A todos os homens com coragem para lutar. A todos os homens com coragem para desertar. A todas as mulheres com coragem para perdoar a ambos.
4.2.15
Silêncio imperfeito
Impossível, porque agora, o mundo que conhecemos afastou as trevas e criou um dia constante onde nunca falta a luz. E as trevas fazem falta. Há de haver dentro de nós alguma coisa que aguarda que o dia acabe para alterar a perceção das coisas, para abrandar os sentidos e nos conectar ao mundo interior feito de registos e memórias, de sentimentos e imaginação, e que nos deixa sensíveis aos estímulos exteriores sem a ilusão de os percebermos.
Foi por isso que apaguei a luz.
Desliguei a televisão e fechei-me no quarto. E fiquei dentro de mim só. Procurei até onde pude a memória de te ter amado. Mas não consigo encontrar em mim uma única e inequívoca marca de amor por ti, apenas um difuso sentimento de amizade, ou de fraternidade, o que torna a nossa relação algo incestuosa.
Mas talvez porque não há silêncio suficiente. Nunca há. Dantes quando a luz se ia, os sons que povoavam a noite eram diferentes dos sons do dia. Eram os sons das trevas, os sons a que chamávamos silêncio. Agora não.
Dantes, se se ouviam passos na rua, em direção a Vale de Cid, isso era motivo de alarme. Ou um alvoroço nas galinhas, ou o ladrar de um cão.
É mais difícil encontrar dentro de nós seja o que for sem o silêncio das trevas.
Eu sou do tempo em que a noite era feita de trevas. Em que Aguim mudava de noite, e não apenas porque o sol se punha. Algo em nós se punha também, e era fácil acreditar em todas as coisas que nos parecem impossíveis de dia.
Sinto a falta desse mistério, desse desconhecido, desse temor que a luz desvanece.
A noite a cair e os sons da casa a despertar. As madeiras do sobrado a ranger, a estalar, a ajustarem-se aos frios noturnos. O caruncho a escarafunchar nas portas e janelas. Os ratos furtivos no sótão. Os gatos como uma mola prestes a saltar-lhes em cima. Todo um mundo de sons que não ouvimos de dia, como se a casa acordasse quando nós vamos dormir, ou nela acordassem os espíritos impacientes com a eternidade.
Agora nada disso acontece. As casas não têm segredos, não têm o silêncio que permite ouvir os sons do submundo a que deixámos de dar importância, ou os sons da distância que só o silêncio separava de nós, ou os sons interiores que sentíamos vívidos na nossa memória por não nos distrair o bulício da excessiva lucidez.
Não perceber tudo, não ter demasiadas certezas sobre nada, não explicar o que é mais interessante inexplicável, não acender a luz para verificar, para esclarecer; deixar algo encoberto como nos contos antigos, para que a imaginação nos transporte para uma dimensão da vida mais próxima do sonho, e assim podermos acreditar no que a razão não nos deixa acreditar.
Às vezes, em mim o silêncio perfeito da infância. O silêncio feito dos sons que serviam para ampliar o silêncio.
Passos na noite junto à capela de S. José. Eu acordado a meio do sono por um ritual pagão a que chamavam “Casamento das Cachopas”. Se fosse à janela, cada homem com um funil de almude na cabeça.
Agrupam-se ao lado da casa da minha vizinha como figurantes grotescos de um teatro de Pirandello. Um dos homens tira o funil da cabeça e usa-o como um megafone dando um urro lúgubre e longo na noite da minha infância. Tanto, que ainda me assusta. A minha mãe preocupada com o meu medo. O meu pai indignado com o despropósito. Eu a meio caminho entre o pavor e o espanto. Assustado e deslumbrado como só na infância.
Os homens correndo para os seus lugares numa coreografia furtiva de embuçados em torno da casa da minha vizinha.
Só um fica em frente da janela.
Uma bocarra de funil sarrenta e medonha – De quem são estas casas viradinhas prá capela? A menina que lá está dentro é de todas a mais bela!
Outro funil a responder – Não sei, não sei, mas vou perguntar.
Agora, nada de medonho na noite. Agora, longe da minha infância Aguim é uma memória com alma.
Agora, os teus passos a subir a escada.
– Venho morta de cansaço.
E atiraste-te para a cama.
Agora, um silêncio feito de coisas, todas elas conhecidas.
Os teus passos na gravilha do pátio, depois nas lajes das escadas. A chave na porta. O vento nos pinheiros. A tua respiração ofegante. O som dos teus sapatos atirados pelos pés, como se os teus pés fossem autónomos e não precisassem de ordens tuas, depois um beijo de uns lábios tão autónomos como os teus pés. E só depois disseste:
– Venho morta de cansaço.
O teu corpo sobre a cama.
Eu a pensar nesta nossa relação sem poesia nem encanto, escrevinhava num papel algumas destas palavras. A minha mão também como se não precisasse da minha ordem para escrever, enquanto eu falava contigo.
Acabaste por adormecer.
A tua roupa repousa sobre o corpo, não te veste. Debaixo, o teu corpo fervilha de vida. Cada músculo relaxado é uma mola apenas aguardando o impulso, a própria pele sob os panos é uma planície de serenidade apenas contida e o arfar do teu peito aumentando e diminuindo o volume dos seios, convida a soltá-los.
A roupa apenas pousada sobre o teu corpo como uma carícia, como um afago de pano sobre a pele, as pregas a realçarem os volumes. No côncavo das coxas uma almofada de ar sob o tecido deslisa suavemente, aproximando-se da púbis e afastando-se, conforme inspiras ou expiras, tão suavemente que se calhar é só imaginação minha.
A tua serenidade, como um abandono do teu corpo ao meu cuidado, convida todos os meus instintos de predador à visão da presa vulnerável e, ao mesmo tempo, atrai o meu olhar ao deleite tranquilo das tuas formas generosas.
O melhor de estar a olhar-te, é saber que vieste por mim, confiante em te saberes desejada. Vieste, e assim de tão serena adormeceste, confiando-me o teu corpo.
Assim, não parece errado o que fazemos, és apenas um fruto que se me oferece passivamente, como todos os frutos se nos oferecem. Como o pomo primevo se ofereceu, inocente, na alegoria de todos os pecados, para que o ónus da culpa pertença a quem o come, como se quem o come não tivesse sido predestinado para o comer, no irresolúvel paradoxo entre o destino e o livre-arbítrio.
Tu, a Eva e a maçã – dois em um. Móbil e crime, tentação e pecado, o irrecusável prazer antecipado e tão fácil e o objeto inevitável da culpa.
Às vezes penso que só te desejo porque não devia desejar-te.
E agora, no silêncio imperfeito do quarto, ouço o leve sopro da tua respiração. Era só levantar-te a roupa e consumar o meu delicioso pecado. Cumprir o meu destino, exercer o meu livre-arbítrio sem dó nem piedade e sentir-me completo com isso. Mas vou ficando imóvel e em silêncio, só para exercer este enorme poder de decidir que tudo o que fizer posso não o fazer, mas só se preferir o perverso prazer de pecar em contemplação, ao pecado simples do prazer em ato.
Faz-me falta, com dantes, a noite tenebrosa, a noite fantástica e o vago temor de que poderia nunca mais amanhecer.
