Mostrar mensagens com a etiqueta Religião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Religião. Mostrar todas as mensagens

7.6.10

Estupidário

Darwinismo
Não há nada inteligente debaixo do Sol. Tudo o que se conhece surge sem saber. Todo o ser que ganha saber apenas reproduz o que aprendeu com a sua espécie ao longo de milénios de evolução.
Às vezes, algo de novo surge, não por um acto racional mas como fruto da mais pura aleatoriedade, ou seja, da estupidez.

Imaginação
Um sardão pasmado ao sol. Um gafanhoto a estrebuchar-lhe na boca. Parecem posar para uma foto. Parados. Só uma perna do gafanhoto a tremelicar no canto da boca.
Deve demorar pouco para o gafanhoto deixar de ser um gafanhoto. O sardão também vai deixar de ser um sardão qualquer dia. E a pedra onde estão esboroar-se-á e deixará de ser uma pedra.
Tudo deixa de ser o que era, mais cedo ou mais tarde. Depois outra coisa quase igual toma o seu lugar. Outro gafanhoto, não necessariamente melhor que este. Outro sardão. Até outra pedra como esta há-de surgir em algum lugar neste universo.
Pelo menos à escala humana isto é estúpido; ou, a sermos governados por um ser inteligente, falta-lhe imaginação.

Calculismo
O matemático filósofo Blaise Pascal dizia-se crente por uma questão de inteligência.
Dado que se Deus não existisse nada lhe aconteceria, quer fosse crente quer fosse ateu; mas se Deus existisse ele seria punido se fosse ateu e seria recompensado se fosse crente.
Não há maior estupidez que evocar a inteligência partindo do princípio que Deus é estúpido.

Perfeição
Ela olha-se ao espelho e gosta do que vê, no entanto, demora-se em retoques de maquilhagem com as minúcias de uma restauradora de quadros antigos. O cabelo leva-lhe mais tempo. Quando se dá por satisfeita, ainda alinha uma madeixa sobre a arcada supraciliar direita com o cabo do pente para pronunciar um efeito de elegante negligência. Afasta-se dois passos para ter uma visão de conjunto e passa as mãos numa carícia sobre as ancas com o álibi de alisar o vestido.
Da cozinha o aroma do arroz de pato vem até à sala e ela aguarda o som da campainha da porta para acender as velas e baixar a luz ambiente.
Tudo perfeito, pensou.
Ele entrou. Passados alguns minutos a travessa do pato ficou reduzida a uns restos, as velas sujaram os candelabros, o vinho sujou os copos, algumas migalhas de pão sujaram a toalha.
Dois sapatos de salto alto à entrada do quarto.
Duas horas depois ele saiu. Ela olhou-se ao espelho de novo. O penteado desmanchado. A maquilhagem esborratada.
Depois, olhou languidamente pela porta a sala em desalinho.
Tudo perfeito, pensou.

Ignorância
Meu amor, amo-te porque não sei que te amo. Se soubesse, amar-te-ia por um motivo que me fosse grato e não por amor. O amor vive da ignorância de si.
Chegas, e as coisas perdem sentido à minha volta. Olho-te, e fico em êxtase como Narciso perante o espelho das águas. Falas, e toda a música se torna desnecessária. Ficas a meu lado, e o mundo já não poderá melhorar mais.
Mas não sei porquê.

Previsão
O meu modesto barbeiro antecipa-me todos os grandes fenómenos sociais enquanto me corta o cabelo. Não me lembro de alguma vez ter acertado nas suas previsões.
Chego a casa e ligo a TV em busca de alienação para a frustração de continuar a pagar o mesmo, e cada vez ter menos cabelo para cortar
Na TV um professor catedrático debita, mas com mais detalhes inúteis, as mesmas previsões falhadas do meu barbeiro.
Finalmente sinto um pouco de conforto, porque eu pago muito menos ao barbeiro que a televisão ao professor, para o mesmo resultado.
Será que ao menos o professor sabe cortar cabelo?

