15.7.12

Fotografias faladas - 2






O mistério da foto da capelinha de S. José 


O sótão da casa da adega é um amontoado de lixo. E este amontoado de lixo é a arqueologia da minha vida. Objetos mortos; amortalhados de pó. Cadáveres de objetos. Objetos quietos no tempo à espera que os esqueçam de vez, para que possam finalmente dissolver-se na terra mãe de onde vieram.
Avanço furtivamente, com o sentimento de quem profana um túmulo. Afasto as teias de aranha que parecem panos impregnados com a alma do tempo, e que boleiam a forma dos objetos, como um lençol cobrindo um cadáver.
Sopro o pó de uma enchó do meu avô, e ela parece que acorda, ganhando humanidade. Um foicinho da minha avó. Uma podôa do meu pai. Um bastidor da minha mãe. Sem a mortalha de pó, ressuscitam e parece que procuram as mãos dos donos, as mãos que calejaram, as mãos que os moldaram a eles. Não são objetos em série, são objetos feitos pelo uso, que ganharam o jeito do dono; noutras mãos seriam maljeitosos. Eram prolongamentos dos braços, como próteses ortopédicas; partes sobrevivas dos meus antepassados.
Caiu-me à frente uma caixa de papel levantando uma nuvem de pó.
Quando a nuvem de pó se dissipou, um grupo de pessoas olhou-me de frente. Imóveis. À medida que os meus olhos procuram os pormenores da fotografia, parece que se movimentam um pouco.
A sua imobilidade dá-lhes um ar sarcástico, parecendo desafiar-me, e dou por mim a pretender apanhá-los na fraqueza de um movimento. Desvio o olhar para uma mancha do papel e volto a prestar-lhes atenção. Esta disputa demora uns segundos; o suficiente para se tornar uma patetice. Mas não consigo dominar-me. Os meus olhos traem¬ me e voltam sempre àquele jogo, como que atraídos por aquelas figuras que parecem zombar de mim, olhando-me como um friso de espectadores estáticos mas atentos, em frente do palco; suspensos da ação que decorre aqui, onde eu, o ator, devesse dizer a próxima fala, efetuar o próximo movimento.
Há um pormenor da fotografia que acaba por me prender a atenção. A posição carinhosa e protetora do meu avô, segurando-me pelos ombros. O meu avô tinha uma má relação com os seus sentimentos. Não era homem de grandes manifestações de afeto, o que lhe valeu a alcunha de Vinagre. Lembro-me que me embalava cantando canções obscenas; e essas canções são a única manifestação de afeto de que me recordo. Vê-lo assim naquela atitude carinhosa e protetora faz¬ me subir um novelo de saudade, lentamente até à garganta, vindo não sei de que memórias.
O céu ao fundo, entre as árvores, está reduzido a uma ausência de cor, devido ao monocromatismo esquálido da fotografia.
Envolvendo a capela, algumas oliveiras evitam que a fotografia pareça despida. Os ramos pararam para sempre, alheios à aragem da tarde de verão. 
Sim, é de tarde porque as sombras projetam-se para nascente, e é verão porque o meu avô está de camisa de manga arregaçada. Os ramos das oliveiras pararam para toda a eternidade quando o clique da máquina se fez ouvir.
