23.6.16

Zero absoluto

Crescer é perder o direito à infância
Órfãos da inocência
e condenados
à desarrumação do Cosmos
n
ão aceitamos a liberdade
de tudo acontecer sem raz
ão
O verde mais tenro do prado
a sombra mais fresca do bosque
o trote mais livre do potro mais livre
n
ão têm mais propósito de servir
a humana frui
ção
do que a p
ústula mais fétida
sobre virginal pureza
Felizes dos que sublimam
a aleatoriedade do mundo
e fazem de deus
o bode expiat
ório
da impot
ência humana.

Na lareira da minha avó
o tempo ardia lento
O olhar dela fitando os folhos de seda
que se desfraldavam das cavacas
De longe em longe
um suspiro acordava a mão da tenaz
que aconchegava os tições
a outra dormindo no regaço
Depois
outro suspiro sossegava a saudade
inquieta no peito
E os pensamentos flutuavam
ao compasso das sombras
na parede da cozinha
até se misturarem sem densidade
dentro do meu sonho
Que eu
ao colo dela
mesmo a dormir era feliz.

O teu amor nasceu
quando em ti
morreu a vergonha
dos nossos delitos
O amor torna decoroso
o que o simples desejo
mantém obsceno
Quando me tocavas
com o olhar de quem rouba um fruto
violavas o pudor
que deus inventou
para valorizar o pecado
Agora
com a conveniência do amor
colhes o fruto
sem o frémito da conquista
nada em ti se agita ou sobressalta
somos duas almas gémeas
apenas brincando com os corpos
O amor tornou o prazer incestuoso.

Se não fui refratário
nem desertor
não foi por falta de medo
foi por falta de luz
De coração na boca
e arma na mão
apenas agi como aqueles
a quem deram uma causa justa
e os inimigos certos
Combati
e enquanto combati
de mim dei quase tudo
Porém
o que dei
ninguém mo mereceu
Mas a minha ínfima glória é esta
a meio da carnificina
aprendi que a morte
pode ser a última coisa digna
a que temos direito.

Um homem com uma arma
não é um soldado
Um soldado é uma arma
levando um homem pela mão
que o que define um conjunto
é o elemento mais significante
Às vezes o homem põe-se a pensar
e a arma vai perdendo ascendência
e o soldado desaparece
Fica então um homem atónito
de arma na mão.

Pobres daqueles que chegam ao destino
ou a ambição era curta ou o sonho já morreu.

A avenida Bissaya Barreto
passa com uma fluidez de rio
dividindo o mundo em dois
Em cada margem
uma diferente estação do ano
De um lado
o verão de vestidos leves
e óculos escuros
Olhares de sol poente
no desnudamento das pernas
onde às vezes
o prolapso provocante de um joelho
sob uma mesa da esplanada
desperta o Tempo distraído
entre galões e tostas mistas
Do outro lado
o inverno dos rostos famintos de luz
com um restinho teimoso de esperança
embaçada pelas vidraças foscas
da enfermaria do IPO
onde a areia do Tempo
escorre entre dedos trémulos
Os olhos prestes a perderem-se no Caos
mas uma energia residual
dilata os minutos breves
no aperto do peito
A entropia a aproximar-se
perigosamente
do zero absoluto.

Na sala de espera
algumas pessoas
ainda pertencem ao mundo dos sãos
outros gozam de um pequeno intervalo
entre as duas partes do drama
No mostrador do atendimento
ao contrário da vida
podemos avaliar
quanto falta para a verdade.

A fita de Möbius
e um hospital
têm apenas um lado
Basta a vida dar meia volta
e os médicos e enfermeiros
adormecem de bata
e acordam de pijama
na ininterrupta fiada de olhos
adorando o teto.

O capelão
vem pela tarde
quando as almas estão mais apuradas
e ministra o placebo divino
Depois vem o enfermeiro
com os princípios ativos
não vá o diabo tece-las.

