A todos os homens com coragem para lutar. A todos os homens com coragem para desertar. A todas as mulheres com coragem para perdoar a ambos.
6.4.10
Relâmpagos
Café
A minha avó sopra uma brasa. A brasa numa cama de caruma. Sopra.
Depois acende-se uma chama na caruma e nos olhos da minha avó.
Em breve o aroma do café da manhã atraía todos em redor da mesa da cozinha do forno.
Desde aquela brasa até à máquina de cápsulas de café passou tanto tempo que eu já não devia lembrar-me disto, mas sempre que tomo a bica sinto que me falta qualquer coisa.
E não é café.
Cansaço
À hora em que o sol preguiçoso de Outono se servia da erva alta para desenhar longas pestanas de sombra sobre o pó da estrada de Vale de Cide, eu olhava os jornaleiros, cansado só de ver os corpos estomagados pelo martírio do farpão nas leivas barrentas dos vinhedos do Solão.
A minha doce lassidão perante a tortura.
Eles, talvez interpretando a inclinação da luz, pousavam o farpão. E a tarde morria.
Endireitavam a custo o dorso, com ambas as mãos apoiando as cruzes. Quase se ouviam os gonzos perros daquelas costas a ranger.
E espreguiçavam o olhar pela estrada fora, por onde se faria o caminho para o descanso.
Setembro
Quando o Verão era mais barato apanhávamos a camioneta para a Costa Nova.
Passávamos a ponte de madeira a pé. Ao longe cones de sal.
Se só os cones eram brancos, porque é que aquelas manhãs de Setembro da minha infância passaram para os meus sonhos?
Cão
Uma árvore caída sobre um rio.
A água passando alheia a este drama.
A impressão que longe daqui me morreu alguém. Muito longe daqui.
Quem se importa?
Um cão ladra ao longe só para aumentar este desalento.
Guerra
O vento soprava vindo de Sueste. Uma farripa de cabelo passava-me à frente dos olhos entrecortando a paisagem. Claro, escuro. Claro, escuro.
As palavras do Dr. Diógenes a falar do dever e da honra. As palavras do meu pai a falar de afectos. A guerra à espera.
Como se podem tomar decisões com o cabelo à frente dos olhos?
Mina
A fila de soldados deixava marcas de pés no chão. À medida que as marcas eram feitas ouvia-se um pequeno ruído como se o chão gemesse ao ser pisado pelos pés dos soldados.
Às vezes o chão fazia um ruído muito maior ao ser pisado.
Nunca devemos pousar os pés num chão que não nos queira bem.
Misses
O médico olhou para o Lemos e concluiu que, ainda assim, muito do Lemos se tinha salvo, e perguntou a pergunta que perguntava sempre:
– Sente-se bem?
E o Lemos:
– Sr. Doutor, tenho a impressão que o meu pénis está a modos que sem acção.
No Domingo à tarde, as vencedoras do concurso das misses de Nampula vieram visitar o Lemos.
O médico, satisfeito com o resultado, passou a sorrir pela cama do Lemos, na Segunda-feira de manhã.
Não há dúvida que a Medicina é uma ciência humana.
Dormidas
No Cais do Sodré um sem-abrigo dormita de mão estendida. O braço direito esticado e apoiado sobre o joelho.
Um boné sebento na mão diz a quem passa: "Dêem qualquer coisinha".
Dormita, porque é difícil manter os olhos abertos à indiferença humana.
Na esquina da rua, uma porta diz a quem passa: "Dormidas".
Em frente da porta, uma mulher anda de um lado para o outro como uma sentinela à entrada de um quartel.
Quando passa um homem sem ouvir o que diz o boné mas conseguindo ler o que diz a porta, ela entra com ele, e depois a janela do primeiro andar fecha-se.
Passados alguns minutos ela vem depositar uma moeda no boné.
E por uns segundos o sem-abrigo abre os olhos para uma réstia de humanidade.
Milagre
No hospital de Hamburgo havia muita gente que acreditava em milagres, mas nem todos os pernetas que foram a Lourdes tinham fé. Porém o Giló andava em silêncio a matutar naquilo.
Pelo sim pelo não, mais valia acreditar. E nós, cínicos, encorajávamo-lo.
No regresso, o Giló vinha envergonhado por ainda estar perneta.
Apesar de cínicos, nenhum de nós se riu.
Só deus se aproveita dos ingénuos.
Coragem
Os generais da junta médica militar mediram-me de alto a baixo e fizeram o que lhes mandaram fazer: deram-me alta porque a minha cama fazia falta para tanto ferido que a guerra fabricava.
E ficou deliberado que ao sair dali eu estaria restabelecido.
– Assine aqui.
– Não assino nada.
– É uma ordem.
Não assinei.
Um acto de coragem, mesmo inútil, faz mais pelo nosso amor-próprio do que a cobardia proveitosa.
Abril
Felizmente, a 25 de Abril de 1974 tudo mudou ao nascer do dia. Tudo, menos as pessoas com certezas.
