26.1.16

Palavras como que de amor

Eras vaga e indecifrável
casta na minha ignorância
Via-te desprovida de biologia
sem excreções nem ânus
E do sexo
apenas o desenho imaginado
da tua púbis
na confluência suave das coxas
sem os pormenores imperfeitos  da animalidade
Não sei quando foi que acordou em mim
a bestialidade vertiginosa
de te canibalizar

Não nos conhecíamos
e conhecemo-nos
Não nos amávamos
e amámo-nos
Mas a vida tomou conta de nós
e o tempo desgastou
o cimento entre as pedras
a pouco e pouco
até ficar uma ruína
até ficarmos soltos
a desabar
E finalmente
voltámos a desconhecer-nos

Quando cruzavas as pernas
os teus gráceis
ou ao subires as escadas
os teus glúteos
tocavam-se num átimo feliz
e depois estremeciam a acomodarem-se
insatisfeitos com as leis da inércia
Tal e qual os meus olhos a segui-los
e as minhas mãos inquietas
Mas não é o impacto do estalo
que recordo
são as ondas de choque
a corrente telúrica
por sob o teu vestido

Quase te amo
Sei que quase te amo
Só não sei quanto falta
para não ter convicções nenhumas
e ficar olhando  para o caminho
por onde hás de vir
e sentir uma diferença
algures dentro de mim
entre a epiderme e o infinito
Agora
sinto apenas uma diferença no corpo
quando te vejo chegar

Morremos tantas vezes em Mueda
Morremos sempre que uma voz se cala
por estarmos aqui
Às vezes até acordamos já mortos
por isso à noite
os soldados bebem e cantam
para adormecerem vivos

Meu inimigo
tão íntimo que somos
A vida uniu-nos
sem raiva nem ódio
A nossa arena
e o nosso lar
é  a mata antiquíssima
onde nos tentamos matar
como duas almas gémeas
aguardando uma única vida disponível

O melhor combatente
não é o que tem esperança
é aquele a quem não resta
caminho possível
para um último afeto
Solidário com a Morte
levará consigo
no derradeiro abraço
o seu mais íntimo inimigo
certo que a Vida
é uma patologia do Cosmos
é a pureza inquinada

O dia em que vais morrer já começou
Algures nesta picada tombarás
e deixarás de saber
tudo o que aprendeste
Tornar-se-á inútil
a longa corrente de seres vivos
que te antecederam
para que fosses possível
desde o princípio do mundo
até ao rebentamento da mina

A guerra é a negação de Deus
Que obra imperfeita
faz perfeito o seu criador
Nós
ao menos
temos a desculpa da estupidez

Não os deuses
mas os humanos apenas
são capazes de amor
Os seres perfeitos
não têm faces ou arestas
são as esferas
do mundo etéreo
Amá-los ou temê-los
é-lhes pois
indiferente
Os sentimentos
à escala divina
são uma imperfeição humana
que só noutra imperfeição
se refletem

É péssimo ser otimista
Quanto maior a sede
mais pequeno parece o copo

Comigo
na casa deserta
vivem
não fantasmas
mas ausências
Ausências dos afetos
e das pessoas
e
temo-o seriamente
faltar-me-ão um dia
as próprias ausências
como a insónia
que sucede
às noites mal dormidas
Que me visitem então
os fantasmas

O sobrado da adega
guardou algum tempo
os objetos esquecidos da família
Ficaram ali a desmemoriar
Quando já ninguém se lembrava
das suas histórias
foram jogados fora
como se faz
com as pessoas

A poesia
é a arte de dizer lugares-comuns
pela primeira vez

Por cada comboio que parte
ficam muitas histórias por contar
A minha história
também não embarcou
vou-me afastando irremediavelmente
da vida que vivi
e aproximo-me de quê
eu que viajo de costas para o destino

Quando estiveres perdida
procura-te no meu coração

Às vezes a noite
é um pássaro triste
que crocita saudades
num bosque distante
dentro do peito
Às vezes
um navio fantasma
num mar de brumas
e eu preso
à roda do leme
Em que porto desembarcaste
ou que vaga te levou
ou desencanto
E eu ao leme
náufrago de ti

Num sobressalto da tarde
como se uma onda batesse
no cais da minha alma
ou sei lá que dor dentro de mim
eu percebi que  já é tarde
O que acabou em ti
meu amor
ou para que poente se evadiu
Num sobressalto da tarde
como se uma ave se alvoroçasse
por entre os ramos
ou sei lá que angústia no meu peito
eu percebi que nunca mais
Que morreu em ti
meu amor
Ou será que fui eu que morri
e a onda a bater no cais
a ave agitando os ramos
e o sobressalto da tarde
são apenas saudade
A tua saudade de mim

Nunca o espaço se entrepôs
nunca o tempo
Nunca a dúvida também
que a dúvida
é a maior distância entre dois amantes
Tudo o que afrontou este amplexo
feneceu a uma simples palavra
ou a um olhar só
Que grito profundo
pôs agora em ebulição
a superfície plácida das águas
num repentino alvoroço
de aves em pânico
Que manto de sombra
da face oculta da lua
veio cobrir de medo
a luz tranquila da tarde
que repousava em teu olhar
Que maldição
que rancor
de deuses desconhecidos
querem partir este amor uno
em duas solidões
Não pôde o espaço
nem o tempo
nem a dúvida
não poderá agora o medo
Aqui me ergo
pronto para a contenda
cruzado sem fé nem demanda
os ferros brandindo
a esventrar as trevas
Um pouco mais
um pouco mais
e restituir-te-ei a madrugada

Olhei para o lado e estavas lá
na luz âmbar que vinha do mar
serena como a madrugada
antes das grandes paixões
Toquei-te e o prazer
durou mais que o gesto
Ao meu lado
quando a tarde já exausta
mergulhou no mar
tu suspensa do infinito
por um grito suspenso de ti
e o tempo como que esperando
para acontecer
Abri os olhos e estavas lá
estremunhada de amor
o arfar das ondas ainda no peito
e a luz da tarde
durando nos olhos
porque o tempo não passa
enquanto o amor não envelhece
Sei que estavas lá
serena no âmbar da tarde
porque fui feliz

As marcas do nosso amor
na areia fina
a maré apaga
ou o vento
ou a chuva
Mas a leve carícia
dos meus dedos
na fímbria do teu corpo
ainda perdura
Nem o vento
nem outras mãos
só a dissolução
da memória
no lento suicídio dos dias
O tempo
tudo destrói

Um espaço vazio
minha filha
estaria no teu lugar
Aí não seria sequer um lugar
seria a continuidade do espaço
que agora interrompes
com a tua existência
não fora a cadeia incontável de ocorrências
que te deu origem
quiçá um fator desconhecido
e irracional
talvez o amor
talvez a oxitocina no hipotálamo
talvez a brisa em Olhos d’Água
talvez o olhar da tua mãe
ao cair da tarde

Vieste do Infinito
porque no Mundo
não havia nada como tu
e o Mundo ficou
um pouco mais bonito
depois de tu chegares
No íntimo mais ínfimo de ti
existe uma canção solta de mim
um grito arrancado de mim
um segredo contado por mim
mas que não são meus
vieram do Infinito também
como tu
Recebi-os dos meus pais
assim como o perfume das rosas
que vai passando de rosa em rosa
sempre igual
até ao fim dos tempos
Às vezes fico contente
por te ter dado o Mundo
às vezes fico triste
por não te ter dado algo melhor