Senilidade
O Mondego ao fundo era uma cobra de prata. O sol mostra a realidade e a ilusão. Os nossos olhos aceitam ambos.
Ela sorriu com a tristeza que só um sorriso pode ter. Ele demorou a entender a tristeza vestida de sorriso.
Só a luz do meio-dia parecia entender tudo: o rio, a tristeza, o sorriso, e a mulher e o homem sorrindo um para o outro.
Todos os dias, como hoje, vinham à varanda, dir-se-ia que, para verem o rio fingir de cobra de prata transvestido de luz; mas ela vinha apenas ensaiar um sorriso e ele tentar entendê-lo.
Quando ao fim do dia, as empregadas do lar de Penacova lhes vieram mudar as algálias, o homem e a mulher sentiram uma ténue felicidade, com a memória, embora imprecisa, de terem tido uma história de amor.


O Zé da cadela, enquanto pôde, foi a Fátima a pé. Pagou a prestações anuais um empréstimo que contraiu com a Virgem. Ela concedeu-lhe a vida na Guerra da Guiné, e ele ia rezar meia dúzia de ave-marias no dia 13 de Maio em frente do santuário, sem juros nem spreads nem outras alcavalas. Ficou-lhe cada ano de vida à razão de 6 ave-marias e os 30 Quilómetros, palmilhados de Leiria à Cova-da-Iria.
Hoje morreu o Zé da cadela com todas as contas saldadas com a Virgem.
Porque me custa adormecer esta noite, não conformado com os mistérios da fé? Será que, não havendo um único resquício em mim, eu preferisse, intimamente, ser capaz de ignorar a quantidade de mortos que teriam pago mais ave-marias e ido de mais longe rezá-las e até com mais convicção, a troco de sentir no lastro da minha alma o dormente conforto de não pensar?

Estupidificação
O chefe avalia o subalterno, o subalterno bajula o chefe, o chefe recompensa o subalterno, o subalterno chega a chefe.
Nesta regressão natural das espécies premeia-se a prevalência do mais esperto e prepara-se o futuro para chegar à estupidez generalizada.
Finalmente, depois de quase um milénio de existência, Portugal terá condições para chegar em primeiro lugar.

Previsibilidade
Fortes convicções têm-nas os fracos. Certezas absolutas os tontos. Coerência de princípios os fanáticos previsíveis de todos os credos.
Abre os olhos só o necessário para não chocares com a liberdade de pensamento sem a reconheceres.
Não acredites demais em ti. A tua única manifestação de inteligência possível é a de questionares o rumo do rebanho de que fazes parte.
Destrói o GPS, rasga todos os mapas e fecha os olhos. Aprende com os cegos a ver na escuridão, e vai a corta-mato.
Depois sim, puxa da arma e dispara.
Vale mais atirar à sorte num inocente do que suicidares-te por impotência.

Heroísmo
Pegue-se num homem ainda novo.
Macere-se a sua carne e rale-se o seu espírito com uma educação alienante e manipuladora.
Junte-se em doses iguais: demagogia, religião e romantismo.
Tempere-se com patriotismo quanto baste.
Reserve-se a marinar durante alguns meses num quartel ou base militar para apurar do tempero e ganhar a consistência moral maleável típica de soldado.
Finalmente, leve-se a cozinhar numa guerra em lume alto, para reduzir rapidamente e ficar bem passado.
Serve-se em cadeira de rodas.

Agnosticismo
Há uma coisa muito estúpida: ter a certeza que deus existe e ser crente. Há uma coisa ainda mais estúpida: ter a certeza que deus não existe e ser ateu.
Mas se quer ser o mais estúpido que é possível, faça como eu: conforme-se com a sua própria estupidez e seja agnóstico.

12.5.10

Inquietações

Gato
Ontem saí de casa e havia um gato sentado à minha porta.
Pensei todo o dia nisto.
Não é expectável que um gato durma na soleira da porta de um prédio da minha cidade.
Por assim dizer, aquele gato tornou rural a minha urbanidade.
Hoje saí de casa e não havia gato nenhum, mas a cidade não voltou a ser a mesma. A reversibilidade do real não torna reversível uma metáfora.
A partir de hoje vivo numa aldeia onde falta um gato.

