11.8.18

Golpe de mão

Ao abrir os olhos, os rebentos ainda tenros do capim, vistos ao acordar, assim rente ao chão, parecem plantas enormes e o vulto em decúbito do Nunes é uma montanha distante - as manchas do camuflado em cores vegetais e a sujidade de dias ajudam à ilusão.
O planalto dos Macondes acorda sempre em hipotermia, com os suores frios do cacimbo, mas a capacidade humana de habituação permite que estes vinte soldados tenham achado conforto suficiente para dormir toda a noite, e alguns ainda dormem, apesar da humidade e do frio; as fardas com o lustro das gotículas do cacimbo sobre a capa impermeável da sujidade.
Rodo o corpo para ficar de costas e fico a olhar o cinzento ceroso da atmosfera sobre mim, um enorme borrão em vez de céu.
A floresta começa a acordar num torpor de ressaca, as árvores estremunhadas de pássaros inquietos com a luz da manhã, os ramos derreados de preguiça que o ar pesado não sacode, as folhas deslavadas pelos suores do cacimbo matinal e os troncos hirtos entorpecidos pela prostração noturna, ou, afinal, apenas a eterna imobilidade das árvores, como é de sua condição vegetal.
O Nunes acordou numa série de espasmos, como se fosse difícil sacudir o sono. Depois ficou imóvel, também de barriga para cima, a olhar a nódoa gordurosa do céu. Um a um os homens vão despertando a custo, como se dormir ao cacimbo da manhã fosse a coisa mais confortável do mundo, ou não estivesse a guerra à sua espera.
O alferes já está sentado, consultando o mapa. Faz sinal a alguém para se aproximar. Agora estão dois vultos esbatidos pela nódoa translúcida do cacimbo a consultarem o mapa.
As silhuetas dos soldados de cócoras, arrumando os seus parcos utensílios, parecem sacos de lixo abandonados na manhã embaciada.
Como se obedecessem a um mecanismo coordenador vão agora escoando por uma fila para dentro da mata densa. Olhando de perto, os seus lugares mais secos ficam marcados na humidade do capim derrubado onde dormiram, como se tivessem sido almas do outro mundo que evaporaram. E eram.
Mas não evaporaram. Uma longa fila de almas do outro mundo caminha agora floresta adentro, mas vão com uma missão deveras humana e deste mundo, vão com a missão de matar.
A partir do momento em que um ser humano aceita que a sua missão inclua a forte probabilidade de ter de matar, o valor da vida deixa de ser uma referência suprema para passar a valer como moeda corrente, cuja cotação depende de muitas variáveis. Agora o valor da vida desce a cada metro percorrido pela fila de por aquela fila de combatentes que se embrenha na mata densa do planalto dos Macondes.
Olhando a muralha vegetal da floresta a limitar a clareira de onde se escoaram os elementos da 3503, parecia impossível que alguém em seu perfeito juízo decidisse escolher justamente esse lugar para enfiar vinte soldados, e que estes aceitassem fazê-lo com o mesmo à-vontade com que dariam um passeio num jardim público.
Mas os estrategas militares não são caraterizados por escolherem as soluções mais simples, e os soldados não são reconhecidos por questionarem as ordens que recebem. Basta convencê-los de que a sua missão letal é moralmente justificável e que o sangue que lhes suja as mãos é o preço mínimo a pagar por uma causa maior. Não raras vezes vêm a descobrir mais tarde que foram vítimas de abuso moral; de exploração da sua genuína voluntariedade e coragem e de profanação do seu verdadeiro espírito de sacrifício.
O farfalho vegetal da floresta virgem do planalto dos Macondes deixou-se penetrar pela bicha de pirilau dos soldados do primeiro grupo de combate da CART 3503 numa convulsão orgástica de vários minutos, e depois de envaginar os vinte soldados, sossegou complacente e reconfortada.
Quem quisesse assegurar uma esperança de vida de pelo menos mais um dia, não deveria passar daqui, mas os homens da CART 3503 já aprenderam há muito a viver com uma curta esperança de vida.
