5.11.13

A Pedreira

Parámos e o furriel disse:
– Mantenham-se em formação com as armas em posição de fogo até novas ordens.
E eu a pensar “Este gajo está com medo de quê, isto não é só para proteger uns pretos a partir pedra? Queres ver que logo no primeiro dia vamos ter porrada.”
Não sei porque me veio isto agora à ideia aqui no meio do areal da Costa Nova, tantos anos depois. A Zulmira lá em cima na barraca e eu a passear junto ao mar.
Porque me incomoda o mar tão calmo? Porque me dá a ideia que algo se prepara em segredo por detrás desta calma toda? As pessoas ao longe, onde o mar é mais fundo a nadarem numa algazarra de festa mas eu a sentir a calma das águas e a pensar “Aqui há coisa”.
O furriel inquieto a olhar para os pretos a partir pedra no fundo da pedreira e eu a pensar “Aqui há coisa, então nós viemos só para proteger estes gajos e o furriel tão nervoso?”
Daí a nada o furriel a dizer entre dentes “Filho da puta”, e eu olhei para baixo e perguntei:
– Ó furriel, há azar?
Mas ele não tirava os olhos dos pretos a partirem pedra, e nisto, lá em baixo, um branco com uma vara a bater num preto, e o furriel:
– Filho da puta!
Porque não me saem estas coisas da cabeça? Ao tempo que isto lá vai. Eu bem caminho pela beira-mar fora a ver se se me limpam as ideias – agora as pessoas como moscas ao longe, e o mar tão calmo a fazer-me impressão. Mas estas coisas vão e voltam de novo como a maré que traz uma espuma meio amarelada até aos meus pés e depois a leva de volta. Um metro para cá, um metro para lá, numa calma que me irrita. Na minha cabeça, uma porta a bater, e a minha mãe:
– Ó Zé deixaste a porta aberta!
E eu a voltar para trás com o saco de batatas às costas para fechar a porta da adega, tão calmo como o mar hoje. A voz da minha mãe, mesmo zangada nunca me irritava.
Na minha cabeça a porta da adega a bater de novo, mas agora em vez da voz da minha mãe, o furriel:
– Filho da puta!
Tudo misturado, tudo ao mesmo tempo a fazer-me confusão. Achei que se viesse caminhar onde a areia é dura, não a seca onde enterramos os pés, nem a que está debaixo de água, onde nos afundamos, mas aquela faixa de areia entre o mar e a praia, aquele meio-termo onde podemos caminhar como se fosse em terra firme, enfim, achei que me acalmasse. Mas não, só imagino toda a raiva que pode estar por detrás de um mar calmo, a tempestade que se prepara algures para além do céu azul, e esta areia molhada, nem seca nem submersa; esta indecisão, esta incerteza aumenta a minha inquietação.
Lá no fundo da pedreira os pretos a partirem pedra. O furriel a desconfiar de alguma coisa. O capataz a bater no preto com a vara. O furriel a dizer “Filho da puta”. A porta da adega a bater. A minha mãe: “Ó Zé deixaste a porta aberta”. Parece que as coisas me vêm à ideia assim como estilhaços de alguma coisa que se partiu, e que se perderam as partes mais importantes.
Quando tento lembrar-me de alguma coisa é assim, só estilhaços. Quanta coisa se perde, meu Deus, na vida de um homem, para sempre, para sempre.
De repente o furriel a pegar no rádio e a gritar:
– O que é que eu faço ao gajo? Nada? Nada? Então no plano da operação eu não vinha práqui pra proteger os mineiros?
Lembro-me dos soldados deitados no chão a deixarem de olhar para a mata e a olharem para ele.
– Eu vim foi guardar escravos!
Parecia um cão raivoso aos círculos. Depois agarra na G3 como quem vai dar um tiro em alguém
e dá dois passos a descer a pedreira, mas para. Lá em baixo o capataz batia de vez em quando num preto. Nem era com muita força, era como nós fazemos aos bois, mais por hábito que outra coisa.
E o furriel envergonhado por lhe terem faltado os tomates para fazer ali uma desgraceira, e depois a passar por mim a dizer palavrões, com os olhos muito brilhantes. Se tivesse ido, se tivesse descido, se o outro tivesse resistido e se o furriel o tivesse insultado, tudo poderia ter acontecido, porque o capataz trazia uma pistola. Hoje, ao menos, teria uma história interessante para recordar, assim dá-me a impressão que pouca coisa aconteceu.
De tudo o que vivi, o que consigo recordar? Alguns estilhaços. Cada dia com vinte e quatro horas, em cada hora tanta coisa a acontecer à nossa volta. Rostos, vozes, sentimentos, afetos e ódios. Tantas palavras ditas, tantos gestos feitos, tantas coisas importantes que esquecemos.
Se nos lembrássemos de tudo seria melhor? Não sei, sinto o som de uma porta a bater e estas coisas vêem-me à ideia, aos bocados, tudo misturado, mas tenho a impressão que as partes mais importantes não me sobem à ideia, ficam afundadas no esquecimento para me pouparem. Se nos lembrássemos de tudo seriamos escravos do passado. A memória é uma doença mental, se não houvesse esquecimento enlouquecíamos todos.
Mas o que terá dito o furriel quando passou por mim com os olhos a brilharem de raiva? Sei que disse alguma coisa mas não me lembro. Dizia palavrões entre dentes, isso eu sei, mas ele disse qualquer coisa que me intrigou na altura e agora não me vem à ideia. Ficou esquecido e esquecido ficará para sempre, mas era uma coisa importante para eu agora entender porque sinto medo e raiva ao ver o mar tão calmo.
Eu ponho-me a aparafusar estas coisas e acabo por chegar à conclusão que afinal éramos todos escravos. Levaram-nos à força ou ao engano para lá, e se refilássemos muito também estávamos feitos ao bife. Éramos escravos a guardar escravos. Se calhar é mesmo assim que as coisas funcionam. Os homens livres não guardam escravos. Se aceitamos que um de nós seja escravo, somos todos escravos. Ah… engraçado, se não me engano foi algo assim que o furriel disse. Faltou-lhe a coragem para enfrentar o capataz e pôs-se ali a filosofar.
Lá em baixo na pedreira o capataz batia nos pretos com muita calma, quase com afeto, como nós fazemos com o gado. E a raiva do furriel a destoar daquela calma toda.
A mesma raiva que eu sinto ao ver o mar calmo. As pessoas a mergulharem nas ondas vezes sem conta, a chapinharem na água, a recuarem quando as ondas se aproximam, a avançarem para a água quando ela recua e a recuarem de novo quando ela avança, uma coisa tão inocente, tão infantil que quase me traz as lágrimas aos olhos, e de repente a voz do furriel:
– Filho da puta!
Porque me vêm estas coisas à ideia como uma porta a bater?


12.10.13

A estranheza do regresso a casa

O táxi passa no Largo da Capela e o sino dá as horas. Não sei quantas. As quatro cornetas do relógio elétrico da torre de Aguim esganiçam-se com as ave-marias, e depois berram as horas a que ninguém dá atenção. Acho que as pessoas se habituaram àquele despropósito de decibéis como se habituam a um mau cheiro.
O táxi desce lentamente a rua da Portela com o condutor a esperar pacientemente que as pessoas se afastem. As pessoas em Aguim conversam nas ruas e afastam-se apenas por gentileza quando um carro quer passar, o que parece ser entendido pelo taxista que não dá sinais de indignação ou sequer de impaciência.
Agora me lembro que o taxista me fez uma pergunta há imenso tempo, e respondo meio distraído:
– Sim, isto da perna foi na guerra.
– Foi na Guiné?
É difícil imaginar agora que as pessoas hão-de desaparecer das ruas, que um dia a urbanidade há-de contaminar esta povoação como uma virose e destruir completamente a sua pitoresca ruralidade, e então, por não terem nada que fazer nos campos as pessoas hão-de sair das suas casas para os empregos o mais rapidamente possível, deixando as ruas vazias.
É sempre difícil imaginar que uma coisa a que nos habituámos e que criou a identidade de algo que nos era familiar há-de desaparecer para sempre, para dar lugar a uma outra coisa no mesmo sítio, não porque seja melhor, não porque constitua uma evolução, mas apenas e tão só porque tudo neste mundo parece estar condenado a cumprir a regra mais cruel e estúpida de toda a criação: tudo tem de ter um fim.
Mas agora e aqui, está tudo na mesma, e é isso justamente que me surpreende. O mesmo ritmo, a mesma respiração, a mesma atmosfera, a mesma vida; como se eu não tivesse saído daqui há mais de meia hora.
Cheguei a casa.
Parece que deixei o filme da “Aldeia da Roupa Branca” a meio, que depois assisti à pior parte do "Dia mais Longo", mas que entretanto regressei.
Tudo na mesma em Aguim, e eu muito mais velho. Segundo a teoria da relatividade, deveria ser o contrário.
Deixei o taxista de novo sem resposta…
– Não foi na Guiné, foi em Moçambique.
– Aquilo lá está mau, não está?
A luz sólida traz-me à memória, por contraste, a luz fluida de África. Os objetos aqui mais tangíveis, quase ferindo os olhos, como coisas inorgânicas, áridas, quase feitas só de luz, sem a humidade omnipresente da selva que dá a todas as coisas uma viscosidade animal.
Dá-me a ideia que ainda não penetrei totalmente neste mundo, que ainda não me é possível perceber todos os pormenores. O próprio som no exterior do táxi tem dissonâncias estranhas, como se as vozes das pessoas por quem passamos fossem declamadas com o tom mal colocado, e os ruídos que me chegam aos ouvidos tivessem uma estranheza, um desconserto, a fazerem lembrar uma filarmónica a afinar os instrumentos antes do espetáculo.
Parece que estou num plateau durante a rodagem de um filme, sem pertencer ao elenco. O táxi penetra no cenário, num travelling lento, e os figurantes ignoram-no. Ou antes, passam eles por nós, desfilando de um lado e do outro.
– Aquilo lá está mesmo mau.
– Mas pra si acabou.
Olho a toda a volta tentando prestar atenção a tudo o que me vai envolvendo, tentando apreender os pormenores. As pessoas rindo despreocupadas. Duas mulheres falando em voz alta a uma distância de vinte metros, sem esperar que se aproximem uma da outra, e continuando a falar alto, mesmo quando já estão frente a frente. Um gato sobre um muro. Um cão passando por baixo e o gato enfolando à sua passagem e a esvaziar depois lentamente, à medida que o cão se afasta.
No Sobreirinho, um carro de bois faz com que o taxista pare o táxi. Uma junta de bois babando-se de dolência e extenuação, arrastando uma enorme carrada de estrume. Os bois, à vez, vão largando sobre o alcatrão do Largo do Sobreirinho, à medida que passam por nós, tartes frescas e fumegantes de bosta. O taxista abre o vidro como se se tivesse sentido convidado para fruir o aroma daquele festim escatológico. Eu também abro o meu e sinto o cheiro quente do estrume e depois o aroma fresco da bosta. De janelas abertas, o som do exterior aumenta e torna-se mais natural como se tivéssemos ambos regulado o equalizador de uma aparelhagem sonora.
O carro de bois segue pela rua da Lomba e o táxi faz os últimos 100 metros atrás dele, ao ralenti.
– É verdade… Para mim acabou.
– Você tem saudades disto, não tem?
Algo muda em mim repentinamente. Como quando temos uma dúvida e de repente se nos faz luz; como quando estamos dolentes com a preguiça matinal, sem vontade de abrirmos os olhos, e de repente sentimos a lucidez da vigília; como quando estamos distraídos no meio de uma multidão de estranhos e de repente um rosto familiar sorri para nós. Realizou-se tudo em meu redor como se eu tivesse acordado.
Cheguei a casa.
Parece impossível, agora, que tenha deixado para trás tanta terra, tanto mar, tanta gente, tanta ansiedade, tanta dor. Parece que atravessei um túnel imenso e que acabei agora de sair para a luz do dia. Um passado de que já não faço parte. Uma história que não quer ser contada, uma história que já não sinto a menor vontade de contar.
– Tenho mesmo saudades disto…
Cheguei a casa.