Não é um clique. É o som da cortina, do obturador e do diafragma da máquina em acorde, antes de ser substituído pelo estalido insípido das máquinas digitais. Aquele ruído que fazia com que as pessoas se descontraíssem da pose forçada que mantiveram durante os últimos preparativos do fotógrafo. Mas não se descontraem logo, respiram fundo primeiro, olham umas para as outras e depois é que mudam de posição, como se não fosse permitido ficarem como estavam depois da foto tirada. De seguida as conversas interrompidas continuam pouco a pouco a reformularem-se.
O fotógrafo é amador; um fotógrafo profissional fotografaria o grupo mais de perto, para se conhecerem melhor as pessoas, ou mais de longe para não cortar o pináculo da capela que tem uma estranha forma de flecha com uma cruz em cima.
O fotógrafo é seguramente o meu tio brasileiro, porque só ele reuniria parentes afastados para uma fotografia; para levar como recordação quando voltasse para o Brasil.
O fotógrafo afastou-se um pouco para a direita, muito pouco, só o suficiente para não cair num buraco que está no chão. Atrás do buraco está uma enorme pedra com cerca de meio metro de altura, de forma vagamente paralelepipédica.
Isto não aparece na fotografia; nem nesta, nem em nenhuma outra que eu tenha visto, decerto, devido ao baixo valor estético que os fotógrafos veem naquele conjunto. E por acharem uma falta de bom senso manter-se assim uma pedra daquele tamanho com um buraco à frente, durante todo o verão; desde o dia de S. José, em março, até ao dia da Nossa Senhora das Febres, em setembro, mesmo em frente da capelinha.
Através dos séculos um culto celta veio desaguar assim na minha infância. Um aras onde um druida pontificava a adoração à deusa Eostre, ou um menir, fálico e imponente, celebrando a fecundação da terra, ou uma antes alinhada com o ponto exato em que o equinócio da primavera daria nascimento ao Novo Ano Solar, mal a linha do horizonte partisse a meio o disco do sol.
Um ritual desgastado pela viagem penosa através dos tempos, resistindo a todos os invasores, a todos os novos cultos, à ciência, à técnica…a tudo, até restar esta reminiscência resgatada da vizinha povoação abandonada de Vila Franca, acompanhando a imagem de S. José, resgatada também, quando morreu o último habitante que teimava em acender todos os dias o lume na lareira da sua casa, na povoação assombrada já pelos insuportáveis silêncios dos ausentes.
E, um dia, cumprindo a mais brutal lei da Natureza, essa reminiscência que a tanto resistiu, acabou finalmente por sucumbir.
Sucumbiu à arrogância dos ignorantes e à prepotência dos espíritos pragmáticos, de quem alia as tradições populares à falta de desenvolvimento.
Enquanto estava assim desenterrada, já só servia para marcar a época, de equinócio a equinócio, em que os mais humildes de entre os humildes podiam descansar os seus corpos da fadiga; dos rigores da labuta nos campos e da crueldade do estio, nalguma sombra que a Natureza, mais próxima deles, lhes oferecesse com compaixão, impondo-se à distante e estúpida inclemência dos homens, a mesma inclemência estúpida que lhe deu fim, reduzindo finalmente esse falo monolítico à total impotência, estilhaçado em brita, e enterrado definitiva e ingloriamente, debaixo de uma camada de alcatrão.
O poder local ganhou mais umas eleições e a terra ficou viúva.