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Ida à praia

Ainda de noite, e um alvoroço na casa toda, como se os objetos a acordarem nervosos. Eu a reconhecer o dia especial, com o sono a pesar-me na cabeça e a ansiedade a inquietar-me o peito. A buzina da camioneta de carreira a pôr os meus pais atarantados. De cinco em cinco minutos para não deixar descuidar os mais calaceiros.
A minha mãe atarefada e sem mãos a medir – Ó Zé, no estrobes q’eu no agarro o cu às mãos ambas.
O meu pai tropeçando nas coisas como se os membros todos lhe estorvassem – Entropiquei aqui no tapete – e depois preocupado com o tempo – Vai estar rõe este ano.
E eu agora já mais desperto, mas o rosto ainda empoeirado de sono. – Ó mãe, tenho fome.
Lá fora a camioneta ainda à espera, buzina, e de cada vez que buzina a Costa Nova mais perto.
O largo do Sobreirinho ainda com a calma do sono só sobressaltada pela corrida dos retardatários, a camioneta impaciente chamando, os meus pais parecendo ter ainda um dia de trabalho pela frente e eu num incómodo bipolar, eufórico e ensonado. E a Costa Nova, afinal, ainda tão longe.
Finalmente, acomodados na camioneta, afogueados da canseira. A minha mãe a tentar uma desculpa – Nestes dias é sempre munta tagarela.
O meu pai num sobressalto – Destes a lavagem à porca?
– Estroceguei-le umas covitas. Co as patarrabas e um punhado de farinha já ficou bem assalgalhada.
Por fim a camioneta a arrancar num estertor de tísica, mas logo um alvoroço nos passageiros ao verem um último calaceiro correndo atabalhoado e largando as coisas pelo caminho.
O alvoroço acalma com o embalo da carreira e o pigarro do motor. Os passageiros a tentarem acabar o sono interrompido e eu ainda ansioso, antecipando na minha imaginação a chegada à praia nas várias versões possíveis.
O meu pai ainda desassossegado – Estou c’uma fraqueirazita.
A minha mãe com um sorriso de vitória – Toma Zé, q’eu é que tenho d’olhar por ti.
Depois o meu pai mastigando de boca seca com receio de se queixar e a minha mãe castigadora por baixo de um sorriso maternal – É isto que tu queres? Estás aí a engrolar o pão proque nem te lembrastes da pinga.
Agora sim, o silêncio e a serenidade tomam conta de todos, embora eu ainda dividido entre a preguiça e a excitação.
O melhor da viagem é a paisagem com alguns traços de outono num setembro já cansado de verão. E o meu pai agoirento – Vai estar rõe este ano.
A paisagem num desfile de imagens corrige todos os anos o álbum da minha memória. Eu a lutar com o peso na cabeça e a poeira do sono e, agora ainda, o ranço pesado das pessoas. Quando eu já prestes a sucumbir, o hálito fresco do mar a despertar-me, ainda tão levezinho, que se calhar só ilusão.
Mas de repente o bom cheiro fecal da ria, o bom aroma pútrido do moliço, o bom perfume cáustico das pirâmides de sal. E a luz que cega.
A camioneta para antes da ponte de madeira. Toda a gente a pé e depois, do outro lado, a ver a camioneta avançando a apalpar terreno com medo de a ponte cair. Agora chegando junto a nós com alívio, entre palmas e risos.
Ao longe sobre um lençol de seda azul o eterno priapismo do farol da barra.
O mundo a mudar aqui. Para trás, as coisas da vida conhecida, com densidade, familiares para os sentidos e o entendimento; para a frente, as coisas de um outro mundo que só vejo durante quinze dias por ano, feito de coisas mais limpas, sublimadas e leves, que a mente não perde tempo a tentar entender porque os sentidos as abocanham sôfregos.
Tudo cândido e sereno, salvo a inquietude do mar.
A calma das águas, a inquietude das águas; a paradoxal vida das águas a deslumbrar os tolos, os poetas e as crianças, que as pessoas com tino e responsabilidades têm mais em que pensar.
Os operários nos estaleiros numa azáfama de formigas em volta do esqueleto de um barco. Os marnotos correndo de cuecas, correndo sempre, entre a salina e o monte de sal. Os moliceiros como gôndolas gigantes a mirarem-se no espelho da ria. E a praia agora já perto.
A Barra de Aveiro passa num instante, preciso de olhar com atenção. O farol fálico a passar por nós. De noite, risca a escuridão com um longo dedo de luz a esquadrinhar o negrume em busca dos barcos que se aproximem de mais dos seus quebra-mares e nos dias de nevoeiro ronca até nos enlouquecer. A passarem por nós também as pessoas, que parecem não ter propósito nenhum senão estar ali. Nem nos olham.
Férias é não ter propósito nenhum; nós agora ainda temos um propósito, quando chegarmos ao nosso destino ficaremos também só ali. 
Em breve a areia fina da praia. A areia como moeda de troca do sal. Dizem. Os navios nórdicos em busca do sal traziam-na como lastro e despejavam-na aqui. O sal, o lastro de areia e muitos séculos fizeram a praia da Costa Nova só para nós passarmos lá quinze dias.
Finalmente o mar. Uma luz tão limpa e um ar tão leve, que as pessoas a acordarem uma a uma. As cores das barracas a decorarem a praia. Listas feitas de barracas. Barracas feitas de listas. Casas feitas com as listas das barracas. Tudo tão arrumado. Tudo tão limpo.
O som do mar ininterrupto. O enorme lençol das águas a desdobrar-se até à praia em orgasmos de espuma.
A alma a levitar.
A camioneta parou e tudo parou dentro dela, como se as pessoas pasmadas com o bulício do lado de fora. Fora da camioneta o mundo diferente, dentro da camioneta ainda o mesmo mundo que veio connosco desde o largo do Sobreirinho.
Abriram as portas e os dois mundos a misturarem-se. E nós deixámos logo de ser os mesmos. A nossa alma a misturar-se com a alma da Costa Nova.
Um moliceiro transformado numa gôndola de transporte público com o barqueiro a empurrar com uma vara o fundo da ria para trás. E o barco parecia avançar para a frente, com ele a correr de cuecas também, na amurada do barco, correndo sempre, a pé descalço, da proa para a popa de vara fincada no fundo da ria e depois da popa para a proa de vara no ar. E de novo a empurrar o fundo da ria para trás, ajudando a vela cansada de tanto se tentar agarrar ao sopro frouxo da brisa.
À espera, no atracadouro de telhado em forma de boné, outra leva de passageiros para as gafanhas.
Ao descer da carreira, as pernas bambas de preguiça, os olhos ainda emboitados de sono. Era isto que eu mais queria. Chegar ao destino e ficar aqui. Não ter propósito nenhum senão sair da camioneta de carreira e ver a Costa Nova à minha espera. Tudo a cintilar de luz e a borbulhar de vida.
E nós pasmados, numa alegria de tontos perante o belo.