A 50 metros à minha frente, a minha mãe e a Ti Maria do Zé Sécio conversam ao sol.


Versão audio para deficientes visuais (em breve)

A imponderável densidade do ser

Estiquei o aerograma em cima do carregador da G3, e nada. Não há meio de encontrar a frase certa para começar a carta. Sempre tive dificuldade em começar as conversas, tu sabes. Tu a olhares para mim, à espera de eu dizer aquelas coisas que todos os homens sabem dizer na hora certa, e eu sempre à procura da frase ideal para começar a conversa. E nada. Saía um sorriso tosco, e tu ficavas a olhar para mim incomodada.
Eu queria dizer-te alguma coisa que recebesses como uma prenda. Eu queria que as minhas palavras ficassem para sempre na tua memória como um estribilho de uma canção.
Mas alguém chegava, e com duas tretas incendiava o teu olhar, e tu levantavas-te e passavas por mim sem me ver. Tudo tão simples. Tudo tão banal. O amor só complica, Zulmira.
E fiquei a pensar nisto.
Eu tinha escrito: Zulmira, vírgula, e depois não me saiu mais nada. Que se pode dizer à mulher que a gente gosta e que está do outro lado do mundo, quando eu a tive ao pé de mim tanta vez, e não era capaz de falar?
O padre a perguntar: "Aceita Zulmira da Conceição Fernandes para sua esposa, e promete amá-la e respeitá-la na saúde e na doença, todos os dias da sua vida até que a morte vos separe?" Bastaria dizer que sim e pronto, mas eu a pensar na pergunta, porque seria uma coisa para toda a vida. Percebes?
Às vezes as palavras só estorvam. Aqui então, o silêncio diz tudo o que temos para dizer. Andamos uma tarde inteira aos tiros, e no fim, contados os mortos e os feridos, trocamos apenas silêncios uns com os outros.
Uma ocasião, nós todos calados, só os olhos procurando os olhos; e no meio daquele silêncio, um gajo de Nancatari, já não sei quem, para o Capitão Aveiro: "Esta guerra é uma merda, meu Capitão!"
E continuámos calados porque o silêncio une-nos mais que as palavras.
Com o amor é a mesma coisa, Zulmira, quando digo que amo, não amo, digo só. Quando amo, nenhuma palavra me satisfaz. Por isso olho para este aerograma e não sei o que escrever.
No cais de Alcântara, eu no barco a acenar. Eu, o Candeias, o Camões e o Caseiro, e tanta mão a acenar de volta, mas nenhuma para mim. O furriel Caseiro a dizer comovido: "Estai descansados que vamos regressar todos sãos e salvos!" Algumas mãos tinham lenços que faziam lembrar o adeus à virgem em Fátima, e eu nas calmas porque não amava ninguém ali. Percebes?
Nunca soube o que dizer-te, Zulmira. Quando chegava a noite, e os teus olhos pareciam dois poços fundos onde uma pessoa pode cair, eu olhava-te e gostaria tanto de te dizer aquilo que te fizesse levantar e atravessar uma sala cheia de gente para vires para os meus braços, e nada. Ficava só a olhar para ti.
Às vezes no Café, eu estava sentado a um canto e via-te chegar. Via-te, e qualquer coisa se modificava dentro de mim.
Olhavas à tua volta e o teu olhar varria tudo em redor, como o farol da Barra.
Senti o feixe de luz aquecer-me o rosto, como um sopro quente, depois continuei às escuras. Apeteceu-me deixar cair o copo para te chamar a atenção. Que havia de dizer eu a uma mulher que varre o bar de luz e não me vê?
Era urgente dizer alguma coisa, mas não podia precipitar-me, não podia dizer uma coisa qualquer, porque seria uma coisa para toda a vida. E tu a levantares-te e a saíres sorridente, enquanto ele te avaliava pelas costas, rapidamente, porque para ele seria algo só por uma noite. O amor só complica, Zulmira.
Dantes chegava uma carta tua e eu sentia uma dorzinha boa na barriga. Agora, parece que a dor subiu e aperta-me a garganta.
Há qualquer coisa diferente nas tuas cartas. As palavras são as mesmas, é verdade, mas é como se eu tas ouvisse dizer meia distraída. Sem olhares para mim.
Ainda escrevo no papel amarelado do aerograma: Zulmira, vírgula, mas depois as palavras não vêm, e eu fico a olhar para o aerograma. E o furriel para mim, armado em parvo: "Hás-de arranjar inspiração antes de a guerra acabar!".
E eu guardei o aerograma no bolso do dólmen.
E a foto que tirei pra te mandar… Eu não sou aquele que ficou no papel. Pareço um bandido desterrado de arma na mão. Nunca pareço eu nas fotos que me tiram, mas aqui com este camuflado sujo e com a G3 nas mãos, pareço uma alma penada. Eu olho para o furriel e acho que ele foi sempre assim. Parece que se sente bem no meio desta desgraça. Parece um turista com a arma num ombro e a máquina fotográfica no outro. A gente a fazer o golpe-de-mão, a queimar aquilo tudo, e ele a tirar fotografias. Tudo tão simples, tão banal, percebes Zulmira?
Mas para mim isto é tudo muito complicado, estas coisas vão ficar dentro de nós para toda a vida Zulmira. Isto não é uma guerra, isto é um sacrifício.
Se tudo o que tenho está aí junto a ti, Zulmira, que vim eu aqui fazer?
Eu queria apenas cumprir o meu dever, e ser um bom soldado Zulmira, mas não se pode ser um bom soldado numa guerra de merda.
Sinto tantas saudades tuas! Sinto saudade das tuas coisas sobre a mesa-de-cabeceira, das tuas coisas de mulher colocadas de um outro jeito sobre o tampo da mesa, da tua roupa arrumada de uma outra forma. Nem em cem anos de treino eu seria capaz de colocar as coisas assim.
A forma como penteias o cabelo, como pões a cabeça. Há dias vi uma preta fazer isso e chorei. Porque aquele gesto não me pertencia; e o teu, sendo teu, é um bocadinho meu. É por isso que não consigo escrever estas coisas, porque sei que parecem disparates. O furriel diz que é poesia, a mangar comigo.
Aqui só há coisas de homens. Mesmo uma escova ou um pente nas nossas mãos são apenas ferramentas. Quando as colocamos numa mesa elas ficam caídas, nada mais, e parecem logo coisas inúteis. Parecem abandonadas. As tuas não, as tuas continuam a ter alguma coisa de ti. Mesmo a tua colher sobre a toalha da mesa se distingue de todas as outras colheres. Eu sinto falta dessa humanidade que deixas numa simples colher sobre a toalha, mesmo quando já não estás à mesa. Há uma ternura nos teus gestos que faz com que as coisas ganhem intimidade contigo.
Não imagino como seria se pegasses numa G3. Mas deixaria de ser uma arma nas tuas mãos.
E as palavras que me escreves. São palavras limpas. Parece que não poderia dizer-se aquilo de outra maneira. As palavras saem-te e tu escreve-las no papel, depois eu leio-as aqui e sei o que sentiste. Por isso é que agora ao ler as tuas palavras, sei que alguma coisa mudou, porque não consigo adivinhar o que sentiste quando escreveste.
Há dias em que a mágoa embota tudo, como quando se estende um aerograma no carregador da G3, e se escreve: Zulmira, vírgula, mas as palavras importantes não saem.
E o furriel: "Hás-de arranjar inspiração antes de a guerra acabar!".
Tive que deitar aquele aerograma fora por estar todo sujo e amarrotado, e arranjar outro, depois esperei que toda a gente estivesse a dormir, e vim para aqui, junto da luz da entrada da caserna, e as palavras vieram uma a uma. A noite escura, a lua bolachuda, a luz fosca da entrada da caserna, e eu a lembrar-me de ti com os olhos húmidos a tirar-me a roupa como se estivesses a roubar alguma coisa. E em mim, de repente um calor, uma espécie de raiva, uma vontade louca de te castigar. Eu a lembrar-me de te ter possuído como um varrasco com cio, e as palavras a chegarem, vindas não sei de onde.

