23.6.16

Psicoterapia

Boa tarde senhor doutor! Dá-me licença? Obrigado!
Estou bem. Pelo menos, quando mal, sempre assim. Há um ano que andamos nisto, e eu é que gostaria de saber se estou bem. Eu sei como me sinto, mas queria saber a sua opinião.
Eu venho aqui, falo, falo, o senhor doutor vai acenando com a cabeça, escreve umas coisas nesses papéis e no fim vou para casa e volta tudo ao mesmo. Às vezes parece que estive aqui a confessar-me; até fico admirado por não me receitar uns pai-nossos e umas ave-marias.
Mas quando chego a casa a Zulmira olha para mim e diz “Atão como correu?”, como se eu viesse de um exame de condução, e eu olho para ela a perguntar a mim mesmo porque é que ainda não me pediu o divórcio. Aquela mulher ama-me, ou há muito que não estaria comigo, e eu vivo com ela por preguiça. Não é bem preguiça, é uma coisa difícil de explicar; tenho medo de precisar de fazer uma pergunta e não ter ninguém para me responder ou de querer explicar alguma coisa a alguém para eu próprio acreditar no que digo e descobrir que sou a única pessoa no mundo.
Arranjamos companhia, casamo-nos, vivemos juntos; tudo para arranjar uma testemunha para as nossas vidas. Sem uma testemunha como poderemos provar que vivemos? Não sou feliz com a Zulmira, mas ser infeliz sem companhia ainda seria pior. Preciso dela, mas preciso dela como preciso dos sonhos. Preciso que a sua presença aconteça para que os meus dias sejam mais do que uma noite escura.
Preciso de olhá-la, a ver se todo o amor que senti por ela ainda existe em mim; dado que o amor, uma vez sentido, já não pode arrepiar caminho. Mas amar é um verbo que ao ser conjugado no pretérito se anula no presente. Porém devo ter guardado em mim muito amor por ela, embora não o sinta, porque tenho consciência dele fazendo peso na alma.
Quando olho para ela sou feliz por um instante, porque sinto que o mundo não é completamente desabitado. Ela sai-me da frente e o mundo torna-se uma coisa pesada que tenho que levar sobre os ombros. E pesa-me mais a cada dia que passa.
E às vezes vem-me de repente esta vontade de sair à rua para me vingar de um mal que me fizeram, sem saber já quem é o culpado, de ir caminhando por entre as gentes como uma bomba-relógio, mas com o relógio noutro fuso horário qualquer para nunca saber se o fim está próximo e poder gozar da surpresa. Ir caminhando como um grito em todas as modelações do som. Eu, um grito. Todas as células do meu corpo numa histeria de som que as pessoas não ouvem porque são surdas à voz da consciência. Um grito que vai crescendo e um dia rebenta. Não para fazer mal aos outros, mas para me vingar da felicidade que me é estranha, para acabar de vez com a felicidade, que é a causa de toda a minha desilusão.
Um kamikaze mental, é o que eu sou, senhor doutor. Escreva aí no seu relatório: “sofre da síndrome do kamikaze” e receite-me dois pai-nossos para depois das refeições.
Já me lembrei de ir a Fátima a pé, mas não para pedir um milagre à Virgem, não; era só para sentir a esperança das pessoas que pagam a felicidade caminhando. Eu daria a volta ao mundo por um momento de esperança; nem precisava de ser feliz, apenas queria poder olhar a Zulmira como da primeira vez que fizemos amor. Eu a tirar-lhe a alça do vestido e o fio da alça a descer pelo ombro e o ombro a ficar nu, só porque aquele fiozinho lhe passava por cima. Tudo por causa da maneira como eu olhava para ela. Agora ela deita-se a meu lado sem roupa nenhuma mas não fica nua. Imagino que fique nua quando se despe para o amante e que a nudez comece ainda quando ela está vestida e alisa o vestido sobre a coxa, só para sentir a coxa por baixo do vestido. Sim, senhor doutor, a Zulmira tem um amante; não é bem um amante, é um parceiro sexual. Sei isso porque ela ainda traz um bocadinho da nudez quando regressa a casa.
Claro que não me importo! Ela dá-lhe o prazer que não me pode dar a mim e recebe um olhar que a vê nua, e não apenas despida, um olhar que se surpreende quando a calcinha já caiu e a marca do elástico desenha a fronteira do pudor a descoberto. Ia a Fátima a pé para voltar a ver essa marca da candura exposta, e não apenas um vergão do elástico.
O meu maior mal, senhor doutor, é ter vivido a crueldade sem pudor nem escrúpulos, é ter convivido com a nudez dos corpos para além da própria pele, e agora não consigo recuperar a inocência de um olhar superficial.
Não me estou a fazer de vítima, não; eu sou realmente uma vítima. Combati, sim, mas os soldados são as primeiras vítimas das guerras onde, quase sempre, são obrigados a combater; e são as últimas, porque quando a guerra acaba eles carregam-na consigo até ao fim das suas vidas.
Como se faz marcha atrás nesta viagem, senhor doutror? Isso é o que eu preciso de saber. Eu sofro de ter memória, é essa a minha doença; não consigo viver apenas no momento atual, todo o filme da minha vida está presente a toda a hora. O radiotelegrafista morre todos os dias à minha frente, o corpo a estrebuchar, lutando pela vida, e depois de um último estremecimento, a descontrair completamente com um suspiro de alívio por deixar esta vida, e por fim o rosto a perder lentamente todo o medo, toda a cólera e toda a culpa, até ficar completamente inocente. A candura da morte.
Se não há nada que me possa fazer para me tirar isto do filme da minha vida, que faço eu aqui?
Quando digo estas coisas à Zulmira, ela fica incomodada; ao menos ela chateia-se comigo. “Oh home bota outras coisas na cabeça.” E eu tentando ver se ainda havia mistério por baixo da saia dela. Dantes, ela cruzava as pernas e eu ficava com o sangue a ferver, os dedos inquietos. Agora não há mistério nenhum.
E quando aparecia de repente sem eu contar e toda a sala se iluminava? Eu não a amava como se ama uma mulher, eu sentia numa epifania com o milagre da sua presença. Mas isso perdeu-se. Ou antes, o espaço que havia em mim, em que se encaixava tudo isso, já não existe, está cheio do lixo da memória que eu não consigo deitar fora. Eu conheci a morte, senhor doutor, não a morte como fatalidade, mas a morte como propósito. Mas não julgue que é por fraqueza que sofro com isso, não, voltaria a pegar numa arma se tivesse uma boa causa para isso, mas era preciso voltar a ser inocente e ignorante e sobretudo crente, e eu perdi essas virtudes; hoje sei demais para pegar de novo numa arma. A cada tiro que se dá vai um bocado da nossa inocência com a bala, e não volta mais, e depois, quando olhamos para uma mulher despida vemos apenas um corpo, uma anatomia, e não uma vertigem, um milagre da Natureza. O que eu preciso, senhor doutor, não é de estar aqui a confessar-me, o que eu preciso é que me façam desaprender a guerra, que me restituam a ignorância, que me devolvam o erotismo de um ombro de mulher, quando a alça do vestido ao descer transforma o seu corpo ainda vestido na mais provocante nudez. É por isso que a certas horas do dia me sinto uma bomba-relógio, um kamikaze, um grito, um peregrino da desesperança caminhando entre multidões ainda atónitas com os milagres do mundo.
E depois dizem-me que a guerra que se trava dentro do meu ser não é a mesma guerra onde combati, como se a guerra fosse apenas uma troca de tiros e não uma doença sem cura, um cancro, um canibalismo da memória que nos vai consumindo sem piedade.
O quê, já terminou a consulta? Parece que estive a falar apenas dois minutos.
E então, senhor doutor, acha que estou melhor?