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Dezembro

Gosto de estar assim sentado no carro a ver o Outono, um Outono que persiste pelo Inverno dentro indiferente ao calendário.
No Espírito Santo há uma pequena praça onde agora as folhas dos plátanos decoram o chão e um bando de pombas esvoaçando decoram o céu. Só as decorações pindéricas de Natal não decoram nada; causam o efeito de um bigode pintado a marcador no rosto da Gioconda.
Alguns idosos dão uso aos bancos quase sempre vazios e um grupo de crianças torna útil a superfície lajeada que sem eles parece servir apenas para não sujar os sapatos com o bom chão.
Se um alienígena parasse aqui por minutos pensaria que este nosso mundo é composto apenas por idosos e crianças – às vezes passa um jovem apressado, como um estrangeiro num país hostil, de fones nos ouvidos. Não concebem a vida sem uma permanente banda sonora, e não satisfeitos por se isolarem uns dos outros em casa, vêm isolar-se uns dos outros também para a rua. Prisioneiros do entretenimento permanente, vivem de cabrestos acústicos nas orelhas, moucos para o mundo.
Acho que envelheci por distração, porque não me lembro de quando deixei de criticar os hábitos estúpidos dos adultos para embirrar com os hábitos estúpidos dos jovens.
O sino da igreja transformou por instantes este recinto urbano num recanto rural, depois calou-se, e a urbanidade pousou de novo sobre todas as coisas.
Gosto de estar assim como um espetador fotografando tudo com os olhos, não mais que fotografando, não mais do que com os olhos; as pessoas passam ou estão sentadas, que diferença faz? As crianças brincam e os pássaros voam, as árvores preparam-se para o inverno que tarda. Tentar entender isto seria estúpido, porque a Natureza não tem propósitos. Porém, as decorações de Natal têm. Estão ali para o caso de termos saído à rua sem nos lembrarmos de vestir a efémera bonomia da quadra, mas depois das festas, retiram as decorações e podemos voltar sossegados ao nosso impiedoso individualismo sem sermos distraídos.
Passa uma mulher com uma saia muito curta e a cada dois passos puxa-a para baixo, realçando a longitude provocatória das pernas. A praça parece mais iluminada. Eu sinto um friozinho na barriga, uma pequena vertigem libidinosa; e em todo o dia não me lembro de ter estado mais perto da felicidade.
Amo as coisas insignificantes, como folhas caídas, voos de pomba e nudez de pernas de mulher, mas não quero guardar nada porque o que verdadeiramente amo é a efemeridade das coisas. São preciosas porque não duram muito. Haja o que houver tudo acabará, e outra coisa, igualmente perecível, tomará o seu lugar.
O próprio Sol, como todas as estrelas, extinguir-se-á; só durará mais uns milhõezitos de anos, mas antes dilatar-se-á e esturricará a Terra, e se entretanto a humanidade arranjar forma de viajar à velocidade da luz para fugir a esse dilúvio de fogo, terá que viajar alguns biliões de anos para fugir depois à colisão entre a Via Láctea e a Andrómeda, e desse terramoto galáctico não ficará nem uma sombra da memória de tudo isto.
E então deus deixará de ser amado porque não sobreviverá ninguém para acreditar nele.
Nada há mais precioso e real do que estarmos aqui e termos consciência, mesmo que por pouco tempo. Sentir e pensar, fruir e criar.
É uma grande presunção esta, achar que criamos alguma coisa, que acrescentamos à existência algo que não existia antes, seja um desenho, seja uma epopeia; quando não fazemos mais do que dispor de outra forma o que já existia, isto é, apenas nos divertimos mudando as coisas de lugar; é como redecorar a casa com os mesmos móveis. Móveis, sons, formas ou palavras; ou os desenhos casuais das pombas no cinzento do céu, tem tudo o mesmo valor – nós a mais do que as pombas só temos consciência disso.
Amar a vida é amar tudo sem fazer juízos de valor. Amar tudo, sem o imperativo de temermos a deus.
Deus, o Inconcebível.
Deslumbro-me com a Sua impossibilidade conceptual. Um ente sem tempo nem lugar para existir antes de criar o mundo, ou então coevo da sua criação: criador e criatura.
Fascina-me a ideia magnífica que tivemos ao concebe-Lo, e depois exíguos, ínfimos e perecíveis amarmo-Lo assim incógnito e transcendente.
Tão incrível como sermos nós um mito criado e depois venerado pelas bactérias que vivem no nosso intestino.
Amo tudo sem a desculpa de deus. Amo os bancos da praça aguardando que os velhos se sentem neles e a bola correndo à frente das crianças, amo os desenhos efémeros e aleatórios que as pombas criam sobre a tela do céu e a saia curta da mulher. Também amo os velhos, as crianças, as pombas e as pernas da mulher, mas menos.
Uma mão bate com os nós dos dedos no vidro da porta do carro. Agarrado a essa mão está um polícia.
- Algum problema senhor polícia?
- Boa tarde! O senhor está estacionado num lugar para automóveis elétricos.
- Estacionei aqui porque não há lugares para deficientes e porque não há carros elétricos para estacionar aqui. Se aparecer algum eu saio.
- Se não vai abandonar o veículo tudo bem.
Também amo a autoridade tolerante dos polícias como amo a aleatoriedade do mundo. Estou aqui estacionado porque um agente da autoridade não levou muito a sério o Código da Estrada e continuo vivendo porque a Natureza não é muito rigorosa a aplicar a seleção natural.
A mulher da saia curta regressa, puxando sempre a saia para baixo; dir-se-ia que não quer mostrar as pernas. Ao lado dela caminha agora outra mulher de saia comprida e botas altas. Parece faltar-lhe qualquer coisa.
Param e olham para trás. Chamam uma menina, que corre para elas. A mulher a que parece faltar qualquer coisa pega na menina ao colo, e atravessam a estrada, desaparecendo na Luís Gonzaga.
A praça parece agora menos interessante, embora os bancos, a bola e os desenhos das pombas sejam os mesmos. Mas falta a iluminura de umas pernas desnudas de mulher.
Passa um cão a correr.
Nesta praça nada me conhece, nada me quer conhecer, as coisas fazem parte deste conjunto sem vontade, emoção ou afeto; estas ou outras não alterariam o caos do universo. Só nós escolhemos os objetos das nossas relações.
Nem um só rosto conhecido à vista. Um rosto amigo que apareça no meio de desconhecidos é o correspondente humano da madrugada.
Um homem pode viver uma vida inteira sem essa revelação, sem uns olhos em que se veja e sem uns ouvidos a quem entregue os seus segredos cansados de silêncio.
Uma ambulância passa a gritar na Circular do Hospital e não parece afligir ninguém, por aqui só o cão levantou as orelhas. Uma desgraça distante pode ser ignorada mais comodamente, como se a distância a que acontecem as coisas mudasse a sua importância. Tudo serve para justificar a nossa falta de altruísmo, como se cada ato de egoísmo se justificasse com a luta pela sobrevivência.
As pombas pousaram no meio da praça, as crianças recolheram a bola, os velhos começam a sentir frio e a ir-se embora e por entre desconhecidos vejo a minha filha que regressa da aula de condução. E o mundo realiza-se perante mim com uma consistência sólida e consequente, ganhando humanidade à medida que o espaço em meu redor me acolhe como a um familiar.

As pombas levantam voo de novo e os seus desenhos no céu revelam-me quase impercetíveis formas fractais.
Se calhar a aleatoriedade é só uma organização de padrões de que ainda não conhecemos os códigos.
E a mulher da saia curta volta mais uma vez a passar à minha frente, e eu sorrio feliz.

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10.4.15

Adeus Capitão, meu Capitão!

Faleceu o Coronel José Edgar Neves Baptista Azevedo, o Capitão da 3503.


Até ao momento só soube da sua morte pelo Jornal Elo da ADFA de que era o associado 742
Nasceu e residia em Lisboa, serviu na CART 3503 em Mueda, Moçambique e faleceu a 26 de Dezembro de 2014, com 67 anos.
Receba, meu Capitão uma respeitosa continência e, meu amigo, um sentido abraço.
(Atualizarei este post quando tiver mais notícias.)