Não do sítio de onde me vem o amor por ti, Zulmira, que o amor só complica.

O Ser e a coisa

[...]

Só depois soube que já não vinhas. Se tivesses vindo, ter-nos-íamos sentado certamente àquela mesa para nos olharmos e dizermos coisas que nada tivessem a ver com o nosso encontro nesta casa abandonada há muito, para permitir que o desejo nos surpreendesse, e surpreendendo, nos tornasse inocentes.
O desejo diminui a culpa. Esta solidão aumenta-a.
O peso das chaves desta casa no meu bolso, como o peso de um objecto roubado.
E também o peso da traição; que a traição não precisa de corpo para pesar, nem precisa de ser consumada, basta ter sido tentada. Mas se tivesses vindo, a traição teria pelo menos a compensação do prazer, e não seria um espaço vazio como aquele pires, como aquela cadeira, como esta casa toda, abandonada por se ter tornado insuportável a solidão. Mas já não vens, e o agouro da traição aumenta, porque a culpa sem a tua cumplicidade me atormenta só a mim.

18.5.13

A Raiva




Afastei-a de mim há anos
quando ma deram como missão

Sabia que ela não habitava na luz dos teus olhos
e por isso te amei

Sei que ela não está na cinza do luar
e por isso habito a noite

Adivinho que não resiste à paz do silêncio
e por isso não temo a morte

Então porque sinto o martelo de um punho no peito
e a lâmina indentada de um grito?
Como se pela frincha
da falsificabilidade das palavras
a sombra criminosa de uma mão
me roubasse
o teu olhar
o silêncio da noite
e a própria pátria já moribunda
a incitar de novo em mim
a raiva

21.4.13

Este Mundo Invisível




Para uma abelha é impossível a vida sem o voo e é inconcebível o mundo sem a cor ultravioleta. Se uma destas coisas faltasse de repente, todas as abelhas morreriam.
Tudo será possível neste mundo, mas precisa de tempo, muito tempo. Seriam precisos alguns milhões de anos para as abelhas se adaptarem à vida sem sair do chão, e ao mundo como nós o vemos.
Porém, uma abelha não sabe que possui esses privilégios que a nós nos são negados, tal como um daltónico não sabe imediatamente que não distingue o vermelho do verde.
O interessante é que o que é indispensável para uma abelha pode ser pouco importante para um ser humano, e talvez por isso é que nunca ouvi falar de alguém que sentisse falta de ver para além dos três comprimentos de onda da luz que permitem dar-nos uma imagem tricromática deste mundo.
Mas a humanidade descobriu que a cor ultravioleta existe sem nunca a ter visto, e é isto que verdadeiramente me fascina. A pergunta a que esta constatação conduz imediatamente é: os homens teriam alguma vez descoberto que a própria luz existe se fossem cegos?
Talvez lhe chamássemos apenas radiação eletromagnética, mas seguramente que a descobriríamos mais cedo ou mais tarde, tal como descobrimos o raio X ou as ondas rádio, que afinal são apenas luz em comprimentos de onda e frequências que não temos a menor hipótese de detectar naturalmente.
A ilusão de vermos o mundo no seu infinito esplendor de cores e matizes, só porque o catálogo de um monitor de alta definição de PC nos garante que veremos 64 milhões de cores, é pouco menos que ingénua. Na verdade somos quase cegos perante a luz. Perante a totalidade da luz.
Algures na hélice do nosso ADN acomodam-se os cromossomas que contêm os alelos de pigmentação que codificam os únicos três comprimentos de onda que nos convencem que vale a pena investir à volta de mil euros para vermos a realidade virtual em alta definição. Bastaria sermos cães ou cavalos para pouparmos esse dinheiro, dado que para a quase totalidade dos mamíferos bastam dois alelos de pigmentação para desfrutarem do que para eles é também, seguramente, o mundo no seu infinito esplendor de cores e matizes.
O terceiro alelo parece ser o resultado de uma evolução genética à velocidade estonteante a que estas coisas costumam acontecer, isto é, mais uns quantos milhões de anos. Isso ocorria à medida que os primatas se iam tornando frutívoros e tinham todo o interesse em esperar que a fruta amadurecesse. Para isso precisavam dramaticamente de algum meio de detectar o comprimento de onda longo da luz, que se encontra entre os 630 e os 740 nanómetros, ou seja, o vermelho; o que veio mais tarde a revelar-se muito útil também para sabermos quando é que não convém atravessar nas passadeiras para peões.
Não sabemos, e acho que jamais saberemos, se foi a visão tricromática que nos tornou frutívoros, se foi essa nossa dieta que nos levou a criar o tricromatismo para não ficarmos com os dentes botos quando comemos diospiros. Uma coisa é certa, a bandeira nacional teria obviamente outras cores, porque seríamos todos daltónicos.
Maravilhamo-nos com as limitadíssimas dádivas da Natureza, seja uma cegueira parcial em relação à amplitude total da luz, seja um sentido da audição paupérrimo, que corresponde a surdez para um morcego ou mesmo para um cão, seja estarmos condenados a viver na terra firme porque não temos asas.
Mas com essas limitações descobrimos e usamos o mundo muito para além das fronteiras humanas. Carl Sagan dizia isto melhor, reduzindo metaforicamente o Tempo e o Espaço à escala inteligível de um dia. E calculou que se o Universo tivesse um dia de vida, a humanidade teria tido apenas o tempo de um pestanejar para o entender. Para um abrir e fechar de olhos, convenhamos que sabemos muito sobre o mundo que nos rodeia.
E se em vez de vermos 3 comprimentos de onda da luz, víssemos apenas dois, e fossemos todos cegos para o verde e o vermelho, até onde teríamos ido no conhecimento do mundo? E se fossemos cegos para toda a luz? A julgar pelo que descobrimos para além do alcance dos nossos sentidos, o mais certo é que teríamos sido capazes de descobrir também algumas das coisas que damos como adquiridas por nos ter sido possível percepcioná-las naturalmente.
Vemos a Lua e as estrelas, mas não vemos os buracos negros e os quasares. Vemos os animais e as plantas, mas não vemos as bactérias e os vírus. Vemos apenas um curtíssimo espectro da luz, que na sua amplitude conhecida vai dos raios gama às ondas rádio.
As nossas realizações com os meios limitados de que somos dotados deveriam ser motivo de orgulho para uma espécie que ocupa o topo da cadeia alimentar, se não tivesse sido sempre motivo de arrogância em relação às outras espécies, ou mesmo aos seus pares que, por alguma contingência ou acidente da Natureza, não dispõem de todas as modestas ferramentas naturais para lidarem com o mundo.
Quando criámos os semáforos ignorámos os 4 por cento de daltónicos que há entre nós, e escolhemos justamente as cores que eles não distinguem, levámos décadas até decidirmos começar a acrescentar um sinal sonoro para os 180 milhões que não conseguem ver sequer os semáforos. E continuamos orgulhosos.
E lá, no emaranhado da nossa hélice de ADN, os três alelos cromáticos permitem que o nosso cérebro misture as três cores primárias que lhe fornecem, para conseguir justificar o investimento que fizemos no monitor de alta definição.
Porém, como os dois comprimentos de onda longos, que correspondem ao vermelho e ao verde, são codificados por alelos do cromossoma X, o cromossoma sexual feminino, e as mulheres têm dois, não falta quem pense que é considerável a probabilidade de as mulheres percecionarem uma mais rica variedade de tonalidades destas cores, embora não tenham disso consciência, tal como os daltónicos não se apercebem imediatamente da sua limitação.
Se isso é verdade, e se essa probabilidade se concretizar numa evolução para um tetracromatismo nas mulheres, e se ainda tivermos em conta que os homens são minoritários, resta-nos desejar que não nos venham a considerar a todos deficientes visuais. É que esta história tem um antecedente natural. Os primatas do novo mundo, como o macaco-esquilo, veem o mundo diferentemente, conforme são machos ou fêmeas, justamente pelo mesmo motivo; o segundo cromossoma feminino nas fêmeas já permitiu a evolução para o tricromatismo, enquanto os machos permanecem daltónicos, como os restantes mamíferos.
Se conquistámos o mundo para além das nossas limitações, não temos desculpa em criarmos obstáculos àqueles para quem essas limitações são apenas ligeiramente maiores à escala universal. Obstáculos que em grande parte resultam de termos pensado no aumento do conforto da maioria, ignorando as necessidades básicas de alguns.
Talvez as mulheres venham a ser mais democráticas.


