A todos os homens com coragem para lutar. A todos os homens com coragem para desertar. A todas as mulheres com coragem para perdoar a ambos.
9.4.12
Palavras ditas, não ditas, malditas
Menina judia
- Mãe?
- Sim filha.
- Deus ama todos os homens?
- Sim filha.
- Os bons e os maus?
- Sim filha.
- Se Deus nos ama a nós e aos nazis, então para que nos serve o amor de Deus?
Infinito negativo
Sonho com um livro que não tenha nenhuma palavra a mais. Um livro que eu tenha escrito e a que vá tirando todas as palavras inúteis.
Umas toneladas de mármore de Carrara, e Michelangelo de maça e cinzel na mão olhando a pedra informe e imaginando a figura de Cristo nos braços da mãe, nítida lá dentro, como a imaginou mil vezes.
Depois Michelangelo atacando o bloco de mármore e deitando fora toda a pedra que está a mais, como se se tratasse de entulho colado às figuras, até ao preciso ponto em que nada mais restou que a forma perfeita da Pietá.
Mas eu quereria continuar para além dessa forma perfeita, quereria ir tirando, desgastando a pedra até ficarem numa coisa só, o coração de ambos: mãe e filho. E desgastar o coração também, até ficar uma esfera de mármore, um átomo de matéria, uma micro partícula, a ínfima coisa primordial de onde todas as formas nasceram no início do universo, esse mundo inteiro desmaterializado no infinito negativo que haveria de explodir e dar lugar a tudo o que conhecemos.
Queria assim um livro com uma palavra apenas, uma palavra que ao ser lida levasse o leitor a criar o seu próprio livro; que todo o livro só é feito pelo leitor, o escritor apenas lhe dá as palavras para ele o poder fazer, nada mais. Como o compositor compõe a partitura no maior silêncio, para que o intérprete faça a música.
O pianista abre a partitura e após um segundo de espera, a partir do silêncio, explode o milagre da música. O leitor abre o livro e com as palavras que lê a partir do caos, composto por marcas de tinta sobre papel, cria a história
O leitor é o intérprete. Sem intérprete não há som. Há só notas numa pauta, só palavras caladas, palavras por dizer.
Sem o leitor só há caos e silêncio.
Testamento
Quando eu morrer, que todos os meus inimigos fiquem felizes porque morri. Será a prova de que são impiedosos e, sendo eu inimigo deles, isso ateste pelo menos o meu bom senso.
Que celebrem a minha morte, pois isso provará que pelo menos uma vez nas suas vidas eu contribui para a sua felicidade, e que a injustiça de me quererem mal tenha pelo menos esse facto como prova.
Que todos os meus falsos amigos sintam alívio pela minha morte, pois que ao julgarem que jamais serão desmascarados, sentindo-se felizes por isso, estarão a trair-se, dado que será pelo menos estranho, para as pessoas atentas, que estejam felizes ao saberem da morte de alguém de quem se dizem amigos.
Às pessoas que gostaram de mim e aos meus verdadeiros amigos, que a minha morte lhes seja contada, para que a encarem como uma simples inevitabilidade; que interrompam as suas vidas com uma contrariedade parecida com o incómodo de terem sido apanhados por uma chuvada em mangas de camisa num dia de sol, não mais do que isso, e que continuem as suas vidas, de modo a poderem lembrar-me, não como algo penoso e distante, mas como se tivessem continuado a conviver comigo e portanto não houvesse lugar a saudades.
Que as mulheres que eu desejei e não tive me odeiem nesse dia, ou por eu não ter tido a inteligência de entender que também me desejaram ou por, embora não me tendo desejado nunca, se sentirem ofendidas no seu amor-próprio pelo meu fraco interesse ou demasiada covardia perante a sua recusa.
Para os outros, os que nunca me conheceram, que eu, simplesmente nunca tenha existido.
Palavras correntes
Ao contrário das pessoas, as palavras rejuvenescem com o tempo. Eu adoro as palavras antigas cheias de consoantes duplas, inúteis, a complicarem as sílabas e a estorvarem a pronúncia. Às vezes encontro¬-as ainda a meio de um livro, em citações a mostrarem a erudição do escritor, e paro para as observar. São blocos de mármore meio esculpidos, que a erosão do tempo e o uso haveriam entretanto de modelar, até terem obtido a jovem forma aerodinâmica de hoje.