4.2.15

A Sandes do Sargento

Regressar a casa e não trazer nada. Nem a memória de um ato generoso. Nem ao menos a certeza de uma dor honrosa. Nada.
Do avião, Lisboa é um arraial de luzes na noite da minha chegada.
Num salto despropositado, a memória vai-me buscar uma outra noite no meio do cacimbo, com um vulto a ameaçar-me por não lhe ter prestado continência. O meu corpo a obedecer num aprumo covarde, enquanto os meus olhos verificavam em redor se haveria testemunhas para uma coronhada a coberto da escuridão.
– Um militar nunca perde o aprumo. Pegue lá na arma como deve ser!
A sentinela do batalhão de pescoço esticado a trair-me os instintos assassinos e eu a descer a G3 do ombro devagar, e a reconhecer nada menos que o Comandante de Setor. Há ocasiões em que apenas por um átimo não ganhámos a glória, ou deitámos tudo a perder.
Nesse dia à tarde o mesmo vulto na varanda do Hospital de Mueda, então, de galões bem visíveis à luz do sol:
– Meu filho perdeste uma perna mas mereces ganhar uma medalha.
– Estou-me cagando para as medalhas, não vê que agora é que perdi de vez o aprumo?
E o Primeiro Pala:
– Oh meu Coronel ele está a delirar, ele está a delirar.
O Império a arder e a imolar na sua consumição os próprios filhos. Quando um dia dele restarem apenas cinzas, os que não aprenderam nada proclamar-se-ão heróis, e os que esqueceram tudo, mártires. Haverá lugar para os que aprenderam e se recusam a esquecer?
Lutei, mas ninguém mo mereceu. Não trago comigo a memória de um único ato meritório, mas é verdade que os meus antigos heróis, descritos na História em caixa alta, não eram melhores do que eu; eu, porém, disto me posso orgulhar: ofereceram-me ali a honra imerecida e recusei.
Lisboa é um arraial de luzes na noite da minha chegada. O avião às voltas, às voltas, à espera de autorização para aterrar, e as luzes de Lisboa a acenderem-se, debruando as ruas e as avenidas com fiadas de estrelas. A ponte, uma constelação sobre o rio. As casas e os monumentos a desfilarem a meus pés com halos de luz sobre a tela negra da noite. A cabeça do Império num arremedo de homenagem, estendendo uma passadeira cintilante à minha chegada.
Não demora muito a fantasia. Mal chegamos ao Hospital Militar espera-nos a desatenção impaciente de um capitão, que delega num alferes, que delega num sargento a tarefa de ficar acordado enquanto esperamos não sei por que alta patente, que virá dar-nos uma palavra de afeto. Afeto? Esta é uma palavra não regulamentar. Demasiado feminina por assim dizer. Nas duas horas e meia em que estive sentado numa cadeira dura, de uma sala fria do Anexo do Hospital Militar à espera da alta patente e do afeto que nos serviria numa palavra apressada, durante as quais a fome que trazia da viagem se transformou numa tortura, não consegui deixar de me interrogar sobre este mistério. Como pôde um sentimento humano, mesmo dos mais básicos, ter contaminado a instituição militar?
A alta patente, de estatura atarracada, secundava afinal uma mulher de porte bem mais altivo e de uma elegância quase majestática que às duas da manhã nos fez um pequeno discurso a realçar a sua dedicação à causa do Movimento Nacional Feminino, que tinha a honra de presidir, como se via ali com a sua presença àquela hora tardia da madrugada.
São 2 e meia, e agora finalmente, no caminho entre a porta de armas do Anexo do Hospital Militar e o serviço de sargentos, caminha um estranho ser vivo. Ao todo contam-se duas cabeças, duas pernas completas e duas canadianas. Um estranho ser vivo com dois corpos ligados entre si por um varão composto por outras duas canadianas de onde se suspende uma mala. O corpo da direita é o Herculano e o da esquerda sou eu. E os sapatos de verniz negro do major de Lourenço Marques oferecidos pela esposa adúltera, a saltitarem trocados – o pé esquerdo do Herculano do lado direito e o meu direito do lado esquerdo – mas a marcarem passo certo para não nos desequilibrarmos.
O Herculano não para de rir-se.
– Para de te rir pá.
– Então tu pedes uma sandes de queijo e uma cerveja à Sopico Pinto? És uma anedota!
– Ela não disse que se precisássemos de alguma coisa…?
– Mas uma sandes? Ainda se lhe pedisses para alguém nos trazer as malas…
– Uma mala, que por acaso é tua.
– Mas o sargento é que não gostou da ideia. O pobre, que tinha lá a sandes para ele…
Mais um ataque de riso do Herculano. Não lhe dou troco.
Nada por aqui se parece com uma enfermaria. Sentamo-nos no meio do caminho para descansar um pouco.
– Trazes uma bigorna nesta mala?
– Este gajo é uma anedota! Comeu a sandes ao pobre do sargento.
E desata a rir novamente.
Depois de transpormos acrobaticamente o enorme obstáculo constituído por apenas três degraus da entrada do pré-fabricado que faz as vezes de enfermaria de sargentos, entramos num hall lúgubre de onde irradiam dois corredores. Só então descobrimos que não há ninguém para nos receber, e não temos como saber que cama, nem tampouco que quarto, nos foram destinados.
Enquanto o Herculano vai dizendo a frase "Este gajo é uma anedota" seguida de uma gargalhada como se fosse um refrão, eu dou por mim a pensar que me estou a afastar definitivamente da guerra. Um bloqueio mental, um sentimento de negação que me afasta demasiadamente da Guerra Colonial para poder escrever sobre ela. Olho impotente para o bloco de cartas, onde costumo rabiscar as minhas notas.
– Porque estás tu a olhar para uma folha em branco?
Deixo o Herculano de boca aberta sentado no sofá do hall e vou abrindo as portas dos quartos, uma a uma, até encontrar, a primeira cama vaga para dormir.
Acordo na manhã seguinte dentro de um caixão. Quem terá sido o imbecil que concebeu o interior dos quartos dos furriéis feridos em combate naquela forma?
Acordei com um safanão e uma cara indignada com ar de ter perdido algo mais do que a noite:
– Dormiste na minha cama.
Esta foi a primeira de muitas noites no purgatório, o Anexo, um lugar a meio caminho entre dois infernos: o desterro da guerra numa terra distante e a guerra contra o desterro na minha própria terra.
O meu país tem medo dos filhos que sacrificou.
O meu país está doente.
E lá fora, a cidade acordando serena. Lisboa, como um doente terminal ignorando a doença. Lisboa nunca acorda completamente, estremunhada de ignorância.
E protege-se de nós.