À memória de José Guerra, a quem um dia roubaram a luz, mas jamais a lucidez.

Para deficientes visuais, está disponível a versão áudio AQUI 

17.3.13

A Escolha Satânica







Eu? Eu estou bem. Só quando passa o efeito dos remédios é que tudo na vida parece murchar. E a vida parece um lugar onde não se pode estar.

Estou cheio de cicatrizes, furriel, cicatrizes por dentro, das que não saram.

E você furriel? Como estão as suas cicatrizes? Não tenha vergonha das suas cicatrizes furriel, elas são a prova de que corremos riscos; e viver é correr riscos. Uns ganham ou perdem, outros nem uma coisa nem outra, porque não correm riscos. Eu não estou doente da cabeça furriel, eu tenho saudades… Bastos, tenho saudades da guerra. Lá, quando as coisas corriam mal, a gente trocava-lhes as voltas, a gente atacava os gajos pelos flancos. Com o tempo aprendemos a resolver os problemas à porrada. Pró fim até sabia bem quando tínhamos que dar uns tiritos. Você, esteve lá pouco tempo…

Estiveste lá pouco tempo, e às vezes penso que tiveste sorte. Ficaste sem uma perna, não é pera doce, mas há coisas piores furriel… Bastos, acho que aquilo deu cabo de mim. Fiquei amputado por dentro. Mas ainda não inventaram uma prótese para esta amputação. Atafulham-me com remédios e eu fico meio grogue; e depois que se lixe, fico a voar baixinho.

Isto aqui é assim. Um dia puxa o outro. Começa devagar e vai acelerando, acelerando, e no final do dia, pumba! Uma carrada de comprimidos e eu fico sem sentir nada; nem mau, nem bom.

É por isso que às vezes me lembro que se ao menos pudesse trocar as voltas a isto, atacar pelos flancos… - Ai é? Vocês estão aí emboscados à nossa espera? - E nós atrás deles pelo capim fora, lembra-se ó furriel... ó Bastos, lembras-te? Nesse dia não tiraste fotografias. Estavas mais branco que a cal da parede. Mas os gajos fugiram, e no mato quem é que apanha aqueles gajos? Nem pensar.

Depois, no Chindorilho, foste ferido. E tu a dizeres que nunca mais jogavas à bola. Às vezes penso nisso e apetece-me rir… Tu nunca jogaste à bola, foste sempre um nabo. Mas na altura até me vieram as lágrimas aos olhos. "Nunca mais jogo à bola." Dizias tu para o enfermeiro Costa.

Mas nós ficámos lá, percebes? Aquilo parecia que não tinha mais fim. Aquilo mexe com um gajo, Manel. O pessoal aqui não sabe. E a malta nova então? Às vezes começo a falar sobre estas coisas e a Zulmira olha para a filha, a filha olha para ela, e passado um bocado já nem me ouvem. Eu calo-me, e elas nem notam que eu não acabei a história.

Deve ser uma chatice ouvir um gajo falar destas coisas. Nós é que sabemos como aquilo foi, não é?

Até eu acabei por ficar cansado de me ouvir. Ouço os meus pensamentos, percebes? Estou cansado.

Estou farto de ser eu. Queria despir-me de mim como quem tira um casaco usado de mais. E ficar nu, livre de mim. E depois, quem sabe, sendo outro, ter esperança de novo. Ilusão de novo ao menos.

Estou cansado. A cada dia que passa parece que acabei uma grande empreitada, mas que logo tenho que recomeçar. Tenho um relógio dentro de mim que não pára, um carrossel fantasma sem um único passageiro, que gira, gira, e não vai a lado nenhum.

Mal fecho a pestana, logo me voltam os pesadelos. Para onde foram os meus sonhos é que eu não sei. Mal me deito para dormir vejo logo um milhão de olhos a acusarem-me, sem eu saber de quê. Pessoas e sombras. Mas as sombras são muito mais que as pessoas.

Não me olhes assim sem dizer nada. Tinhas sempre uma palavra pronta para dizer, uma piada. Mesmo quando as coisas não eram para piadas.

Metia-te confusão quando me vias escrever sem pôr as cartas no correio, não era? E tu: - Hás de arranjar inspiração antes de a guerra acabar!

Acho que nessa altura já me incomodavam os meus pensamentos, e precisava de os pôr cá para fora. Punha-os no papel e pronto, ficava mais sossegado. O que é que um homem que anda a brincar com a morte diz à mulher que deixou em casa? Ela queria ir para França, e eu: - Nem sou homem nem sou nada...

Mas mal pus os pés em Mueda vi logo que devia ter dado à sola em vez de me armar em parvo. Tu é que levavas aquilo a sério, Manel, pelo menos no princípio, porque depois começaste a abandalhar, e a tirar fotografias a tudo, até nos golpes-de-mão.

A Zulmira diz que agora falas contra a guerra. Aquilo muda a gente, não é?

Foi lentamente ou aconteceu alguma coisa que nos deu a volta? Sei que aconteceu alguma coisa, mas não me lembro do que foi. Sei que me esqueci, mas como se tivesse acabado de pensar nisso um minuto antes, e logo me fugisse a ideia. É como se me tivessem amputado tal como te amputaram a ti. Falta-me esse bocado. O lugar onde estava essa lembrança de que não me consigo lembrar. E sabes lá como isso me incomoda? É um pesadelo.

Quando voltares, pede à Zulmira… não, não, talvez seja melhor pedires à minha filha. Pede-lhe que me traga fruta, ou flores, ou um livro. Algo que me traga algum afeto.

Acho que as assusta este lugar. Da primeira vez que aqui estive, vinham todas as semanas ver-me. Agora ainda vêm, mas menos.

Sabes como era às vezes, quando íamos pró mato? Aquela impressão de que as coisas iam correr mal? É o que sinto agora todos os dias.

Parece que ainda te estou a ver a fazer desenhos com um pauzito na areia da picada. Eu com a ideia de que havia um muro enorme à nossa frente, ou então um precipício. Algo que não deixaria a gente sair dali.

Agora, ao pensar nisso, iria jurar que não se ouvia nada. Havia um grande silêncio. Aquele silêncio que ouvimos quando morre alguém. O silêncio de a vida se ter tornado um lugar onde tudo murcha, onde não se pode estar.

Levei tempo a perceber. Só havia lugar para dois no helicóptero. Eu só pensava: - A esta hora da tarde o que ficar vai morrer.

Nem me recordo da emboscada. Atirei-me para de baixo da Berliet e deixei-me lá estar. De vez em quando dava um tiro, mas o capim não deixava ver ninguém. O alferes mais uns cinco gajos atacaram os turras pelo flanco esquerdo e eles fugiram. Resultado: três feridos graves. Depois tu ficaste a fazer riscos no chão como se estivesses a chorar.

Eu perguntei: - Quem é que vai ficar, furriel?

Olhaste para mim como se eu estivesse a falar chinês e passado muito tempo disseste: - Sei lá. Ou o que tiver mais hipóteses de aguentar a noite toda, ou o que não tiver hipóteses nenhumas.

Depois, continuaste a rabiscar com o pauzito no chão, como se estivesses a calcular as hipóteses. Há muitas maneiras de chorar.

Lembro-me tão bem de todas as coisas que não têm interesse nenhum e não me lembro nada do que foi realmente importante. Qual deles ficou? Será que foi porque aconteceram muitas coisas depois disso que já não me lembro? É muito estranho que não me lembre. Quem decidiu qual deles deveria morrer? Quem foi que fez o papel de Deus? Como se pode viver depois de uma escolha dessas? Uma escolha tão danada que se apagou da minha cabeça.

A verdade é que se me apagaram muitas coisas da minha cabeça. Não sei ao certo se seria melhor conseguir lembrar-me, mas pelo menos teria mais descanso. Perco noites a tentar recordar-me de uma coisa e depois já nem me lembro a que propósito é que me queria recordar.

É como se eu me tivesse esquecido para não ter que fazer luto. A vida é assim, não é furriel? Todo o afeto acaba em luto.

Que foi que me aconteceu, furriel? Tu estiveste lá pouco tempo.... mas aconteceu alguma coisa importante, muito importante. Muito importante de mais...

Sabes o que penso? Penso que nas guerras Deus mete dispensa e quem fica a mandar é o Diabo.

Depois, Deus quer voltar de novo ao ativo mas o Diabo não deixa. Pelo menos comigo é assim, furriel. Ainda tenho o Diabo no ativo.

Por isso é que eu não posso escolher, não posso decidir o que faço à minha vida. Não se pode escolher, quando é o Diabo que está a mandar.

Também deste opinião? Atiraram a moeda ao ar? Ou fizeram Pim pam pum! Cada bola mata um... e depois... ficou um ao calhas? Um escolhido pelo Diabo.

Também se te varreu isso da cabeça, ou consegues atirar tudo para trás das costas? "Atira isso pra trás das costas." Diz a Zulmira para mim, como se fosse possível atirar uma guerra inteira para trás das costas. Eu bem quero esquecer, mas o que quero esquecer não esqueço e aquilo de que me quero lembrar não me lembro. "Tens que ter coragem." Diz ela. Coragem... As pessoas acham que isto é falta de coragem. Isto são saudades. Não saudades da guerra, Manel. Saudades de mim nessa altura. Saudades de quando eu era outro e tinha medo e coragem e era tudo nítido. Agora não sinto nada, está tudo embaçado, e eu sou um casaco velho que não consigo despir.

Quando andavas de máquina fotográfica na mão e com a G3 às costas, era por falta de coragem, era? Eu bem vi. Aquilo começou a mexer contigo. Foi ou não foi? Ficavas lá mais uns tempos e vinhas pior do que eu.