As palavras que temos são as palavras que o povo inventa, reinventa, torneia e simplifica, a mostrar aos eruditos que quem faz a língua não sabe nada de linguística. Quem sabe de linguística sabe tudo sobre como a língua chegou até aqui, mas é o povo que sabe melhor como fazer com que ela evolua a partir daqui. Que a língua é como a água corrente que encontra sempre o caminho mais fácil para o mar, e os rios levam-na ao seu destino sem terem estudado engenharia hidráulica.
Quando eu era jovem e as palavras que ouvia eram antigas, as pessoas falavam devagar. Sempre houve pessoas que falavam depressa, mas dessas não lembro o que disseram. Lembro¬-me, isso sim, das pessoas para quem uma palavra era uma coisa tão preciosa que os silêncios tinham que ser grandes como molduras imponentes em torno delas. Hoje que os anos me envelheceram e as palavras se tornaram novas, perdendo as arestas inúteis, deixo-me levar humildemente por elas.
Quase todas as palavras, embora rejuvenescidas, são anteriores a nós e sabem bem o caminho, por isso deixemos simplesmente que elas aconteçam.
Como acontece a água, que é a linguagem dos rios.
Cândida obscenidade
Na minha aldeia era comum os amigos cumprimentarem-se dizendo "Ó meu grande filho da puta, estás bom?", e mais do que uma vez ouvi uma mãe dizer para a filha bebé com os olhos brilhando de ternura: "Minha pecorazinha linda", diminutivo este de uma palavra que em Aguim, no contexto habitual, era o pior insulto para uma mulher.
Não é possível saber o verdadeiro valor de uma palavra sem envolvermos os sentimentos na sua avaliação.
Virose política
Assim que a crise sucede à democracia, começam a ganhar coragem aqueles que viveram em estado latente aguardando um momento de debilidade para tentarem soluções totalitárias.
São como vírus, esses seres minúsculos que não são viáveis a não ser no corpo do hospedeiro que não pode eliminá-los.
Os parasitas que nos levaram à crise dariam assim lugar aos parasitas que não nos deixariam sair dela.
Acusar a democracia pela corrupção, gestão danosa e incompetência que conduziu à crise, é tão estúpido como acusar a saúde pelas bactérias, bacilos e vírus que causam a enfermidade.
É urgente aprendermos noções de profilaxia do fascismo.
Criminosa apatia
O que me assusta mais, não é os nazis terem matado milhões de judeus. Nem o eles não terem remorsos. Nem o eles terem feito da chacina um modo de vida tão banal como o de servirem schnaps ao balcão de um bar no porto de Hamburgo.
O que me assusta verdadeiramente é o tempo que decorreu entre o conhecimento do extermínio por parte dos libertadores e a decisão de lhe porem fim, porque esse tempo excessivo fez com que tenha havido muito menos sobreviventes, mas sobretudo, faz com que o crime continue a parecer viável.
A quem devem agradecer os sobreviventes, a Deus ou a Pearl Harbor?
Comboios de Auschwitz
- Como se chama o lugar para onde vamos, neste comboio apinhado de gente?
- Auschwitz, minha filha.
- E de onde vêm aqueles comboios todos que passaram por nós?
- Vêm do lugar para onde vamos.
- Mãe?
- Sim filha.
- Porque vêm vazios os comboios de Auschwitz?
14.6.11
Estupidário II
Telemóvel
Um casal passa por mim. Ambos falando ao telemóvel. Falam, ela apreensiva e comedida, ele autoritário e exuberante. Fazem sinais para comunicarem entre si. Ele aponta o relógio de pulso a dizer que já é tarde, ela bate levemente no telemóvel e abre a mão em sinal de impotência. Ele estica o queixo em direção ao telemóvel dela a perguntar quem é, e ela abre a mão na direção dele a pedir que espere. E falam sempre para os seus contactos; ele autoritário, ela comedida. Passam por mim e dirigem-se para o parque de estacionamento. Antes de entrarem, cada um em seu carro, ele ainda aponta o indicador para ela e depois estica o polegar e o mínimo como se medisse a distância entre o ouvido e a boca, a pedir-lhe que lhe telefone mais tarde, e ela levanta o polegar a concordar.