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28.1.16

Uma história mal contada


Eu a olhar para dentro do cacifo e a pensar “que diabo vim eu aqui fazer?”
Acabei por desistir, e dirigia-me já para a cama quando me lembrei de ter visto a tua foto descolada. Voltei para trás e tornei a abrir o cacifo.
Parece impossível, mas a tua foto descolou-se de novo. Todas as outras fotos se mantêm no lugar, a tua é a única que teima em descolar-se. Parece bruxedo.
Devo ter estado imenso tempo a olhar para dentro do cacifo, porque o furriel Bastos passou por mim com um carregador de G3 na mão, e disse:
– Parece que tens alguma coisa contra esse cacifo.
Se não fosse cá por coisas mandava-o à merda. Gosta de se armar em esperto.
Agora vim sentar-me na cama. Da cama eu vejo uma nesga da parada e ao longe o refeitório. E depois, árvores e mais árvores. Nada nem ninguém me impediria de me levantar e ir em linha reta até àquelas árvores e depois, não parar, seguir sempre em frente até desaparecer. Levariam muito tempo para darem pela minha falta, o tempo suficiente para eu me pôr ao fresco. Mas claro que não farei isso; não por patriotismo ou falta de coragem, mas pela mesma razão que nenhum dos meus camaradas o fará. É que não há nada para além do refeitório, durante centenas e centenas de quilómetros. A não ser árvores, claro.
Estamos presos neste lugar danado, numa prisão sem muros, sem nada que nos impeça de fugir. A não ser a distância. Estamos a uma distância louca de qualquer sítio para onde possamos fugir.
O furriel vem aí de novo, agora com a coronha da G3. Vem longe e já vem a arreganhar-se. Vai dizer mais uma piada, pela certa.
– Deixa lá, não fiques assim, ainda vais encontrar um cacifo que te entenda.
Às vezes penso que o senso de humor pode ser um disfarce para a estupidez. Que anda ele a fazer, levando uma peça da G3 de cada vez?
Reparo agora que estou sozinho na caserna, e a nesga da parada não tem ninguém. Parece que neste fim-de-mundo só estou eu e o furriel. Eu a magicar naquela coisa estranha de a tua foto se descolar a toda a hora, e o furriel que parece andar a roubar uma G3 peça a peça.
É tudo tão estranho quando a nossa vida é vivida fora do seu lugar. É como tentar usar um carregador de uma Kalash numa G3.
Dou por mim a pensar: não sou daqui, estou aqui a mais, e parece que ninguém se sente feliz por eu aqui estar; e no entanto, se eu tentar fugir podem até matar-me.
Não sou muito inteligente, não sei muitas coisas, é verdade, mas entendo que isto não faz sentido, e por isso não pode acabar bem. E as muitas pessoas que sabem mais do que eu já entenderam tudo há muito tempo, e é isso que mais me chateia. Nós aqui a aguentar esta guerra como se ela fosse para durar sempre, e as guerras são para ganhar ou para perder, percebes Zulmira? Nós fomos atirados para a fogueira e depois esqueceram-se de nós. Por isso sinto uma raiva enorme por eu valer tão pouco; por eu ser obrigado a estar aqui e mesmo assim fazerem de conta que eu não existo. Eu sou um carregador de uma Kalash metido numa G3, mas sou tão pouco importante que ninguém dá por isso. Sou uma personagem de uma história mal contada.
De repente lembrei-me do que queria do cacifo e voltei a abri-lo. E lá está a tua foto de novo descolada. A fita-cola é igual à das outras, mas só a tua foto é que se descola. Descola-se no bordo de cima, depois cai, presa no bordo de baixo, e fica de costas para mim com a dedicatória de pernas para o ar: “Gardo-me para ti”. Fiquei imóvel a olhar para aquilo ignorando novamente o que vim fazer.
– Gosto de vos ver assim amigos de novo.
O palerma do furriel a escangalhar-se de riso, agora com o cano da G3 a passar por mim, em direção à parada. Ele deve entrar pela secretaria mas quando sai, passa de propósito pela caserna, para me chatear. Vejo-o durante uns segundos a caminhar na parada e depois desaparece.
Dou conta que ficou aqui o maior silêncio. Não se ouve nada.
Nunca me senti tão só.
Para lá do refeitório a floresta sem fim. Um mundo vegetal que esconde um universo misterioso feito de coisas que me são estranhas e que me fascinam.

Agora que sei, tantos anos depois, Zulmira, que te perdi no dia em que fui para África, penso que estive numa terra que me deslumbrou mas que nunca conheci, onde estive preso sem cadeias, e que combati numa guerra onde morri embora tenha regressado.
Mas o que regressou de mim foi apenas um restinho que a guerra não matou.
A tua foto foi comigo e voltou comigo. Enquanto isso, tudo a mudar à nossa volta. O mundo inteiro enlouquecendo à nossa volta, e o teu sorriso na foto sempre igual. Morreram pessoas, e as que sobreviveram mudaram tanto que se pode dizer que também morreram e que vieram outras no seu lugar.
Quanto de mim recebeste tu de volta, Zulmira? E quanto de mim guarda ainda a memória do meu amor por ti?
A dada altura, tive uma certeza tão grande – uma certeza absoluta – de que deveria fazer qualquer coisa, mas fiquei parado vendo apenas as coisas deixarem de fazer sentido à minha frente.
Parado, como o teu sorriso na tua foto, o teu sorriso que teimava em se esconder como um mau agouro.
A tua foto a querer dizer-me alguma coisa, como um sinal teu atravessando o mundo todo para chegar até mim. Mas que pode fazer um soldado em que ninguém repara, embora não pudesse estar mais fora do seu lugar? Como um carregador de uma Kalash metido numa G3.
Um soldado preso à guerra, sem ter para onde fugir.
Morri em África, Zulmira; o que regressou de mim foi a parte que resistiu à loucura do mundo, porque não sofre nem ama.
O dedo no gatilho e as mãos já não me tremiam. Deixei de se eu, Zulmira, quando as mãos deixaram de me tremer ao disparar a G3.
Voltava a África se pudesse, voltava ao passado para fazer alguma coisa. Alguma coisa que me fizesse hoje ter a certeza de que não morri lá.
Gostaria de voltar a África para conhecer África sem guerra, sem o peso do perigo que não deixava apreciar a paisagem.
Voltava, para ver como era a largueza da terra sem o cansaço do corpo e a fadiga do olhar, para ver como era a paciência do tempo sem a ansiedade e sem o medo da morte.
E sem a saudade de ti, que me ia modificando lentamente, transformando-me em alguém que fui deixando de conhecer.
Voltava para um tempo onde ainda havia alguma coisa em mim que sofria e que amava, quando olhava o teu sorriso na foto. Um tempo em que o nosso amor ainda fazia sentido.
Voltava, se tu pudesses ir comigo para corrigir a história das nossas vidas. Uma história mal escrita, com uma guerra pelo meio.
Uma história que eu sei, como se ma tivessem contado, sobre um amor de que já não me lembro bem. E o amor precisa de ser lembrado, porque o amor é uma coisa da memória.
Uma história que continuou até hoje, mas que nunca se livrou da guerra.
Esta nossa história, Zulmira, que vamos vivendo e de onde se vê sempre a guerra ao fundo.
Sempre, sempre ao fundo.