Então, possuir-te-ia como uma fatalidade sem recurso – os nossos sons juntar-se-iam aos sons do silêncio: dois corpos procurando dentro um do outro algo mais do que o momento irreversível do orgasmo, e quem sabe, no sortilégio da noite cerrada, fossemos tocados pela transcendência.
Talvez assim te amasse. Fizesse mais do que desejar-te – mais que ter-te e perder-te.
E quando a noite se esvaísse amaria então, também a luz.
Enquanto dormes, eu alinhavando palavras sobre o papel como um embuçado lançando pulhas na noite do Casamento das Cachopas. Não mais do que um embuçado nesta casa cúmplice que nos acolhe – tu a pecadora inocente dormindo, como uma rês no covil do lobo, eu o próprio pecado na pérfida vigília do predador adorando a presa – e a noite, sem poesia nem mistério, avançando indiferente.
E já é dia. O sol alumia tudo. Tudo fresco, tudo renovado. E uma alegria vinda da madrugada, previsível e singela, chega até mim, mas sem a vitória sobre a noite subjugada não me contagia.
Dantes, o nascer do sol dava-me a alegria triunfal de um adolescente apaixonado.
4.12.13
Ciúme
O teu perfume que cheira a flor, que cheira a cio. O teu perfume de fêmea que deixa a tua marca, o teu rasto, a convidar todos os machos na tua passagem, como um trilho de tentação.
Quem te despe, Zulmira, nunca te despe totalmente, porque ficas sempre um pouco vestida com o teu perfume. Nos momentos que se seguiam ao banho, ainda sem perfume, é que te tinha totalmente nua para mim. Porque o teu perfume é apenas um véu de tentação que usas para seduzir, algo que não é teu, algo que encobre o teu próprio odor.
O teu odor sem mais nada é a nudez perfeita.
Usar perfume sobre o odor do teu corpo é como misturar coca-cola num bom vinho.
De manhã, quando acordavas é que o teu cheiro era mais puro. O teu cabelo depois do banho costumava manter a fragância frutada do shampoo, mas de manhã era possível sentir o seu verdadeiro cheiro como o hálito morno de um bosque. Na pele do pescoço mais suave, embora na nuca um tudo nada mais intenso, e à frente, na covinha acima do peito, mais delicado, mais apurado, porém nas axilas um pouco de acidez. Entre os seios mais refinado, como se por todo o corpo andasse à procura dessa afinação, e só nos teus seios fosse possível consegui-la, porque algumas pérolas de suor acrescentam um toque subtil de sal que assanha os sentidos. Na púbis uma rescendência fresca de brisa sobre o musgo. E depois, depois torna-se impossível resistir à tentação de descer logo em busca do cheiro intenso de todas as tuas hormonas na corola carnal do teu sexo.
Quem não gosta do teu cheiro, Zulmira, não gosta de ti.
Fui andando pela casa, porque caminhar sempre me ajudou a pensar, e caminhando acabei por voltar ao quarto.
As gavetas da cómoda um nadinha mal fechadas. A alça de um sutiã a espreitar-me por uma das frinchas. Só o suficiente para eu entender que te vestiste à pressa, quando ainda faltava tanto tempo para a hora de saíres.
E o teu perfume no ar.
O teu perfume, o tempero do teu corpo. Como um hamburger encharcado em mostarda para quem não gosta do sabor a carne. Agora permanece aqui, não como a tua alma, mas como a tua assombração. A tua forma em cheiro. O teu perfume que modelou o teu corpo antes de saíres. O teu perfume que durante algum tempo, pelo menos, contornou o espaço vazio onde esteve o teu corpo e que agora torna viva a tua ausência, a tua traição.
O teu perfume como um adereço de que te esqueceste no quarto, como algo que só serve para eu saber que não estás aqui.
Ao voltares, o teu perfume virá diferente. Virá como uma peça de roupa amarrotada. Manchado de outros odores, desvirtuado, abastardado. Tu mais fêmea. E o teu perfume, esse, mais masculino.
Virá diferente o teu perfume, e tu.
Tu mais calma, como se o teu corpo tivesse perdido um peso.
O teu corpo fica um barco solto sobre as águas depois de ter largado o lastro. Mas com mais vigor, mais energia.
Às vezes até ficas mais simpática e afectuosa comigo. Como se o prazer que recebeste fosse tanto que te sentisses generosa ao ponto de quereres reparti-lo comigo.
Então eu digo ”vai tomar um banho, Zulmira,” e tu olhas-me assustada. Mas é só para despires o teu perfume, porque o teu perfume é como um fato-macaco de um mecânico, que se suja, mas deixa o corpo limpo por baixo.
De certa forma, não te entregas completamente, porque uma túnica de aroma te separa sempre de quem te possui. Mas depois de tomares banho, depois de te secares, depois de o teu corpo respirar – como a relva respira depois do orvalho, como a própria terra respira depois da chuva, como a areia da praia, nua e seca ao sol, respira depois da cacimba da noite – depois, depois a tua pele suaviza e perde todos os odores que não lhe pertencem, e ficas só tu, tu sem nada que te separe de mim, porque a tua nudez completa é quando não há nada entre os meus sentidos e o teu corpo.
Só então és minha.
Só te tenho quando não há nada entre nós, nada entre o meu corpo que é mar e a tua nudez que é praia.
Desde o princípio a certeza de te amar, quando o meu olhar repousou em ti como um viajante perdido que chega a casa.
Desde o princípio, o mar tomando balanço tentando conquistar a praia. Desde o princípio, o mar desistindo. Tentando e desistindo. Desistindo e tentando. Sempre.
Eu o mar ainda. Não sei se tentando conquistar-te, se tentando libertar-me de ti. Porque eu preso a ti mas sem nunca te ter, porque eu quase solto e liberto numa onda de raiva, mas que vou e logo regresso.
Regresso para um amor impossível, porque todo o amor é impossível. O amor é a arte de possuir o que não temos. Quando o amor é bem-sucedido a história acaba, para acabar com final feliz.
Assim que é feliz acaba, porque quando temos o que amamos tudo se consuma, nada mais se pode acrescentar. Nós, Zulmira, continuámos para além do final feliz, para além do amor.
Como eu, aqui, continuo, depois de teres saído, a sentir o lugar onde estiveste. Nada nos liga, a não ser o teu perfume. E o teu perfume, Zulmira, é agora o que mais nos separa.
E a dor insuportável de não haver amor que chegue para quem sobrevive a um final feliz.
Mas se já não te amo, Zulmira, ainda amo alguma coisa em ti; algo que ninguém pode possuir, algo que permanece em ti longe dos olhos, de todos os sentidos de quem te deseja.
Não sei o que é. Quando sabemos o que é quebra-se o feitiço. Talvez o teu cheiro natural, o teu cheiro animal, o teu cheiro de fêmea que permanece submerso, subterrâneo, indetectável sob o teu perfume, e que portanto ninguém pode amar.
Só eu.
Mas eu que já não te amo por tu já não seres tu. E que já não te amo por eu já não ser eu também.
Mas alguma coisa algures em nós ainda unido. Algo só nosso que sobreviveu. Talvez apenas um pensamento antigo em comum que tivemos. Talvez a esperança de ainda virmos a ser felizes, ou apenas a memória de termos sido.
