14.9.09

A Carta

Ler o texto colpleto aqui ou aqui

Não tenho nada para fazer hoje. Não tenho nenhum livro para ler, nenhuma música para ouvir. Apetecia-me escrever uma carta a alguém. Alguém que vivesse do outro lado do mar. Alguém que já se tivesse esquecido de mim há muito, e que ao receber a carta parasse num leve sorriso de surpresa. O envelope com a minha caligrafia e a carta lá dentro. – De quem é? – Nada, não; uma carta de um primo meu de Portugal.

[...]
Já escrevi cartas de todas as maneiras, até sobre o carregador de uma arma, só pela urgência de dar a saber que estava vivo. É muito diferente escrever de casa para alguém que está longe, não sabemos bem onde, e escrever de longe, de onde não sabem de nós. Onde nós também não sabemos bem de nós. A mata misteriosa a separar-nos de tudo o que nos é familiar, e o apelo para comunicar com quem nos tem no pensamento. A vontade de responder a perguntas que não ouvimos, mas que sabemos terem-nos sido formuladas. Perguntas de que nos chega o significado mais profundo, mas não as palavras que o transportam. E o apelo para responder, justamente as palavras, as palavras que faltam, porque o significado é sobejamente conhecido. Depois o prazer de desenhar as palavras no papel. O conforto das palavras escritas, físicas, quase tangíveis, a darem densidade à imaterialidade dos sentimentos.
Mas agora, nesta noite em que o computador me avisa que recebi mais um e-mail ou alguém me chama no Messenger, queria sentar-me na pequena mesa tosca e acanhada de onde via os fogos-fátuos no cemitério de Aguim num fim de tarde de verão, e escrever uma carta para uma pessoa que mal me conhecesse, e que ficasse surpresa por eu ter mandado notícias, não por mim, não por ela, não pelo que dissesse; apenas porque isso implicaria uma certa dedicação, uma certa humanidade numa cadeia de esforços de várias pessoas para que a carta chegasse ao destino.
O cabo de dia a ler em voz alta o nome de um soldado, e um braço alegre a pegar no aerograma. Os olhos sem conseguirem ler devido à ansiedade. As palavras escritas por todo o papel amarelo do aerograma e depois a apertarem para o fim, para caberem mais, e nas margens também, porque as despedidas são sempre difíceis, mesmo quando são feitas de tinta sobre papel. Agora os olhos sem conseguirem ler devido às lágrimas desfocarem tudo. Aquelas palavras sempre tão iguais, sempre tão previsíveis, mas a despertarem sempre a emoção da surpresa.
Outro e-mail a chegar. Um contacto a chamar-me no Messenger. Este falso dom de ubiquidade que temos ao contactar em simultâneo para vários lugares do mundo. Todos em contacto com todos, para todo o lado, a toda a hora, sem aparente intermediação.
O cabo de dia a ler para si o nome do soldado Lourenço. Um soluço a calar a voz. Boas notícias e nenhum braço alegre. Os soldados calados a guardarem luto. O cabo de dia passa para baixo o aerograma que era para o Lourenço e continua a chamar os soldados um a um.
A pior coisa que se pode escrever é uma carta para um soldado já morto. Quando o aerograma chegar devolvido por não ter encontrado o soldado Lourenço haverá alguém como o Sr. Luís da Loja que fará soar uma corneta? Alguém como o médico de família da saudade a dizer: "Uma carta do seu filho"?
[...]

Ler o texto colpleto aqui ou aqui

2 comentários:

Anónimo disse...

Caro Manuel Bastos

Este seu trabalho (A carta), relata exactamente o sentimento, que já me havia sido descrito por um amigo de quem fui madrinha de guerra e que cumpriu serviço militar em Angola, entre 66/68.

Pode parecer estranho, mas eu vivi aquele tempo e ainda vivo!

Enquanto escrevi ao meu Amigo Joaquim, eu tinha 16/18 anos.
Era uma menina!
Tenho todas as cartas que lhe escrevi, porque ele as guardou até hoje.
Encontramos-nos 42 anos depois de ele ter regressado.
Temos recordado esse tempo, que nunca esquecemos, e falado logicamente, do valor das cartas. Do valor que teve para ele, as cartas recebidas durante a sua comissão.
Penso um dia, apresentar um trabalho baseado nesse facto, uma vez que continuo como vós, ligada a esse tempo que marcou para sempre a nossa geração.

Continuo convosco, acompanhando tudo o que se fala sobre a Guerra Colonial, absorvendo conhecimento dum acontecimento que acompanhei no tempo mas superficialmente, uma vez que não tinha informação suficiente e desconhecia de todo, um teatro de guerra.
Sou apenas uma pessoa interessada por uma realidade que marcou a minha juventude/a nossa juventude, e agora, que através da Internet é possível encontrar depoimentos vossos, procuro saber realmente o que se passou o que sofreram e viveram os jovens do meu tempo, enviados para uma guerra, que sempre achei , que não fazia sentido.
Os vossos depoimentos são para mim a História contemporânea do nosso País, contada na primeira pessoa.

Continuo a felicitá-lo pela sua expressão escrita.

Solidária e amiga

Felismina Costa

Manuel Bastos disse...

Cara Felismina,

Hoje existem muitos investigadores a fazerem levantamentos de testemunhos da Guerra Colonial com alguns dos quais tenho colaborado. A experiência da mulher portuguesa durante a guerra, o seu protagonismo e as consequências de que também foi vítima estão muito mal estudadas. Essa figura de "madrinha de guerra" é algo de grande valor emotivo e que pode desvendar o sentimento e o moral dos soldados no mato.
Peço-lhe que guarde com todo o desvelo essas cartas, tanto as que recebeu como as que escreveu, e que me envie uma forma de lhe poder comunicar quando delas precisarmos, utilizando o meu e-mail que encontrará na lateral do meu blog.
Bem-haja