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26.1.16

Palavras como que de amor

Eras vaga e indecifrável
casta na minha ignorância
Via-te desprovida de biologia
sem excreções nem ânus
E do sexo
apenas o desenho imaginado
da tua púbis
na confluência suave das coxas
sem os pormenores imperfeitos  da animalidade
Não sei quando foi que acordou em mim
a bestialidade vertiginosa
de te canibalizar

Não nos conhecíamos
e conhecemo-nos
Não nos amávamos
e amámo-nos
Mas a vida tomou conta de nós
e o tempo desgastou
o cimento entre as pedras
a pouco e pouco
até ficar uma ruína
até ficarmos soltos
a desabar
E finalmente
voltámos a desconhecer-nos

Quando cruzavas as pernas
os teus gráceis
ou ao subires as escadas
os teus glúteos
tocavam-se num átimo feliz
e depois estremeciam a acomodarem-se
insatisfeitos com as leis da inércia
Tal e qual os meus olhos a segui-los
e as minhas mãos inquietas
Mas não é o impacto do estalo
que recordo
são as ondas de choque
a corrente telúrica
por sob o teu vestido

Quase te amo
Sei que quase te amo
Só não sei quanto falta
para não ter convicções nenhumas
e ficar olhando  para o caminho
por onde hás de vir
e sentir uma diferença
algures dentro de mim
entre a epiderme e o infinito
Agora
sinto apenas uma diferença no corpo
quando te vejo chegar

Morremos tantas vezes em Mueda
Morremos sempre que uma voz se cala
por estarmos aqui
Às vezes até acordamos já mortos
por isso à noite
os soldados bebem e cantam
para adormecerem vivos

Meu inimigo
tão íntimo que somos
A vida uniu-nos
sem raiva nem ódio
A nossa arena
e o nosso lar
é  a mata antiquíssima
onde nos tentamos matar
como duas almas gémeas
aguardando uma única vida disponível

O melhor combatente
não é o que tem esperança
é aquele a quem não resta
caminho possível
para um último afeto
Solidário com a Morte
levará consigo
no derradeiro abraço
o seu mais íntimo inimigo
certo que a Vida
é uma patologia do Cosmos
é a pureza inquinada

O dia em que vais morrer já começou
Algures nesta picada tombarás
e deixarás de saber
tudo o que aprendeste
Tornar-se-á inútil
a longa corrente de seres vivos
que te antecederam
para que fosses possível
desde o princípio do mundo
até ao rebentamento da mina

A guerra é a negação de Deus
Que obra imperfeita
faz perfeito o seu criador
Nós
ao menos
temos a desculpa da estupidez

Não os deuses
mas os humanos apenas
são capazes de amor
Os seres perfeitos
não têm faces ou arestas
são as esferas
do mundo etéreo
Amá-los ou temê-los
é-lhes pois
indiferente
Os sentimentos
à escala divina
são uma imperfeição humana
que só noutra imperfeição
se refletem

É péssimo ser otimista
Quanto maior a sede
mais pequeno parece o copo

Comigo
na casa deserta
vivem
não fantasmas
mas ausências
Ausências dos afetos
e das pessoas
e
temo-o seriamente
faltar-me-ão um dia
as próprias ausências
como a insónia
que sucede
às noites mal dormidas
Que me visitem então
os fantasmas

O sobrado da adega
guardou algum tempo
os objetos esquecidos da família
Ficaram ali a desmemoriar
Quando já ninguém se lembrava
das suas histórias
foram jogados fora
como se faz
com as pessoas

A poesia
é a arte de dizer lugares-comuns
pela primeira vez

Por cada comboio que parte
ficam muitas histórias por contar
A minha história
também não embarcou
vou-me afastando irremediavelmente
da vida que vivi
e aproximo-me de quê
eu que viajo de costas para o destino

Quando estiveres perdida
procura-te no meu coração

Às vezes a noite
é um pássaro triste
que crocita saudades
num bosque distante
dentro do peito
Às vezes
um navio fantasma
num mar de brumas
e eu preso
à roda do leme
Em que porto desembarcaste
ou que vaga te levou
ou desencanto
E eu ao leme
náufrago de ti

Num sobressalto da tarde
como se uma onda batesse
no cais da minha alma
ou sei lá que dor dentro de mim
eu percebi que  já é tarde
O que acabou em ti
meu amor
ou para que poente se evadiu
Num sobressalto da tarde
como se uma ave se alvoroçasse
por entre os ramos
ou sei lá que angústia no meu peito
eu percebi que nunca mais
Que morreu em ti
meu amor
Ou será que fui eu que morri
e a onda a bater no cais
a ave agitando os ramos
e o sobressalto da tarde
são apenas saudade
A tua saudade de mim

Nunca o espaço se entrepôs
nunca o tempo
Nunca a dúvida também
que a dúvida
é a maior distância entre dois amantes
Tudo o que afrontou este amplexo
feneceu a uma simples palavra
ou a um olhar só
Que grito profundo
pôs agora em ebulição
a superfície plácida das águas
num repentino alvoroço
de aves em pânico
Que manto de sombra
da face oculta da lua
veio cobrir de medo
a luz tranquila da tarde
que repousava em teu olhar
Que maldição
que rancor
de deuses desconhecidos
querem partir este amor uno
em duas solidões
Não pôde o espaço
nem o tempo
nem a dúvida
não poderá agora o medo
Aqui me ergo
pronto para a contenda
cruzado sem fé nem demanda
os ferros brandindo
a esventrar as trevas
Um pouco mais
um pouco mais
e restituir-te-ei a madrugada

Olhei para o lado e estavas lá
na luz âmbar que vinha do mar
serena como a madrugada
antes das grandes paixões
Toquei-te e o prazer
durou mais que o gesto
Ao meu lado
quando a tarde já exausta
mergulhou no mar
tu suspensa do infinito
por um grito suspenso de ti
e o tempo como que esperando
para acontecer
Abri os olhos e estavas lá
estremunhada de amor
o arfar das ondas ainda no peito
e a luz da tarde
durando nos olhos
porque o tempo não passa
enquanto o amor não envelhece
Sei que estavas lá
serena no âmbar da tarde
porque fui feliz

As marcas do nosso amor
na areia fina
a maré apaga
ou o vento
ou a chuva
Mas a leve carícia
dos meus dedos
na fímbria do teu corpo
ainda perdura
Nem o vento
nem outras mãos
só a dissolução
da memória
no lento suicídio dos dias
O tempo
tudo destrói

Um espaço vazio
minha filha
estaria no teu lugar
Aí não seria sequer um lugar
seria a continuidade do espaço
que agora interrompes
com a tua existência
não fora a cadeia incontável de ocorrências
que te deu origem
quiçá um fator desconhecido
e irracional
talvez o amor
talvez a oxitocina no hipotálamo
talvez a brisa em Olhos d’Água
talvez o olhar da tua mãe
ao cair da tarde

Vieste do Infinito
porque no Mundo
não havia nada como tu
e o Mundo ficou
um pouco mais bonito
depois de tu chegares
No íntimo mais ínfimo de ti
existe uma canção solta de mim
um grito arrancado de mim
um segredo contado por mim
mas que não são meus
vieram do Infinito também
como tu
Recebi-os dos meus pais
assim como o perfume das rosas
que vai passando de rosa em rosa
sempre igual
até ao fim dos tempos
Às vezes fico contente
por te ter dado o Mundo
às vezes fico triste
por não te ter dado algo melhor


