23.6.16

Psicoterapia

Boa tarde senhor doutor! Dá-me licença? Obrigado!
Estou bem. Pelo menos, quando mal, sempre assim. Há um ano que andamos nisto, e eu é que gostaria de saber se estou bem. Eu sei como me sinto, mas queria saber a sua opinião.
Eu venho aqui, falo, falo, o senhor doutor vai acenando com a cabeça, escreve umas coisas nesses papéis e no fim vou para casa e volta tudo ao mesmo. Às vezes parece que estive aqui a confessar-me; até fico admirado por não me receitar uns pai-nossos e umas ave-marias.
Mas quando chego a casa a Zulmira olha para mim e diz “Atão como correu?”, como se eu viesse de um exame de condução, e eu olho para ela a perguntar a mim mesmo porque é que ainda não me pediu o divórcio. Aquela mulher ama-me, ou há muito que não estaria comigo, e eu vivo com ela por preguiça. Não é bem preguiça, é uma coisa difícil de explicar; tenho medo de precisar de fazer uma pergunta e não ter ninguém para me responder ou de querer explicar alguma coisa a alguém para eu próprio acreditar no que digo e descobrir que sou a única pessoa no mundo.
Arranjamos companhia, casamo-nos, vivemos juntos; tudo para arranjar uma testemunha para as nossas vidas. Sem uma testemunha como poderemos provar que vivemos? Não sou feliz com a Zulmira, mas ser infeliz sem companhia ainda seria pior. Preciso dela, mas preciso dela como preciso dos sonhos. Preciso que a sua presença aconteça para que os meus dias sejam mais do que uma noite escura.
Preciso de olhá-la, a ver se todo o amor que senti por ela ainda existe em mim; dado que o amor, uma vez sentido, já não pode arrepiar caminho. Mas amar é um verbo que ao ser conjugado no pretérito se anula no presente. Porém devo ter guardado em mim muito amor por ela, embora não o sinta, porque tenho consciência dele fazendo peso na alma.
Quando olho para ela sou feliz por um instante, porque sinto que o mundo não é completamente desabitado. Ela sai-me da frente e o mundo torna-se uma coisa pesada que tenho que levar sobre os ombros. E pesa-me mais a cada dia que passa.
E às vezes vem-me de repente esta vontade de sair à rua para me vingar de um mal que me fizeram, sem saber já quem é o culpado, de ir caminhando por entre as gentes como uma bomba-relógio, mas com o relógio noutro fuso horário qualquer para nunca saber se o fim está próximo e poder gozar da surpresa. Ir caminhando como um grito em todas as modelações do som. Eu, um grito. Todas as células do meu corpo numa histeria de som que as pessoas não ouvem porque são surdas à voz da consciência. Um grito que vai crescendo e um dia rebenta. Não para fazer mal aos outros, mas para me vingar da felicidade que me é estranha, para acabar de vez com a felicidade, que é a causa de toda a minha desilusão.
Um kamikaze mental, é o que eu sou, senhor doutor. Escreva aí no seu relatório: “sofre da síndrome do kamikaze” e receite-me dois pai-nossos para depois das refeições.
Já me lembrei de ir a Fátima a pé, mas não para pedir um milagre à Virgem, não; era só para sentir a esperança das pessoas que pagam a felicidade caminhando. Eu daria a volta ao mundo por um momento de esperança; nem precisava de ser feliz, apenas queria poder olhar a Zulmira como da primeira vez que fizemos amor. Eu a tirar-lhe a alça do vestido e o fio da alça a descer pelo ombro e o ombro a ficar nu, só porque aquele fiozinho lhe passava por cima. Tudo por causa da maneira como eu olhava para ela. Agora ela deita-se a meu lado sem roupa nenhuma mas não fica nua. Imagino que fique nua quando se despe para o amante e que a nudez comece ainda quando ela está vestida e alisa o vestido sobre a coxa, só para sentir a coxa por baixo do vestido. Sim, senhor doutor, a Zulmira tem um amante; não é bem um amante, é um parceiro sexual. Sei isso porque ela ainda traz um bocadinho da nudez quando regressa a casa.