Fala com a minha filha, pede-lhe que me traga flores. Que me traga alguma coisa viçosa que me faça sentir que a vida é novamente um lugar onde se pode estar.

Sabes? Acho que devia ter ficado em África. Quer dizer, acho que devia ter morrido lá. Pensei assim muita vez: se voltar nunca mais serei o mesmo; nada será o mesmo. Nunca mais.

Se ficar aqui, ao menos as pessoas que gostam de mim vão recordar-me como eu era e não como o ramo murcho que sou agora. Como eu era quando ainda gostavam de mim.

Antes de Deus ter metido dispensa e o Diabo ter ficado no ativo.

Olha, ela que não me traga flores, Manel, as flores também murcham.

mcbastos

In Elo de Fevereiro de 2013


11.2.13

A saca de milho


O prazer dos pés nus na quentura do pó, a estrada como algo pousado com preguiça sobre os vinhedos só para a gente passar, o ar sem movimento a dar a impressão que no verão vivíamos no vácuo, e as distâncias enormes. O som das enxadas ferindo as côdeas da terra e um cheiro de tantas coisas no ar ao mesmo tempo, que não dava para dizer a que cheirava. Uma coisa é certa, o tempo não andava, vivíamos num presente que apenas dilatava, e nós nele como fazendo parte de uma fotografia animada.
Quando comecei a ir à escola, às vezes desviava-me pela rua da loja para sentir o cheiro do salitre do bacalhau, da moagem do café e do sarro do vinho a saírem da loja da senhora Idalina. À porta, do lado esquerdo, uma saca grande com milho. Em minha casa só no arcão, com uma tampa demasiado pesada, e aqui mesmo à mão. Olho para um lado e para o outro e entro sorrateiro na loja. Vejo a saca do milho indefesa. Quando ninguém reparava em mim enterrava devagar uma mão no milho. Meio minuto de prazer bastava. Depois retirava a mão devagar. E uma certa vergonha fazia-me fugir do local do crime. Às vezes, mexia mesmo os dedos da mão, e o prazer multiplicava-se por cinco, nas entranhas granuladas do milho. A partir do dia em que fui descoberto a minha vida mudou, porque aquele prazer aumentou desmedidamente, por ter ganho o estatuto de pecado.
Foi por essa altura que me convenceram que para além dos meus pais havia ainda um poder maior e mais intransigente. O pior é que parece que está em todo o lado e vê tudo o que fazemos. Umas vezes afligia-me com isso e a vida tornava-se tão chata como a sala de espera do doutor Santos, outras vezes parecia que podia dar-se o caso de essa autoridade estar distraída e não me ver cometer o terrível pecado de enfiar a mão na saca do milho. Deve ser isso que acontece quando o padre está com a afilhada na sacristia, e o Tó, que ajuda à missa, se põe muito quieto encostado à porta. O padre às vezes apanha deus distraído. E a minha avó para a minha mãe: - É a amázia. Eu um dia para o meu avô, assim à traição: - O que é uma mázia? E ele com um sorriso de viés como quando olhava a moça serrana de costas, a fazer as camas de lavado: - Quem é que tem uma amázia? E eu: - É o padre Amâncio. O meu avô riu durante muito tempo até ficar sem fôlego, e depois como se me estivesse a resolver um problema da escola: - Sabes, o padre é um homem, e às vezes precisa de uma mulher. Estranho, pensei eu, e depois em voz alta: - Precisa de uma mulher para quê?
O meu avô riu até se engasgar e tossiu durante muito tempo, depois quando pareceu ficar melhor: - Para que a mulher lhe sirva. Quando a mulher quer, serve sempre ao homem.
Não entendi. Mas uma suspeita de que as palavras não servem para nos entendermos nasceu aqui. As palavras que servem para explicar, servem também para confundir.
Mas tu eras simples demais para confundir. Era quase sem palavras que nos explicávamos. Chegavas e eu deixava de ser filho-único; partias e eu voltava ao meu mundo de uma só pessoa. Porém nunca te amei, talvez porque me habituei a ti cedo demais e o amor precise da diferença e do mistério e de alguma transgressão.
E as palavras do meu avô, que ainda não entendia, faziam-me imaginar-te como um casaco que tivesse que usar primeiro, para ver se servia. Uma pessoa, assim como um sapato, mas que se ajustasse ao pé, fosse qual fosse a nossa medida. Como o milho na saca da loja da senhora Idalina se ajustaria a qualquer mão. O prazer que senti ao lembrar-me da minha mão a penetrar os interstícios do milho deu lugar a uma profunda repulsa ao associá-lo a ti. Seguramente, não eras à minha medida; seguramente, não te imaginava ajustável. Habituei-me a ver-te exclusiva mas não como um par, éramos sapatos do mesmo pé.
E todo o universo dos meus sentimentos e sensações, dos meus instintos e impulsos, dos meus prazeres e repulsas se reorganizou em torno desta impossibilidade. Há uma compatibilidade, uma acomodação entre dois diversos que jamais pode existir entre dois idênticos; amar-te seria incestuoso.
De tudo isso, só a saudade do pó nos pés nus, que são muito mais as coisas que eu esqueci do que aquelas que recordo. E as distâncias enormes. Ou me engano muito ou andávamos mais rente ao chão, mais perto do coração da terra, tanto, que me lembro da transpiração quente que subia do que parecia simplesmente uma passadeira de pó apenas pousada sobre os vinhedos, distorcendo a paisagem à distância. E os sons ecoando a lonjuras impensáveis, dessincronizados com as imagens, como num filme mal montado.
Dá-me a ideia que o mundo acelerou, que as pessoas perderam a paciência, que tudo se tornou mais assertivo. Hoje ninguém me acusaria de impudências por violar uma saca de milho; seria simplesmente tomado por imbecil.
Mas agora que isto me veio à memória tenho a noção de ser justamente essa pudicícia que se perdeu com o tempo, e o que me ficou foi um sentimento de perda, de oportunidade perdida.
O Largo do Sobreirinho parece-me grande de mais hoje. As folhas dos castanheiros da Índia foram mudando de tonalidade como se um fotógrafo tivesse estado a corrigir a cor no monitor de um computador. Mas toda a cor perdeu a vibração e se foi tornando pardacenta à medida que a tarde esmorecia. As pessoas regressam a casa.
O carro em que vens pára.
Quando a porta do carro se abriu, ainda ouvi a voz do meu avô a dizer que toda a mulher se pode ajustar à medida do homem, e agora, essas palavras despertaram em mim algum instinto primário que a inocência perdida já não pode ignorar.
Tu sais, e as crianças e o pai demoram mais um pouco. Mas não sais logo. Uma perna alonga-se do carro até ao lancil. A biqueira da sandália a tactear o passeio. E toda a extensão desnudada da tua perna a sair do carro numa ligeira torção, que realça a dinâmica das curvas e excita o canibalismo da minha imaginação. Sais e olhas para onde estou, mas como se não me visses. Uma falsa omissão como uma mensagem de cumplicidade. Olhamo-nos por um eterno segundo que me rebobinou a memória até um lugar na nossa infância, onde poderíamos ter tido ao menos um amor impubescente.
E vinda sem aviso, obsessiva e impúdica, a imagem da minha mão a afundar-se nas intimidades da saca de milho.

mcbastos

Para deficientes visuais, está disponível a versão áudio aqui.