Silêncio imperfeito

O dia nasce. O sol ergue-se lentamente. É impossível avaliar o quanto este fenómeno pode trazer alegria a uma pessoa.
Impossível, porque agora, o mundo que conhecemos afastou as trevas e criou um dia constante onde nunca falta a luz. E as trevas fazem falta. Há de haver dentro de nós alguma coisa que aguarda que o dia acabe para alterar a perceção das coisas, para abrandar os sentidos e nos conectar ao mundo interior feito de registos e memórias, de sentimentos e imaginação, e que nos deixa sensíveis aos estímulos exteriores sem a ilusão de os percebermos.
Foi por isso que apaguei a luz.
Desliguei a televisão e fechei-me no quarto. E fiquei dentro de mim só. Procurei até onde pude a memória de te ter amado. Mas não consigo encontrar em mim uma única e inequívoca marca de amor por ti, apenas um difuso sentimento de amizade, ou de fraternidade, o que torna a nossa relação algo incestuosa.
Mas talvez porque não há silêncio suficiente. Nunca há. Dantes quando a luz se ia, os sons que povoavam a noite eram diferentes dos sons do dia. Eram os sons das trevas, os sons a que chamávamos silêncio. Agora não.
Dantes, se se ouviam passos na rua, em direção a Vale de Cid, isso era motivo de alarme. Ou um alvoroço nas galinhas, ou o ladrar de um cão.
É mais difícil encontrar dentro de nós seja o que for sem o silêncio das trevas.
Eu sou do tempo em que a noite era feita de trevas. Em que Aguim mudava de noite, e não apenas porque o sol se punha. Algo em nós se punha também, e era fácil acreditar em todas as coisas que nos parecem impossíveis de dia.
Sinto a falta desse mistério, desse desconhecido, desse temor que a luz desvanece.
A noite a cair e os sons da casa a despertar. As madeiras do sobrado a ranger, a estalar, a ajustarem-se aos frios noturnos. O caruncho a escarafunchar nas portas e janelas. Os ratos furtivos no sótão. Os gatos como uma mola prestes a saltar-lhes em cima. Todo um mundo de sons que não ouvimos de dia, como se a casa acordasse quando nós vamos dormir, ou nela acordassem os espíritos impacientes com a eternidade.
Agora nada disso acontece. As casas não têm segredos, não têm o silêncio que permite ouvir os sons do submundo a que deixámos de dar importância, ou os sons da distância que só o silêncio separava de nós, ou os sons interiores que sentíamos vívidos na nossa memória por não nos distrair o bulício da excessiva lucidez.
Não perceber tudo, não ter demasiadas certezas sobre nada, não explicar o que é mais interessante inexplicável, não acender a luz para verificar, para esclarecer; deixar algo encoberto como nos contos antigos, para que a imaginação nos transporte para uma dimensão da vida mais próxima do sonho, e assim podermos acreditar no que a razão não nos deixa acreditar.
Às vezes, em mim o silêncio perfeito da infância. O silêncio feito dos sons que serviam para ampliar o silêncio.
Passos na noite junto à capela de S. José. Eu acordado a meio do sono por um ritual pagão a que chamavam “Casamento das Cachopas”. Se fosse à janela, cada homem com um funil de almude na cabeça.
Agrupam-se ao lado da casa da minha vizinha como figurantes grotescos de um teatro de Pirandello. Um dos homens tira o funil da cabeça e usa-o como um megafone dando um urro lúgubre e longo na noite da minha infância. Tanto, que ainda me assusta. A minha mãe preocupada com o meu medo. O meu pai indignado com o despropósito. Eu a meio caminho entre o pavor e o espanto. Assustado e deslumbrado como só na infância.
Os homens correndo para os seus lugares numa coreografia furtiva de embuçados em torno da casa da minha vizinha.
Só um fica em frente da janela.
Uma bocarra de funil sarrenta e medonha – De quem são estas casas viradinhas prá capela? A menina que lá está dentro é de todas a mais bela!
Outro funil a responder – Não sei, não sei, mas vou perguntar.
Agora, nada de medonho na noite. Agora, longe da minha infância Aguim é uma memória com alma.
Agora, os teus passos a subir a escada.
– Venho morta de cansaço.
E atiraste-te para a cama.
Agora, um silêncio feito de coisas, todas elas conhecidas.
Os teus passos na gravilha do pátio, depois nas lajes das escadas. A chave na porta. O vento nos pinheiros. A tua respiração ofegante. O som dos teus sapatos atirados pelos pés, como se os teus pés fossem autónomos e não precisassem de ordens tuas, depois um beijo de uns lábios tão autónomos como os teus pés. E só depois disseste:
– Venho morta de cansaço.
O teu corpo sobre a cama.
Eu a pensar nesta nossa relação sem poesia nem encanto, escrevinhava num papel algumas destas palavras. A minha mão também como se não precisasse da minha ordem para escrever, enquanto eu falava contigo.
Acabaste por adormecer.
A tua roupa repousa sobre o corpo, não te veste. Debaixo, o teu corpo fervilha de vida. Cada músculo relaxado é uma mola apenas aguardando o impulso, a própria pele sob os panos é uma planície de serenidade apenas contida e o arfar do teu peito aumentando e diminuindo o volume dos seios, convida a soltá-los.
A roupa apenas pousada sobre o teu corpo como uma carícia, como um afago de pano sobre a pele, as pregas a realçarem os volumes. No côncavo das coxas uma almofada de ar sob o tecido deslisa suavemente, aproximando-se da púbis e afastando-se, conforme inspiras ou expiras, tão suavemente que se calhar é só imaginação minha.
A tua serenidade, como um abandono do teu corpo ao meu cuidado, convida todos os meus instintos de predador à visão da presa vulnerável e, ao mesmo tempo, atrai o meu olhar ao deleite tranquilo das tuas formas generosas.
O melhor de estar a olhar-te, é saber que vieste por mim, confiante em te saberes desejada. Vieste, e assim de tão serena adormeceste, confiando-me o teu corpo.
Assim, não parece errado o que fazemos, és apenas um fruto que se me oferece passivamente, como todos os frutos se nos oferecem. Como o pomo primevo se ofereceu, inocente, na alegoria de todos os pecados, para que o ónus da culpa pertença a quem o come, como se quem o come não tivesse sido predestinado para o comer, no irresolúvel paradoxo entre o destino e o livre-arbítrio.
Tu, a Eva e a maçã – dois em um. Móbil e crime, tentação e pecado, o irrecusável prazer antecipado e tão fácil e o objeto inevitável da culpa.
Às vezes penso que só te desejo porque não devia desejar-te.
E agora, no silêncio imperfeito do quarto, ouço o leve sopro da tua respiração. Era só levantar-te a roupa e consumar o meu delicioso pecado. Cumprir o meu destino, exercer o meu livre-arbítrio sem dó nem piedade e sentir-me completo com isso. Mas vou ficando imóvel e em silêncio, só para exercer este enorme poder de decidir que tudo o que fizer posso não o fazer, mas só se preferir o perverso prazer de pecar em contemplação, ao pecado simples do prazer em ato.
Faz-me falta, com dantes, a noite tenebrosa, a noite fantástica e o vago temor de que poderia nunca mais amanhecer.
Então, possuir-te-ia como uma fatalidade sem recurso – os nossos sons juntar-se-iam aos sons do silêncio: dois corpos procurando dentro um do outro algo mais do que o momento irreversível do orgasmo, e quem sabe, no sortilégio da noite cerrada, fossemos tocados pela transcendência.
Talvez assim te amasse. Fizesse mais do que desejar-te – mais que ter-te e perder-te.
E quando a noite se esvaísse amaria então, também a luz.
Enquanto dormes, eu alinhavando palavras sobre o papel como um embuçado lançando pulhas na noite do Casamento das Cachopas. Não mais do que um embuçado nesta casa cúmplice que nos acolhe – tu a pecadora inocente dormindo, como uma rês no covil do lobo, eu o próprio pecado na pérfida vigília do predador adorando a presa – e a noite, sem poesia nem mistério, avançando indiferente.
E já é dia. O sol alumia tudo. Tudo fresco, tudo renovado. E uma alegria vinda da madrugada, previsível e singela, chega até mim, mas sem a vitória sobre a noite subjugada não me contagia.
Dantes, o nascer do sol dava-me a alegria triunfal de um adolescente apaixonado.

4.12.13

Ciúme

No ar o perfume ainda fresco. O teu perfume, como se fosse a tua alma. Que ficou para trás, e tu já na rua indo para o trabalho.
O teu perfume que cheira a flor, que cheira a cio. O teu perfume de fêmea que deixa a tua marca, o teu rasto, a convidar todos os machos na tua passagem, como um trilho de tentação.
Quem te despe, Zulmira, nunca te despe totalmente, porque ficas sempre um pouco vestida com o teu perfume. Nos momentos que se seguiam ao banho, ainda sem perfume, é que te tinha totalmente nua para mim. Porque o teu perfume é apenas um véu de tentação que usas para seduzir, algo que não é teu, algo que encobre o teu próprio odor.
O teu odor sem mais nada é a nudez perfeita.
Usar perfume sobre o odor do teu corpo é como misturar coca-cola num bom vinho.
De manhã, quando acordavas é que o teu cheiro era mais puro. O teu cabelo depois do banho costumava manter a fragância frutada do shampoo, mas de manhã era possível sentir o seu verdadeiro cheiro como o hálito morno de um bosque. Na pele do pescoço mais suave, embora na nuca um tudo nada mais intenso, e à frente, na covinha acima do peito, mais delicado, mais apurado, porém nas axilas um pouco de acidez. Entre os seios mais refinado, como se por todo o corpo andasse à procura dessa afinação, e só nos teus seios fosse possível consegui-la, porque algumas pérolas de suor acrescentam um toque subtil de sal que assanha os sentidos. Na púbis uma rescendência fresca de brisa sobre o musgo. E depois, depois torna-se impossível resistir à tentação de descer logo em busca do cheiro intenso de todas as tuas hormonas na corola carnal do teu sexo.
Quem não gosta do teu cheiro, Zulmira, não gosta de ti.
Fui andando pela casa, porque caminhar sempre me ajudou a pensar, e caminhando acabei por voltar ao quarto.
As gavetas da cómoda um nadinha mal fechadas. A alça de um sutiã a espreitar-me por uma das frinchas. Só o suficiente para eu entender que te vestiste à pressa, quando ainda faltava tanto tempo para a hora de saíres.
E o teu perfume no ar.
O teu perfume, o tempero do teu corpo. Como um hamburger encharcado em mostarda para quem não gosta do sabor a carne. Agora permanece aqui, não como a tua alma, mas como a tua assombração. A tua forma em cheiro. O teu perfume que modelou o teu corpo antes de saíres. O teu perfume que durante algum tempo, pelo menos, contornou o espaço vazio onde esteve o teu corpo e que agora torna viva a tua ausência, a tua traição.
O teu perfume como um adereço de que te esqueceste no quarto, como algo que só serve para eu saber que não estás aqui.
Ao voltares, o teu perfume virá diferente. Virá como uma peça de roupa amarrotada. Manchado de outros odores, desvirtuado, abastardado. Tu mais fêmea. E o teu perfume, esse, mais masculino.
Virá diferente o teu perfume, e tu.
Tu mais calma, como se o teu corpo tivesse perdido um peso.
O teu corpo fica um barco solto sobre as águas depois de ter largado o lastro. Mas com mais vigor, mais energia.
Às vezes até ficas mais simpática e afectuosa comigo. Como se o prazer que recebeste fosse tanto que te sentisses generosa ao ponto de quereres reparti-lo comigo.
Então eu digo ”vai tomar um banho, Zulmira,” e tu olhas-me assustada. Mas é só para despires o teu perfume, porque o teu perfume é como um fato-macaco de um mecânico, que se suja, mas deixa o corpo limpo por baixo.
De certa forma, não te entregas completamente, porque uma túnica de aroma te separa sempre de quem te possui. Mas depois de tomares banho, depois de te secares, depois de o teu corpo respirar – como a relva respira depois do orvalho, como a própria terra respira depois da chuva, como a areia da praia, nua e seca ao sol, respira depois da cacimba da noite – depois, depois a tua pele suaviza e perde todos os odores que não lhe pertencem, e ficas só tu, tu sem nada que te separe de mim, porque a tua nudez completa é quando não há nada entre os meus sentidos e o teu corpo.
Só então és minha.
Só te tenho quando não há nada entre nós, nada entre o meu corpo que é mar e a tua nudez que é praia.
Desde o princípio a certeza de te amar, quando o meu olhar repousou em ti como um viajante perdido que chega a casa.
Desde o princípio, o mar tomando balanço tentando conquistar a praia. Desde o princípio, o mar desistindo. Tentando e desistindo. Desistindo e tentando. Sempre.
Eu o mar ainda. Não sei se tentando conquistar-te, se tentando libertar-me de ti. Porque eu preso a ti mas sem nunca te ter, porque eu quase solto e liberto numa onda de raiva, mas que vou e logo regresso.
Regresso para um amor impossível, porque todo o amor é impossível. O amor é a arte de possuir o que não temos. Quando o amor é bem-sucedido a história acaba, para acabar com final feliz.
Assim que é feliz acaba, porque quando temos o que amamos tudo se consuma, nada mais se pode acrescentar. Nós, Zulmira, continuámos para além do final feliz, para além do amor.
Como eu, aqui, continuo, depois de teres saído, a sentir o lugar onde estiveste. Nada nos liga, a não ser o teu perfume. E o teu perfume, Zulmira, é agora o que mais nos separa.
E a dor insuportável de não haver amor que chegue para quem sobrevive a um final feliz.
Mas se já não te amo, Zulmira, ainda amo alguma coisa em ti; algo que ninguém pode possuir, algo que permanece em ti longe dos olhos, de todos os sentidos de quem te deseja.
Não sei o que é. Quando sabemos o que é quebra-se o feitiço. Talvez o teu cheiro natural, o teu cheiro animal, o teu cheiro de fêmea que permanece submerso, subterrâneo, indetectável sob o teu perfume, e que portanto ninguém pode amar.
Só eu.
Mas eu que já não te amo por tu já não seres tu. E que já não te amo por eu já não ser eu também.
Mas alguma coisa algures em nós ainda unido. Algo só nosso que sobreviveu. Talvez apenas um pensamento antigo em comum que tivemos. Talvez a esperança de ainda virmos a ser felizes, ou apenas a memória de termos sido.
Virás com ar cansado, mas com o cansaço de quem sacrificou o corpo em benefício da alma. O cansaço bom da presa que sobrevive ao predador.
E o teu perfume.
Ou turvo como roupa demasiado usada, se não tiveste tempo de te arranjar; ou fresco, renovado, ainda não oxidado, se tiveste. E a tua traição mais descarada na tua frescura. A tua falsa frescura a tentar apagar o verdadeiro ranço da tua traição.
Mas, Zulmira, quem te tem esta noite, não te tem. Tu és a mulher que o meu amor modelou. Tu, como eu te vejo, só existes para mim.
Por vezes olhas-me como quem pergunta “porque não deu certo?” Quando o teu olhar tem assim uma pergunta sabendo que não tem resposta, é que eu vejo tudo claro. Sabes, Zulmira, esperei pelo teu amor tempo de mais, e habituei-me ao fracasso como um corpo cansado se acomoda a uma cama dura, e quando acabaste por me aceitar, vieste perturbar o meu conforto.
O teu amor por mim veio transtornar a minha acomodação ao fracasso e veio também consumar a nossa história.
Queria ter partido nesse dia.
Mas ainda aqui, esta onda a ir e a vir, desde o princípio do mundo a tentar abandonar o mar. A mesma onda há milénios a tomar balanço e a desistir numa impotência de espuma.