Punho
Ela dobrou a esquina e apareceu de repente.
Do muro rasteiro da rua um pedinte ergueu a cabeça para olhá-la. Ia estender a mão no seu hábito humilde de súplica, mas parou o gesto.
Do seu ponto de vista, rente aos pés de quem passa, todas as pessoas são altas. Porém, aquelas pernas de uma elegância interminável elevavam ao inatingível o seu ponto de confluência, onde o sexo seria uma inevitabilidade.
Isso aumentou o seu sentimento de exclusão, e a mão ainda parada a meio do gesto tremeu um pouco.
Por um curtíssimo instante deixou de ser um pedinte.
Foi quando uma foice de raiva lhe cortou o olhar e a mão parada a meio do gesto se ergueu num punho cerrado.

Música
Por entre os corpos dos seus entes queridos que lhe caíram em cima, a criança bijagó viu os soldados portugueses destruírem as tabancas da sua aldeia.
Se fosse um filme americano ouvir-se-ia uma música emocionante. Ouve-se sempre uma música emocionante com o intuito de transformar em arte as cenas de guerra mais obscenas. E os espectadores recostam-se em êxtase no sofá.
Mas o menino bijagó só ouvia o esguichar do sangue a sair do pescoço do seu pai como um javali ferido e o estertor da sua mãe como grunhidos de uma porca a morrer. Lá fora a guerra continuava sem mais estética nem humanidade.
Será que este menino, quando for grande, terá mais ódio aos soldados portugueses, aos sonoplastas americanos ou aos espectadores em êxtase com a matança?

Concavidades
À entrada do Fischmarkt em Hamburgo sentei-me cansado.
Uma canadiana de cada lado e à minha frente a pala côncava do saco da câmara. Do lado esquerdo o tocador de pianola, com o seu chapéu côncavo. Do lado direito os meus companheiros do Hospital Militar de sorriso côncavo adivinhando o desfecho da história.
Chegou uma senhora de alma côncava olhando-nos aos dois.
A senhora mediu a concavidade de cada um de nós: um perneta velho ou um jovem perneta?
Ia a decidir-se por mim quando a câmara reflex de lentes intermutáveis com uma zoom de 200 mm me escorregou para o regaço mal estiquei a mão.
Quando a moeda lhe retiniu na concavidade do chapéu, o velho tocador de pianola olhou-me vitorioso a julgar que levou a melhor por ser mais miserável do que eu.

Mozart
Na parede da sala o piano vertical tem a tampa levantada. Na pequena estante da tampa uma pasta de papel amarelado. Um jovem olha a cidade pela janela e faz estalar os dedos das mãos.
Na cabeça uma pequena confusão de pensamentos. À mistura com os restantes pensamentos, uma partitura de Mozart e uma decisão adiada.
A partitura vê-se bem mas a decisão não. Está adiada.
Ele faz correr as notas de abertura da peça pela memória. A decisão fica encoberta pela música.
Não olha a cidade, apenas dirige para lá o olhar. Quando dirigimos o nosso olhar para o infinito, habitualmente procuramos ver algo no nosso íntimo.
Depois, a réstia de um sorriso atravessa-lhe o rosto e ele senta-se decidido em frente do piano, esticando sempre os dedos. Abriu a pasta amarelada e passou para cima a folha de papel que dizia "Mozart Piano Sonata in C major, K. 309".
As mãos pairaram alguns segundos sobre o teclado.
Enquanto isso as notas de abertura da peça correram de novo pela memória, mas agora a decisão adiada via-se claramente em forma de rosto de mulher com olhar de súplica.
Quando os poderosos acordes se espalharam pela sala como um carrilhão de esperança, a réstia de sorriso abriu-se no rosto e o calor reconfortante do perdão encheu-lhe o peito.

Açucenas
Sei de um pequeno pedaço de terra na serra da Lousã onde nascem açucenas. Ao lado há um bosque que convida a intimidades.
Será que os líquenes sobre as pedras ainda guardam a ternura dos teus dedos? Será que o vento ainda viaja pela serra com as nossas palavras?
Lembro-me que pegaste numa açucena e a puseste no cabelo a lembrar-me que os amantes são sempre ingénuos e gostam de lugares-comuns.
Não fora o peso do Tempo e sentiria ainda o mesmo calor, apesar do vento frio que anunciava o Inverno prestes a chegar.
Porque pesa o Tempo? Porque murcham as açucenas?