Nós, os que temos dúvidas, temos também a honestidade de mudar frequentemente de opinião.
Eles são desonestos porque quando mudam, mudam de uma certeza para outra.
Paz
Durante anos e anos esqueci a guerra.
Esqueci, não – escondi-a no fundo da memória onde não se ouvissem os tiros. Só às vezes em sonhos o chão rebentava todo debaixo de mim.
Mas de manhã os teus olhos inventavam a paz no mundo.
Palco
Um homem triste. Um veterano pegando numa câmara fotográfica como se fosse uma arma.
Uma mulher muito bela imagina-se uma mariposa sob a luz.
Uma cadeira. Uma mesa. Parecem abandonadas sobre o palco.
Uma sala vazia leva mais solidão.
O homem aponta a câmara ao público. Dispara.
Cada pessoa ao sair para a rua, ainda levava um pouco de dor no peito.
Titanic
A crise é um barco a naufragar sem salva-vidas para todos.
O governo pede que sejamos patriotas e fiquemos no porão enquanto os passageiros da primeira classe se salvam.
Os sindicatos dizem que se não há salvação para todos, que vá tudo ao fundo.
Os políticos da orquestra de câmara continuam a fazer o que sabem e dão-nos música.
Aposto que neste filme os responsáveis não têm dignidade para se afogarem com o barco.
Relâmpagos
Quem faz a história é o leitor. Por isso nem tudo deve ser descrito, para que os silêncios entre as palavras deixem espaço à sua imaginação.
Eu só apanhei estas palavras por aí e pouco mais fiz com elas.
Um pouco mais de poesia e seriam música, um pouco menos e seriam preces. Não te iluminam o caminho, são breves relâmpagos apenas. Se te ajudar, fecha os olhos e lê.
26.2.10
Orgulho-me do Medo
Às vezes de manhã
o cacimbo aumentava a raiva
e o dedo pelo mapa
deixava um risco invisível
a caminho da morte
Os olhos inocentes dos soldados
a perguntarem à medida
que a inteligência acordava
Porque lutamos
se ninguém o merece
Hoje somos manchas
numa foto encardida
pelo ranço do tempo
mas ainda se vê o medo
no olhar inteligente dos soldados
(c) Manuel Guinato
7.10.09
Aniversário - 6 anos
Parabéns para mim… Nesta data querida…

Em Novembro o Cacimbo faz 6 anos (vide primeiro post >aqui<). Merece parabéns e já está em idade de frequentar a primária para aprender a escrever.
Em Novembro o seu autor vai ser "presenteado" pela CGA com o Suplemento Especial de Pensão atribuído aos antigos combatentes, que por motivos pessoais se recusa a usufruir e que decidiu entregar a uma ONG até descobrir uma forma de o fazer chegar seguramente a quem gostaria que dele usufruísse: as crianças de Mueda onde combateu.
Exorto daqui todos os meus irmãos de armas a fazerem o mesmo, nem que para isso tenhamos que criar uma associação.
A todos os visitantes deste blog, continuo a oferecer palavras apenas.
Mas é isto que sou aqui: palavras apenas; as imagens e sons apanham apenas boleia com as palavras. Mas não vos dou nada meu, que as palavras não têm dono. Eu sou apenas um apanhador de palavras. Apanho-as por aí e depois junto-as, tentando desenhar com elas o imponderável corpo dos sentimentos.
Mas não se iludam, nada do que digo é verdade. A Verdade é uma palavra prostituída; juntamente com o Amor, vendem-se por aí a quem prometer mais. O que digo é apenas o que ficou dentro de mim depois de excluídos todos os dados concretos que aproximariam demasiado as minhas palavras dos factos ocorridos e das pessoas envolvidas. É a recriação possível, depois de eu ter esquecido a verdade. São palavras. Palavras mentirosas, que inventam sentimentos e paixões, dores e alegrias, situações e atmosferas; mas, porque não são dirigidas à razão do leitor mas à sua emoção, são um convite à sua cumplicidade para o honesto embuste da ficção literária.
Sei porém, que não fui bem sucedido; às vezes a verdade espreita por entre a invenção que são as minhas palavras. Traz com ela, nomes, lugares e factos que e eu não tenho coragem de expulsar. É a prova que ainda não superei completamente as experiências que vivi, e não criei a distanciação que o cronista deve manter da ocorrência histórica, para ser isento. Mas, isento porquê, se assumidamente falo de mim? Assim, inventando, reinventando, cedendo à crueza dos factos, mais não faço do que a catarse de um paciente na poltrona de um psicoterapeuta, a que acrescento a ingénua ilusão de que isso pode divertir alguém.
Alguém há-de ter divertido, a julgar pelo número de visitantes que diariamente procuram este blog, muitas vezes ultrapassando a meia centena, mesmo excluindo os chamados blammers que buscam apenas o clique de retorno que nos leve a visitar os seus próprios espaços na Internet. Tendo em conta que aqui encontram apenas palavras escritas, é verdadeiramente surpreendente e encorajador, tanto mais que o texto escrito e o monitor de um PC ainda não são um casamento feliz.