Seguem cada um para seu lado, com a certeza que estarão sempre em contacto, porque é facílimo falar com as pessoas ausentes.
Quando terão tempo para sentir o tempo compartilhado como a água quieta de uma lagoa, e as palavras trocadas com todas as frequências da voz humana?
Alguém lhes diga que a voz humana não cabe na largura de banda de um telemóvel. Que a frequência que não se ouve e cria a ereção de todos os pelos do corpo precisa da intimidade sem intermediação; que o que a boca não diz e os olhos mostram se percebe apenas por uma diferença de estado de alma; que há coisas que se têm de dizer com o corpo todo e que precisam do corpo todo para ser entendidas.
Que alguém lhes diga que há um tempo para isso, e que depois esse tempo passa e fica um vazio que levamos para todo o lado; uma viuvez sem o conforto da saudade.
Chaves
Sabia exatamente onde guardavas as chaves: saías, fechavas a porta, mexias no tapete com uma mão só para enganar, e com a outra deixavas cair a chave num vaso. Será que suspeitavas que eu te espiava? Fazias isso tão distraída que a mão que se via melhor era a que levava a chave. Será que era uma precaução extra despida de qualquer critério?
Apetecia-me ir lá, pegar a chave, devassar a tua intimidade, deixar pegadas por todo o lado e depois deixar a chave debaixo do tapete. Irritam-me as diligências inúteis.
Hoje vi-te passar, ainda és bonita. Entras no carro, observas o bilhete do estacionamento, conferes no relógio que ultrapassaste o tempo pago, vais repor a diferença no parquímetro e depois vais embora deixando o estacionamento pago para ninguém.
Fico a ver-te ir embora, com a certeza de que te espiava no passado apenas com a curiosidade com que se olha um macaco numa jaula.
Chato
Tomo a minha bica tentando fingir que presto atenção ao que o meu interlocutor diz. Fala comigo de política, invariavelmente com um tom pedagógico, como se algures no seu passado lhe tivessem atribuído a incumbência de me converter a um credo estranho, usando uma língua que nenhum de nós fala. O mínimo que posso dizer dele é que é um chato.
Quando tem oportunidade de projetar a voz para um número de vítimas que se assemelhe a uma assembleia, é que ele dá largas ao seu gosto doentio pelo discurso inflamado – no registo da cólera; na aceção que se usa para designar de "bebés coléricos" os recém-nascidos insaciáveis de mimo e que levam por vezes os pais ao suicídio.
O seu conceito de progresso que, como uma interminável epifania, tomou conta de toda a sua atividade intelectual pela vida fora, é uma confusão mental que nunca o deixou viver tranquilo. E a aridez dos seus ideais alimentou-se dessa truculência verbal, sem que ele nunca tenha sentido a necessidade de maiores explicações do que a redução do raciocínio à negação primária.
Como se a capacidade de dizer não a torto e a direito, acusando ao mesmo tempo os nossos pares de todas as infâmias, exigisse alguma coragem, ainda que mínima, sobretudo quando sabemos de antemão que podemos contar com a compaixão daqueles que afrontamos.
É óbvio que confunde coragem com desfaçatez; a coragem leva um homem a correr riscos e a aceitar a consequência dos seus atos, a desfaçatez é a pulhice que pode levar um homem a matar pai e mãe, e depois a comparecer em frente do juiz reclamando despudoradamente clemência por ser um pobre orfãozinho abandonado.
É sempre possível dizer tudo de todas as coisas; é sempre possível pôr em palavras o que não realizámos em atos; é sempre possível sentirmo-nos felizes com o que podia ter acontecido se tivéssemos tido a coragem de termos sido, de facto, o que apenas fomos em discurso. E é possível contar com a distração dos outros, de modo a convencê-los por via do sentimentalismo.
Se se der o improvável acaso de leres estas palavras, deixa-me usar a tua argumentação preferida:
– Não!