Vento
Num canto do parque de estacionamento algumas folhas secas rodopiam. Um saco plástico aparece do nada e rodopia também.
O vento levanta-o e deixa-o cair, quase o faz dobrar a esquina e o liberta, mas volta a puxá-lo para o canto.
Eu fico a olhá-lo por não ter nada que fazer.
O bailado do saco plástico anima o canto árido do parque de estacionamento.
As folhas secas atrás dele marcando o movimento. O meu olhar embalado pelo movimento. O meu pensamento atraído pelo olhar.
Que música tocaria o vento para inspirar aquele bailado?
Tudo tão árido em meu redor, e um alento de poesia sobre o asfalto.
Quase vi o rosto de Deus sorrindo.

Tinto
Não fazes ideia do que estou a falar, pois não? Quando digo que me fazem pena as pessoas felizes, será que me entendes?
Eu sei que bebi de mais, eu sei que fiquei de repente com vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo. Mas tudo o que está conformado aos seus limites naturais me desgosta profundamente.
Não vês que do ponto de vista do quadrado, um cubo é uma quimera absurda. Não vês que do ponto de vista da baga bairradina, um Frei João tinto é uma utopia delirante?
E se eu fosse feliz, não estava sentado nesta caixa, de copo meio na mão, olhando o fogo em busca da minha transcendência.
É que, quando olho à minha volta, sinto a intransponibilidade dos meus limites perante a formidável incompreensão da tua ausência.


Inquietude
Há uma vantagem em estar acordado: podemos sempre ir dormir. A vantagem de estar a dormir é que não precisamos de grande esforço para sonhar. Já estando acordado, só alguns o conseguem fazer. Porém, só um número ainda mais pequeno é que consegue estar suficientemente acordado para se inquietar com o drama de estar vivo e pensar.

6.4.10

Relâmpagos


Café
A minha avó sopra uma brasa. A brasa numa cama de caruma. Sopra.
Depois acende-se uma chama na caruma e nos olhos da minha avó.
Em breve o aroma do café da manhã atraía todos em redor da mesa da cozinha do forno.
Desde aquela brasa até à máquina de cápsulas de café passou tanto tempo que eu já não devia lembrar-me disto, mas sempre que tomo a bica sinto que me falta qualquer coisa.
E não é café.

Cansaço
À hora em que o sol preguiçoso de Outono se servia da erva alta para desenhar longas pestanas de sombra sobre o pó da estrada de Vale de Cide, eu olhava os jornaleiros, cansado só de ver os corpos estomagados pelo martírio do farpão nas leivas barrentas dos vinhedos do Solão.
A minha doce lassidão perante a tortura.
Eles, talvez interpretando a inclinação da luz, pousavam o farpão. E a tarde morria.
Endireitavam a custo o dorso, com ambas as mãos apoiando as cruzes. Quase se ouviam os gonzos perros daquelas costas a ranger.
E espreguiçavam o olhar pela estrada fora, por onde se faria o caminho para o descanso.

Setembro
Quando o Verão era mais barato apanhávamos a camioneta para a Costa Nova.
Passávamos a ponte de madeira a pé. Ao longe cones de sal.
Se só os cones eram brancos, porque é que aquelas manhãs de Setembro da minha infância passaram para os meus sonhos?

Cão
Uma árvore caída sobre um rio.
A água passando alheia a este drama.
A impressão que longe daqui me morreu alguém. Muito longe daqui.
Quem se importa?
Um cão ladra ao longe só para aumentar este desalento.

Guerra
O vento soprava vindo de Sueste. Uma farripa de cabelo passava-me à frente dos olhos entrecortando a paisagem. Claro, escuro. Claro, escuro.
As palavras do Dr. Diógenes a falar do dever e da honra. As palavras do meu pai a falar de afectos. A guerra à espera.
Como se podem tomar decisões com o cabelo à frente dos olhos?

Mina
A fila de soldados deixava marcas de pés no chão. À medida que as marcas eram feitas ouvia-se um pequeno ruído como se o chão gemesse ao ser pisado pelos pés dos soldados.
Às vezes o chão fazia um ruído muito maior ao ser pisado.
Nunca devemos pousar os pés num chão que não nos queira bem.