5.11.13

A Pedreira

Parámos e o furriel disse:
– Mantenham-se em formação com as armas em posição de fogo até novas ordens.
E eu a pensar “Este gajo está com medo de quê, isto não é só para proteger uns pretos a partir pedra? Queres ver que logo no primeiro dia vamos ter porrada.”
Não sei porque me veio isto agora à ideia aqui no meio do areal da Costa Nova, tantos anos depois. A Zulmira lá em cima na barraca e eu a passear junto ao mar.
Porque me incomoda o mar tão calmo? Porque me dá a ideia que algo se prepara em segredo por detrás desta calma toda? As pessoas ao longe, onde o mar é mais fundo a nadarem numa algazarra de festa mas eu a sentir a calma das águas e a pensar “Aqui há coisa”.
O furriel inquieto a olhar para os pretos a partir pedra no fundo da pedreira e eu a pensar “Aqui há coisa, então nós viemos só para proteger estes gajos e o furriel tão nervoso?”
Daí a nada o furriel a dizer entre dentes “Filho da puta”, e eu olhei para baixo e perguntei:
– Ó furriel, há azar?
Mas ele não tirava os olhos dos pretos a partirem pedra, e nisto, lá em baixo, um branco com uma vara a bater num preto, e o furriel:
– Filho da puta!
Porque não me saem estas coisas da cabeça? Ao tempo que isto lá vai. Eu bem caminho pela beira-mar fora a ver se se me limpam as ideias – agora as pessoas como moscas ao longe, e o mar tão calmo a fazer-me impressão. Mas estas coisas vão e voltam de novo como a maré que traz uma espuma meio amarelada até aos meus pés e depois a leva de volta. Um metro para cá, um metro para lá, numa calma que me irrita. Na minha cabeça, uma porta a bater, e a minha mãe:
– Ó Zé deixaste a porta aberta!
E eu a voltar para trás com o saco de batatas às costas para fechar a porta da adega, tão calmo como o mar hoje. A voz da minha mãe, mesmo zangada nunca me irritava.
Na minha cabeça a porta da adega a bater de novo, mas agora em vez da voz da minha mãe, o furriel:
– Filho da puta!
Tudo misturado, tudo ao mesmo tempo a fazer-me confusão. Achei que se viesse caminhar onde a areia é dura, não a seca onde enterramos os pés, nem a que está debaixo de água, onde nos afundamos, mas aquela faixa de areia entre o mar e a praia, aquele meio-termo onde podemos caminhar como se fosse em terra firme, enfim, achei que me acalmasse. Mas não, só imagino toda a raiva que pode estar por detrás de um mar calmo, a tempestade que se prepara algures para além do céu azul, e esta areia molhada, nem seca nem submersa; esta indecisão, esta incerteza aumenta a minha inquietação.
Lá no fundo da pedreira os pretos a partirem pedra. O furriel a desconfiar de alguma coisa. O capataz a bater no preto com a vara. O furriel a dizer “Filho da puta”. A porta da adega a bater. A minha mãe: “Ó Zé deixaste a porta aberta”. Parece que as coisas me vêm à ideia assim como estilhaços de alguma coisa que se partiu, e que se perderam as partes mais importantes.
Quando tento lembrar-me de alguma coisa é assim, só estilhaços. Quanta coisa se perde, meu Deus, na vida de um homem, para sempre, para sempre.
De repente o furriel a pegar no rádio e a gritar:
– O que é que eu faço ao gajo? Nada? Nada? Então no plano da operação eu não vinha práqui pra proteger os mineiros?
Lembro-me dos soldados deitados no chão a deixarem de olhar para a mata e a olharem para ele.
– Eu vim foi guardar escravos!
Parecia um cão raivoso aos círculos. Depois agarra na G3 como quem vai dar um tiro em alguém
e dá dois passos a descer a pedreira, mas para. Lá em baixo o capataz batia de vez em quando num preto. Nem era com muita força, era como nós fazemos aos bois, mais por hábito que outra coisa.
E o furriel envergonhado por lhe terem faltado os tomates para fazer ali uma desgraceira, e depois a passar por mim a dizer palavrões, com os olhos muito brilhantes. Se tivesse ido, se tivesse descido, se o outro tivesse resistido e se o furriel o tivesse insultado, tudo poderia ter acontecido, porque o capataz trazia uma pistola. Hoje, ao menos, teria uma história interessante para recordar, assim dá-me a impressão que pouca coisa aconteceu.
De tudo o que vivi, o que consigo recordar? Alguns estilhaços. Cada dia com vinte e quatro horas, em cada hora tanta coisa a acontecer à nossa volta. Rostos, vozes, sentimentos, afetos e ódios. Tantas palavras ditas, tantos gestos feitos, tantas coisas importantes que esquecemos.
Se nos lembrássemos de tudo seria melhor? Não sei, sinto o som de uma porta a bater e estas coisas vêem-me à ideia, aos bocados, tudo misturado, mas tenho a impressão que as partes mais importantes não me sobem à ideia, ficam afundadas no esquecimento para me pouparem. Se nos lembrássemos de tudo seriamos escravos do passado. A memória é uma doença mental, se não houvesse esquecimento enlouquecíamos todos.
Mas o que terá dito o furriel quando passou por mim com os olhos a brilharem de raiva? Sei que disse alguma coisa mas não me lembro. Dizia palavrões entre dentes, isso eu sei, mas ele disse qualquer coisa que me intrigou na altura e agora não me vem à ideia. Ficou esquecido e esquecido ficará para sempre, mas era uma coisa importante para eu agora entender porque sinto medo e raiva ao ver o mar tão calmo.
Eu ponho-me a aparafusar estas coisas e acabo por chegar à conclusão que afinal éramos todos escravos. Levaram-nos à força ou ao engano para lá, e se refilássemos muito também estávamos feitos ao bife. Éramos escravos a guardar escravos. Se calhar é mesmo assim que as coisas funcionam. Os homens livres não guardam escravos. Se aceitamos que um de nós seja escravo, somos todos escravos. Ah… engraçado, se não me engano foi algo assim que o furriel disse. Faltou-lhe a coragem para enfrentar o capataz e pôs-se ali a filosofar.
Lá em baixo na pedreira o capataz batia nos pretos com muita calma, quase com afeto, como nós fazemos com o gado. E a raiva do furriel a destoar daquela calma toda.
A mesma raiva que eu sinto ao ver o mar calmo. As pessoas a mergulharem nas ondas vezes sem conta, a chapinharem na água, a recuarem quando as ondas se aproximam, a avançarem para a água quando ela recua e a recuarem de novo quando ela avança, uma coisa tão inocente, tão infantil que quase me traz as lágrimas aos olhos, e de repente a voz do furriel:
– Filho da puta!
Porque me vêm estas coisas à ideia como uma porta a bater?


