4.1.18

O Sorriso do Santos

Que faço eu aqui?
O céu está estranho hoje. À minha frente os soldados caminham como sonâmbulos. Olho para trás. Sonâmbulos também.
Atrás das duas filas de soldados a longa coluna de viaturas, todas em péssimo estado. Sonâmbulas.
O ronronar dos motores, o gemido metálico das carroçarias meias destroçadas, o som áspero das picas a furarem a areia em busca das minas, o ranger da areia debaixo das botas, o respirar do soldado à minha frente; e por cima destes sons todos, um silêncio de funeral. A natureza parece demonstrar uma clara hostilidade contra nós.
Um Fiat passa rasante por cima da coluna.
O soldado à minha frente olha para trás. É o Santos. Eu encolho os ombros. Ele sorriu. Porque nos rimos nós, no meio da guerra? Deve ser por estarmos cansados de caminhar vendo as costas uns dos outros, e termos sido feitos para nos olharmos assim, cara a cara.
À frente de todos, os soldados do ancinho que vão esgravatando a picada. O da esquerda parou. Baixou-se para ver o que o ancinho detetou. Parámos todos.
O Santos aproveitou a paragem para urinar, sem sair do lugar onde estava. O soldado à frente dele rodou a cabeça para trás, sem correr o risco de mudar a posição do corpo, para se certificar de que estava fora do alcance do jato de urina.
O soldado do ancinho levantou-se e continuou a esgravatar o trilho. A fila recomeçou a andar atrás dele, cada soldado um bocadinho depois do soldado da frente, como se fossemos carruagens de um comboio a iniciar a viagem.
O céu está estranho, porque é céu de trovoada. Um trovão ao longe imitando penedos a rolar num sobrado de madeira. Alguns soldados a olharem para o céu em busca de chuva.
O Fiat regressa rasante de novo, deixando um pequeno risco no ar atrás da ponta de cada asa. Vi nitidamente o piloto olhando para nós.
Quando o som do avião desaparece, fica a ouvir-se melhor a trovoada distante, que parece afastar-se.
Avançamos a passo muito lento, e cada um de nós tenta por os pés nas pegadas deixadas pelos soldados da frente, o que obriga a estar a olhar constantemente para o chão. Eu ando a aprender a fazer isso sem olhar para o chão, o que tem duas vantagens: prestar mais atenção ao meu flanco e não ficar cego se pisar uma mina.
De um lado e do outro da picada o capim altíssimo encobre a floresta. Às vezes o Lemos, que leva a MG42, dispara uma rajada preventiva para algum lugar suspeito.
O soldado de trás chama-me e faz-me sinal para parar. Eu passo a palavra, e em breve toda a gente para de novo.
Todos olham para trás para tentar perceber o que se passa.
Estou farto disto.
Sem aviso, a imagem de um corpo nu de mulher ocupa-me a imaginação por algum tempo. A mulher caminha à minha frente de saltos altos e completamente nua. Os glúteos balançam-se e os joelhos afastam-se um pouco quando as pernas avançam, devido aos saltos altos. Tento focar esta imagem o mais tempo possível, mas a dada altura a imagem na minha imaginação começa a desvanecer-se, e acaba por desaparecer, e o que vejo agora são duas filas de soldados de costas para mim, imóveis, como se tivessem parado o filme da guerra.
O suor junta-se ao pó e começa a desenhar riscos nas nossas caras e a pintar manchas escuras onde o pano do camuflado toca no corpo.
Os turras devem detetar-nos pelo cheiro, a quilómetros de distância. Felizmente que a natureza nos dotou de um mecanismo que desliga o sentido do olfato quando estamos muito tempo sujeitos a um odor. É conhecido como “fadiga olfativa” e parece que servia para evitar que os nossos ancestrais não ficassem inibidos de detetar o cheiro dos predadores por causa do seu próprio odor. Agora serve para não desmaiarmos com o cheiro uns dos outros.
A imagem do corpo nu de uma mulher volta a atravessar-me por momentos o pensamento. Mas por pouco tempo; parece que a realidade torpe é mais importante agora, para o meu cérebro, do que a graciosa fantasia.
Não há sinais de podermos recomeçar a progressão e a imobilidade aumenta a temperatura do corpo. O sol marra. O ar sufoca. Os mosquitos divertem-se em torno dos meus olhos. A tensão faz apitar os ouvidos. A G3 aumentou de peso. A própria farda parece de chumbo. É óbvio que um ser humano normal não foi feito para isto.
Olho para trás e giro o indicador junto à cabeça e abro a mão em sinal de pedido de esclarecimento. Em resposta o capitão estica o mínimo e o polegar e encosta a mão ao rosto imitando um telefone e depois bate com o dedo no relógio. Entendo que aguardamos instruções para prosseguir.
A coluna auto que vem de Omar ao nosso encontro deve estar com problemas.