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Ida à praia

Ainda de noite, e um alvoroço na casa toda, como se os objetos a acordarem nervosos. Eu a reconhecer o dia especial, com o sono a pesar-me na cabeça e a ansiedade a inquietar-me o peito. A buzina da camioneta de carreira a pôr os meus pais atarantados. De cinco em cinco minutos para não deixar descuidar os mais calaceiros.
A minha mãe atarefada e sem mãos a medir – Ó Zé, no estrobes q’eu no agarro o cu às mãos ambas.
O meu pai tropeçando nas coisas como se os membros todos lhe estorvassem – Entropiquei aqui no tapete – e depois preocupado com o tempo – Vai estar rõe este ano.
E eu agora já mais desperto, mas o rosto ainda empoeirado de sono. – Ó mãe, tenho fome.
Lá fora a camioneta ainda à espera, buzina, e de cada vez que buzina a Costa Nova mais perto.
O largo do Sobreirinho ainda com a calma do sono só sobressaltada pela corrida dos retardatários, a camioneta impaciente chamando, os meus pais parecendo ter ainda um dia de trabalho pela frente e eu num incómodo bipolar, eufórico e ensonado. E a Costa Nova, afinal, ainda tão longe.
Finalmente, acomodados na camioneta, afogueados da canseira. A minha mãe a tentar uma desculpa – Nestes dias é sempre munta tagarela.
O meu pai num sobressalto – Destes a lavagem à porca?
– Estroceguei-le umas covitas. Co as patarrabas e um punhado de farinha já ficou bem assalgalhada.
Por fim a camioneta a arrancar num estertor de tísica, mas logo um alvoroço nos passageiros ao verem um último calaceiro correndo atabalhoado e largando as coisas pelo caminho.
O alvoroço acalma com o embalo da carreira e o pigarro do motor. Os passageiros a tentarem acabar o sono interrompido e eu ainda ansioso, antecipando na minha imaginação a chegada à praia nas várias versões possíveis.
O meu pai ainda desassossegado – Estou c’uma fraqueirazita.
A minha mãe com um sorriso de vitória – Toma Zé, q’eu é que tenho d’olhar por ti.
Depois o meu pai mastigando de boca seca com receio de se queixar e a minha mãe castigadora por baixo de um sorriso maternal – É isto que tu queres? Estás aí a engrolar o pão proque nem te lembrastes da pinga.
Agora sim, o silêncio e a serenidade tomam conta de todos, embora eu ainda dividido entre a preguiça e a excitação.
O melhor da viagem é a paisagem com alguns traços de outono num setembro já cansado de verão. E o meu pai agoirento – Vai estar rõe este ano.
A paisagem num desfile de imagens corrige todos os anos o álbum da minha memória. Eu a lutar com o peso na cabeça e a poeira do sono e, agora ainda, o ranço pesado das pessoas. Quando eu já prestes a sucumbir, o hálito fresco do mar a despertar-me, ainda tão levezinho, que se calhar só ilusão.
Mas de repente o bom cheiro fecal da ria, o bom aroma pútrido do moliço, o bom perfume cáustico das pirâmides de sal. E a luz que cega.
A camioneta para antes da ponte de madeira. Toda a gente a pé e depois, do outro lado, a ver a camioneta avançando a apalpar terreno com medo de a ponte cair. Agora chegando junto a nós com alívio, entre palmas e risos.
Ao longe sobre um lençol de seda azul o eterno priapismo do farol da barra.
O mundo a mudar aqui. Para trás, as coisas da vida conhecida, com densidade, familiares para os sentidos e o entendimento; para a frente, as coisas de um outro mundo que só vejo durante quinze dias por ano, feito de coisas mais limpas, sublimadas e leves, que a mente não perde tempo a tentar entender porque os sentidos as abocanham sôfregos.
Tudo cândido e sereno, salvo a inquietude do mar.
A calma das águas, a inquietude das águas; a paradoxal vida das águas a deslumbrar os tolos, os poetas e as crianças, que as pessoas com tino e responsabilidades têm mais em que pensar.
Os operários nos estaleiros numa azáfama de formigas em volta do esqueleto de um barco. Os marnotos correndo de cuecas, correndo sempre, entre a salina e o monte de sal. Os moliceiros como gôndolas gigantes a mirarem-se no espelho da ria. E a praia agora já perto.
A Barra de Aveiro passa num instante, preciso de olhar com atenção. O farol fálico a passar por nós. De noite, risca a escuridão com um longo dedo de luz a esquadrinhar o negrume em busca dos barcos que se aproximem de mais dos seus quebra-mares e nos dias de nevoeiro ronca até nos enlouquecer. A passarem por nós também as pessoas, que parecem não ter propósito nenhum senão estar ali. Nem nos olham.
Férias é não ter propósito nenhum; nós agora ainda temos um propósito, quando chegarmos ao nosso destino ficaremos também só ali. 
Em breve a areia fina da praia. A areia como moeda de troca do sal. Dizem. Os navios nórdicos em busca do sal traziam-na como lastro e despejavam-na aqui. O sal, o lastro de areia e muitos séculos fizeram a praia da Costa Nova só para nós passarmos lá quinze dias.
Finalmente o mar. Uma luz tão limpa e um ar tão leve, que as pessoas a acordarem uma a uma. As cores das barracas a decorarem a praia. Listas feitas de barracas. Barracas feitas de listas. Casas feitas com as listas das barracas. Tudo tão arrumado. Tudo tão limpo.
O som do mar ininterrupto. O enorme lençol das águas a desdobrar-se até à praia em orgasmos de espuma.
A alma a levitar.
A camioneta parou e tudo parou dentro dela, como se as pessoas pasmadas com o bulício do lado de fora. Fora da camioneta o mundo diferente, dentro da camioneta ainda o mesmo mundo que veio connosco desde o largo do Sobreirinho.
Abriram as portas e os dois mundos a misturarem-se. E nós deixámos logo de ser os mesmos. A nossa alma a misturar-se com a alma da Costa Nova.
Um moliceiro transformado numa gôndola de transporte público com o barqueiro a empurrar com uma vara o fundo da ria para trás. E o barco parecia avançar para a frente, com ele a correr de cuecas também, na amurada do barco, correndo sempre, a pé descalço, da proa para a popa de vara fincada no fundo da ria e depois da popa para a proa de vara no ar. E de novo a empurrar o fundo da ria para trás, ajudando a vela cansada de tanto se tentar agarrar ao sopro frouxo da brisa.
À espera, no atracadouro de telhado em forma de boné, outra leva de passageiros para as gafanhas.
Ao descer da carreira, as pernas bambas de preguiça, os olhos ainda emboitados de sono. Era isto que eu mais queria. Chegar ao destino e ficar aqui. Não ter propósito nenhum senão sair da camioneta de carreira e ver a Costa Nova à minha espera. Tudo a cintilar de luz e a borbulhar de vida.
E nós pasmados, numa alegria de tontos perante o belo.