Nós os soldados
aprendemos a ter medo
aprendemos a viver
com uma curta esperança de vida
Quem não sabe ter medo
vira as costas ao perigo
para não ver a Morte
Eu hei de morrer com medo
mas ao morrer
quero olhá-La nos olhos
quero rir-Lhe nos olhos
e odiá-La como quem ama.

A doutora Gabriela
faz sofrer o cancro desalmadamente.

A esperança
não é a última coisa a morrer
Muito depois da esperança
ainda resta a coragem
e depois da coragem o desalento
E o desalento não morre
vai desvanecendo até à insanidade
E quando a vida no-lo deu a conhecer
e porque é insano e imponderável
o amor sobreviverá ao corpo
um átimo após o último sopro
como chama que arde ao vento
enquanto o pavio já apagado arrefece.

Quando a visita chega ao fim
fecham as portas
e tu cá dentro
atado ao sofrimento
Uma borboleta no peito
preparada para a viagem
e a metamorfose inversa
do respeito cruel à vida
condena-a à clausura do casulo
Ninguém te liberta
desse embalsamento de dor
ninguém te ajuda a saltar
só porque já não tens asas
e não podes voar
Mas se tu queres apenas regressar
ao Infinito de onde te foram buscar
porque é que a misericórdia humana
não te salva da vida
Porquê
se o inferno é aqui.

Ninfa desflorada a bisturi
ventre prenhe de morte
seios canibalizados
escalpo sob o lenço de seda
que bonita que és
que se to quisesse dizer
só cantando
porque as palavras sozinhas
não sabem dançar
como a luz nos teus olhos
que guarda ainda
a beleza rasurada do corpo
Ver-te passar
no corredor da enfermaria
como uma oferenda
imolada à ceva dos deuses
faz do meu ateísmo uma religião.

Se deus gostasse de mulheres
arranjava maneira de existir.

O riso
é a vingança dos homens
por terem nascido mortais
e com consciência disso
Nenhuma besta se ri
e Deus é sisudo
só o homem sabe brincar
com a estupidez da finitude.

Sempre falámos muito
e nunca nos amámos tanto
como com as palavras
Às vezes calávamo-nos
Eram pausas na música
para saborearmos juntos
a ressonância dos afetos
Que vai ser de mim
sem ti ao meu lado
para dialogar os silêncios.

Camarada que partiste
sinto que está na hora de sair para a cidade
está na hora de dizer banalidades
está na hora de prosseguir
como fazem os sobreviventes depois dos combates
Não deixar que os que tombaram
comprometam o objetivo das suas vidas
o cobarde objetivo de permanecerem vivos
com a desculpa de que mais batalhas os aguardam
Na verdade
camarada
só parei um pouco para descansar
e tu seguiste
porque os melhores vão sempre à frente
Os sobreviventes são os que ficam para trás
condenados a viver um pouco mais
para carregar um pouco mais
a consciência do absurdo
Ter chegado do nada
partir para o nada
e entretanto
ter a ilusão da existência e do eterno.

O ódio é precioso
como precioso é o amor
Um e outro devem ser usados
com parcimónia
Quase nunca amei
e estou virgem de ódio
Mas agora
ao sentir a tua esganação de crustáceo
esgravatando na própria matriz do amor
nasce em mim
a mineral
a metálica
a serena fúria de te matar.

Coisa estúpida
erro oportunista
bug do código base
autofagia celular
fealdade biológica
loucura insurgente do ADN
perfídia impenitente da Natureza
incompetência divina
não importa o quanto resistas
ao meu amor consciente
o teu ódio bruto não vencerá
e se não for antes
será comigo que hás de morrer

Rosa negra
flor carniceira
festa de cólera no luto do corpo
não importa que da vida te alimentes
a tua vesânia de sorver
a humana paixão
está condenada
porque o meu amor sobrevivo
em quem quer que o guarde
há de cantar vitória
que tu
coisa estúpida
se não for antes
será comigo que hás de morrer.


Para deficientes visuais, ouça a versão áudio em ADFA-Portugal.com, na rubrica Episódios, aqui.

Sem comentários: