11.12.10

Coisas com desalento e alguma esperança

Escrito na nova ortografia




A última rosa do verão.
Vieste, minha amiga, conversar comigo nesta noite fria.
Trouxeste o velho disco. Eu trouxe-te uma rosa.
Que aventura é a nossa que desafia as leis do bom senso? Quando te sentas assim a meu lado parece que vens de longe para visitar-me, ou de um passado distante; e um peso no peito faz-me sentir que as rodas do tempo nos deixaram trilhos profundos na alma.
Mas em breve, a música, o vinho e o fogo mostrarão tão só as marcas do tempo nos nossos corpos. E estas, minha amiga, aceitemo-las como atestados de sobrevivência.
Sabia que virias, e enquanto te esperava escrevi estas palavras como quem faz uma canção. Só para pôr nome ao que sinto por ti. É preciso dizer os afetos, não basta senti-los; é preciso dizê-los como se o tempo fosse pouco e houvesse o risco de algo de belo se perder. Como esta última rosa na tarde que arrefecia. Trouxe-a para lhe fazeres companhia, minha amiga. Porque sorris? Não há nada mais triste que uma rosa solitária ao frio.
Tudo o que morre renasce na reciclagem da Natureza. E tudo o que a Natureza dá avulso, o Homem organiza porque ama o belo.
É assim que dos sons faz música, das palavras poesia e das uvas, minha amiga, faz vinho.
Senta-te aqui. Ao meu lado. Ouçamos o disco que me trouxeste. Logo abrirei a garrafa.
Um dia, assusta-me concebê-lo, tudo acabará; mas o que me assusta não é o colapso do tempo, é a extinção da memória.
Sabes, a morte não assusta facilmente um ex-combatente como eu, somos velhos conhecidos. Havemos de morrer, sim; mas a Terra mãe, dos nossos restos, fará plantas e flores e frutos, e os animais alimentar-se-ão deles, e os nossos restos ganharão vida e movimento de novo. O que me assusta é saber que a memória acabará, e com ela todos os afetos. Um dia, ninguém se lembrará de nós, ninguém ouvirá o nosso disco, ninguém beberá deste vinho. Ninguém saberá que para te ver sorrir, resgatei ao frio a última rosa deste verão.

A estrada velha
366 curvas, como os dias de um ano bissexto, e a cada curva a vertigem da beleza.
Que deu nos homens, que desataram a fazer estradas cortando a direito, convencidos que a vida é a menor distância entre dois pontos?
A estrada velha de Penacova não é uma estrada para chegar mais cedo ao fim, é uma estrada para quem acha que a vida deve ser degustada devagar.
Quando não quero chegar cedo a lado nenhum, tomo a estrada mais bela do mundo e faço dançar o carro com a estrada enquanto a estrada dança com o rio.
Chego a Penacova e paro debaixo da Pérgola para olhar o Proventório e o Reconquinho, depois subo ao Penedo Castro para olhar 360 graus em redor e confirmar que o mundo é belo.

Stress de Guerra
Queria que sentisses o cheiro. Não há uma boa descrição para este cheiro. O camuflado de cores desbotadas de tão sujo. Ligeiramente brilhante, porque o suor conseguia embebê-lo e acabava por aflorar à superfície. As mãos que pareciam também camufladas. E as caras. E tudo.
E o cheiro. Habituávamo-nos ao cheiro com o tempo, mas às vezes com uma reviravolta do ar, algo de untuoso e adocicado, como vindo de um cadáver de dias, envolvia-nos. Mas, como se tivesse origem nas nossas entranhas, como se a própria morte já andasse cá dentro há tempos, e quisesse tomar conta de nós, abraçar-nos, esticando para fora os seus finos tentáculos como heras enredando-se sobre um muro.
Queria que sentisses o cheiro, não para te fazer mal, mas para saberes que uma coisa assim não sai. Fica cá dentro.
Fomos, combatemos, sobrevivemos e voltámos, mas trouxemos a guerra dentro de nós. Uma espécie de morte interrompida, inacabada, como uma fera hibernando.
E nós vivemos e fomos felizes e demos prazer e criámos beleza. Mas dentro de cada um de nós como uma doença em estado latente Ela vive aguardando, com a certeza de que um dia vencerá.

