9.5.08

O Niassa

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A pouco e pouco os soldados foram saindo do porão. Como se o silêncio do barco os tivesse assustado, e surgiam nas aberturas do convés como zombies, que ao chegarem à luz do sol caíam fulminados. Ou então como vermes escuros, em novelos que se desenovelavam para se espalharem por todo o lado.
Com o seu aparecimento, parece ter ficado mais nítido o bafo intestinal que o Niassa exalava por aquelas cloacas abertas no convés, compondo um complexo bouquet em que se misturavam, num equilíbrio bem doseado, o aroma sulfídrico dos dejectos, o amoniacal da urina e o agridoce do vomitado; rematado com o fénico do peixe podre e o ranço da banha do rancho geral; tudo sobre uma base persistente do bolorento mofo ancestral dos porões. Era dessa atmosfera de compostagem que os soldados emergiam para o ar vibrante de luz e calor, sob um sol tórrido.
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Foto cedida por José Monteiro

Eu regresso ao interior do bar e os soldados regressam aos porões, como se tivessem posto o filme a andar para trás. Eu fujo para o conforto do bar. Os soldados fogem para o sufoco do porão; fogem de uma tortura para outra tortura.
Percebo agora o conselho cristão para oferecer a outra face; é seguramente para não nos estarem a bater sempre na mesma.
Ainda restam alguns soldados a esturricar ao sol. Estes não tiveram forças sequer para descansar a face dorida e oferecer a outra. A que missão urgente vamos nós acudir para que sejamos tratados como escravos? Será que foi por isso que o Niassa parou? Porque ficou indeciso, dado que os negreiros costumavam rumar em sentido contrário?
[...]

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4 comentários:

José Sande disse...

Meu caro Manuel Bastos,

embora possa parecer um bocado despropositado, e até egoísta - mas sabe que não é -, ainda bem que, tendo nós vivido o que vivemos, há quem lá tenha estado e saiba escrever, recordando e denunciando. Não é só a verdade que tem que ser dita, e mantida, a História que tem que ser contada no somatório de tantas estórias "anónimas" quanto humanas, como também, no seu caso particular, o enorme prazer que é a sua leitura. Quando pergunta "Que faço eu aqui?", posso garantir-lhe que é dos poucos, relativamente, que pode ter orgulho em que esse passado se "justifica" na sua "missão" presente, a favor de todos os ex-combatentes e suas famílias.
Um grande abraço de amizade do
José Sande

Timoneiro disse...

Bem haja meu amigo!
É sempre um prazer imenso...ler as suas belíssimas "prosas"!!!

Para quando um LIVRO ???

Um grande abraço

José D´Abranches Leitão

antónio m p disse...

«oferecer a outra face é seguramente para não nos estarem a bater sempre na mesma». Genial! Uma bofetada na Hipocrisia. Abraço.
amp

Aquiles Parreira disse...

Meu Caro BASTOS

Ao ler os belos textos que nos ofereces, sobreveem-me emoções contraditórias!Por um lado, deleito-me a ler tão belos textos, escritos por alguem com razões para estar zangado mas que nos transmite paz e tranquilidade! Naturalmente não deixei de me emocionar com a legenda que colocaste na fotografia da estrada do Chindorilho quando, entre parenteses escreves, poeticamente "(foi aqui a última vez que apoiei os dois pés no chão)" ! Acredita que, se algum dia escrever alguma coisa sobre a guerra, vou pedir-te autorização para citar esta "terrivel" e ao mesmo tempo tão humana e serena frase. Obrigado e até já.
Um abraço
Aquiles Parreira