Misses
O médico olhou para o Lemos e concluiu que, ainda assim, muito do Lemos se tinha salvo, e perguntou a pergunta que perguntava sempre:
– Sente-se bem?
E o Lemos:
– Sr. Doutor, tenho a impressão que o meu pénis está a modos que sem acção.
No Domingo à tarde, as vencedoras do concurso das misses de Nampula vieram visitar o Lemos.
O médico, satisfeito com o resultado, passou a sorrir pela cama do Lemos, na Segunda-feira de manhã.
Não há dúvida que a Medicina é uma ciência humana.

Dormidas
No Cais do Sodré um sem-abrigo dormita de mão estendida. O braço direito esticado e apoiado sobre o joelho.
Um boné sebento na mão diz a quem passa: "Dêem qualquer coisinha".
Dormita, porque é difícil manter os olhos abertos à indiferença humana.
Na esquina da rua, uma porta diz a quem passa: "Dormidas".
Em frente da porta, uma mulher anda de um lado para o outro como uma sentinela à entrada de um quartel.
Quando passa um homem sem ouvir o que diz o boné mas conseguindo ler o que diz a porta, ela entra com ele, e depois a janela do primeiro andar fecha-se.
Passados alguns minutos ela vem depositar uma moeda no boné.
E por uns segundos o sem-abrigo abre os olhos para uma réstia de humanidade.

Milagre
No hospital de Hamburgo havia muita gente que acreditava em milagres, mas nem todos os pernetas que foram a Lourdes tinham fé. Porém o Giló andava em silêncio a matutar naquilo.
Pelo sim pelo não, mais valia acreditar. E nós, cínicos, encorajávamo-lo.
No regresso, o Giló vinha envergonhado por ainda estar perneta.
Apesar de cínicos, nenhum de nós se riu.
Só deus se aproveita dos ingénuos.

Coragem
Os generais da junta médica militar mediram-me de alto a baixo e fizeram o que lhes mandaram fazer: deram-me alta porque a minha cama fazia falta para tanto ferido que a guerra fabricava.
E ficou deliberado que ao sair dali eu estaria restabelecido.
– Assine aqui.
– Não assino nada.
– É uma ordem.
Não assinei.
Um acto de coragem, mesmo inútil, faz mais pelo nosso amor-próprio do que a cobardia proveitosa.

Abril
Felizmente, a 25 de Abril de 1974 tudo mudou ao nascer do dia. Tudo, menos as pessoas com certezas.
Nós, os que temos dúvidas, temos também a honestidade de mudar frequentemente de opinião.
Eles são desonestos porque quando mudam, mudam de uma certeza para outra.

Paz
Durante anos e anos esqueci a guerra.
Esqueci, não – escondi-a no fundo da memória onde não se ouvissem os tiros. Só às vezes em sonhos o chão rebentava todo debaixo de mim.
Mas de manhã os teus olhos inventavam a paz no mundo.

Palco
Um homem triste. Um veterano pegando numa câmara fotográfica como se fosse uma arma.
Uma mulher muito bela imagina-se uma mariposa sob a luz.
Uma cadeira. Uma mesa. Parecem abandonadas sobre o palco.
Uma sala vazia leva mais solidão.
O homem aponta a câmara ao público. Dispara.
Cada pessoa ao sair para a rua, ainda levava um pouco de dor no peito.

Titanic
A crise é um barco a naufragar sem salva-vidas para todos.
O governo pede que sejamos patriotas e fiquemos no porão enquanto os passageiros da primeira classe se salvam.
Os sindicatos dizem que se não há salvação para todos, que vá tudo ao fundo.
Os políticos da orquestra de câmara continuam a fazer o que sabem e dão-nos música.
Aposto que neste filme os responsáveis não têm dignidade para se afogarem com o barco.

Relâmpagos
Quem faz a história é o leitor. Por isso nem tudo deve ser descrito, para que os silêncios entre as palavras deixem espaço à sua imaginação.
Eu só apanhei estas palavras por aí e pouco mais fiz com elas.
Um pouco mais de poesia e seriam música, um pouco menos e seriam preces. Não te iluminam o caminho, são breves relâmpagos apenas. Se te ajudar, fecha os olhos e lê.