Virás com ar cansado, mas com o cansaço de quem sacrificou o corpo em benefício da alma. O cansaço bom da presa que sobrevive ao predador.
E o teu perfume.
Ou turvo como roupa demasiado usada, se não tiveste tempo de te arranjar; ou fresco, renovado, ainda não oxidado, se tiveste. E a tua traição mais descarada na tua frescura. A tua falsa frescura a tentar apagar o verdadeiro ranço da tua traição.
Mas, Zulmira, quem te tem esta noite, não te tem. Tu és a mulher que o meu amor modelou. Tu, como eu te vejo, só existes para mim.
Por vezes olhas-me como quem pergunta “porque não deu certo?” Quando o teu olhar tem assim uma pergunta sabendo que não tem resposta, é que eu vejo tudo claro. Sabes, Zulmira, esperei pelo teu amor tempo de mais, e habituei-me ao fracasso como um corpo cansado se acomoda a uma cama dura, e quando acabaste por me aceitar, vieste perturbar o meu conforto.
O teu amor por mim veio transtornar a minha acomodação ao fracasso e veio também consumar a nossa história.
Queria ter partido nesse dia.
Mas ainda aqui, esta onda a ir e a vir, desde o princípio do mundo a tentar abandonar o mar. A mesma onda há milénios a tomar balanço e a desistir numa impotência de espuma.
5.11.13
A Pedreira
– Mantenham-se em formação com as armas em posição de fogo até novas ordens.
E eu a pensar “Este gajo está com medo de quê, isto não é só para proteger uns pretos a partir pedra? Queres ver que logo no primeiro dia vamos ter porrada.”
Não sei porque me veio isto agora à ideia aqui no meio do areal da Costa Nova, tantos anos depois. A Zulmira lá em cima na barraca e eu a passear junto ao mar.
Porque me incomoda o mar tão calmo? Porque me dá a ideia que algo se prepara em segredo por detrás desta calma toda? As pessoas ao longe, onde o mar é mais fundo a nadarem numa algazarra de festa mas eu a sentir a calma das águas e a pensar “Aqui há coisa”.
O furriel inquieto a olhar para os pretos a partir pedra no fundo da pedreira e eu a pensar “Aqui há coisa, então nós viemos só para proteger estes gajos e o furriel tão nervoso?”
Daí a nada o furriel a dizer entre dentes “Filho da puta”, e eu olhei para baixo e perguntei:
– Ó furriel, há azar?
Mas ele não tirava os olhos dos pretos a partirem pedra, e nisto, lá em baixo, um branco com uma vara a bater num preto, e o furriel:
– Filho da puta!
Porque não me saem estas coisas da cabeça? Ao tempo que isto lá vai. Eu bem caminho pela beira-mar fora a ver se se me limpam as ideias – agora as pessoas como moscas ao longe, e o mar tão calmo a fazer-me impressão. Mas estas coisas vão e voltam de novo como a maré que traz uma espuma meio amarelada até aos meus pés e depois a leva de volta. Um metro para cá, um metro para lá, numa calma que me irrita. Na minha cabeça, uma porta a bater, e a minha mãe:
– Ó Zé deixaste a porta aberta!
E eu a voltar para trás com o saco de batatas às costas para fechar a porta da adega, tão calmo como o mar hoje. A voz da minha mãe, mesmo zangada nunca me irritava.
Na minha cabeça a porta da adega a bater de novo, mas agora em vez da voz da minha mãe, o furriel:
– Filho da puta!
Tudo misturado, tudo ao mesmo tempo a fazer-me confusão. Achei que se viesse caminhar onde a areia é dura, não a seca onde enterramos os pés, nem a que está debaixo de água, onde nos afundamos, mas aquela faixa de areia entre o mar e a praia, aquele meio-termo onde podemos caminhar como se fosse em terra firme, enfim, achei que me acalmasse. Mas não, só imagino toda a raiva que pode estar por detrás de um mar calmo, a tempestade que se prepara algures para além do céu azul, e esta areia molhada, nem seca nem submersa; esta indecisão, esta incerteza aumenta a minha inquietação.
Lá no fundo da pedreira os pretos a partirem pedra. O furriel a desconfiar de alguma coisa. O capataz a bater no preto com a vara. O furriel a dizer “Filho da puta”. A porta da adega a bater. A minha mãe: “Ó Zé deixaste a porta aberta”. Parece que as coisas me vêm à ideia assim como estilhaços de alguma coisa que se partiu, e que se perderam as partes mais importantes.
Quando tento lembrar-me de alguma coisa é assim, só estilhaços. Quanta coisa se perde, meu Deus, na vida de um homem, para sempre, para sempre.
De repente o furriel a pegar no rádio e a gritar:
– O que é que eu faço ao gajo? Nada? Nada? Então no plano da operação eu não vinha práqui pra proteger os mineiros?
Lembro-me dos soldados deitados no chão a deixarem de olhar para a mata e a olharem para ele.
– Eu vim foi guardar escravos!
Parecia um cão raivoso aos círculos. Depois agarra na G3 como quem vai dar um tiro em alguém
e dá dois passos a descer a pedreira, mas para. Lá em baixo o capataz batia de vez em quando num preto. Nem era com muita força, era como nós fazemos aos bois, mais por hábito que outra coisa.
E o furriel envergonhado por lhe terem faltado os tomates para fazer ali uma desgraceira, e depois a passar por mim a dizer palavrões, com os olhos muito brilhantes. Se tivesse ido, se tivesse descido, se o outro tivesse resistido e se o furriel o tivesse insultado, tudo poderia ter acontecido, porque o capataz trazia uma pistola. Hoje, ao menos, teria uma história interessante para recordar, assim dá-me a impressão que pouca coisa aconteceu.
De tudo o que vivi, o que consigo recordar? Alguns estilhaços. Cada dia com vinte e quatro horas, em cada hora tanta coisa a acontecer à nossa volta. Rostos, vozes, sentimentos, afetos e ódios. Tantas palavras ditas, tantos gestos feitos, tantas coisas importantes que esquecemos.
Se nos lembrássemos de tudo seria melhor? Não sei, sinto o som de uma porta a bater e estas coisas vêem-me à ideia, aos bocados, tudo misturado, mas tenho a impressão que as partes mais importantes não me sobem à ideia, ficam afundadas no esquecimento para me pouparem. Se nos lembrássemos de tudo seriamos escravos do passado. A memória é uma doença mental, se não houvesse esquecimento enlouquecíamos todos.
Mas o que terá dito o furriel quando passou por mim com os olhos a brilharem de raiva? Sei que disse alguma coisa mas não me lembro. Dizia palavrões entre dentes, isso eu sei, mas ele disse qualquer coisa que me intrigou na altura e agora não me vem à ideia. Ficou esquecido e esquecido ficará para sempre, mas era uma coisa importante para eu agora entender porque sinto medo e raiva ao ver o mar tão calmo.