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Dezembro

Gosto de estar assim sentado no carro a ver o Outono, um Outono que persiste pelo Inverno dentro indiferente ao calendário.
No Espírito Santo há uma pequena praça onde agora as folhas dos plátanos decoram o chão e um bando de pombas esvoaçando decoram o céu. Só as decorações pindéricas de Natal não decoram nada; causam o efeito de um bigode pintado a marcador no rosto da Gioconda.
Alguns idosos dão uso aos bancos quase sempre vazios e um grupo de crianças torna útil a superfície lajeada que sem eles parece servir apenas para não sujar os sapatos com o bom chão.
Se um alienígena parasse aqui por minutos pensaria que este nosso mundo é composto apenas por idosos e crianças – às vezes passa um jovem apressado, como um estrangeiro num país hostil, de fones nos ouvidos. Não concebem a vida sem uma permanente banda sonora, e não satisfeitos por se isolarem uns dos outros em casa, vêm isolar-se uns dos outros também para a rua. Prisioneiros do entretenimento permanente, vivem de cabrestos acústicos nas orelhas, moucos para o mundo.
Acho que envelheci por distração, porque não me lembro de quando deixei de criticar os hábitos estúpidos dos adultos para embirrar com os hábitos estúpidos dos jovens.
O sino da igreja transformou por instantes este recinto urbano num recanto rural, depois calou-se, e a urbanidade pousou de novo sobre todas as coisas.
Gosto de estar assim como um espetador fotografando tudo com os olhos, não mais que fotografando, não mais do que com os olhos; as pessoas passam ou estão sentadas, que diferença faz? As crianças brincam e os pássaros voam, as árvores preparam-se para o inverno que tarda. Tentar entender isto seria estúpido, porque a Natureza não tem propósitos. Porém, as decorações de Natal têm. Estão ali para o caso de termos saído à rua sem nos lembrarmos de vestir a efémera bonomia da quadra, mas depois das festas, retiram as decorações e podemos voltar sossegados ao nosso impiedoso individualismo sem sermos distraídos.
Passa uma mulher com uma saia muito curta e a cada dois passos puxa-a para baixo, realçando a longitude provocatória das pernas. A praça parece mais iluminada. Eu sinto um friozinho na barriga, uma pequena vertigem libidinosa; e em todo o dia não me lembro de ter estado mais perto da felicidade.
Amo as coisas insignificantes, como folhas caídas, voos de pomba e nudez de pernas de mulher, mas não quero guardar nada porque o que verdadeiramente amo é a efemeridade das coisas. São preciosas porque não duram muito. Haja o que houver tudo acabará, e outra coisa, igualmente perecível, tomará o seu lugar.
O próprio Sol, como todas as estrelas, extinguir-se-á; só durará mais uns milhõezitos de anos, mas antes dilatar-se-á e esturricará a Terra, e se entretanto a humanidade arranjar forma de viajar à velocidade da luz para fugir a esse dilúvio de fogo, terá que viajar alguns biliões de anos para fugir depois à colisão entre a Via Láctea e a Andrómeda, e desse terramoto galáctico não ficará nem uma sombra da memória de tudo isto.
E então deus deixará de ser amado porque não sobreviverá ninguém para acreditar nele.
Nada há mais precioso e real do que estarmos aqui e termos consciência, mesmo que por pouco tempo. Sentir e pensar, fruir e criar.
É uma grande presunção esta, achar que criamos alguma coisa, que acrescentamos à existência algo que não existia antes, seja um desenho, seja uma epopeia; quando não fazemos mais do que dispor de outra forma o que já existia, isto é, apenas nos divertimos mudando as coisas de lugar; é como redecorar a casa com os mesmos móveis. Móveis, sons, formas ou palavras; ou os desenhos casuais das pombas no cinzento do céu, tem tudo o mesmo valor – nós a mais do que as pombas só temos consciência disso.
Amar a vida é amar tudo sem fazer juízos de valor. Amar tudo, sem o imperativo de temermos a deus.
Deus, o Inconcebível.
Deslumbro-me com a Sua impossibilidade conceptual. Um ente sem tempo nem lugar para existir antes de criar o mundo, ou então coevo da sua criação: criador e criatura.
Fascina-me a ideia magnífica que tivemos ao concebe-Lo, e depois exíguos, ínfimos e perecíveis amarmo-Lo assim incógnito e transcendente.
Tão incrível como sermos nós um mito criado e depois venerado pelas bactérias que vivem no nosso intestino.
Amo tudo sem a desculpa de deus. Amo os bancos da praça aguardando que os velhos se sentem neles e a bola correndo à frente das crianças, amo os desenhos efémeros e aleatórios que as pombas criam sobre a tela do céu e a saia curta da mulher. Também amo os velhos, as crianças, as pombas e as pernas da mulher, mas menos.
Uma mão bate com os nós dos dedos no vidro da porta do carro. Agarrado a essa mão está um polícia.
- Algum problema senhor polícia?
- Boa tarde! O senhor está estacionado num lugar para automóveis elétricos.
- Estacionei aqui porque não há lugares para deficientes e porque não há carros elétricos para estacionar aqui. Se aparecer algum eu saio.
- Se não vai abandonar o veículo tudo bem.
Também amo a autoridade tolerante dos polícias como amo a aleatoriedade do mundo. Estou aqui estacionado porque um agente da autoridade não levou muito a sério o Código da Estrada e continuo vivendo porque a Natureza não é muito rigorosa a aplicar a seleção natural.
A mulher da saia curta regressa, puxando sempre a saia para baixo; dir-se-ia que não quer mostrar as pernas. Ao lado dela caminha agora outra mulher de saia comprida e botas altas. Parece faltar-lhe qualquer coisa.
Param e olham para trás. Chamam uma menina, que corre para elas. A mulher a que parece faltar qualquer coisa pega na menina ao colo, e atravessam a estrada, desaparecendo na Luís Gonzaga.
A praça parece agora menos interessante, embora os bancos, a bola e os desenhos das pombas sejam os mesmos. Mas falta a iluminura de umas pernas desnudas de mulher.
Passa um cão a correr.
Nesta praça nada me conhece, nada me quer conhecer, as coisas fazem parte deste conjunto sem vontade, emoção ou afeto; estas ou outras não alterariam o caos do universo. Só nós escolhemos os objetos das nossas relações.
Nem um só rosto conhecido à vista. Um rosto amigo que apareça no meio de desconhecidos é o correspondente humano da madrugada.
Um homem pode viver uma vida inteira sem essa revelação, sem uns olhos em que se veja e sem uns ouvidos a quem entregue os seus segredos cansados de silêncio.
Uma ambulância passa a gritar na Circular do Hospital e não parece afligir ninguém, por aqui só o cão levantou as orelhas. Uma desgraça distante pode ser ignorada mais comodamente, como se a distância a que acontecem as coisas mudasse a sua importância. Tudo serve para justificar a nossa falta de altruísmo, como se cada ato de egoísmo se justificasse com a luta pela sobrevivência.
As pombas pousaram no meio da praça, as crianças recolheram a bola, os velhos começam a sentir frio e a ir-se embora e por entre desconhecidos vejo a minha filha que regressa da aula de condução. E o mundo realiza-se perante mim com uma consistência sólida e consequente, ganhando humanidade à medida que o espaço em meu redor me acolhe como a um familiar.

As pombas levantam voo de novo e os seus desenhos no céu revelam-me quase impercetíveis formas fractais.
Se calhar a aleatoriedade é só uma organização de padrões de que ainda não conhecemos os códigos.
E a mulher da saia curta volta mais uma vez a passar à minha frente, e eu sorrio feliz.

Para eficientes visuais ouça a versão áudio em ADFA-Portugal.com, na rubrica Episódiosaqui

10.4.15

Adeus Capitão, meu Capitão!

Faleceu o Coronel José Edgar Neves Baptista Azevedo, o Capitão da 3503.


Até ao momento só soube da sua morte pelo Jornal Elo da ADFA de que era o associado 742
Nasceu e residia em Lisboa, serviu na CART 3503 em Mueda, Moçambique e faleceu a 26 de Dezembro de 2014, com 67 anos.
Receba, meu Capitão uma respeitosa continência e, meu amigo, um sentido abraço.
(Atualizarei este post quando tiver mais notícias.)