Não, não basta de vez em quando subires ao púlpito da tua presunção lançando pulhas sobre os que trabalham para ti, na vil ilusão de poderes desculpar a tua indigência, como fazes com a poeira filosófica do teu discurso político, esse patchwork de citações mal assimiladas, para encobrir o vazio que te vai cabeça.
Orgasmo
Ela quer ser feliz, ele quer sexo. Dos dois, só ele vai sentir-se realizado, porque o sexo é uma coisa que toda a gente sabe o que é, a felicidade não.
Ele adormece depois do orgasmo porque se sente farto, ela fica acordada porque apenas teve prazer e não sabe se era isto que queria.
A felicidade é sempre algo que desconhecemos, algo que fica sempre um passo além do horizonte alcançável. Felizmente que nunca a encontramos, para que valha a pena ficarmos acordados a perguntar se era isto que queríamos. Nunca passará de uma lúcida dúvida pós orgástica enquanto ao nosso lado alguém mais estúpido adormece satisfeito.
Bestialidade
E no Palácio soaram de novo as nossas vozes. O nosso castelo – disse o Maia. Para ali, cobardemente, nos apontou as armas o Jaime, ou lá quem era ele; mais uma corja de escravos domesticados, fazendo instantaneamente de nós heróis.
É esse o destino destes robertos caceteiros na sua pantomima patética de feira – matraquilhos fardados, teimosos bonecos de corda com alma de trapos, rancorosos derrotados dos verdadeiros combates, desertores de todas as nobres causas da vida, fraca imitação de gente, arreganhando a dentuça de rafeiros, a mostrarem a sanha por nos julgarem indefesos – é esse o seu destino: fazerem-nos sentir a que enorme altura a sublime humanidade nos eleva, muito, muito acima da sua torpe bestialidade.
Explosão
O cabo Bento era um vulto verde-sujo lá à frente. Um joelho no chão e dobrado sobre si, como um crente em oração. Olhou a mina anticarro por um instante antes de se mexer. O coração dele acelerou e as mãos abrandaram. Cada segundo continha um dia de vida, cada pequeno gesto consumia a atividade mental de uma obra ciclópica.
Não esperávamos ouvir aquela explosão, que aconteceu?
Nunca entendemos o que aconteceu quando morre um dos nossos.
Ficámos a olhar o lugar onde o cabo Bento devia estar, até a poeira assentar e ficar visível na picada, o buraco negro da sua ausência, marcando o nível zero da compaixão divina.
Fealdade
Na homenagem a Otelo ouve-se de repente alguém dizer de si próprio e da sua participação na Guerra Colonial: "Eu era da secreta", e depois com a voz embargada pela autocomiseração perguntar ao herói de abril qualquer coisa sobre o financiamento dos terroristas. Não param de me surpreender estes zombies erguidos do túmulo fascista para emporcalhar com o seu insuportável fedor os atos democráticos de gente asseada.
Está bem, deixemo-los usar a liberdade que nos negaram, porque lhes somos superiores, mas não podíamos ao menos oferecer-lhes um espelho para que morressem de nojo com a sua letal fealdade?
Troika
O que foi que nos escapou? Não estava previsto tudo isto? Não ouvimos nunca dizer que isto ia acontecer?
Mas os previsores económicos e os analistas políticos, cuja profissão é fabricarem as nossas opiniões, não continuam no seu poleiro mediático como se a crise não tivesse vindo provar que não nos servem para nada?
Enquanto nos preparam para pagar as dívidas que foram avalizadas pela sua incompetência, lá continuam eles cheios de cisma com o seu ar didático a explicarem-nos agora o que uma minoria de entre nós já assegurava antes, seguros de que lhes daremos novamente atenção e crédito, porque contam com a nossa comprovada estupidez.
Se tivéssemos alguma inteligência, deveríamos mandá-los todos para o desemprego.
E os nossos responsáveis políticos? E os nossos agentes económicos? Que deveríamos fazer com eles?
Garanto-vos que não iremos fazer nada, porque o mal dos nossos políticos e capitalistas não é serem políticos e capitalistas nem mentirosos e ladrões, é serem ainda mais incompetentes e estúpidos do que nós.
