreversivelmente da vida que vivi, e aproximo-me de quê, eu que viajo de costas para o destino?