Claro que não me importo! Ela dá-lhe o prazer que não me pode dar a mim e recebe um olhar que a vê nua, e não apenas despida, um olhar que se surpreende quando a calcinha já caiu e a marca do elástico desenha a fronteira do pudor a descoberto. Ia a Fátima a pé para voltar a ver essa marca da candura exposta, e não apenas um vergão do elástico.
O meu maior mal, senhor doutor, é ter vivido a crueldade sem pudor nem escrúpulos, é ter convivido com a nudez dos corpos para além da própria pele, e agora não consigo recuperar a inocência de um olhar superficial.
Não me estou a fazer de vítima, não; eu sou realmente uma vítima. Combati, sim, mas os soldados são as primeiras vítimas das guerras onde, quase sempre, são obrigados a combater; e são as últimas, porque quando a guerra acaba eles carregam-na consigo até ao fim das suas vidas.
Como se faz marcha atrás nesta viagem, senhor doutror? Isso é o que eu preciso de saber. Eu sofro de ter memória, é essa a minha doença; não consigo viver apenas no momento atual, todo o filme da minha vida está presente a toda a hora. O radiotelegrafista morre todos os dias à minha frente, o corpo a estrebuchar, lutando pela vida, e depois de um último estremecimento, a descontrair completamente com um suspiro de alívio por deixar esta vida, e por fim o rosto a perder lentamente todo o medo, toda a cólera e toda a culpa, até ficar completamente inocente. A candura da morte.
Se não há nada que me possa fazer para me tirar isto do filme da minha vida, que faço eu aqui?
Quando digo estas coisas à Zulmira, ela fica incomodada; ao menos ela chateia-se comigo. “Oh home bota outras coisas na cabeça.” E eu tentando ver se ainda havia mistério por baixo da saia dela. Dantes, ela cruzava as pernas e eu ficava com o sangue a ferver, os dedos inquietos. Agora não há mistério nenhum.
E quando aparecia de repente sem eu contar e toda a sala se iluminava? Eu não a amava como se ama uma mulher, eu sentia numa epifania com o milagre da sua presença. Mas isso perdeu-se. Ou antes, o espaço que havia em mim, em que se encaixava tudo isso, já não existe, está cheio do lixo da memória que eu não consigo deitar fora. Eu conheci a morte, senhor doutor, não a morte como fatalidade, mas a morte como propósito. Mas não julgue que é por fraqueza que sofro com isso, não, voltaria a pegar numa arma se tivesse uma boa causa para isso, mas era preciso voltar a ser inocente e ignorante e sobretudo crente, e eu perdi essas virtudes; hoje sei demais para pegar de novo numa arma. A cada tiro que se dá vai um bocado da nossa inocência com a bala, e não volta mais, e depois, quando olhamos para uma mulher despida vemos apenas um corpo, uma anatomia, e não uma vertigem, um milagre da Natureza. O que eu preciso, senhor doutor, não é de estar aqui a confessar-me, o que eu preciso é que me façam desaprender a guerra, que me restituam a ignorância, que me devolvam o erotismo de um ombro de mulher, quando a alça do vestido ao descer transforma o seu corpo ainda vestido na mais provocante nudez. É por isso que a certas horas do dia me sinto uma bomba-relógio, um kamikaze, um grito, um peregrino da desesperança caminhando entre multidões ainda atónitas com os milagres do mundo.
E depois dizem-me que a guerra que se trava dentro do meu ser não é a mesma guerra onde combati, como se a guerra fosse apenas uma troca de tiros e não uma doença sem cura, um cancro, um canibalismo da memória que nos vai consumindo sem piedade.
O quê, já terminou a consulta? Parece que estive a falar apenas dois minutos.
E então, senhor doutor, acha que estou melhor?


Para deficientes visuais, ouça a versão áudio em ADFA-Portugal.com, na rubrica Episódiosaqui.

1 comentário:

Joana Bastos disse...

Que posso eu dizer perante tais palavras...Que escreves de forma tão real, tão crua, tão poética...É sempre um deleite ler aquilo que escreves, seja acerca de algo tão negro quanto a guerra, seja de algo tão belo quanto o amanhecer ou o amor.
Consigo ver, sentir, cheirar ...tudo o que descreves. Obrigada!