28.4.09

A Estrada

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A vida é uma estrada como esta, parada entre o vale e a montanha e nós é que vamos caminhando de curva em curva até nos consumirmos e ficarmos assim a olhar para a última curva lá atrás, como se pudéssemos viajar no próprio olhar para o passado.
Há quanto tempo ela o fizera seu, ali naquela mata? Há uma eternidade. Há quanto tempo, algum tempo depois, o vira partir de farda verde sujo e mochila às costas para uma guerra que ela nem sabia que existia? Ontem? Porque será que as coisas más que recorda lhe parecem próximas, e as boas distantes?
Nenhum homem sabe a guerra que uma mulher trava sozinha sem armas nem defesas, enquanto os homens, que nunca deixam totalmente de ser crianças, se entregam estupidamente à mais infantil e cruel das brincadeiras, que é a de se tentarem matar uns aos outros por motivos que julgam elevados e por objectivos que consideram honrosos.

O pior que acontece com os nossos sentimentos é não sabermos se devemos amar ou odiar. O pior ainda, é quando sentimos o amor e o ódio pela mesma pessoa. Jamais o amor se lhe apagaria da alma por aquele que um dia ali se atirou a ela como predador e acabou prostrado no seu corpo como presa. Jamais o ódio, por ter sido duas vezes traída por ele, se desvaneceu. Uma primeira vez, na distante tarde de Outono em que se foi afastando por aquela estrada até ter desaparecido naquela mesma curva ao fundo, com aquele ar de guerreiro garboso que parte à aventura pelo mundo fora e a deixava a ela ali, como uma sombra no meio da estrada, como uma peça de roupa de todos os dias que se despe para envergar a sinistra roupagem de matar, aquela farda da hedionda cor do esterco. Agora, olhando a mesma curva da estrada lá longe, parece que nunca saiu daqui onde está, durante estes anos todos, como um envelhecido Narciso a mirar a ilusão de uma juventude irremediavelmente perdida. Mas a pior traição foi a segunda, a traição de ter-se ele deixado morrer por lá.
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2 comentários:

O Caçador disse...

Como é que um Atirador de Infantaria, é colocado numa Companhia de Artilharia ?

Os Deuses deviam estar loucos.

Eu estive no 3º turno de 71 em Tavira,mais tarde fui mobilizado para Moçambique onde cheguei a 3 Julho de 72, com destino à provincia de Tete.

Foste ferido numa anti-bota ?

Estás reformado pelo Exército, ou não querem saber de ti?

Um abraço de solidariedade

Francisco Dores
Ex-Fur. Mil.C.Caç 3554 /B. Caç 3886

Manuel Bastos disse...

Caro Francisco,
Eu era atirador de artilharia e não de infantaria, mas a minha arma não era um obus mas sim a G3. Por assim dizer eu era um atirador da infantaria da artilharia. E a minha companhia era uma CART que de artilharia só tinha o nome também.
Não tentes perceber. Primeiro porque é inútil, segundo porque os crânios que planeavam a guerra pertenciam a um ramo transviado da evolução humana, muito antes do Homo Sapiens, para quem a lógica não passava mesmo de uma batata.
Sim, a minha anti-bota resolveu-me uma terrível erupção de micose que o nosso "pastilhas" não foi competente para tratar, e esta pátria madrasta para tantos ex-combatentes tem até à data cumprido as suas obrigações mínimas para comigo.
Um grande abraço e obrigado pela visita a este espaço de memória e de fantasia.