12.1.13

José Adelino Guerra, um homem com visão


Escrito segundo a convenção ortográfica anterior à reforma de 1990

Quando um dos nossos tombava sentíamo-nos culpados, porque éramos iguais perante a morte e tivemos o privilégio de sobreviver. Morríamos um pouco também, porque diminuía para nós a esperança de vida.
Quem nunca combateu e não precisou dos seus camaradas para sobreviver, dificilmente entende isto, quem nunca tingiu as mãos com o sangue dos seus pares para os socorrer, ou pelo menos para estar presente até ao fim, seguramente não entende isto. E a verdade é que eu também já me tinha esquecido disto há muito, mas ontem essa culpa atingiu-me em cheio, como se eu tivesse descurado um perigo que me cabia prever, como se eu tivesse tomado uma decisão que redundou em desastre. Como se o meu camarada José Guerra tivesse sido morto em combate e eu tivesse chegado tarde demais para o defender. 
E ali estava a imagem há muito esquecida do companheiro caído, a sua arma para lutar contra a hostilidade do mundo caída ao lado dele, inútil. Inútil já, a bengala branca, como um risco florescente na obscuridade da tarde avançada. Inútil como todas as armas deixadas cair pelos que caiem lutando; que ele caiu lutando. Porque a cada passo que dava se opunha à cruel indiferença dos que dão por adquirido o que para alguns é o resultado de uma luta sem tréguas. 
E no último passo que deu, um muro projectado para fingir segurança e cumprir não sei que desígnios estéticos, interrompeu essa vida de luta, de coragem, de humildade solidária que o levava a colocar-se sempre depois dos outros para receber e à frente de todos para dar. 
Mas quem caiu naquele precipício foi apenas o homem; que a sua obra continua. É que à medida que tombam os nossos companheiros de combate, diminui de facto a nossa esperança de vida, mas aumenta a camaradagem dos restantes, a interajuda e a amizade. E agora, mais unidos, damos mais valor uns aos outros; mais decididos, mais conscientes de que a ausência do Guerra tem de ser compensada pela lição de coragem que nos deixou. 
Depois do sentimento de culpa, veio o instinto de retaliação, a vontade de punir o culpado. Ainda senti a mão a fugir-me para a arma, uma arma há tantos anos esquecida, uma arma já tantas vezes amaldiçoada. Mas não se luta com uma G3 contra a insensibilidade humana, contra o desprezo cruel dos que projectam, constroem e mantêm estas armadilhas arquitectónicas como minas antipessoais colocadas à saída do trabalho de um cidadão. 
Parece que estou a ouvi-lo dizer no seu tom comedido mas levemente douto: – Combater a indiferença não é o trabalho de uma vida, é o trabalho de gerações.
Quantas vezes passei por aquele muro? Quantas vezes me senti inseguro à sua beira? Qual foi a minha contribuição para evitar aquele desastre? Como posso pensar em retaliação se agi como todos os que tinham responsabilidades e nada fizeram?
– A luta pela indiferença tem de ser feita pela positiva, conquistando simpatias, atitudes e vontades. Tem de ser feita despertando consciências em vez de despertar sentimentos de culpa. – Dizia ele. E pensar nestas suas palavras deixou-me mais aliviado.
Uma comunidade onde a soberania deixou de pertencer ao cidadão para passar a pertencer à empresa, uma comunidade em que os pobres pagam as dívidas dos ricos, em que os que andam mais rápido passam à frente dos que têm mobilidade reduzida, em que os lugares para deficientes nos parques de estacionamento são ocupados por quem não tem deficiência nenhuma, a não ser a ignóbil deficiência de falta de escrúpulos; uma comunidade assim deixa-nos por vezes à beira da raiva. E eu: – Amanhã trago um papel a dizer: ”Espero que um dia você já tenha direito a estacionar aqui.” E ele sempre mais razoável: – Fica melhor: “Espero que você nunca tenha direito a estacionar aqui.”
Às vezes, eu cedia ao meu senso de humor de gosto duvidoso e exagerava a sensualidade das mulheres que passavam por nós, para o provocar; e ele sem se deixar enganar, sem abandonar a atitude de lutador e sem desmanchar o senso de humor: – Num mundo justo, o que tu vês, eu deveria poder apalpar.
Quando falava dos seus projectos, com o seu ar modesto, eles pareciam sempre insignificantes, mas quando metia mãos à obra é que víamos o que ele vira antes de nós. Dava a ideia que ia sempre um passo à nossa frente.
Porém, as suas dúvidas eram grandiosas, como acontece com os sábios. Um dia, ao regressarmos da piscina: – Se fossemos todos cegos, será que a humanidade teria descoberto a luz?
E as estrelas sobre Santa Clara brilhavam na noite, impotentes para lhe responder.
Estas coisas passaram-me pela cabeça como um filme acelerado enquanto olhava o seu corpo caído, que um muro construído como uma armadilha fez precipitar num abismo, em vez de o proteger.
E o soldado que acordou em mim foi desaparecendo devagar, dando lugar ao companheiro de trabalho e de lazer que de repente fica sem parceiro, ao amigo impotente perante uma crueldade esmagadora.
As pessoas por distracção ainda hão-de falar dele no presente do indicativo durante algum tempo, e só depois, a pouco e pouco, passarão a usar definitivamente o pretérito, à medida que o tempo criar distância e a expectativa de o ver chegar der lugar à saudade.
Entretanto, talvez consigamos que se reconstrua aquele muro a tempo de evitar mais tragédias, talvez descubramos outras armadilhas destas antes de provocarem vítimas; talvez, se formos capazes de pensar como o meu amigo Guerra: – O nosso conceito de conforto tem que ser colectivo e tem que ser concebido a pensar nos que têm menos conforto.
Obrigado Guerra por teres partilhado este mundo comigo, a tua visão da vida e a tua amizade tornaram-me uma pessoa melhor.
Agora, descansa em paz, nós havemos de aguentar isto.

Versão áudio para deficientes visuais, AQUI.