Eu ponho-me a aparafusar estas coisas e acabo por chegar à conclusão que afinal éramos todos escravos. Levaram-nos à força ou ao engano para lá, e se refilássemos muito também estávamos feitos ao bife. Éramos escravos a guardar escravos. Se calhar é mesmo assim que as coisas funcionam. Os homens livres não guardam escravos. Se aceitamos que um de nós seja escravo, somos todos escravos. Ah… engraçado, se não me engano foi algo assim que o furriel disse. Faltou-lhe a coragem para enfrentar o capataz e pôs-se ali a filosofar.
Lá em baixo na pedreira o capataz batia nos pretos com muita calma, quase com afeto, como nós fazemos com o gado. E a raiva do furriel a destoar daquela calma toda.
A mesma raiva que eu sinto ao ver o mar calmo. As pessoas a mergulharem nas ondas vezes sem conta, a chapinharem na água, a recuarem quando as ondas se aproximam, a avançarem para a água quando ela recua e a recuarem de novo quando ela avança, uma coisa tão inocente, tão infantil que quase me traz as lágrimas aos olhos, e de repente a voz do furriel:
– Filho da puta!
Porque me vêm estas coisas à ideia como uma porta a bater?
12.10.13
A estranheza do regresso a casa
Versão audio para deficientes visuais (em breve)
A imponderável densidade do ser
O Ser e a coisa
Ver o texto completo
Versão audio para deficientes visuais - 1ª parte
Versão audio para deficientes visuais - 2ª parte
Versão audio para deficientes visuais - 3ª parte
18.5.13
A Raiva
21.4.13
Este Mundo Invisível
17.3.13
A Escolha Satânica
Eu? Eu estou bem. Só quando passa o efeito dos remédios é que tudo na vida parece murchar. E a vida parece um lugar onde não se pode estar.
Estou cheio de cicatrizes, furriel, cicatrizes por dentro, das que não saram.
E você furriel? Como estão as suas cicatrizes? Não tenha vergonha das suas cicatrizes furriel, elas são a prova de que corremos riscos; e viver é correr riscos. Uns ganham ou perdem, outros nem uma coisa nem outra, porque não correm riscos. Eu não estou doente da cabeça furriel, eu tenho saudades… Bastos, tenho saudades da guerra. Lá, quando as coisas corriam mal, a gente trocava-lhes as voltas, a gente atacava os gajos pelos flancos. Com o tempo aprendemos a resolver os problemas à porrada. Pró fim até sabia bem quando tínhamos que dar uns tiritos. Você, esteve lá pouco tempo…
Estiveste lá pouco tempo, e às vezes penso que tiveste sorte. Ficaste sem uma perna, não é pera doce, mas há coisas piores furriel… Bastos, acho que aquilo deu cabo de mim. Fiquei amputado por dentro. Mas ainda não inventaram uma prótese para esta amputação. Atafulham-me com remédios e eu fico meio grogue; e depois que se lixe, fico a voar baixinho.
Isto aqui é assim. Um dia puxa o outro. Começa devagar e vai acelerando, acelerando, e no final do dia, pumba! Uma carrada de comprimidos e eu fico sem sentir nada; nem mau, nem bom.
É por isso que às vezes me lembro que se ao menos pudesse trocar as voltas a isto, atacar pelos flancos… - Ai é? Vocês estão aí emboscados à nossa espera? - E nós atrás deles pelo capim fora, lembra-se ó furriel... ó Bastos, lembras-te? Nesse dia não tiraste fotografias. Estavas mais branco que a cal da parede. Mas os gajos fugiram, e no mato quem é que apanha aqueles gajos? Nem pensar.
Depois, no Chindorilho, foste ferido. E tu a dizeres que nunca mais jogavas à bola. Às vezes penso nisso e apetece-me rir… Tu nunca jogaste à bola, foste sempre um nabo. Mas na altura até me vieram as lágrimas aos olhos. "Nunca mais jogo à bola." Dizias tu para o enfermeiro Costa.
Mas nós ficámos lá, percebes? Aquilo parecia que não tinha mais fim. Aquilo mexe com um gajo, Manel. O pessoal aqui não sabe. E a malta nova então? Às vezes começo a falar sobre estas coisas e a Zulmira olha para a filha, a filha olha para ela, e passado um bocado já nem me ouvem. Eu calo-me, e elas nem notam que eu não acabei a história.
Deve ser uma chatice ouvir um gajo falar destas coisas. Nós é que sabemos como aquilo foi, não é?
Até eu acabei por ficar cansado de me ouvir. Ouço os meus pensamentos, percebes? Estou cansado.
Estou farto de ser eu. Queria despir-me de mim como quem tira um casaco usado de mais. E ficar nu, livre de mim. E depois, quem sabe, sendo outro, ter esperança de novo. Ilusão de novo ao menos.
Estou cansado. A cada dia que passa parece que acabei uma grande empreitada, mas que logo tenho que recomeçar. Tenho um relógio dentro de mim que não pára, um carrossel fantasma sem um único passageiro, que gira, gira, e não vai a lado nenhum.
Mal fecho a pestana, logo me voltam os pesadelos. Para onde foram os meus sonhos é que eu não sei. Mal me deito para dormir vejo logo um milhão de olhos a acusarem-me, sem eu saber de quê. Pessoas e sombras. Mas as sombras são muito mais que as pessoas.
Não me olhes assim sem dizer nada. Tinhas sempre uma palavra pronta para dizer, uma piada. Mesmo quando as coisas não eram para piadas.
Metia-te confusão quando me vias escrever sem pôr as cartas no correio, não era? E tu: - Hás de arranjar inspiração antes de a guerra acabar!
Acho que nessa altura já me incomodavam os meus pensamentos, e precisava de os pôr cá para fora. Punha-os no papel e pronto, ficava mais sossegado. O que é que um homem que anda a brincar com a morte diz à mulher que deixou em casa? Ela queria ir para França, e eu: - Nem sou homem nem sou nada...
Mas mal pus os pés em Mueda vi logo que devia ter dado à sola em vez de me armar em parvo. Tu é que levavas aquilo a sério, Manel, pelo menos no princípio, porque depois começaste a abandalhar, e a tirar fotografias a tudo, até nos golpes-de-mão.
A Zulmira diz que agora falas contra a guerra. Aquilo muda a gente, não é?
Foi lentamente ou aconteceu alguma coisa que nos deu a volta? Sei que aconteceu alguma coisa, mas não me lembro do que foi. Sei que me esqueci, mas como se tivesse acabado de pensar nisso um minuto antes, e logo me fugisse a ideia. É como se me tivessem amputado tal como te amputaram a ti. Falta-me esse bocado. O lugar onde estava essa lembrança de que não me consigo lembrar. E sabes lá como isso me incomoda? É um pesadelo.
Quando voltares, pede à Zulmira… não, não, talvez seja melhor pedires à minha filha. Pede-lhe que me traga fruta, ou flores, ou um livro. Algo que me traga algum afeto.
Acho que as assusta este lugar. Da primeira vez que aqui estive, vinham todas as semanas ver-me. Agora ainda vêm, mas menos.
Sabes como era às vezes, quando íamos pró mato? Aquela impressão de que as coisas iam correr mal? É o que sinto agora todos os dias.
Parece que ainda te estou a ver a fazer desenhos com um pauzito na areia da picada. Eu com a ideia de que havia um muro enorme à nossa frente, ou então um precipício. Algo que não deixaria a gente sair dali.