Felizmente que há sempre uma troika que vem ensiná-los a mentirem-nos e a roubarem-nos com competência e inteligência, poupando-nos à humilhação de aceitarmos o castigo por cobardia.
Uff! Que alívio! Já podemos fingir que está tudo bem sem nos sentirmos ofendidos no nosso amor-próprio.4.3.11
A caminho do Norte
Porém, eu sinto a tristeza na tarde, sinto-a como se costuma sentir no quarto de um doente terminal – uma tristeza que se adivinha por ali pairando, um relento de moribundo que as visitas percebem como se fizesse parte da composição do ar.
As pessoas passam umas pelas outras sem se verem. Estranhas. Ausentes. Apetece dar um grito ou partir qualquer coisa para as acordar da apatia.
Um sem-abrigo cabisbaixo, sentado no passeio, com a mão semiaberta pousada no chão. Uma mão cansada da indiferença dos transeuntes, onde se vê uma moeda de 50 cêntimos a pedir companhia, embora a mão semiaberta pareça recear que lha roubem.
Um dia em África senti essa tristeza do ar, essa dor impessoal, esse abandono das coisas a divorciarem-se das pessoas, como se as pessoas lhes metessem medo. Foi daí que me veio isso à ideia agora; porque havia um fio elétrico com pássaros pousados como farrapos, e um prenúncio de tempestade nos pingos grossos da chuva. Grossos e esparsos.
E ao meu lado uma prostituta oferecia-me suruma. Ao longe um pequeno grupo de pessoas rodeavam uma fogueira embora fizesse um calor de sufocar.
A prostituta ora me oferecia suruma, ora me perguntava se eu estava com medo de ir para o Norte. Não – respondo à prostituta 38 anos depois – não tenho medo. Talvez amanhã tenha medo no meio dos tiros, mas agora não. Agora sinto que estou no meio de um romance, e que o autor acabou um capítulo inesperadamente; deixou a história em suspenso e prepara-se para falar de outra coisa só para aumentar a expectativa.
Mas o que é verdadeiramente estranho, é que, 38 anos depois, o que me resta disso tudo seja apenas uma raiva incontida, não bem uma raiva, mais uma vontade de lutar, uma vontade de partir qualquer coisa para fazer as pessoas acordarem da apatia. Roubar os 50 cêntimos ao sem-abrigo para o obrigar a acordar também. Procurar um fio elétrico onde haja pássaros pousados e espantá-los à pedrada.
Na Fernão de Magalhães o trânsito flui como uma coisa automática. Os peões atravessam as passadeiras quase a correr, parecendo temer ser assassinados pelos automobilistas. Ao meu lado na mesa da esplanada uma mulher tem o braço esquerdo esticado e olha as costas da mão enquanto faz rodar no anelar uma aliança de ouro. Uma chávena de café esquecida ao lado. No braço direito várias marcas roxas denunciam violência doméstica. Roda a aliança. A bica arrefece. O trânsito automático. Eu a contas com a tristeza de uma tarde na minha memória. O eco de uma prostituta perguntando se tenho medo. Sim – respondo à prostituta de novo – um medo a haver. Quando chegar ao Norte; agora não. Agora sinto que algo ainda distante me atrai, algo perigoso e fatal; mas imperioso, como só imperioso assim é um dever a cumprir.
Quando passei pelas pessoas em torno da fogueira pareciam fantasmas, olhei ainda para trás e vi a silhueta da prostituta na luz amarelada da rua; a prostituta fumando suruma. Eu a caminho do Norte. Um prenúncio de tempestade. Uma tristeza como um componente do ar, para além do oxigénio e dos restantes 16 gazes principais. Com o tempo, estas coisas parecem mentira.
Pensei: será que um dia vou sentar-me ao sol no meio de gente que goste de mim e me vou lembrar desta tarde como um pesadelo do passado? Mas não. Nunca me lembro dessa tarde em África quando está sol e eu estou entre amigos. Agora sim. Agora que as pessoas passam com pressa, como se fugissem de uma tempestade que ameaça cair sobre a cidade, ou dos automobilistas que as parecem querer assassinar. E dá-me a ideia que algo imperioso me chama, e que estou de novo a ir para o Norte, e que o romance só parou um pouco para mudar de capítulo.