15.11.12

Insónia


Tu aqui ao meu lado, Zulmira, e quanto silêncio nos separa. Como podes dormir com este silêncio?
O silêncio é uma coisa estranha. Não é surdez, a surdez é oca e o silêncio é maciço. No silêncio, é como se o ar se tivesse tornado sólido como betão. E tudo fica preso no silêncio. Tudo fica parado. Os móveis parados. As paredes paradas. Eu poderia mexer uma perna, só para quebrar o silêncio, mas a minha vontade parou também, não sou capaz de me mexer.
A tua foto parada sobre a cómoda olha para mim. Um sorriso parado. Tem anos aquele sorriso. Foi a Moçambique e voltou comigo para casa. Atravessou uma guerra inteira e não mudou nada. Um sorriso sem culpa, a desafiar a culpa dos outros.
Tudo parece parado, e no entanto tudo se move, se transforma; mas tão devagar que eu não consigo ver.
As gavinhas da parreira a enrolarem-se nos ferros da varanda como dedos lentos, tão lentos que me canso de olhar para elas e não as vejo crescer, e no entanto sei que crescem mesmo debaixo dos meus olhos. A erva por entre as pedras do terraço. Lenta, tão lenta. Ou então sou eu que vivo depressa demais. Tão depressa, que não me lembro de termos sido felizes.
Não me lembro de ter vivido.
Sei que me amaste Zulmira, mas não serias capaz de cometer adultério para teres um momento de prazer comigo; não serias capaz de te humilhar por mim, ou de humilhares o amor da tua vida por um momento de devaneio e pecado, breve e sem futuro, comigo; de navegares até ao meio de uma tempestade na noite mais medonha só pelo prazer de uma loucura comigo. Eu sou para ti apenas o farol solitário na praia segura; a estaca onde amarras o barco no fim da viagem. E agora dormes em paz como se isso fosse tão natural como as rosas terem espinhos; apenas um contratempo da Natureza. Sem remorso nem mágoa.
Quando às vezes sorrias para mim e dizias "Ó Zé!", eu olhava nos teus olhos e via a mágoa lá no fundo. Mas era a mágoa de teres perdido alguma coisa preciosa quando casaste comigo. Alguma coisa tão secreta e sem perdão, que só no fundo do teu olhar ficou essa mágoa para sempre. Uns olhos alegres com uma tristeza escondida lá no fundo.
Mas o teu corpo era só alegria. O teu corpo era uma festa Zulmira, que até fazia esquecer a mágoa de ver essa mágoa nos teus olhos.
Mas o teu corpo foi ficando triste também, com o tempo. Envelheceste Zulmira, e eu não dei conta. Ainda ontem eras tão jovem. As gavinhas da parreira a enrolarem-se nos ferros da varanda. O tempo a abrir frestas na madeira dos móveis. Areias a caírem das paredes. A tua foto a amarelecer lentamente. E eu a viver depressa demais.
Como pesa este silêncio. Sinto o peso do silêncio no peito como se eu estivesse morto, e alguém se tivesse sentado em cima do meu caixão.
Há um pingo na torneira da cozinha a aumentar o silêncio. Sabes como é? Vai-se juntando a água num cantinho do cano, depois o pingo estica, contrai-se um pouco, estica de novo e acaba por deixar-se cair. E o silêncio aumenta a cada pingo que cai.
És tão inocente Zulmira. Envelheceste sem culpa. Ainda se ao menos te sentisses culpada. Se ao menos te queimasse o remorso de me fazeres sofrer por me teres traído.
Cada pequeno prazer teu sem mim foi um pingo de ferro fundido a cair na minha alma, e agora que já não me trais, envelheceste. É a maior das traições, Zulmira, seres-me fiel por teres envelhecido. Como podes dormir com este silêncio? Como podes dormir sem culpa?
As melgas também aumentam o silêncio. Fazem voo rasante como os T6 lá no mato. Todos ficavam aliviados quando eles chegavam, mas eu enchia-me de terror. Os T6 traziam a morte na barriga e despejavam-na em cima dos turras. E o céu parecia uma pele de tambor a ribombar. Aterrorizava-me a morte Zulmira, fosse de quem fosse a morte. É por isso que odeio as melgas. Elas a aproximarem-se dos meus ouvidos a imitar um T6 em voo picado. Às vezes chego a ouvir o teto do quarto como a pele de um tambor. E tu, tão inocente, a dormir como se não tivesses culpa de nada.
A tua beleza tornava a tua traição suportável. Eu olhava o desenho perfeito dos teus lábios e não conseguia imaginar que fizessem outra coisa além de beijar. Agora parece que só fizeram obscenidades sem escrúpulos.
Sabes Zulmira, eu amava-te com ternura e via em ti uma flor, onde outros viam apenas um fruto. Via em ti a minha sede, onde outros apenas a água de beber. A paixão, Zulmira, onde outros apenas a carne. E depois da paixão regressava lentamente à ternura, onde outros apenas se levantaram.
Mas o silêncio apaga tudo, encobre tudo. O silêncio é teu cúmplice Zulmira, por isso é que tu dormes sem medo, como se as coisas não acabassem por se estragar com o tempo, a caminharem lentamente para a morte.
As coisas morrem lentamente e eu posso não ver isso, mas sinto, Zulmira; há uma diferença nas coisas quando a morte anda no ar. Eu olhava para o mato e sentia a morte. “Ó furriel, isto cheira-me a esturro” e ele a olhar para mim e a encolher os ombros, sem remorsos como tu.
Quando o radiotelegrafista ficou para trás eu vi logo que ele tinha levado um balázio, e fiquei a olhar para ele. Nós íamos a fugir e ele parado de repente. Sabes lá o tempo que um soldado morto leva a cair? Os olhos parados, como se o tiro tivesse desligado um mecanismo qualquer lá dentro. Mas o corpo ainda de pé, e eu no meio da picada a olhar para ele. Quando uma pessoa não pode fazer nada o tempo parece que para. Eu parado, olhando para ele, e ele no meio da picada, já morto, mas ainda de pé. De pé como uma torre de uma catedral onde os sinos apenas se calaram.
Tu és mais feliz do que eu porque não sentes que as coisas se estragam com o tempo. Olho para ti e não sei como me distraí, como não nos vi envelhecer, Zulmira. Bolsas debaixo dos olhos, pregas nas pálpebras, inchaços no rosto, barbelas no pescoço, nos braços, na barriga e uma rede de rugas por todo o rosto, por todo o corpo. Tudo isso a crescer em nós como eras num muro, como as ervas no empedrado do terraço. Tão devagar como as gavinhas da parreira nos ferros da varanda. Tão devagar que a gente nem dá conta. A gente a olhar e a não ver nada, mas tudo a acontecer debaixo dos nossos olhos. O bolor da vida a crescer, o grelado da alma a cobrir o mundo; tudo a transformar-se a uma velocidade diferente da nossa. Todas as coisas que conhecemos a deixarem de ser o que eram e a transformarem-se noutras sem darmos por isso.
Tu foste envelhecendo e foste aprendendo a ser-me fiel à medida que envelheceste. Não vês como isso é criminoso Zulmira? Tu dares-me o que eu queria, quando já não é o que eu queria, quando já nem eu sou o que eu queria.
Pode ser apenas este silêncio, Zulmira, que me transforma num fantasma que já devia ter partido, mas que continua aqui condenado apenas a permanecer.
Se ao menos ressonasses Zulmira, se ao menos os vizinhos de baixo discutissem, ou os de cima fizessem ranger a cama, ou se ao menos a minha cabeça ficasse também em silêncio, e tudo desaparecesse no esquecimento…
Mas a minha cabeça parece ser a única coisa neste mundo que não está em silêncio. O mundo parou, ou anda tão devagar como as gavinhas da parreira nos ferros da varanda, e a minha cabeça vai a 100 à hora, Zulmira. E tu inocente a dormir.
O furriel a gritar "guardem o medo prá 'manhã e venham proteger o enfermeiro", e eu a sentir os pés a escaldar com medo das minas. Mas fui proteger o enfermeiro que tentava ligar o mecanismo dentro do radiotelegrafista.
Nunca ouvi uma frase com tanta ternura: "não me morras, meu filho da puta". Mas os olhos do radiotelegrafista parados.
O enfermeiro gritou de novo: "não me morras, filho da puta". E uma rosa vermelha a desfolhar-se, a desfolhar-se no peito do radiotelegrafista.
E o médico da Liga a dizer que eu sou um cobarde, porque não me sai do peito aquele vazio por ter guardado o medo para mais tarde. Guardei o medo Zulmira, e guardei-o tão bem que ele ficou dentro de mim para o resto da vida; e agora volta todas as noites.
Sabes o que é o medo Zulmira? Não o medo bom de nos descobrirem a cometer um pecado; não o medo de o dinheiro ou a comida não chegarem ao fim do mês; não o medo de chegar a noite, e tu finalmente decidires que não voltas mais – o medo do medo Zulmira. O medo que para o mundo à minha volta, preso no betão do silêncio, que pesa no peito como se alguém se tivesse sentado sobre o meu caixão.
Nunca mais chega a manhã, para o sol começar a desenhar buracos nas persianas e uns fiozitos de luz que apanham grãozinhos de pó, como se o betão do silêncio se dissolvesse no ar.
Olho para trás, Zulmira, e vejo a minha vida toda como um filme. Foi tudo tão rápido visto daqui. Eu de boné e calções, ainda a parreira só um graveto, e os dedos já a enrolarem nos ferros da varanda.
Depois, eu já grande, com as mãos encardidas pelo cimento das obras, escondidas nos bolsos; enquanto outras mãos delicadas pareciam bolear o teu corpo. Estas minhas mãos que só se tornaram limpas na guerra. Acreditas Zulmira, que a guerra me limpou as mãos? Perdi os calos e a pele ficou tão delicada de só pegar na G3.
E eu sem ti. Eu sem poder bolear o teu corpo com as minhas mãos finalmente delicadas por só terem a missão de matar.
Os teus seios tão delicados e as minhas mãos de cortiça que não sentiam nada. No mato, olhava para as minhas mãos e sabia que sentiriam as pontas dos teus seios.
As minhas mãos delicadas de um lado do mundo e as pontas dos teus seios do outro.
Depois, eu a ver o radiotelegrafista morto com o corpo ainda de pé. Os olhos parados. O tempo que um soldado morto leva a cair... Tudo em silêncio de repente. O mundo parado como uma fotografia.
Depois o corpo do radiotelegrafista a tombar numa confusão de membros. Depois a cabeça para um lado. Depois uma rosa de sangue a desfolhar-se no peito. Depois o enfermeiro: "não me morras filho da puta". Depois o furriel: "guardem o medo prá 'manhã". Depois os pés a escaldarem-me com medo das minas. Depois o rádio: "Charlie - bravo, charlie - bravo, daqui alfa - sierra. Diga se me ouve, escuto." Mas os olhos do radiotelegrafista parados.
Depois eu a regressar finalmente a casa e tu com um sorriso triste. E eu a olhar para os dedos da parreira, enormes, a mostrarem que o tempo não tinha esperado por mim.
Ninguém esperou por mim. Eu a fazer negaças à morte, e as pessoas de quem eu gostava a viverem a vida como se nada fosse. Por isso é que quando a noite chega, sinto que alguém se senta sobre o meu caixão. Feito de medo. Do medo que eu guardei para quando tivesse tempo de ter medo.
Sinto que tudo parou. É a morte, Zulmira. Entre cada pingo da torneira da cozinha há uma eternidade de morte.
Os dedos da parreira lá fora na varanda a agarrarem-se à vida, mas tão lentamente que parece que a morte está mesmo prestes a pará-los para sempre.
Se ao menos já tivesse chegado a manhã…



Versão audio para deficientes visuais: ouça aqui 

28.10.12

Incongruências


Lastro
Eras tu e eu na sala vazia. O gira-discos no chão. Às vezes fumávamos um cigarro.
Conversávamos com os olhos, com as mãos. As palavras guardávamo-las para quando não tivéssemos nada que dizer.
Um espaço vazio tem essa vantagem: podemos imaginar muita coisa para lá pôr.
É um momento de esperança, aquele em que se está só, a dois, numa sala vazia, falando sem palavras, e ouvindo o eco da nossa conversa no próprio corpo, imaginando o que a vida nos trará.
Depois enchemos a sala de coisas, os quartos, a casa toda. E as coisas que arranjámos já não cabem na nossa casa, nas nossas vidas.
E agora somos um cargueiro navegando pela vida fora sem espaço para pormos o gira-discos no chão e sem espaço para que o silêncio da nossa conversa faça eco numa sala vazia e se reflita pelas paredes até o sentirmos no corpo.
Devíamos viver ao contrário. Devíamos ir alijando todo o lastro das nossas vidas com o tempo, até ficarmos sem nada.
A não ser nós os dois numa sala vazia.

Fidelidades
Espero que tudo quanto eu digo se venha a comprovar falso. Olho à minha volta e tenho poucas dúvidas da tragédia a que nos conduzem, tal como tu. Mas ainda assim não estamos de acordo, porque tu desejas ardentemente ter razão por fidelidade aos teus princípios e eu desejo estar redondamente enganado por fidelidade às pessoas.

Dignidade
Que pensaste quando ajeitaste a corda como se fosse uma gravata? Sei que a ajeitaste, porque eras meticuloso. Sei que passaste a mão pelo cabelo como fazias sempre que te preparavas para algo importante, como se não quisesses ser recordado em desalinho.
Tinhas uma dignidade que só vi em alguns homens nesta vida, muito poucos; tão poucos, que pensando bem, ninguém a tinha como tu.
Momentos antes queimaste uns papéis, depois regaste o canteiro da salsa; então, foste para a adega, e ninguém mais te viu.
Apenas te ouviram tossir violentamente.

Indiferença
Uma criança de ventre inchado e moscas na boca disputa algumas migalhas com os pássaros. A pele do rosto devolve a luz avermelhada de África num tom mais escuro e macilento. Ao longe distinguem-se umas árvores raquíticas e viaturas militares. Algumas passam perto e lançam nuvens de poeira para cima da criança. Não se ouve se chora ou se soluça, porque o barulho das vozes no café abafa o som da televisão.
Alguém pede um fino, alguém pergunta se falta muito para começar o jogo.
Alguém ri.

Ilusão
Guardo nítida a forma da tua silhueta frente ao mar. Uma ligeira dormência que sempre sucede a um esforço demorado guardou essa imagem no acervo dos meus sonhos.
O meu cansaço teve hoje outra origem, mas ao olhar a janela do quarto de hotel que dá para a aridez da cidade, é o mar que vejo e a tua silhueta que percebo nítida, e a certeza de te ter amado toda a noite.

Luto
Quem eras tu, com quem vivi dia apos dia e noite após noite, com quem caminhei, com quem morria a cada passo que dava, a cada dia que passava?
O companheiro, o amigo de sangue, o camarada, o irmão no medo e na coragem... Quem eras tu? Que rosto era o teu que o tempo apagou?
Tu que, ignorante como eu, acreditavas que a guerra era uma solução para salvar vidas, e que os mortos eram um erro inevitável, um erro calculado?
Tu que não foste contemplado pela solução. Tu, de quem esqueci já o rosto e a voz, porque fazias parte do inevitável erro.
Quem eras tu? Serias apenas a parte de mim que morreu também?
Porque tu, tu mesmo, ter-te-ei eu esquecido completamente, para permitir que a minha sanidade sobrevivesse?
E a dor residual que me ficou, será apenas autocomiseração?
Será apenas a parte sobreviva de mim fazendo o luto pela que lá morreu?