Agora, ao pensar nisso, iria jurar que não se ouvia nada. Havia um grande silêncio. Aquele silêncio que ouvimos quando morre alguém. O silêncio de a vida se ter tornado um lugar onde tudo murcha, onde não se pode estar.
Levei tempo a perceber. Só havia lugar para dois no helicóptero. Eu só pensava: - A esta hora da tarde o que ficar vai morrer.
Nem me recordo da emboscada. Atirei-me para de baixo da Berliet e deixei-me lá estar. De vez em quando dava um tiro, mas o capim não deixava ver ninguém. O alferes mais uns cinco gajos atacaram os turras pelo flanco esquerdo e eles fugiram. Resultado: três feridos graves. Depois tu ficaste a fazer riscos no chão como se estivesses a chorar.
Eu perguntei: - Quem é que vai ficar, furriel?
Olhaste para mim como se eu estivesse a falar chinês e passado muito tempo disseste: - Sei lá. Ou o que tiver mais hipóteses de aguentar a noite toda, ou o que não tiver hipóteses nenhumas.
Depois, continuaste a rabiscar com o pauzito no chão, como se estivesses a calcular as hipóteses. Há muitas maneiras de chorar.
Lembro-me tão bem de todas as coisas que não têm interesse nenhum e não me lembro nada do que foi realmente importante. Qual deles ficou? Será que foi porque aconteceram muitas coisas depois disso que já não me lembro? É muito estranho que não me lembre. Quem decidiu qual deles deveria morrer? Quem foi que fez o papel de Deus? Como se pode viver depois de uma escolha dessas? Uma escolha tão danada que se apagou da minha cabeça.
A verdade é que se me apagaram muitas coisas da minha cabeça. Não sei ao certo se seria melhor conseguir lembrar-me, mas pelo menos teria mais descanso. Perco noites a tentar recordar-me de uma coisa e depois já nem me lembro a que propósito é que me queria recordar.
É como se eu me tivesse esquecido para não ter que fazer luto. A vida é assim, não é furriel? Todo o afeto acaba em luto.
Que foi que me aconteceu, furriel? Tu estiveste lá pouco tempo.... mas aconteceu alguma coisa importante, muito importante. Muito importante de mais...
Sabes o que penso? Penso que nas guerras Deus mete dispensa e quem fica a mandar é o Diabo.
Depois, Deus quer voltar de novo ao ativo mas o Diabo não deixa. Pelo menos comigo é assim, furriel. Ainda tenho o Diabo no ativo.
Por isso é que eu não posso escolher, não posso decidir o que faço à minha vida. Não se pode escolher, quando é o Diabo que está a mandar.
Também deste opinião? Atiraram a moeda ao ar? Ou fizeram Pim pam pum! Cada bola mata um... e depois... ficou um ao calhas? Um escolhido pelo Diabo.
Também se te varreu isso da cabeça, ou consegues atirar tudo para trás das costas? "Atira isso pra trás das costas." Diz a Zulmira para mim, como se fosse possível atirar uma guerra inteira para trás das costas. Eu bem quero esquecer, mas o que quero esquecer não esqueço e aquilo de que me quero lembrar não me lembro. "Tens que ter coragem." Diz ela. Coragem... As pessoas acham que isto é falta de coragem. Isto são saudades. Não saudades da guerra, Manel. Saudades de mim nessa altura. Saudades de quando eu era outro e tinha medo e coragem e era tudo nítido. Agora não sinto nada, está tudo embaçado, e eu sou um casaco velho que não consigo despir.
Quando andavas de máquina fotográfica na mão e com a G3 às costas, era por falta de coragem, era? Eu bem vi. Aquilo começou a mexer contigo. Foi ou não foi? Ficavas lá mais uns tempos e vinhas pior do que eu.
Fala com a minha filha, pede-lhe que me traga flores. Que me traga alguma coisa viçosa que me faça sentir que a vida é novamente um lugar onde se pode estar.
Sabes? Acho que devia ter ficado em África. Quer dizer, acho que devia ter morrido lá. Pensei assim muita vez: se voltar nunca mais serei o mesmo; nada será o mesmo. Nunca mais.
Se ficar aqui, ao menos as pessoas que gostam de mim vão recordar-me como eu era e não como o ramo murcho que sou agora. Como eu era quando ainda gostavam de mim.
Antes de Deus ter metido dispensa e o Diabo ter ficado no ativo.
Olha, ela que não me traga flores, Manel, as flores também murcham.
mcbastos
In Elo de Fevereiro de 2013
11.2.13
A saca de milho
O prazer dos pés nus na quentura do pó, a estrada como algo pousado com preguiça sobre os vinhedos só para a gente passar, o ar sem movimento a dar a impressão que no verão vivíamos no vácuo, e as distâncias enormes. O som das enxadas ferindo as côdeas da terra e um cheiro de tantas coisas no ar ao mesmo tempo, que não dava para dizer a que cheirava. Uma coisa é certa, o tempo não andava, vivíamos num presente que apenas dilatava, e nós nele como fazendo parte de uma fotografia animada.
Quando comecei a ir à escola, às vezes desviava-me pela rua da loja para sentir o cheiro do salitre do bacalhau, da moagem do café e do sarro do vinho a saírem da loja da senhora Idalina. À porta, do lado esquerdo, uma saca grande com milho. Em minha casa só no arcão, com uma tampa demasiado pesada, e aqui mesmo à mão. Olho para um lado e para o outro e entro sorrateiro na loja. Vejo a saca do milho indefesa. Quando ninguém reparava em mim enterrava devagar uma mão no milho. Meio minuto de prazer bastava. Depois retirava a mão devagar. E uma certa vergonha fazia-me fugir do local do crime. Às vezes, mexia mesmo os dedos da mão, e o prazer multiplicava-se por cinco, nas entranhas granuladas do milho. A partir do dia em que fui descoberto a minha vida mudou, porque aquele prazer aumentou desmedidamente, por ter ganho o estatuto de pecado.
Foi por essa altura que me convenceram que para além dos meus pais havia ainda um poder maior e mais intransigente. O pior é que parece que está em todo o lado e vê tudo o que fazemos. Umas vezes afligia-me com isso e a vida tornava-se tão chata como a sala de espera do doutor Santos, outras vezes parecia que podia dar-se o caso de essa autoridade estar distraída e não me ver cometer o terrível pecado de enfiar a mão na saca do milho. Deve ser isso que acontece quando o padre está com a afilhada na sacristia, e o Tó, que ajuda à missa, se põe muito quieto encostado à porta. O padre às vezes apanha deus distraído. E a minha avó para a minha mãe: - É a amázia. Eu um dia para o meu avô, assim à traição: - O que é uma mázia? E ele com um sorriso de viés como quando olhava a moça serrana de costas, a fazer as camas de lavado: - Quem é que tem uma amázia? E eu: - É o padre Amâncio. O meu avô riu durante muito tempo até ficar sem fôlego, e depois como se me estivesse a resolver um problema da escola: - Sabes, o padre é um homem, e às vezes precisa de uma mulher. Estranho, pensei eu, e depois em voz alta: - Precisa de uma mulher para quê?