Menina da esplanada
Chegas sempre com o ar de quem perdeu a noite. A solidão à tua mesa às vezes parece uma guitarra de Coimbra lamuriando saudades mal resolvidas. De que sonho de princesa acordaste para a realidade plebeia de encontros por telemóvel?
Imagino expedientes canalhas a tentarem aproveitar-se do que resta em ti de esperança, e nesse teu rosto, onde se desenha o perfil egípcio de uma deusa triste, nunca se iluminou um sorriso que eu visse. Esse rosto, que inevitavelmente vai amadurecer e depois fenecer, precisa com urgência de um motivo para sorrir.
Imaginar que foste o amor impossível de um homem apaixonado, a primeira fantasia de um adolescente, a criança que encheu de orgulho um casal ainda jovem; imaginar que um dia foste o bebé de alguém, e que o balanço da tua vida se salda pela ressaca de uma noite perdida, que ensombra o teu rosto encostado a um telemóvel, carrega-me a alma de pesar; sobretudo por não haver um gesto de ternura que te aconchegue esse rosto cansado contra o peito, depois de ter sentido a fartura de prazer do teu corpo; mas como uma dádiva, e não como um roubo.
Se houvesse compaixão debaixo do Sol, um dia ver-te-ia sorrir.
Sinto um desgosto antecipado com a ideia de desistires de vez de algum sonho que te reste, e de aceitares o compromisso possível, como um soldado que se rende apenas para poupar a vida, sem que a sua resignação permita o benefício de uma causa maior.
Então, para viveres a insipidez compartilhada, deixarás de aparecer. E eu sentirei falta desse teu ar de quem perdeu a noite, desse teu ar de viúva da esperança que povoa de drama a minha imaginação; e a partir daí, a esplanada encher-se-á de desalento, sem ao menos esse resquício de afeto que agora partilhas com alguém por telemóvel; e onde eu, de longe, contigo partilho a solidão.
E onde, às vezes, até parece que o trinado condoído de uma guitarra de Coimbra nos faz companhia.

Memória imprecisa
Surgiu de repente por entre o capim e eu ergui a arma. Uma jovem maconde escavando mandioca sorriu para mim. Baixei a arma.
Sei que o capim era alto, sei que sorria, sei que se ouviam vozes ao longe e sei que o meu coração batia com força, mas já não sei se de susto ou de desejo. Quando tento lembrar-me dessa diferença só me ocorre que é demasiadamente curta a distância entre o prazer e a morte.
Não ficou quase nada na minha memória, a não ser a impressão que me contaram isto há imenso tempo.

Verruga
A médica olhou-me sem entender, e eu repeti: Não quero mandar analisar nada. Se for algo maligno haveria mais alguma coisa a fazer neste momento para além de ter removido a verruga? – Não, nada mais. – Então qual é a utilidade? – Saber a verdade! – Mas eu já sei a verdade. Vou morrer de certeza absoluta, vamos todos; mas não saber quando, nem como, é que nos permite a ilusão da felicidade.
Ao sair daqui posso ser esmagado contra a parede por um autocarro, mas até lá posso viver o melhor momento da minha vida e não quero perder essa hipótese por nada. Se souber já, poderei tornar-me num condenado no corredor da morte, e a felicidade passa a ser impossível; passarei a ser um morto a prazo.
Desde que articulámos a primeira palavra que andamos a fazer perguntas, mas não é para sabermos a verdade sobre coisa nenhuma, é porque temos a esperança que uma dessas perguntas venha a ter uma resposta que mude uma pequena coisa nas nossas vidas, uma pequena coisa que nos faça menos infelizes. Saber antecipadamente as coisas, retira-nos a necessidade de fazer perguntas e não nos garante apenas que ficaremos sem respostas, garante-nos sobretudo que ficaremos sem esperança.

3 comentários:

Carlos disse...

Como a imaginação é fértil na construção da prosa, "embebida em nacos de poesia".
Simplesmente magnifico.
Um abraço
Carlos Vardasca

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Anónimo disse...

Muito Bom !