4.2.15

A Sandes do Sargento

Regressar a casa e não trazer nada. Nem a memória de um ato generoso. Nem ao menos a certeza de uma dor honrosa. Nada.
Do avião, Lisboa é um arraial de luzes na noite da minha chegada.
Num salto despropositado, a memória vai-me buscar uma outra noite no meio do cacimbo, com um vulto a ameaçar-me por não lhe ter prestado continência. O meu corpo a obedecer num aprumo covarde, enquanto os meus olhos verificavam em redor se haveria testemunhas para uma coronhada a coberto da escuridão.
– Um militar nunca perde o aprumo. Pegue lá na arma como deve ser!
A sentinela do batalhão de pescoço esticado a trair-me os instintos assassinos e eu a descer a G3 do ombro devagar, e a reconhecer nada menos que o Comandante de Setor. Há ocasiões em que apenas por um átimo não ganhámos a glória, ou deitámos tudo a perder.
Nesse dia à tarde o mesmo vulto na varanda do Hospital de Mueda, então, de galões bem visíveis à luz do sol:
– Meu filho perdeste uma perna mas mereces ganhar uma medalha.
– Estou-me cagando para as medalhas, não vê que agora é que perdi de vez o aprumo?
E o Primeiro Pala:
– Oh meu Coronel ele está a delirar, ele está a delirar.
O Império a arder e a imolar na sua consumição os próprios filhos. Quando um dia dele restarem apenas cinzas, os que não aprenderam nada proclamar-se-ão heróis, e os que esqueceram tudo, mártires. Haverá lugar para os que aprenderam e se recusam a esquecer?
Lutei, mas ninguém mo mereceu. Não trago comigo a memória de um único ato meritório, mas é verdade que os meus antigos heróis, descritos na História em caixa alta, não eram melhores do que eu; eu, porém, disto me posso orgulhar: ofereceram-me ali a honra imerecida e recusei.
Lisboa é um arraial de luzes na noite da minha chegada. O avião às voltas, às voltas, à espera de autorização para aterrar, e as luzes de Lisboa a acenderem-se, debruando as ruas e as avenidas com fiadas de estrelas. A ponte, uma constelação sobre o rio. As casas e os monumentos a desfilarem a meus pés com halos de luz sobre a tela negra da noite. A cabeça do Império num arremedo de homenagem, estendendo uma passadeira cintilante à minha chegada.
Não demora muito a fantasia. Mal chegamos ao Hospital Militar espera-nos a desatenção impaciente de um capitão, que delega num alferes, que delega num sargento a tarefa de ficar acordado enquanto esperamos não sei por que alta patente, que virá dar-nos uma palavra de afeto. Afeto? Esta é uma palavra não regulamentar. Demasiado feminina por assim dizer. Nas duas horas e meia em que estive sentado numa cadeira dura, de uma sala fria do Anexo do Hospital Militar à espera da alta patente e do afeto que nos serviria numa palavra apressada, durante as quais a fome que trazia da viagem se transformou numa tortura, não consegui deixar de me interrogar sobre este mistério. Como pôde um sentimento humano, mesmo dos mais básicos, ter contaminado a instituição militar?
A alta patente, de estatura atarracada, secundava afinal uma mulher de porte bem mais altivo e de uma elegância quase majestática que às duas da manhã nos fez um pequeno discurso a realçar a sua dedicação à causa do Movimento Nacional Feminino, que tinha a honra de presidir, como se via ali com a sua presença àquela hora tardia da madrugada.
São 2 e meia, e agora finalmente, no caminho entre a porta de armas do Anexo do Hospital Militar e o serviço de sargentos, caminha um estranho ser vivo. Ao todo contam-se duas cabeças, duas pernas completas e duas canadianas. Um estranho ser vivo com dois corpos ligados entre si por um varão composto por outras duas canadianas de onde se suspende uma mala. O corpo da direita é o Herculano e o da esquerda sou eu. E os sapatos de verniz negro do major de Lourenço Marques oferecidos pela esposa adúltera, a saltitarem trocados – o pé esquerdo do Herculano do lado direito e o meu direito do lado esquerdo – mas a marcarem passo certo para não nos desequilibrarmos.
O Herculano não para de rir-se.
– Para de te rir pá.
– Então tu pedes uma sandes de queijo e uma cerveja à Sopico Pinto? És uma anedota!
– Ela não disse que se precisássemos de alguma coisa…?
– Mas uma sandes? Ainda se lhe pedisses para alguém nos trazer as malas…
– Uma mala, que por acaso é tua.
– Mas o sargento é que não gostou da ideia. O pobre, que tinha lá a sandes para ele…
Mais um ataque de riso do Herculano. Não lhe dou troco.
Nada por aqui se parece com uma enfermaria. Sentamo-nos no meio do caminho para descansar um pouco.
– Trazes uma bigorna nesta mala?
– Este gajo é uma anedota! Comeu a sandes ao pobre do sargento.
E desata a rir novamente.
Depois de transpormos acrobaticamente o enorme obstáculo constituído por apenas três degraus da entrada do pré-fabricado que faz as vezes de enfermaria de sargentos, entramos num hall lúgubre de onde irradiam dois corredores. Só então descobrimos que não há ninguém para nos receber, e não temos como saber que cama, nem tampouco que quarto, nos foram destinados.
Enquanto o Herculano vai dizendo a frase "Este gajo é uma anedota" seguida de uma gargalhada como se fosse um refrão, eu dou por mim a pensar que me estou a afastar definitivamente da guerra. Um bloqueio mental, um sentimento de negação que me afasta demasiadamente da Guerra Colonial para poder escrever sobre ela. Olho impotente para o bloco de cartas, onde costumo rabiscar as minhas notas.
– Porque estás tu a olhar para uma folha em branco?
Deixo o Herculano de boca aberta sentado no sofá do hall e vou abrindo as portas dos quartos, uma a uma, até encontrar, a primeira cama vaga para dormir.
Acordo na manhã seguinte dentro de um caixão. Quem terá sido o imbecil que concebeu o interior dos quartos dos furriéis feridos em combate naquela forma?
Acordei com um safanão e uma cara indignada com ar de ter perdido algo mais do que a noite:
– Dormiste na minha cama.
Esta foi a primeira de muitas noites no purgatório, o Anexo, um lugar a meio caminho entre dois infernos: o desterro da guerra numa terra distante e a guerra contra o desterro na minha própria terra.
O meu país tem medo dos filhos que sacrificou.
O meu país está doente.
E lá fora, a cidade acordando serena. Lisboa, como um doente terminal ignorando a doença. Lisboa nunca acorda completamente, estremunhada de ignorância.
E protege-se de nós.