O meu avô riu até se engasgar e tossiu durante muito tempo, depois quando pareceu ficar melhor: - Para que a mulher lhe sirva. Quando a mulher quer, serve sempre ao homem.
Não entendi. Mas uma suspeita de que as palavras não servem para nos entendermos nasceu aqui. As palavras que servem para explicar, servem também para confundir.
Mas tu eras simples demais para confundir. Era quase sem palavras que nos explicávamos. Chegavas e eu deixava de ser filho-único; partias e eu voltava ao meu mundo de uma só pessoa. Porém nunca te amei, talvez porque me habituei a ti cedo demais e o amor precise da diferença e do mistério e de alguma transgressão.
E as palavras do meu avô, que ainda não entendia, faziam-me imaginar-te como um casaco que tivesse que usar primeiro, para ver se servia. Uma pessoa, assim como um sapato, mas que se ajustasse ao pé, fosse qual fosse a nossa medida. Como o milho na saca da loja da senhora Idalina se ajustaria a qualquer mão. O prazer que senti ao lembrar-me da minha mão a penetrar os interstícios do milho deu lugar a uma profunda repulsa ao associá-lo a ti. Seguramente, não eras à minha medida; seguramente, não te imaginava ajustável. Habituei-me a ver-te exclusiva mas não como um par, éramos sapatos do mesmo pé.
E todo o universo dos meus sentimentos e sensações, dos meus instintos e impulsos, dos meus prazeres e repulsas se reorganizou em torno desta impossibilidade. Há uma compatibilidade, uma acomodação entre dois diversos que jamais pode existir entre dois idênticos; amar-te seria incestuoso.
De tudo isso, só a saudade do pó nos pés nus, que são muito mais as coisas que eu esqueci do que aquelas que recordo. E as distâncias enormes. Ou me engano muito ou andávamos mais rente ao chão, mais perto do coração da terra, tanto, que me lembro da transpiração quente que subia do que parecia simplesmente uma passadeira de pó apenas pousada sobre os vinhedos, distorcendo a paisagem à distância. E os sons ecoando a lonjuras impensáveis, dessincronizados com as imagens, como num filme mal montado.
Dá-me a ideia que o mundo acelerou, que as pessoas perderam a paciência, que tudo se tornou mais assertivo. Hoje ninguém me acusaria de impudências por violar uma saca de milho; seria simplesmente tomado por imbecil.
Mas agora que isto me veio à memória tenho a noção de ser justamente essa pudicícia que se perdeu com o tempo, e o que me ficou foi um sentimento de perda, de oportunidade perdida.
O Largo do Sobreirinho parece-me grande de mais hoje. As folhas dos castanheiros da Índia foram mudando de tonalidade como se um fotógrafo tivesse estado a corrigir a cor no monitor de um computador. Mas toda a cor perdeu a vibração e se foi tornando pardacenta à medida que a tarde esmorecia. As pessoas regressam a casa.
O carro em que vens pára.
Quando a porta do carro se abriu, ainda ouvi a voz do meu avô a dizer que toda a mulher se pode ajustar à medida do homem, e agora, essas palavras despertaram em mim algum instinto primário que a inocência perdida já não pode ignorar.
Tu sais, e as crianças e o pai demoram mais um pouco. Mas não sais logo. Uma perna alonga-se do carro até ao lancil. A biqueira da sandália a tactear o passeio. E toda a extensão desnudada da tua perna a sair do carro numa ligeira torção, que realça a dinâmica das curvas e excita o canibalismo da minha imaginação. Sais e olhas para onde estou, mas como se não me visses. Uma falsa omissão como uma mensagem de cumplicidade. Olhamo-nos por um eterno segundo que me rebobinou a memória até um lugar na nossa infância, onde poderíamos ter tido ao menos um amor impubescente.
E vinda sem aviso, obsessiva e impúdica, a imagem da minha mão a afundar-se nas intimidades da saca de milho.
mcbastos
Para deficientes visuais, está disponível a versão áudio aqui.
12.1.13
José Adelino Guerra, um homem com visão
Quando um dos nossos tombava sentíamo-nos culpados, porque éramos iguais perante a morte e tivemos o privilégio de sobreviver. Morríamos um pouco também, porque diminuía para nós a esperança de vida.
Quem nunca combateu e não precisou dos seus camaradas para sobreviver, dificilmente entende isto, quem nunca tingiu as mãos com o sangue dos seus pares para os socorrer, ou pelo menos para estar presente até ao fim, seguramente não entende isto. E a verdade é que eu também já me tinha esquecido disto há muito, mas ontem essa culpa atingiu-me em cheio, como se eu tivesse descurado um perigo que me cabia prever, como se eu tivesse tomado uma decisão que redundou em desastre. Como se o meu camarada José Guerra tivesse sido morto em combate e eu tivesse chegado tarde demais para o defender.
E ali estava a imagem há muito esquecida do companheiro caído, a sua arma para lutar contra a hostilidade do mundo caída ao lado dele, inútil. Inútil já, a bengala branca, como um risco florescente na obscuridade da tarde avançada. Inútil como todas as armas deixadas cair pelos que caiem lutando; que ele caiu lutando. Porque a cada passo que dava se opunha à cruel indiferença dos que dão por adquirido o que para alguns é o resultado de uma luta sem tréguas.
E no último passo que deu, um muro projectado para fingir segurança e cumprir não sei que desígnios estéticos, interrompeu essa vida de luta, de coragem, de humildade solidária que o levava a colocar-se sempre depois dos outros para receber e à frente de todos para dar.
Mas quem caiu naquele precipício foi apenas o homem; que a sua obra continua. É que à medida que tombam os nossos companheiros de combate, diminui de facto a nossa esperança de vida, mas aumenta a camaradagem dos restantes, a interajuda e a amizade. E agora, mais unidos, damos mais valor uns aos outros; mais decididos, mais conscientes de que a ausência do Guerra tem de ser compensada pela lição de coragem que nos deixou.
Depois do sentimento de culpa, veio o instinto de retaliação, a vontade de punir o culpado. Ainda senti a mão a fugir-me para a arma, uma arma há tantos anos esquecida, uma arma já tantas vezes amaldiçoada. Mas não se luta com uma G3 contra a insensibilidade humana, contra o desprezo cruel dos que projectam, constroem e mantêm estas armadilhas arquitectónicas como minas antipessoais colocadas à saída do trabalho de um cidadão.
Parece que estou a ouvi-lo dizer no seu tom comedido mas levemente douto: – Combater a indiferença não é o trabalho de uma vida, é o trabalho de gerações.
Quantas vezes passei por aquele muro? Quantas vezes me senti inseguro à sua beira? Qual foi a minha contribuição para evitar aquele desastre? Como posso pensar em retaliação se agi como todos os que tinham responsabilidades e nada fizeram?
– A luta pela indiferença tem de ser feita pela positiva, conquistando simpatias, atitudes e vontades. Tem de ser feita despertando consciências em vez de despertar sentimentos de culpa. – Dizia ele. E pensar nestas suas palavras deixou-me mais aliviado.