Mas aqui, na Fernão de Magalhães, não há romance nenhum, nem há um miserável fio elétrico onde poisem pássaros a criarem na nossa imaginação a impressão de que é o ar da tarde que tem tristeza na sua composição química, nem pessoas à volta de uma fogueira apesar do calor sufocante, nem uma prostituta de subúrbio a tentar adivinhar o medo da guerra escondido no coração dos soldados.
Na esplanada da Fernão de Magalhães a mulher puxa a aliança um pouco e esfrega o local onde ela deixou uma marca no dedo, como os escravos faziam com as marcas das grilhetas. Puxa a aliança mas a aliança não sai. Contenta-se em esfregar a marca no dedo. A bica já fria.
Aqui há apenas gente que não se conhece. Pedintes com medo que lhes roubem a moeda que usam como isco para atrair uma caridade que não existe. Parecem todos órfãos de uma esperança fora de validade que ainda não acordaram para a realidade de uma vida sem opções.
Uma apatia que gera em mim esta vontade visceral de lutar, de pegar novamente numa arma, puxar a culatra atrás, depois soltá-la e senti-la introduzir a primeira bala na câmara, e ir defender o Império. Ter ao menos a ilusão de um dever a cumprir. Olhar em volta e ter a sensação que quem escreveu este romance estúpido acabou abruptamente o capítulo da esperança só para criar uma falsa expectativa.
Depois, abrir um capítulo novo, ganhar coragem, e partir finalmente para o Norte.
(Segundo o acordo ortográfico)
9.11.10
Por extenso
Pretérito perfeito
Teimo em dizer isto: fazem-me impressão as pessoas emparedadas na obrigação de levarem a vida como uma festa permanente. Coitadas, não sabem o que é o peso de um drama e a luta para levarmos a melhor à vida.
Não sabem o que é olharmos uma porta que abrimos, e por onde temos imperiosamente de sair, e sentirmos que o que era reversível até aqui, a partir de agora já não tem retorno.
Sofrem da ilusão de que o tempo tem um presente no gerúndio, como um espaço contínuo de fruição, onde, afinal, tudo não passa de uma acumulação de pretéritos perfeitos.
O dia amanhecendo de esperança, e a cada manhã que passa o acréscimo de uma saudade. As manhãs renovam-se, mas jamais, jamais regressam.
Coisas de soldado
Volto a convidar-te minha amiga: vem sentar-te junto à minha lareira e beber do meu vinho. Vem embebedar-te de poesia.
Eu convoco aquele velho disco de vinil onde a estática já não me irrita. Sinto esses estalidos agora, como carícias nas rugas do tempo, uma ternura tua sobre a minha pele cansada de velho soldado.
A garrafa aguardará um pouco na garrafeira, para que nenhuma variação de temperatura acorde o vinho antes do tempo.
Quando a música nos soltar os pensamentos e a imaginação nos fizer sentir os taninos um tanto secos mas bem distintos e integrados na voz mineral, ligeiramente gorda, ligeiramente ácida, do Tom Waits, e uma nostalgia outonal crescer em nós como a revisitação de uma memória esquecida desde a juventude; então sim, eu convocarei o Frei João tinto para soltar a complexidade dos afetos, com fluidez e caráter, e amar-nos-emos com sabores de frutos silvestres de onde desponta um quase impercetível aroma herbal. E o suave balsâmico do nosso beijo será o sonho de qualquer escanção.
Talvez choremos um pouco também, porque, tu já sabes, não me basta o riso fácil; mas verás minha amiga, que os nossos corpos se reconhecerão, e faremos amor em frente ao fogo projetando as nossas sombras na parede da sala como se nos observássemos de uma outra vida.
Menina feia
Recordo-te, não por seres bela, mas porque quando me olhas te vejo mais do que o rosto. Guardo a tua imagem na memória como uma pedra que a natureza esculpiu com vento e com água, com frio e com calor, e depois no-la ofereceu, mas não a todos; só aos que gostam de mulheres. Se fosses bonita olhar-te-ia como olho todas as mulheres bonitas, que um critério estreito elege mais como modelos de beleza do que como mulheres.