Silêncio imperfeito

O dia nasce. O sol ergue-se lentamente. É impossível avaliar o quanto este fenómeno pode trazer alegria a uma pessoa.
Impossível, porque agora, o mundo que conhecemos afastou as trevas e criou um dia constante onde nunca falta a luz. E as trevas fazem falta. Há de haver dentro de nós alguma coisa que aguarda que o dia acabe para alterar a perceção das coisas, para abrandar os sentidos e nos conectar ao mundo interior feito de registos e memórias, de sentimentos e imaginação, e que nos deixa sensíveis aos estímulos exteriores sem a ilusão de os percebermos.
Foi por isso que apaguei a luz.
Desliguei a televisão e fechei-me no quarto. E fiquei dentro de mim só. Procurei até onde pude a memória de te ter amado. Mas não consigo encontrar em mim uma única e inequívoca marca de amor por ti, apenas um difuso sentimento de amizade, ou de fraternidade, o que torna a nossa relação algo incestuosa.
Mas talvez porque não há silêncio suficiente. Nunca há. Dantes quando a luz se ia, os sons que povoavam a noite eram diferentes dos sons do dia. Eram os sons das trevas, os sons a que chamávamos silêncio. Agora não.
Dantes, se se ouviam passos na rua, em direção a Vale de Cid, isso era motivo de alarme. Ou um alvoroço nas galinhas, ou o ladrar de um cão.
É mais difícil encontrar dentro de nós seja o que for sem o silêncio das trevas.
Eu sou do tempo em que a noite era feita de trevas. Em que Aguim mudava de noite, e não apenas porque o sol se punha. Algo em nós se punha também, e era fácil acreditar em todas as coisas que nos parecem impossíveis de dia.
Sinto a falta desse mistério, desse desconhecido, desse temor que a luz desvanece.
A noite a cair e os sons da casa a despertar. As madeiras do sobrado a ranger, a estalar, a ajustarem-se aos frios noturnos. O caruncho a escarafunchar nas portas e janelas. Os ratos furtivos no sótão. Os gatos como uma mola prestes a saltar-lhes em cima. Todo um mundo de sons que não ouvimos de dia, como se a casa acordasse quando nós vamos dormir, ou nela acordassem os espíritos impacientes com a eternidade.
Agora nada disso acontece. As casas não têm segredos, não têm o silêncio que permite ouvir os sons do submundo a que deixámos de dar importância, ou os sons da distância que só o silêncio separava de nós, ou os sons interiores que sentíamos vívidos na nossa memória por não nos distrair o bulício da excessiva lucidez.
Não perceber tudo, não ter demasiadas certezas sobre nada, não explicar o que é mais interessante inexplicável, não acender a luz para verificar, para esclarecer; deixar algo encoberto como nos contos antigos, para que a imaginação nos transporte para uma dimensão da vida mais próxima do sonho, e assim podermos acreditar no que a razão não nos deixa acreditar.
Às vezes, em mim o silêncio perfeito da infância. O silêncio feito dos sons que serviam para ampliar o silêncio.
Passos na noite junto à capela de S. José. Eu acordado a meio do sono por um ritual pagão a que chamavam “Casamento das Cachopas”. Se fosse à janela, cada homem com um funil de almude na cabeça.
Agrupam-se ao lado da casa da minha vizinha como figurantes grotescos de um teatro de Pirandello. Um dos homens tira o funil da cabeça e usa-o como um megafone dando um urro lúgubre e longo na noite da minha infância. Tanto, que ainda me assusta. A minha mãe preocupada com o meu medo. O meu pai indignado com o despropósito. Eu a meio caminho entre o pavor e o espanto. Assustado e deslumbrado como só na infância.
Os homens correndo para os seus lugares numa coreografia furtiva de embuçados em torno da casa da minha vizinha.
Só um fica em frente da janela.
Uma bocarra de funil sarrenta e medonha – De quem são estas casas viradinhas prá capela? A menina que lá está dentro é de todas a mais bela!
Outro funil a responder – Não sei, não sei, mas vou perguntar.
Agora, nada de medonho na noite. Agora, longe da minha infância Aguim é uma memória com alma.
Agora, os teus passos a subir a escada.
– Venho morta de cansaço.
E atiraste-te para a cama.
Agora, um silêncio feito de coisas, todas elas conhecidas.
Os teus passos na gravilha do pátio, depois nas lajes das escadas. A chave na porta. O vento nos pinheiros. A tua respiração ofegante. O som dos teus sapatos atirados pelos pés, como se os teus pés fossem autónomos e não precisassem de ordens tuas, depois um beijo de uns lábios tão autónomos como os teus pés. E só depois disseste:
– Venho morta de cansaço.
O teu corpo sobre a cama.
Eu a pensar nesta nossa relação sem poesia nem encanto, escrevinhava num papel algumas destas palavras. A minha mão também como se não precisasse da minha ordem para escrever, enquanto eu falava contigo.
Acabaste por adormecer.
A tua roupa repousa sobre o corpo, não te veste. Debaixo, o teu corpo fervilha de vida. Cada músculo relaxado é uma mola apenas aguardando o impulso, a própria pele sob os panos é uma planície de serenidade apenas contida e o arfar do teu peito aumentando e diminuindo o volume dos seios, convida a soltá-los.
A roupa apenas pousada sobre o teu corpo como uma carícia, como um afago de pano sobre a pele, as pregas a realçarem os volumes. No côncavo das coxas uma almofada de ar sob o tecido deslisa suavemente, aproximando-se da púbis e afastando-se, conforme inspiras ou expiras, tão suavemente que se calhar é só imaginação minha.
A tua serenidade, como um abandono do teu corpo ao meu cuidado, convida todos os meus instintos de predador à visão da presa vulnerável e, ao mesmo tempo, atrai o meu olhar ao deleite tranquilo das tuas formas generosas.
O melhor de estar a olhar-te, é saber que vieste por mim, confiante em te saberes desejada. Vieste, e assim de tão serena adormeceste, confiando-me o teu corpo.
Assim, não parece errado o que fazemos, és apenas um fruto que se me oferece passivamente, como todos os frutos se nos oferecem. Como o pomo primevo se ofereceu, inocente, na alegoria de todos os pecados, para que o ónus da culpa pertença a quem o come, como se quem o come não tivesse sido predestinado para o comer, no irresolúvel paradoxo entre o destino e o livre-arbítrio.
Tu, a Eva e a maçã – dois em um. Móbil e crime, tentação e pecado, o irrecusável prazer antecipado e tão fácil e o objeto inevitável da culpa.
Às vezes penso que só te desejo porque não devia desejar-te.
E agora, no silêncio imperfeito do quarto, ouço o leve sopro da tua respiração. Era só levantar-te a roupa e consumar o meu delicioso pecado. Cumprir o meu destino, exercer o meu livre-arbítrio sem dó nem piedade e sentir-me completo com isso. Mas vou ficando imóvel e em silêncio, só para exercer este enorme poder de decidir que tudo o que fizer posso não o fazer, mas só se preferir o perverso prazer de pecar em contemplação, ao pecado simples do prazer em ato.
Faz-me falta, com dantes, a noite tenebrosa, a noite fantástica e o vago temor de que poderia nunca mais amanhecer.
Então, possuir-te-ia como uma fatalidade sem recurso – os nossos sons juntar-se-iam aos sons do silêncio: dois corpos procurando dentro um do outro algo mais do que o momento irreversível do orgasmo, e quem sabe, no sortilégio da noite cerrada, fossemos tocados pela transcendência.
Talvez assim te amasse. Fizesse mais do que desejar-te – mais que ter-te e perder-te.
E quando a noite se esvaísse amaria então, também a luz.
Enquanto dormes, eu alinhavando palavras sobre o papel como um embuçado lançando pulhas na noite do Casamento das Cachopas. Não mais do que um embuçado nesta casa cúmplice que nos acolhe – tu a pecadora inocente dormindo, como uma rês no covil do lobo, eu o próprio pecado na pérfida vigília do predador adorando a presa – e a noite, sem poesia nem mistério, avançando indiferente.
E já é dia. O sol alumia tudo. Tudo fresco, tudo renovado. E uma alegria vinda da madrugada, previsível e singela, chega até mim, mas sem a vitória sobre a noite subjugada não me contagia.
Dantes, o nascer do sol dava-me a alegria triunfal de um adolescente apaixonado.