12.10.13

A estranheza do regresso a casa

O táxi passa no Largo da Capela e o sino dá as horas. Não sei quantas. As quatro cornetas do relógio elétrico da torre de Aguim esganiçam-se com as ave-marias, e depois berram as horas a que ninguém dá atenção. Acho que as pessoas se habituaram àquele despropósito de decibéis como se habituam a um mau cheiro.
O táxi desce lentamente a rua da Portela com o condutor a esperar pacientemente que as pessoas se afastem. As pessoas em Aguim conversam nas ruas e afastam-se apenas por gentileza quando um carro quer passar, o que parece ser entendido pelo taxista que não dá sinais de indignação ou sequer de impaciência.
Agora me lembro que o taxista me fez uma pergunta há imenso tempo, e respondo meio distraído:
– Sim, isto da perna foi na guerra.
– Foi na Guiné?
É difícil imaginar agora que as pessoas hão-de desaparecer das ruas, que um dia a urbanidade há-de contaminar esta povoação como uma virose e destruir completamente a sua pitoresca ruralidade, e então, por não terem nada que fazer nos campos as pessoas hão-de sair das suas casas para os empregos o mais rapidamente possível, deixando as ruas vazias.
É sempre difícil imaginar que uma coisa a que nos habituámos e que criou a identidade de algo que nos era familiar há-de desaparecer para sempre, para dar lugar a uma outra coisa no mesmo sítio, não porque seja melhor, não porque constitua uma evolução, mas apenas e tão só porque tudo neste mundo parece estar condenado a cumprir a regra mais cruel e estúpida de toda a criação: tudo tem de ter um fim.
Mas agora e aqui, está tudo na mesma, e é isso justamente que me surpreende. O mesmo ritmo, a mesma respiração, a mesma atmosfera, a mesma vida; como se eu não tivesse saído daqui há mais de meia hora.
Cheguei a casa.
Parece que deixei o filme da “Aldeia da Roupa Branca” a meio, que depois assisti à pior parte do "Dia mais Longo", mas que entretanto regressei.
Tudo na mesma em Aguim, e eu muito mais velho. Segundo a teoria da relatividade, deveria ser o contrário.
Deixei o taxista de novo sem resposta…
– Não foi na Guiné, foi em Moçambique.
– Aquilo lá está mau, não está?
A luz sólida traz-me à memória, por contraste, a luz fluida de África. Os objetos aqui mais tangíveis, quase ferindo os olhos, como coisas inorgânicas, áridas, quase feitas só de luz, sem a humidade omnipresente da selva que dá a todas as coisas uma viscosidade animal.
Dá-me a ideia que ainda não penetrei totalmente neste mundo, que ainda não me é possível perceber todos os pormenores. O próprio som no exterior do táxi tem dissonâncias estranhas, como se as vozes das pessoas por quem passamos fossem declamadas com o tom mal colocado, e os ruídos que me chegam aos ouvidos tivessem uma estranheza, um desconserto, a fazerem lembrar uma filarmónica a afinar os instrumentos antes do espetáculo.
Parece que estou num plateau durante a rodagem de um filme, sem pertencer ao elenco. O táxi penetra no cenário, num travelling lento, e os figurantes ignoram-no. Ou antes, passam eles por nós, desfilando de um lado e do outro.
– Aquilo lá está mesmo mau.
– Mas pra si acabou.
Olho a toda a volta tentando prestar atenção a tudo o que me vai envolvendo, tentando apreender os pormenores. As pessoas rindo despreocupadas. Duas mulheres falando em voz alta a uma distância de vinte metros, sem esperar que se aproximem uma da outra, e continuando a falar alto, mesmo quando já estão frente a frente. Um gato sobre um muro. Um cão passando por baixo e o gato enfolando à sua passagem e a esvaziar depois lentamente, à medida que o cão se afasta.
No Sobreirinho, um carro de bois faz com que o taxista pare o táxi. Uma junta de bois babando-se de dolência e extenuação, arrastando uma enorme carrada de estrume. Os bois, à vez, vão largando sobre o alcatrão do Largo do Sobreirinho, à medida que passam por nós, tartes frescas e fumegantes de bosta. O taxista abre o vidro como se se tivesse sentido convidado para fruir o aroma daquele festim escatológico. Eu também abro o meu e sinto o cheiro quente do estrume e depois o aroma fresco da bosta. De janelas abertas, o som do exterior aumenta e torna-se mais natural como se tivéssemos ambos regulado o equalizador de uma aparelhagem sonora.
O carro de bois segue pela rua da Lomba e o táxi faz os últimos 100 metros atrás dele, ao ralenti.
– É verdade… Para mim acabou.
– Você tem saudades disto, não tem?
Algo muda em mim repentinamente. Como quando temos uma dúvida e de repente se nos faz luz; como quando estamos dolentes com a preguiça matinal, sem vontade de abrirmos os olhos, e de repente sentimos a lucidez da vigília; como quando estamos distraídos no meio de uma multidão de estranhos e de repente um rosto familiar sorri para nós. Realizou-se tudo em meu redor como se eu tivesse acordado.
Cheguei a casa.
Parece impossível, agora, que tenha deixado para trás tanta terra, tanto mar, tanta gente, tanta ansiedade, tanta dor. Parece que atravessei um túnel imenso e que acabei agora de sair para a luz do dia. Um passado de que já não faço parte. Uma história que não quer ser contada, uma história que já não sinto a menor vontade de contar.
– Tenho mesmo saudades disto…
Cheguei a casa.

A 50 metros à minha frente, a minha mãe e a Ti Maria do Zé Sécio conversam ao sol.