Uma comunidade onde a soberania deixou de pertencer ao cidadão para passar a pertencer à empresa, uma comunidade em que os pobres pagam as dívidas dos ricos, em que os que andam mais rápido passam à frente dos que têm mobilidade reduzida, em que os lugares para deficientes nos parques de estacionamento são ocupados por quem não tem deficiência nenhuma, a não ser a ignóbil deficiência de falta de escrúpulos; uma comunidade assim deixa-nos por vezes à beira da raiva. E eu: – Amanhã trago um papel a dizer: ”Espero que um dia você já tenha direito a estacionar aqui.” E ele sempre mais razoável: – Fica melhor: “Espero que você nunca tenha direito a estacionar aqui.”
Às vezes, eu cedia ao meu senso de humor de gosto duvidoso e exagerava a sensualidade das mulheres que passavam por nós, para o provocar; e ele sem se deixar enganar, sem abandonar a atitude de lutador e sem desmanchar o senso de humor: – Num mundo justo, o que tu vês, eu deveria poder apalpar.
Quando falava dos seus projectos, com o seu ar modesto, eles pareciam sempre insignificantes, mas quando metia mãos à obra é que víamos o que ele vira antes de nós. Dava a ideia que ia sempre um passo à nossa frente.
Porém, as suas dúvidas eram grandiosas, como acontece com os sábios. Um dia, ao regressarmos da piscina: – Se fossemos todos cegos, será que a humanidade teria descoberto a luz?
E as estrelas sobre Santa Clara brilhavam na noite, impotentes para lhe responder.
Estas coisas passaram-me pela cabeça como um filme acelerado enquanto olhava o seu corpo caído, que um muro construído como uma armadilha fez precipitar num abismo, em vez de o proteger.
E o soldado que acordou em mim foi desaparecendo devagar, dando lugar ao companheiro de trabalho e de lazer que de repente fica sem parceiro, ao amigo impotente perante uma crueldade esmagadora.
As pessoas por distracção ainda hão-de falar dele no presente do indicativo durante algum tempo, e só depois, a pouco e pouco, passarão a usar definitivamente o pretérito, à medida que o tempo criar distância e a expectativa de o ver chegar der lugar à saudade.
Entretanto, talvez consigamos que se reconstrua aquele muro a tempo de evitar mais tragédias, talvez descubramos outras armadilhas destas antes de provocarem vítimas; talvez, se formos capazes de pensar como o meu amigo Guerra: – O nosso conceito de conforto tem que ser colectivo e tem que ser concebido a pensar nos que têm menos conforto.
Obrigado Guerra por teres partilhado este mundo comigo, a tua visão da vida e a tua amizade tornaram-me uma pessoa melhor.
Agora, descansa em paz, nós havemos de aguentar isto.
Versão áudio para deficientes visuais, AQUI.
15.11.12
Insónia
Tu aqui ao meu lado, Zulmira, e quanto silêncio nos separa. Como podes dormir com este silêncio?
O silêncio é uma coisa estranha. Não é surdez, a surdez é oca e o silêncio é maciço. No silêncio, é como se o ar se tivesse tornado sólido como betão. E tudo fica preso no silêncio. Tudo fica parado. Os móveis parados. As paredes paradas. Eu poderia mexer uma perna, só para quebrar o silêncio, mas a minha vontade parou também, não sou capaz de me mexer.
A tua foto parada sobre a cómoda olha para mim. Um sorriso parado. Tem anos aquele sorriso. Foi a Moçambique e voltou comigo para casa. Atravessou uma guerra inteira e não mudou nada. Um sorriso sem culpa, a desafiar a culpa dos outros.
Tudo parece parado, e no entanto tudo se move, se transforma; mas tão devagar que eu não consigo ver.
As gavinhas da parreira a enrolarem-se nos ferros da varanda como dedos lentos, tão lentos que me canso de olhar para elas e não as vejo crescer, e no entanto sei que crescem mesmo debaixo dos meus olhos. A erva por entre as pedras do terraço. Lenta, tão lenta. Ou então sou eu que vivo depressa demais. Tão depressa, que não me lembro de termos sido felizes.
Não me lembro de ter vivido.
Sei que me amaste Zulmira, mas não serias capaz de cometer adultério para teres um momento de prazer comigo; não serias capaz de te humilhar por mim, ou de humilhares o amor da tua vida por um momento de devaneio e pecado, breve e sem futuro, comigo; de navegares até ao meio de uma tempestade na noite mais medonha só pelo prazer de uma loucura comigo. Eu sou para ti apenas o farol solitário na praia segura; a estaca onde amarras o barco no fim da viagem. E agora dormes em paz como se isso fosse tão natural como as rosas terem espinhos; apenas um contratempo da Natureza. Sem remorso nem mágoa.
Quando às vezes sorrias para mim e dizias "Ó Zé!", eu olhava nos teus olhos e via a mágoa lá no fundo. Mas era a mágoa de teres perdido alguma coisa preciosa quando casaste comigo. Alguma coisa tão secreta e sem perdão, que só no fundo do teu olhar ficou essa mágoa para sempre. Uns olhos alegres com uma tristeza escondida lá no fundo.
Mas o teu corpo era só alegria. O teu corpo era uma festa Zulmira, que até fazia esquecer a mágoa de ver essa mágoa nos teus olhos.
Mas o teu corpo foi ficando triste também, com o tempo. Envelheceste Zulmira, e eu não dei conta. Ainda ontem eras tão jovem. As gavinhas da parreira a enrolarem-se nos ferros da varanda. O tempo a abrir frestas na madeira dos móveis. Areias a caírem das paredes. A tua foto a amarelecer lentamente. E eu a viver depressa demais.
Como pesa este silêncio. Sinto o peso do silêncio no peito como se eu estivesse morto, e alguém se tivesse sentado em cima do meu caixão.
Há um pingo na torneira da cozinha a aumentar o silêncio. Sabes como é? Vai-se juntando a água num cantinho do cano, depois o pingo estica, contrai-se um pouco, estica de novo e acaba por deixar-se cair. E o silêncio aumenta a cada pingo que cai.
És tão inocente Zulmira. Envelheceste sem culpa. Ainda se ao menos te sentisses culpada. Se ao menos te queimasse o remorso de me fazeres sofrer por me teres traído.
Cada pequeno prazer teu sem mim foi um pingo de ferro fundido a cair na minha alma, e agora que já não me trais, envelheceste. É a maior das traições, Zulmira, seres-me fiel por teres envelhecido. Como podes dormir com este silêncio? Como podes dormir sem culpa?
As melgas também aumentam o silêncio. Fazem voo rasante como os T6 lá no mato. Todos ficavam aliviados quando eles chegavam, mas eu enchia-me de terror. Os T6 traziam a morte na barriga e despejavam-na em cima dos turras. E o céu parecia uma pele de tambor a ribombar. Aterrorizava-me a morte Zulmira, fosse de quem fosse a morte. É por isso que odeio as melgas. Elas a aproximarem-se dos meus ouvidos a imitar um T6 em voo picado. Às vezes chego a ouvir o teto do quarto como a pele de um tambor. E tu, tão inocente, a dormir como se não tivesses culpa de nada.
A tua beleza tornava a tua traição suportável. Eu olhava o desenho perfeito dos teus lábios e não conseguia imaginar que fizessem outra coisa além de beijar. Agora parece que só fizeram obscenidades sem escrúpulos.