O cacimbo aliviou e o sol apressa-se a evaporar a humidade residual, mas uma ténue neblina, como um hálito de fauce de predador abocanhando a presa, envolve a coluna de combatentes.
Na clareira tudo regressou à normalidade após a saída da 3503, o próprio capim tombado à sua passagem reergueu-se um pouco, penteado pela brisa já quente.
Daqui não se adivinha o que se passa com aquele grupo de combate, uma simples coluna apeada de militares, as armas abraçadas junto ao corpo e a enorme corcunda das mochilas a transfigurarem os seus corpos. Uma fila silenciosa e sinistra de vultos que caminham curvados para se protegerem da fustigação do capim. De certo modo, simples na aparência, uma lagarta coleando no capinzal, mas deveras complicada na realidade, se conhecermos toda a azáfama interior na cabeça de um soldado caminhando em direção ao local onde se definirá a cotação do dia para a vida.
Desapareceu o último combatente, o camuflado a confundir-se cada vez mais com a vegetação, até se tornar invisível. Ficou a imagem caótica da floresta eterna e a sinfonia polifónica dos animais, eles também invisíveis no meio da folhagem.
Os animais da floresta nunca permitem um momento de silêncio. Uma tal quantidade de sons de todas as intensidades e frequências, que se misturam de tal forma, que não é possível a identificação de nenhum. Para contrariar isto um enorme inseto voa perto, fazendo lembrar o som de um motor, mas logo mergulha na polifonia circundante desaparecendo, como desaparece a voz de uma pessoa ao misturar-se numa multidão em alvoroço.
Cria uma certa serenidade este tumulto. A variedade de sons funciona como um lenitivo sonoro, como acontece com o “ruído branco”, composto pela mistura de todas as frequências audíveis.
O ar apenas povoado pela miríade de vozes dos animais da floresta é subitamente estremecido pelos estampidos secos de uma vintena de G3, entrecortados pelos estalidos metálicos de algumas Kalashs, a que se sobrepõem os rugidos cavos de uma MG42. Não se ouvem vozes humanas em pânico, não se ouvem  gritos de criança, não se ouve o sopro do fogo que varre o que resistiu às balas; não se ouvem os sons do desespero, do terror e da devastação, porque as vozes das armas que destroem e matam, falam mais alto e calam também as vítimas inocentes. E quando se deixam de ouvir, fica um silêncio aterrador, até os animais emudecem; não é silêncio, é surdez, a surdez total da morte. Para alguns a cotação da vida acabou de atingir o valor zero da escala.
Depois de um intervalo em que a vida se suspendeu, em estado de choque, na floresta do planalto dos Macondes, ouve-se ao longe o padejar de helicópteros a aproximarem-se. São dois, e por isso não vêm transportar os soldados, ou seriam mais, vem evacuar feridos.
Um dos helicópteros desceu e o outro descreve círculos em torno do primeiro, como uma ave de rapina, depois, partiram tossindo e arfando, em direção a Mueda.
O som dos helicópteros já não se ouve, e o som dos animais em crescendo, traz de novo o bulício à floresta.
E a vida prevalece, mesmo onde a morte teve o seu momento de glória. A Natureza parece querer apagar com a sua infinita capacidade de regeneração o tremendo erro na evolução das espécies, que permitiu o aparecimento da crueldade humana.
Sem a pérfida inteligência humana, todos os seres inocentes da floresta retomam o equilíbrio da vida selvagem, regidos apenas pelos instintos. E as árvores, acima de todos, imperturbáveis e monumentais.
A monumentalidade das árvores da floresta africana causa o mesmo efeito em nós que as grandes obras arquitetónicas, sentimo-nos sempre pequenos na sua presença. Mas somos tão insignificantes como perigosos. Não somos deste mundo, viemos aqui só para o destruir.

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