23.6.16

Ponto de não retorno

(In Cacimbados)

O Primeiro Maia é um gajo normal. Tirando o facto de já ter morto mais gente nesta guerra do que eu alguma vez consiga imaginar. Está sentado à minha frente no bar do aeródromo de Mueda. Ele vai falando e eu vou-me convencendo que o que nos separa é muito mais que esta mesa tosca de madeira. Hei de ouvir falar muito dele ainda, e dirão sempre: “Um gajo normal”.
Fala-me com o tom autoindulgente  e paternalista, típico de quem está mais inclinado a justificar os seus pecados do que a confessá-los. Mas nunca há palavras suficientes para nos redimirem dos nossos pecados, nunca há palavras que nos ajudem a mentir a nós próprios.
– Todos temos os nossos limites, Bastos. Limites, percebes?
Perante os meus olhos tontos do whisky ele insiste:
– Não sabes qual o teu limite para a bebida, por exemplo? É como quando discutimos com alguém. A partir de um certo ponto começamos a perder as estribeiras. E depois como é? Acaba tudo à porrada. É, ou não é?
Olhava de vez em quando pela janela que dava para a pista onde os helicópteros alinhados pareciam cansados, com as longas hélices paradas que se arqueavam com o próprio peso, e mais ao longe os T6 a fazerem lembrar moscardos enormes. Ele olhava pela janela à procura de alguma ideia que mudasse o ar mortiço do meu olhar e desse mostras de entendê-lo.
– Tu, por exemplo, não quiseste ultrapassar o teu limite. Eu sei que não entregaste a carta ao Segundo Fanhais.
Preferiste mentir ao teu pai e vieste bater aqui com os cornos.
Era só uma carta para um pide. O teu pai ultrapassou o limite dele por ti. Sabes o que teve que engolir? Sabes as humilhações que passou? Os problemas de consciência? E tu? Não foste capaz, não é? É assim com tudo na vida.
Quantos gajos mataste aqui? Em quantos vais? Agora era eu a olhar pela janela envergonhado por ainda não ter matado ninguém. – Estou aqui só há uma semana meu Primeiro.
E ele a olhar de novo pela janela como se falasse para o seu helicóptero pousado na pista.
– Sabes o que importa numa guerra? Não é os turras que matamos. As guerras são para os soldados se matarem uns aos outros. O que importa é os que não são soldados. O que importa é os que morrem sem saberem porquê. Sabes qual é o teu número? O teu limite? Descobre quanto antes e não ultrapasses esse limite. É como quando bebes aquele golo de whisky a mais, ultrapassas o teu limite e já não vais ser capaz de parar e já nem vale a pena parar, porque já não vais a tempo de evitar a bebedeira. Sabes nadar, Bastos? Até onde podes ir pelo mar dentro? Olhas para trás e vês a areia da praia ao longe. Será que as tuas forças ainda darão para mais umas braçadas e para voltares até terra firme?
– Ó Primeiro Maia, sempre é verdade o que dizem? Que você faz isso com o helicóptero? Que chega à pista e calcula o combustível que traz, para ir mais longe da próxima vez ?
– Sabes? Diz ele sem responder à minha pergunta. – Lá de cima não dá para ver quem lerpa, se são turras ou não . Lerpa tudo.
Levanta-se de um salto. – Ó nosso Cabo, ponha a despesa aqui do nosso Furriel na minha conta. Não passes o teu limite, meu filho!
Dizem que o Primeiro Maia é um gajo normal. Saiu do bar sem olhar para trás, talvez irritado com a minha pergunta, talvez porque já tenha ultrapassado há muito o seu limite, a partir do qual já não há retorno possível e a partir do qual deixamos de ser gajos normais. Será mesmo que faz isso com o helicóptero, como dizem?
Ao fundo do bar um grupo em torno de uma mesa tenta acertar com a música de uma canção do Zeca Afonso e repetem sem cessar os mesmos versos que parecem cada vez mais desafinados: “Entrei numa gruta Matei um tritão Mas tive o diabo na mão Mas tive o diabo na mão”.
E depois, já na pista, o Primeiro Maia a dirigir-se para o seu heli-canhão. A passar a mão sobre a fuselagem como os cavaleiros fazem no lombo dos cavalos antes de montarem.
A entrar no habitáculo e depois a assomar de novo à janela, olhando em redor.
O que mais ouvi dizer sobre o Primeiro Maia, a par da história de ele andar a ver até onde dava o combustível do helicóptero, era que se tratava de um gajo normal. Alguém como nós. Como se isso tornasse a história agourenta.
Ele entrou no habitáculo e depois voltou a assomar à janela. Tenho a certeza que fez isso porque agora parece-me um gesto de despedida. O Primeiro Maia. Um gajo como nós. A não ser por ter ultrapassado o seu limite há muito e passar a vida a tentar justificar o quanto passou a gostar do seu papel de predador, como se a morte fosse um vício. E ao fundo da sala a música desafinada: “Mas tive o diabo na mão Mas tive o diabo na mão”.
“Lá de cima não dá para ver quem lerpa, se são turras ou não. Lerpa tudo.” Um gajo como nós. Um gajo normal. Só que ficou viciado na morte. “Não passes o teu limite, meu filho!” E ele a assomar à janela e a olhar em redor, como que a despedir-se.
É difícil conceber o Primeiro Maia como mais uma vítima desta guerra. Ele, que embora não carregue no gatilho e seja apenas o piloto do helicóptero que leva a morte tanto a turras como a inocentes, vive indeciso entre o orgulho e o sentimento de culpa; e para desvalorizar este conflito, desvaloriza a própria vida, fingindo que anda a ver até onde pode ir sem reabastecer o depósito.
Quando encontraram o seu heli-canhão desfeito contra o enorme penhasco, a um quilómetro do aeródromo de Mueda, perceberam logo porque não se tinha incendiado com o combustível.


Para deficientes visuais, ouça a versão áudio em ADFA-Portugal.com, na rubrica Episódios, aqui.

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