4.12.13

Ciúme

No ar o perfume ainda fresco. O teu perfume, como se fosse a tua alma. Que ficou para trás, e tu já na rua indo para o trabalho.
O teu perfume que cheira a flor, que cheira a cio. O teu perfume de fêmea que deixa a tua marca, o teu rasto, a convidar todos os machos na tua passagem, como um trilho de tentação.
Quem te despe, Zulmira, nunca te despe totalmente, porque ficas sempre um pouco vestida com o teu perfume. Nos momentos que se seguiam ao banho, ainda sem perfume, é que te tinha totalmente nua para mim. Porque o teu perfume é apenas um véu de tentação que usas para seduzir, algo que não é teu, algo que encobre o teu próprio odor.
O teu odor sem mais nada é a nudez perfeita.
Usar perfume sobre o odor do teu corpo é como misturar coca-cola num bom vinho.
De manhã, quando acordavas é que o teu cheiro era mais puro. O teu cabelo depois do banho costumava manter a fragância frutada do shampoo, mas de manhã era possível sentir o seu verdadeiro cheiro como o hálito morno de um bosque. Na pele do pescoço mais suave, embora na nuca um tudo nada mais intenso, e à frente, na covinha acima do peito, mais delicado, mais apurado, porém nas axilas um pouco de acidez. Entre os seios mais refinado, como se por todo o corpo andasse à procura dessa afinação, e só nos teus seios fosse possível consegui-la, porque algumas pérolas de suor acrescentam um toque subtil de sal que assanha os sentidos. Na púbis uma rescendência fresca de brisa sobre o musgo. E depois, depois torna-se impossível resistir à tentação de descer logo em busca do cheiro intenso de todas as tuas hormonas na corola carnal do teu sexo.
Quem não gosta do teu cheiro, Zulmira, não gosta de ti.
Fui andando pela casa, porque caminhar sempre me ajudou a pensar, e caminhando acabei por voltar ao quarto.
As gavetas da cómoda um nadinha mal fechadas. A alça de um sutiã a espreitar-me por uma das frinchas. Só o suficiente para eu entender que te vestiste à pressa, quando ainda faltava tanto tempo para a hora de saíres.
E o teu perfume no ar.
O teu perfume, o tempero do teu corpo. Como um hamburger encharcado em mostarda para quem não gosta do sabor a carne. Agora permanece aqui, não como a tua alma, mas como a tua assombração. A tua forma em cheiro. O teu perfume que modelou o teu corpo antes de saíres. O teu perfume que durante algum tempo, pelo menos, contornou o espaço vazio onde esteve o teu corpo e que agora torna viva a tua ausência, a tua traição.
O teu perfume como um adereço de que te esqueceste no quarto, como algo que só serve para eu saber que não estás aqui.
Ao voltares, o teu perfume virá diferente. Virá como uma peça de roupa amarrotada. Manchado de outros odores, desvirtuado, abastardado. Tu mais fêmea. E o teu perfume, esse, mais masculino.
Virá diferente o teu perfume, e tu.
Tu mais calma, como se o teu corpo tivesse perdido um peso.
O teu corpo fica um barco solto sobre as águas depois de ter largado o lastro. Mas com mais vigor, mais energia.
Às vezes até ficas mais simpática e afectuosa comigo. Como se o prazer que recebeste fosse tanto que te sentisses generosa ao ponto de quereres reparti-lo comigo.
Então eu digo ”vai tomar um banho, Zulmira,” e tu olhas-me assustada. Mas é só para despires o teu perfume, porque o teu perfume é como um fato-macaco de um mecânico, que se suja, mas deixa o corpo limpo por baixo.
De certa forma, não te entregas completamente, porque uma túnica de aroma te separa sempre de quem te possui. Mas depois de tomares banho, depois de te secares, depois de o teu corpo respirar – como a relva respira depois do orvalho, como a própria terra respira depois da chuva, como a areia da praia, nua e seca ao sol, respira depois da cacimba da noite – depois, depois a tua pele suaviza e perde todos os odores que não lhe pertencem, e ficas só tu, tu sem nada que te separe de mim, porque a tua nudez completa é quando não há nada entre os meus sentidos e o teu corpo.
Só então és minha.
Só te tenho quando não há nada entre nós, nada entre o meu corpo que é mar e a tua nudez que é praia.
Desde o princípio a certeza de te amar, quando o meu olhar repousou em ti como um viajante perdido que chega a casa.
Desde o princípio, o mar tomando balanço tentando conquistar a praia. Desde o princípio, o mar desistindo. Tentando e desistindo. Desistindo e tentando. Sempre.
Eu o mar ainda. Não sei se tentando conquistar-te, se tentando libertar-me de ti. Porque eu preso a ti mas sem nunca te ter, porque eu quase solto e liberto numa onda de raiva, mas que vou e logo regresso.
Regresso para um amor impossível, porque todo o amor é impossível. O amor é a arte de possuir o que não temos. Quando o amor é bem-sucedido a história acaba, para acabar com final feliz.
Assim que é feliz acaba, porque quando temos o que amamos tudo se consuma, nada mais se pode acrescentar. Nós, Zulmira, continuámos para além do final feliz, para além do amor.
Como eu, aqui, continuo, depois de teres saído, a sentir o lugar onde estiveste. Nada nos liga, a não ser o teu perfume. E o teu perfume, Zulmira, é agora o que mais nos separa.
E a dor insuportável de não haver amor que chegue para quem sobrevive a um final feliz.
Mas se já não te amo, Zulmira, ainda amo alguma coisa em ti; algo que ninguém pode possuir, algo que permanece em ti longe dos olhos, de todos os sentidos de quem te deseja.
Não sei o que é. Quando sabemos o que é quebra-se o feitiço. Talvez o teu cheiro natural, o teu cheiro animal, o teu cheiro de fêmea que permanece submerso, subterrâneo, indetectável sob o teu perfume, e que portanto ninguém pode amar.
Só eu.
Mas eu que já não te amo por tu já não seres tu. E que já não te amo por eu já não ser eu também.
Mas alguma coisa algures em nós ainda unido. Algo só nosso que sobreviveu. Talvez apenas um pensamento antigo em comum que tivemos. Talvez a esperança de ainda virmos a ser felizes, ou apenas a memória de termos sido.
Virás com ar cansado, mas com o cansaço de quem sacrificou o corpo em benefício da alma. O cansaço bom da presa que sobrevive ao predador.
E o teu perfume.
Ou turvo como roupa demasiado usada, se não tiveste tempo de te arranjar; ou fresco, renovado, ainda não oxidado, se tiveste. E a tua traição mais descarada na tua frescura. A tua falsa frescura a tentar apagar o verdadeiro ranço da tua traição.
Mas, Zulmira, quem te tem esta noite, não te tem. Tu és a mulher que o meu amor modelou. Tu, como eu te vejo, só existes para mim.
Por vezes olhas-me como quem pergunta “porque não deu certo?” Quando o teu olhar tem assim uma pergunta sabendo que não tem resposta, é que eu vejo tudo claro. Sabes, Zulmira, esperei pelo teu amor tempo de mais, e habituei-me ao fracasso como um corpo cansado se acomoda a uma cama dura, e quando acabaste por me aceitar, vieste perturbar o meu conforto.
O teu amor por mim veio transtornar a minha acomodação ao fracasso e veio também consumar a nossa história.
Queria ter partido nesse dia.
Mas ainda aqui, esta onda a ir e a vir, desde o princípio do mundo a tentar abandonar o mar. A mesma onda há milénios a tomar balanço e a desistir numa impotência de espuma.