Convido-vos a um pequeno passeio por este blog para visitarem algumas das emoções feitas de palavras:
- Stress de Guerra - A Visita
-------------------- Saudades de Azul
- Homenagem às Enf. Paras - A Enfermeira que Vinha do Céu
- O prazer da palavra escrita - A Carta
- Tentar a poesia - 100 Versos do Mato
- Memórias de Aguim - O Voo da Calhandra
------------------------ O Último Verão da Minha Inocência
- O Mov. Nac. Feminino - Os Sapatos do Major
- O 25 de Abril - Tão Tarde Pela Madrugada
e ainda...
- Compre o livro - Cacimbados
- Assista ao espectáculo - A Dor Fantasma
3.6.09
100 Versos do Mato
Que faço
nos intestinos da selva
sem uma causa
que me proteja do medo
Eu não sou daqui
sou de uma terra
onde as árvores gostam de mim
e os meus inimigos me conhecem.
Porta dos fundos
Coitados dos ditadores
para parecerem deuses
fazem das soluções fáceis
difíceis problemas
Encolhem a dignidade humana
para parecerem grandiosos
eles que têm medo do escuro
E aqui estamos nós
no fundo das escadas
do Império moribundo
por lhes faltar a coragem
para fecharem a porta
e apagarem a luz.
A constância da morte
Os sons da noite
são o eco
dos sons do dia
Tudo é inverso
neste espelho
em que a luz adormece
Só a Morte é igual
porque é sempre negra
no coração dos homens.
Ciúme
Uma asa de ave
corta a planura do lago
enquanto plácida a Lua sonha
Tu
meu amor a haver
és a dor no peito
de suspeitar que morrerei
sem ser feliz.
O coice da arma
Tenho uma palavra dentro de mim
a querer ser dita
Cada vez que dou um tiro
ela morde-me as tripas
Que palavra será esta
entre o meu dedo
e a Morte.
Mueda de troca
Matei-te
Com a desculpa
de que me querias matar
Que ganhei eu
Se fui assassino no teu lugar.
A rosa da morte
A Grande Prostituta
ama-nos como a fome ama o fruto
Quer invaginar-nos a cada passo
E nós caminhamos sobre a alma
sentindo o coração nos pés
Quando tombamos
ajoelha ao nosso lado
O enfermeiro tentando a ternura
Não me morras filho da puta
Mas nada pára a rosa
no peito do radiotelegrafista
A desfolhar-se
a desfolhar-se
Há pouco alguém puxou um gatilho
E ele ficou parado no meio da picada
como uma torre de igreja
em que os sinos se calaram.
Pietá
Vem do céu
e pousa de helicóptero
com subtilezas de anjo
Ultrapassa a Morte
e leva-nos nos braços
Ama-nos sem saber
a enfermeira da T-shirt branca.
O semeador
O soldado lança a granada
como outrora o pão
Semeia dor
E alguém morre
onde aquele gesto macho
esteriliza em vez de fecundar.
O Cancioneiro do Niassa
Morremos tantas vezes em Mueda
Morremos sempre que uma voz se cala
por estarmos aqui
Às vezes até acordamos já mortos
Por isso à noite
os soldados bebem e cantam
para adormecerem vivos.
Inspiração divina
Uma borboleta pousou na minha arma
Como se Deus me tivesse escolhido
para dizer alguma coisa
Com a sua mania de falar por linhas tortas
não entendi nada
Logo depois a borboleta foi-se embora
cansada de ser uma metáfora.
Excelsis Deo
A guerra é a negação de Deus
Que obra imperfeita
faz perfeito o seu criador
Nós
ao menos
temos a desculpa da estupidez.
---
Mueda, 1972
100 Versos do Mato - 00
Aqui deixo as minhas, as que sobreviveram depois de tantos anos, depois de tantas décadas. Palavras em arremedo de poesia. Um pouco mais e seriam música, um pouco menos e seriam preces.
100 versos. Tantas palavras e tão poucas, se comparadas com todas as palavras nunca ditas, essas outras palavras que morreram antes de serem escritas; palavras caladas, rejeitadas, dizendo o silêncio, o silêncio indecifrável da ausência das palavras.
Estas palavras, quase todas, nasceram apenas e pouco mais lhes aconteceu. Palavras simples, recém‑nascidas; palavras tentadas, esboçadas, inocentes; tentativas de palavras em busca da forma, guardadas assim à espera de crescerem, de ganharem sentido. Palavras casuais, soltas, inconscientes, gestuais; como folhas caídas ao acaso sobre a relva, encontradas e apanhadas apenas, sem outro intuito que salvá-las de serem para sempre esquecidas.100 versos, dos quais, todos os dias aqui virei trazer alguns.