Não ligues se alguns homens com boa pinta passam por ti sem te ver, esses gajos são mariconsos disfarçados, precisam de muito estímulo para terem uma ereção.
Fazer sexo é como degustar uma boa refeição, e comer com os olhos é falta de respeito ao cozinheiro.
Senta-te ao meu lado. Falemos do pôr do sol. Falemos de música. Falemos apenas das coisas de que não percebemos nada; vais ver que os nossos corpos se entenderão melhor.
Crepúsculo
Quando a luz esmorece e as casas ganham olheiras de sombra, sabes? à hora em que os sons parecem conversas desinteressadas, sem nos quererem verdadeiramente prender a atenção, estás a ver? e em que as coisas distantes parecem mais próximas e as próximas parecem mais íntimas; a esta hora os pensamentos têm uma profundidade diferente e as palavras surgem-me com uma imposição inelutável. A esta hora apetece-me escrever-te; não falar contigo, mas escrever-te; ainda que vivesses na porta ao lado, ainda que eu tivesse que sair da sala, onde estivéssemos ambos, para poder fazê-lo. E depois, ficar em silêncio à espera, na ansiedade e na incerteza, só para receber a suprema graça de uma resposta tua, e finalmente ficar com a certeza de que se me respondeste é porque valho alguma coisa para ti.
Mas antes, era preciso esquecer tudo, viajar para trás, saltar de costas do fundo do poço do tempo até atingir o cimo, e encarar as coisas entretanto já vividas com a ignorância que permite o prazer da descoberta; passar de novo à tua porta, como se fosse por acaso, e depois cometer todos os erros de novo; ter os mesmos prazeres e o mesmo sofrimento, percebes?
Em breve o dia morrerá, e as olheiras das casas transformar-se-ão numa velatura, e depois no manto escuro da noite que cobrirá tudo. A essa hora já as palavras e os pensamentos serão de puro deleite, e tudo estará bem no seu lugar, entendes?
Os crimes do António
Não entendo a autoflagelação nacional. Fazendo um esforço para descer o meu nível de entendimento à escala da imbecilidade, vejo de vez em quando uns inconsoláveis patriotas cheios de piedosas intenções, ungindo a desgraça nacional com uma autoridade moral de que me escapa a origem. Não passam de criaturas carentes de atenção e de afeto a babarem-se de ciúme. Viram para os seus pares as suas pulhas, e são frequentemente aduladores das grandezas forasteiras; como se ao dizerem mal da sua própria família fizessem crer que degeneraram em qualidade. O nosso grande defeito é dar-lhes atenção.
Alguns chegam ao extremo, como se viu recentemente fazer um grande escritor numa pequena entrevista, de confessarem crimes de guerra que nunca cometeram, por mera falta de oportunidade, já que não por retidão, pois que não estão a penitenciar-se, estão a tentar resgatar um passado em que passaram ao lado da tragédia sem mérito nem glória, e de onde vieram sem ao menos terem uma história sua para contar.
O espaço da ficção é onde podem recriar o enredo das suas vidas, corrigindo a mediocridade das suas experiências, quando as tiveram. Já as declarações públicas, tentando o número da carpideira lamurienta alardeando os podres nacionais, e ainda por cima incluindo-se neles sem pudor nem arrependimento, são um ato patético de volúpia do ignóbil.
Coitados, fazem tudo isto por vergonha de assumirem a própria insignificância; preferem negar a inocência sem mérito, à custa da duvidosa confissão de um crime coletivo.
Tudo bem
Vejo com uma tristeza enorme todos os campeões da nossa democracia rirem-se como se estivéssemos em festa. Insulta-me o seu otimismo apesar de estarmos em queda desamparada no precipício da crise que eles teimam em desvalorizar. Custa-me admitir que acreditei em alguns deles.
Mas olho à minha volta e vejo tudo normal. Acho que as pessoas evitam olhar para baixo para não sentirem vertigens.
De facto, até agora está tudo bem, estamos só a cair. Será que só vamos acordar ao batermos no chão?