Versão audio para deficientes visuais (em breve)

A imponderável densidade do ser

Estiquei o aerograma em cima do carregador da G3, e nada. Não há meio de encontrar a frase certa para começar a carta. Sempre tive dificuldade em começar as conversas, tu sabes. Tu a olhares para mim, à espera de eu dizer aquelas coisas que todos os homens sabem dizer na hora certa, e eu sempre à procura da frase ideal para começar a conversa. E nada. Saía um sorriso tosco, e tu ficavas a olhar para mim incomodada.
Eu queria dizer-te alguma coisa que recebesses como uma prenda. Eu queria que as minhas palavras ficassem para sempre na tua memória como um estribilho de uma canção.
Mas alguém chegava, e com duas tretas incendiava o teu olhar, e tu levantavas-te e passavas por mim sem me ver. Tudo tão simples. Tudo tão banal. O amor só complica, Zulmira.
E fiquei a pensar nisto.
Eu tinha escrito: Zulmira, vírgula, e depois não me saiu mais nada. Que se pode dizer à mulher que a gente gosta e que está do outro lado do mundo, quando eu a tive ao pé de mim tanta vez, e não era capaz de falar?
O padre a perguntar: "Aceita Zulmira da Conceição Fernandes para sua esposa, e promete amá-la e respeitá-la na saúde e na doença, todos os dias da sua vida até que a morte vos separe?" Bastaria dizer que sim e pronto, mas eu a pensar na pergunta, porque seria uma coisa para toda a vida. Percebes?
Às vezes as palavras só estorvam. Aqui então, o silêncio diz tudo o que temos para dizer. Andamos uma tarde inteira aos tiros, e no fim, contados os mortos e os feridos, trocamos apenas silêncios uns com os outros.
Uma ocasião, nós todos calados, só os olhos procurando os olhos; e no meio daquele silêncio, um gajo de Nancatari, já não sei quem, para o Capitão Aveiro: "Esta guerra é uma merda, meu Capitão!"
E continuámos calados porque o silêncio une-nos mais que as palavras.
Com o amor é a mesma coisa, Zulmira, quando digo que amo, não amo, digo só. Quando amo, nenhuma palavra me satisfaz. Por isso olho para este aerograma e não sei o que escrever.
No cais de Alcântara, eu no barco a acenar. Eu, o Candeias, o Camões e o Caseiro, e tanta mão a acenar de volta, mas nenhuma para mim. O furriel Caseiro a dizer comovido: "Estai descansados que vamos regressar todos sãos e salvos!" Algumas mãos tinham lenços que faziam lembrar o adeus à virgem em Fátima, e eu nas calmas porque não amava ninguém ali. Percebes?
Nunca soube o que dizer-te, Zulmira. Quando chegava a noite, e os teus olhos pareciam dois poços fundos onde uma pessoa pode cair, eu olhava-te e gostaria tanto de te dizer aquilo que te fizesse levantar e atravessar uma sala cheia de gente para vires para os meus braços, e nada. Ficava só a olhar para ti.
Às vezes no Café, eu estava sentado a um canto e via-te chegar. Via-te, e qualquer coisa se modificava dentro de mim.
Olhavas à tua volta e o teu olhar varria tudo em redor, como o farol da Barra.
Senti o feixe de luz aquecer-me o rosto, como um sopro quente, depois continuei às escuras. Apeteceu-me deixar cair o copo para te chamar a atenção. Que havia de dizer eu a uma mulher que varre o bar de luz e não me vê?
Era urgente dizer alguma coisa, mas não podia precipitar-me, não podia dizer uma coisa qualquer, porque seria uma coisa para toda a vida. E tu a levantares-te e a saíres sorridente, enquanto ele te avaliava pelas costas, rapidamente, porque para ele seria algo só por uma noite. O amor só complica, Zulmira.
Dantes chegava uma carta tua e eu sentia uma dorzinha boa na barriga. Agora, parece que a dor subiu e aperta-me a garganta.
Há qualquer coisa diferente nas tuas cartas. As palavras são as mesmas, é verdade, mas é como se eu tas ouvisse dizer meia distraída. Sem olhares para mim.
Ainda escrevo no papel amarelado do aerograma: Zulmira, vírgula, mas depois as palavras não vêm, e eu fico a olhar para o aerograma. E o furriel para mim, armado em parvo: "Hás-de arranjar inspiração antes de a guerra acabar!".
E eu guardei o aerograma no bolso do dólmen.
E a foto que tirei pra te mandar… Eu não sou aquele que ficou no papel. Pareço um bandido desterrado de arma na mão. Nunca pareço eu nas fotos que me tiram, mas aqui com este camuflado sujo e com a G3 nas mãos, pareço uma alma penada. Eu olho para o furriel e acho que ele foi sempre assim. Parece que se sente bem no meio desta desgraça. Parece um turista com a arma num ombro e a máquina fotográfica no outro. A gente a fazer o golpe-de-mão, a queimar aquilo tudo, e ele a tirar fotografias. Tudo tão simples, tão banal, percebes Zulmira?
Mas para mim isto é tudo muito complicado, estas coisas vão ficar dentro de nós para toda a vida Zulmira. Isto não é uma guerra, isto é um sacrifício.
Se tudo o que tenho está aí junto a ti, Zulmira, que vim eu aqui fazer?
Eu queria apenas cumprir o meu dever, e ser um bom soldado Zulmira, mas não se pode ser um bom soldado numa guerra de merda.
Sinto tantas saudades tuas! Sinto saudade das tuas coisas sobre a mesa-de-cabeceira, das tuas coisas de mulher colocadas de um outro jeito sobre o tampo da mesa, da tua roupa arrumada de uma outra forma. Nem em cem anos de treino eu seria capaz de colocar as coisas assim.
A forma como penteias o cabelo, como pões a cabeça. Há dias vi uma preta fazer isso e chorei. Porque aquele gesto não me pertencia; e o teu, sendo teu, é um bocadinho meu. É por isso que não consigo escrever estas coisas, porque sei que parecem disparates. O furriel diz que é poesia, a mangar comigo.
Aqui só há coisas de homens. Mesmo uma escova ou um pente nas nossas mãos são apenas ferramentas. Quando as colocamos numa mesa elas ficam caídas, nada mais, e parecem logo coisas inúteis. Parecem abandonadas. As tuas não, as tuas continuam a ter alguma coisa de ti. Mesmo a tua colher sobre a toalha da mesa se distingue de todas as outras colheres. Eu sinto falta dessa humanidade que deixas numa simples colher sobre a toalha, mesmo quando já não estás à mesa. Há uma ternura nos teus gestos que faz com que as coisas ganhem intimidade contigo.
Não imagino como seria se pegasses numa G3. Mas deixaria de ser uma arma nas tuas mãos.
E as palavras que me escreves. São palavras limpas. Parece que não poderia dizer-se aquilo de outra maneira. As palavras saem-te e tu escreve-las no papel, depois eu leio-as aqui e sei o que sentiste. Por isso é que agora ao ler as tuas palavras, sei que alguma coisa mudou, porque não consigo adivinhar o que sentiste quando escreveste.
Há dias em que a mágoa embota tudo, como quando se estende um aerograma no carregador da G3, e se escreve: Zulmira, vírgula, mas as palavras importantes não saem.
E o furriel: "Hás-de arranjar inspiração antes de a guerra acabar!".
Tive que deitar aquele aerograma fora por estar todo sujo e amarrotado, e arranjar outro, depois esperei que toda a gente estivesse a dormir, e vim para aqui, junto da luz da entrada da caserna, e as palavras vieram uma a uma. A noite escura, a lua bolachuda, a luz fosca da entrada da caserna, e eu a lembrar-me de ti com os olhos húmidos a tirar-me a roupa como se estivesses a roubar alguma coisa. E em mim, de repente um calor, uma espécie de raiva, uma vontade louca de te castigar. Eu a lembrar-me de te ter possuído como um varrasco com cio, e as palavras a chegarem, vindas não sei de onde.

Não do sítio de onde me vem o amor por ti, Zulmira, que o amor só complica.

O Ser e a coisa

[...]

Só depois soube que já não vinhas. Se tivesses vindo, ter-nos-íamos sentado certamente àquela mesa para nos olharmos e dizermos coisas que nada tivessem a ver com o nosso encontro nesta casa abandonada há muito, para permitir que o desejo nos surpreendesse, e surpreendendo, nos tornasse inocentes.
O desejo diminui a culpa. Esta solidão aumenta-a.
O peso das chaves desta casa no meu bolso, como o peso de um objecto roubado.
E também o peso da traição; que a traição não precisa de corpo para pesar, nem precisa de ser consumada, basta ter sido tentada. Mas se tivesses vindo, a traição teria pelo menos a compensação do prazer, e não seria um espaço vazio como aquele pires, como aquela cadeira, como esta casa toda, abandonada por se ter tornado insuportável a solidão. Mas já não vens, e o agouro da traição aumenta, porque a culpa sem a tua cumplicidade me atormenta só a mim.