Breivik
O sorriso do condenado prova a insanidade da pena. Uma pena devia ter sempre a medida justa do sofrimento em juízo. Anders Breivik deveria ter sido condenado à inviabilização do prazer.

Conflito
Tu olhas-me com desdém. Tens razão, são patéticas as minhas palavras. Só não o disseste assim porque te exprimiste mal e saiu-te uma deselegância.
Mas esta é a minha maneira de dizer que há conflitos que nunca terão solução. Podemos mudar de opinião sobre as coisas que fizemos, mas não poderemos mudar o que fizemos.
Porém, tu preferes a coerência à verdade, e adaptas o passado para que o teu presente faça sentido. Eu prefiro a verdade à coerência e jamais resolverei este conflito de valores.
Combatemos na mesma guerra. Tu, segundo dizes, já então consciente da injustiça; por isso combateste porque não tiveste coragem de desertar. Eu, apenas porque acreditei que era meu dever.
A tua forçada coerência faz de ti culpado. Eu, pelo menos, tenho a desculpa da ignorância.

Mentiras
Gostava de olhar-te sem tu me veres, quando caminhavas ao meu encontro. Ver-te caminhar ansiosa, quase ofegante assim, era o meu segredo sobre ti.
Depois encontrávamo-nos, e tu fingias uma calma quase displicente, e eu, uma surpresa ingénua.
Hoje, que conheço os teus passos a subir as escadas, e tu o modo como abro a porta da rua, temo-nos por adquiridos e já não precisamos de mentir.
Mas essas mentiras fazem-me falta.

Exceção
Camarada, eu sei que se a regra está errada, a exceção está certa; pelo menos socialmente. Mas se os famélicos e os desvalidos nos veem do lado dos privilegiados; e, vítimas que são da regra, não nos perdoarão por fazermos parte da exceção.
Dizes-me que um sistema justo nivela por cima, como se a democracia fosse um sistema a tender para a excelência. A democracia tende forçosamente para a mediocridade, e os limites dos recursos disponíveis exigem a nivelação ponderada pela mediania. Assim, os sistemas sustentados num crescimento obrigatório, como o capitalismo, estão condenados ao colapso mais cedo ou mais tarde; mas até lá, vão deixando para trás multidões e multidões de excluídos, os quais, acabam inevitavelmente por constituir a regra; e toda a exceção aqui é odiosa.
Por isso, cada coisa que obtivermos fugindo à regra será considerada um privilégio, mesmo que seja um nosso direito inquestionável.
A metáfora que me ocorre é a do inalienável direito à vida que os guardas prisionais judeus gozavam a título excepcional; mas o que pensariam os outros judeus a caminho dos fornos crematórios?

Desejo
Queria que me desejasses sem ser por amor. Desejar por amor é como casar por dinheiro.
Queria que me desejasses por desejo.
Algo animal. Algo magnético.
Uma tentação fatal entre opostos.
Eu o pináculo de catedral e tu a nuvem.
Numa noite de tempestade.

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14.8.12

O mistério da fotografia da capelinha de S. José (continuação)


Embora fora de cena, a pedra da sesta aguarda ali, um pouco atrás do fotógrafo, a festa da Nossa Senhora das Febres, em setembro, para ser enterrada. A festa que mais se aproxima do novo equinócio, depois de o Sol ter cumprido a sua incansável missão de mostrar aos homens as etapas do tempo.
Então terminará mais uma etapa para os humildes, a do descanso depois do almoço; ou melhor, depois do jantar, que assim se chamava a segunda refeição do dia em Aguim, pois a bucha é parca mas é comida com orgulho, e as palavras, se não alteram a essência das coisas, podem até fazer-nos crer que chega para empanturrar o estômago, aquilo que na realidade não enche a cova de um dente.
O almoço é de manhã, com o resto da ceia da véspera, e por isso não é, nem lhe chamam pequeno, que a enxada é pesada e não se mexe sozinha.
O enterramento da pedra é um ato pouco festivo. A festa é em Anadia, aqui parece mais um funeral; ou não se tratasse de oficializar a perda de um direito laboral, o descanso da sesta.
No dia de S. José, a 19 de março, é uma festa dentro de outra festa. Os jazes, como começam a ser chamados os pequenos grupos musicais em que os metais veem substituindo os acordeões e os instrumentos de corda, ficam a tocar sozinhos ao despique, nos coretos do Largo do Sobreirinho, e as pessoas veem juntar-se em torno da entrada da capelinha para assistir a uma outra competição: uma parelha de cavadores tenta superar em rapidez os que no ano anterior desenterraram a pedra da sesta.
E ela ali está ainda, fora do enquadramento da fotografia, ela e o seu buraco, aguardando o equinócio do outono para fecundar a terra que há de germinar no próximo equinócio da primavera.
A mancha do Arvoredo apenas salpica a margem esquerda da fotografia. O Arvoredo não é um arvoredo, é o Arvoredo. O substantivo comum ganhou dignidade de topónimo ou até de nome próprio. Se procurar entre as páginas dos meus sonhos de infância, a silhueta daquelas árvores são o papel de cenário de todas as minhas aventuras imaginadas.
Neste dia não era domingo, nem feriado, apesar das roupas domingueiras. Era dia de festa, porque o meu avô está de gravata. E como sempre, com a cabeça inclinada para o lado. Progressivamente passou a incliná-la também um pouco para trás, o que lhe dava, não sei porquê, um ar importante. Aparece assim, em todas as fotografias que lhe conheço, com aquele torcicolo patriarcal.
As crianças, no primeiro plano da fotografia, têm blusas brancas, por ser um dia especial. Um dia de festa em pleno verão. Seguramente era dia da N.ª Sr.ª do Ó.
As crianças não olham para a máquina para ficarem na fotografia. A fotografia para elas ainda era uma arte desconhecida, por isso, não dão qualquer importância ao fotógrafo, não olham para a máquina como esperaríamos de quaisquer crianças; estão mais interessadas naquele grupo de pessoas que ficaram quietas e caladas de repente, e viradas todas para o mesmo lado.
Alguma coisa, no entanto, chama subitamente a atenção de uma das jovens que estão sentadas no primeiro degrau. Deve ser suficientemente interessante, para uma delas chamar a atenção da outra, que no momento crucial da fotografia esquece a pose e olha para trás.
Quisera ser eu que tivesse passado na estrada, e quisera ter despertado, eu, a atenção daquelas jovens. Um olhar apenas, através dos tempos. Eu da idade delas, a caminhar despreocupado, com um fato de festa também, e elas a desviarem o olhar, do fotógrafo para mim, a estragarem a pose porque eu passei na estrada, a cochicharem um segredinho, a sorrirem uma cumplicidade, a incendiarem uma provocação. Tudo em menos de um pestanejar. Uma sinfonia inteira numa única nota.
O som dos foguetes distrai-me o suficiente para que avance demais e não consiga corresponder com naturalidade àquele olhar. Continuo o meu caminho em direção à banda de música que em breve toma conta da rua. Dirige-se para casa de um dos mordomos do ano que vem que os aguarda com vinho e chanfana e vai receber um foguete que guardará como testemunho.
O grupo de pessoas a posar para a fotografia abandonou a pose e aproxima-se para ver melhor a banda.
A minha avó veste roupas muito claras, o que assegura que ainda vivem todos quantos ama. A minha mãe... a minha mãe é muito jovem…
É jovem demais…
É jovem demais, para ser eu quem o meu avô segura pelos ombros...
A banda e toda aquela gente passam por mim, como a água de um rio, que avança contornando, indiferente, os obstáculos. Passam por mim, as pessoas e o tempo, que eu não pertenço a este tempo, ainda não nasci; sou um fantasma de um tempo futuro que olha especado para o passado congelado numa fotografia.
De súbito as formas ganham opacidade. Deixam de ser representações de pessoas e árvores, e regressam à sua condição primária de manchas de tinta sobre o papel; e eu sinto o pânico de Narciso traído pelo tempo, ao descobrir, não a minha imagem envelhecida sobre o lago, mas a imagem de um estranho no meu lugar; que nunca conheci, que jamais conhecerei; que me rouba o carinho póstumo do meu avô. Uma história a que não pertenço. Um lugar e um tempo irremediavelmente estranhos para mim.
Reponho a foto na caixa de papel como quem fecha a tampa de um caixão, para impedir que um cadáver me assombre.
Só a luz do Sol me restitui a confiança, no terraço da casa da adega. Paro um pouco a olhar o casario e a Capelinha de S. José ao fundo.
Ali, um dia, alguém tirou aquela foto à minha família antes de eu ter nascido, antes de eu ter os privilégios de filho único. Um momento no tempo em que tudo existia do mesmo modo, mas sem mim, e em que tudo fazia sentido na mesma. Sinto-me um mero acidente na inexorável consumição do tempo.
Um leve percalço, e tudo teria levado um rumo diferente, um rumo que não me incluiria neste mundo.
E a realidade constrói-se-me sem mistério nenhum, sem transcendência, sem poesia sequer. Eu, ou qualquer outro no meu lugar, não faz a menor diferença.
Parto dali como um proscrito. Fujo em busca de alguém que me conheça. Alguém que me assegure a existência com um átimo da sua atenção; porque só o afeto que recebemos nos garante que não somos apenas um acidente irrelevante; um rosto desconhecido numa foto antiga.


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