O Fiat volta a aparecer, rasante de novo.
Os soldados torcem o corpo para olhar para trás, sem mover os pés, assim que o ouvem ao longe, e destorcem-no para o seguir com o olhar até ele desaparecer onde a picada se afunila em vértice na linha do horizonte, á nossa frente.
Não entendo o que se passa. Começo a ficar em stress. Na guerra não gostamos de surpresas nem de grandes mistérios.
Agora houve-se a tosse convulsa caraterística do Alouette III. São dois. À medida que se aproximam, a tosse vê-se que é acompanhada da pieira habitual.
Houve merda! Diz o Santos.
Desta vez não sorriu.
Não aguento este silêncio e esta incerteza. Estou a meio da fila de soldados, e ir até à Berliet do capitão para saber o que se passa, constitui um perigo muito grande para mim e para os soldados por quem passar.
Está quase a escurecer. Dentro de pouco tempo não poderemos prosseguir com a coluna porque se fará tarde demais para ir e voltar para um lugar seguro, dado que o local de encontro seria o pior possível para pernoitar.
Baixo-me e esgravato a areia em torno de mim com cuidado para me certificar que será seguro sentar-me. Marco no chão o local perscrutado por mim, para saber onde posso colocar as mãos e os pés. O Santos imita-me.
Pelo canto do olho, vejo, de cima da Berliet, o capitão a fazer um enquadramento sobre mim com a zoom da sua máquina fotográfica, e eu aperfeiçoou disfarçadamente a minha pose. Mais tarde quando me der a foto vou escrever a legenda:
Que faço eu aqui?
O céu estranho foi-se tornando normal à medida que a trovoada distante se desvaneceu. O calor baixou um pouco.
O capitão faz-me sinal para regressar às Berliets e eu passo a palavra para a frente e para trás.
Regressamos agora, pisando as nossas próprias pegadas. Certifico-me que o Lemos e o soldado do ancinho trocam de posição e que ele e o outro apontador de MG42 são agora os últimos, caminhando de marcha atrás com estremo cuidado, de metralhadora apontada para o longo funil da picada.
Lá ao longe, onde a picada parece terminar no lombo de uma colina, o céu prepara as coisas para se fazer noite. Do lado de lá houve merda.
Apesar da humidade perto da saturação, tenho a boca seca. Daqui a pouco o abaixamento da temperatura provocará a condensação da humidade do ar em pequenas gotículas, a que chamamos cacimbo, e o efeito de estufa atingirá o limite. Depois, a temperatura vai descendo até tornar as nossas fardas em farrapos encharcados de água fria sobre o corpo, e pela madrugada a baixa temperatura far-nos-á bater o dente. Adormecemos no verão e acordaremos no inverno.
O Fiat faz longos volteios, como uma ave de rapina sobre uma presa ferida, e depois abala em direção a Mueda. Pouco depois regressam os Alouett III.
Foi um ataque de abelhas. Diz-me o capitão quando subo para a Berliet.
Sei bem o que um simples enxame de abelhas africanas pode fazer a uma companhia inteira, e diz-se que os turras nos atiram sacos com colmeias sobre as colunas para nos atacarem enquanto estamos no meio da confusão.
Será que nada nesta terra nos tolera?
Mas a nós, hoje, ninguém nos fez mal. Hoje, não fizemos mal a ninguém.
Fico a admirar o por do sol em busca de um sinal de reconciliação da Natureza.
Uma paleta de vermelhos, rosas e violetas dão cor a um céu pintado por mão infantil e a floresta luxuriante e o capim alto são um plágio ao traço naïf de Henri Rousseau. Preparo-me para descansar, experimentando um pouco de alívio finalmente.
Penso que daqui alguns anos, estes momentos de serenidade serão o que de melhor teremos para recordar, e não os intensos momentos de ação onde a adrenalina não deixa lugar para o pensamento.
Ponho-me a pensar que haverá algum escritor futuro, que não tendo saído da segurança dos quarteis ou do aconchego dos hospitais; nem tendo disparado uma arma sobre ninguém, nem sentido que a sua cabeça era a muche do alvo de uma kalash, falará de horrores que de facto não sofreu nem fez sofrer, só para dar autenticidade aos seus escritos, e sinto antecipadamente um desrespeito enorme por ele. Não conheço maior indignidade do que plagiar o sofrimento alheio para ter uma boa história para contar.
Preparo-me para dormir.
No meio daqueles soldados todos, o olhar do Santos cruza-se com o meu. Eu ajeito a mochila para me servir de almofada, ele ajeita o poncho de borracha como se fosse uma manta. É preciso tão pouco para dar conforto a um soldado.
Eu encolho os ombros, o Santos sorriu.

1 comentário:

Franscisco Fernandes disse...

Muito Bom Manuel.Um abraço. XITÓ