Sabes Zulmira, eu amava-te com ternura e via em ti uma flor, onde outros viam apenas um fruto. Via em ti a minha sede, onde outros apenas a água de beber. A paixão, Zulmira, onde outros apenas a carne. E depois da paixão regressava lentamente à ternura, onde outros apenas se levantaram.
Mas o silêncio apaga tudo, encobre tudo. O silêncio é teu cúmplice Zulmira, por isso é que tu dormes sem medo, como se as coisas não acabassem por se estragar com o tempo, a caminharem lentamente para a morte.
As coisas morrem lentamente e eu posso não ver isso, mas sinto, Zulmira; há uma diferença nas coisas quando a morte anda no ar. Eu olhava para o mato e sentia a morte. “Ó furriel, isto cheira-me a esturro” e ele a olhar para mim e a encolher os ombros, sem remorsos como tu.
Quando o radiotelegrafista ficou para trás eu vi logo que ele tinha levado um balázio, e fiquei a olhar para ele. Nós íamos a fugir e ele parado de repente. Sabes lá o tempo que um soldado morto leva a cair? Os olhos parados, como se o tiro tivesse desligado um mecanismo qualquer lá dentro. Mas o corpo ainda de pé, e eu no meio da picada a olhar para ele. Quando uma pessoa não pode fazer nada o tempo parece que para. Eu parado, olhando para ele, e ele no meio da picada, já morto, mas ainda de pé. De pé como uma torre de uma catedral onde os sinos apenas se calaram.
Tu és mais feliz do que eu porque não sentes que as coisas se estragam com o tempo. Olho para ti e não sei como me distraí, como não nos vi envelhecer, Zulmira. Bolsas debaixo dos olhos, pregas nas pálpebras, inchaços no rosto, barbelas no pescoço, nos braços, na barriga e uma rede de rugas por todo o rosto, por todo o corpo. Tudo isso a crescer em nós como eras num muro, como as ervas no empedrado do terraço. Tão devagar como as gavinhas da parreira nos ferros da varanda. Tão devagar que a gente nem dá conta. A gente a olhar e a não ver nada, mas tudo a acontecer debaixo dos nossos olhos. O bolor da vida a crescer, o grelado da alma a cobrir o mundo; tudo a transformar-se a uma velocidade diferente da nossa. Todas as coisas que conhecemos a deixarem de ser o que eram e a transformarem-se noutras sem darmos por isso.
Tu foste envelhecendo e foste aprendendo a ser-me fiel à medida que envelheceste. Não vês como isso é criminoso Zulmira? Tu dares-me o que eu queria, quando já não é o que eu queria, quando já nem eu sou o que eu queria.
Pode ser apenas este silêncio, Zulmira, que me transforma num fantasma que já devia ter partido, mas que continua aqui condenado apenas a permanecer.
Se ao menos ressonasses Zulmira, se ao menos os vizinhos de baixo discutissem, ou os de cima fizessem ranger a cama, ou se ao menos a minha cabeça ficasse também em silêncio, e tudo desaparecesse no esquecimento…
Mas a minha cabeça parece ser a única coisa neste mundo que não está em silêncio. O mundo parou, ou anda tão devagar como as gavinhas da parreira nos ferros da varanda, e a minha cabeça vai a 100 à hora, Zulmira. E tu inocente a dormir.
O furriel a gritar "guardem o medo prá 'manhã e venham proteger o enfermeiro", e eu a sentir os pés a escaldar com medo das minas. Mas fui proteger o enfermeiro que tentava ligar o mecanismo dentro do radiotelegrafista.
Nunca ouvi uma frase com tanta ternura: "não me morras, meu filho da puta". Mas os olhos do radiotelegrafista parados.
O enfermeiro gritou de novo: "não me morras, filho da puta". E uma rosa vermelha a desfolhar-se, a desfolhar-se no peito do radiotelegrafista.
E o médico da Liga a dizer que eu sou um cobarde, porque não me sai do peito aquele vazio por ter guardado o medo para mais tarde. Guardei o medo Zulmira, e guardei-o tão bem que ele ficou dentro de mim para o resto da vida; e agora volta todas as noites.
Sabes o que é o medo Zulmira? Não o medo bom de nos descobrirem a cometer um pecado; não o medo de o dinheiro ou a comida não chegarem ao fim do mês; não o medo de chegar a noite, e tu finalmente decidires que não voltas mais – o medo do medo Zulmira. O medo que para o mundo à minha volta, preso no betão do silêncio, que pesa no peito como se alguém se tivesse sentado sobre o meu caixão.
Nunca mais chega a manhã, para o sol começar a desenhar buracos nas persianas e uns fiozitos de luz que apanham grãozinhos de pó, como se o betão do silêncio se dissolvesse no ar.
Olho para trás, Zulmira, e vejo a minha vida toda como um filme. Foi tudo tão rápido visto daqui. Eu de boné e calções, ainda a parreira só um graveto, e os dedos já a enrolarem nos ferros da varanda.
Depois, eu já grande, com as mãos encardidas pelo cimento das obras, escondidas nos bolsos; enquanto outras mãos delicadas pareciam bolear o teu corpo. Estas minhas mãos que só se tornaram limpas na guerra. Acreditas Zulmira, que a guerra me limpou as mãos? Perdi os calos e a pele ficou tão delicada de só pegar na G3.
E eu sem ti. Eu sem poder bolear o teu corpo com as minhas mãos finalmente delicadas por só terem a missão de matar.
Os teus seios tão delicados e as minhas mãos de cortiça que não sentiam nada. No mato, olhava para as minhas mãos e sabia que sentiriam as pontas dos teus seios.
As minhas mãos delicadas de um lado do mundo e as pontas dos teus seios do outro.
Depois, eu a ver o radiotelegrafista morto com o corpo ainda de pé. Os olhos parados. O tempo que um soldado morto leva a cair... Tudo em silêncio de repente. O mundo parado como uma fotografia.
Depois o corpo do radiotelegrafista a tombar numa confusão de membros. Depois a cabeça para um lado. Depois uma rosa de sangue a desfolhar-se no peito. Depois o enfermeiro: "não me morras filho da puta". Depois o furriel: "guardem o medo prá 'manhã". Depois os pés a escaldarem-me com medo das minas. Depois o rádio: "Charlie - bravo, charlie - bravo, daqui alfa - sierra. Diga se me ouve, escuto." Mas os olhos do radiotelegrafista parados.
Depois eu a regressar finalmente a casa e tu com um sorriso triste. E eu a olhar para os dedos da parreira, enormes, a mostrarem que o tempo não tinha esperado por mim.
Ninguém esperou por mim. Eu a fazer negaças à morte, e as pessoas de quem eu gostava a viverem a vida como se nada fosse. Por isso é que quando a noite chega, sinto que alguém se senta sobre o meu caixão. Feito de medo. Do medo que eu guardei para quando tivesse tempo de ter medo.
Sinto que tudo parou. É a morte, Zulmira. Entre cada pingo da torneira da cozinha há uma eternidade de morte.
Os dedos da parreira lá fora na varanda a agarrarem-se à vida, mas tão lentamente que parece que a morte está mesmo prestes a pará-los para sempre.
Se ao menos já tivesse chegado a manhã…
Versão audio para deficientes visuais: ouça aqui