(continua)

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9.6.12

Fotografias faladas - 1



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Retrato à minha avó
Virou-se para a esquerda e apanhei-a de lado. De olhos semicerrados para tentar dissipar o enevoado das coisas em seu redor. "Enxergo só uma névoa, meu filho."
E o seu tépido sorriso tentando iluminar-lhe o rosto.
Ainda sinto o tom com que dizia "meu filho", sem o sentimento de autoridade e de posse que os pais costumam usar, mas como se fosse uma dádiva de que já não estivesse à espera.
E aquele seu equilíbrio entre uma leve tristeza e uma pálida alegria que captei por sorte. Era a sua marca. Era a sua maneira de estar em paz no meio da turbulência. Era a sua forma de ser superior.
O vento soprou um segundo antes de eu disparar a máquina e desfez o penteado apressado que ela compusera com os dedos para a fotografia. "Deixa-me compor estas lãinças, meu filho."
Ao fundo as manchas desfocadas do que julgo ser um limoeiro que ainda existe e de um pilar que servia de base a uma manilha de esgoto que o meu avô transformara em vaso de flores.
Ao fundo, na foto, o mundo como ela o via: "Uma névoa, meu filho."




Close up de uma videira
O ramo de videira parece de cobre ou de ouro, pintado pelo outono e retocado pelo pôr-do-sol. Ocupa um terço da foto, os outros dois terços são ocupados principalmente pela vinha do Vale d'Aveia. Tudo na mesma cor. Tudo em cobre. Tudo em ouro.
Dava prejuízo. E o meu pai continuava a podá-la, a empá-la, a vindimá-la; e depois de novo, tudo outra vez, e outra e outra vez. E sempre a dar prejuízo.
Um dia pagaram-lhe para ele arrancar tudo aquilo e ele chorou. Chorou como um pintor choraria por receber dinheiro para retirar os seus quadros de uma galeria.
Acho que se sentiu prostituído.
"Que futuro tem um país que dá dinheiro pra nós arrancarmos as vinhas?"
Tem este futuro, pai. Já cá chegámos. Um futuro prostituído.
Ao fundo a elevação erógena de um seio, na silhueta difusa da Serra do Buçaco.




Verão de S. Martinho
A foto irradia uma luz morna. À direita as corolas violáceas da buganvília do Sr. Afonso Bandarra. À esquerda a estrada do arvoredo.
Conheci aquelas pessoas. O homem para o burro: "Anda boneco!" A mulher atrás quase a correr e o sogro de enxada às costas, como uma arma pousada no ombro.
O sol baixo de fim de tarde desenha sombras preguiçosas no asfalto. O burro puxa sem esforço a carroça. Adivinha-se o cheiro bom do estrume. Adivinha-se o murmúrio dos castanheiros-da-índia de folhas douradas pelo verão de S. Martinho.
A roupa no coradoiro da erva baixa do declive da Capelinha do S. José a apanhar sol, onde pela Primavera nascem flores.
Lembro-me de ter descido do telhado depois de ter tirado a foto para também fazer parte deste cenário, como quem quer participar de uma festa.




A casa velha
O tom de sépia-claro dá ao mundo, visto assim, um ambiente onírico. Mas um ambiente onírico de um sonho sonhado há muito. Uma visita do passado que nos interrompe o presente inesperadamente. O mais próximo do espiritismo a que a minha imaginação materialista pode chegar.
Melhorei a foto no Photoshop e consigo identificar a bicicleta do meu pai. As canas a segurarem as sardinheiras. Ao longe, uma mulher e as suas duas filhas ficaram assim congeladas no tempo, e jamais chegarão ao destino.
À porta da loja uma peça de pano esvoaça desafiando a imaginação alada da minha mente.
A janela aberta no rés-do-chão para dar ar e luz à minha mãe a costurar ali mesmo por detrás da parede, enquanto na pequena varanda do primeiro andar, a minha avó e a minha visavó olham para o fotógrafo.
A foto não tem céu. Tem uma luz acetinada que não faz sombra, como costuma ser a luz coada pelas clarabóias nas grandes mansardas.
Uma aberta entre duas chuvadas. Uma aberta grande, porque deu tempo para o meu avô limpar a valeta e o pequeno aqueduto debaixo do patamar à entrada para o terraço. Uma aberta muito grande, porque ele não teve pressa de ir despejar o terriço, e o balde virou-se.
"Aquele home nunca acaba as coisas…" disse por essa altura a minha avó. Disse-o toda a vida, a mostrar a sua incompreensão para com a falta de disciplina do meu avô.
Parece que herdei essa falta de disciplina, por isso compreendia o meu avô. Desimpedidos a valeta e o aqueduto, o que era urgente ficou feito; a arrumação é uma tarefa menor, outras coisas urgentes nos chamam. O mundo está cheio dessas coisas urgentes que não nos deixam acabar os projetos, a partir do momento em que deixam de ser urgentes, ou incógnitos, ou originais. Para quê continuar a fazer uma coisa se já sabemos o seu desfecho? Seja um quadro, um poema... ou a limpeza de uma valeta.
Sempre adorei as coisas inacabadas. As capelas incompletas, os romances inconclusos, o movimento interrompido nas fotografias. Onde ia aquela mãe com as filhas que esta foto imobilizou? Não o saber é que é interessante.
Enquanto isso, a minha avó e a minha bisavó olham o fotógrafo sem mistério nenhum.




Fim da emboscada
Na Picada de Omar a cotação da vida era alta. Nem toda a gente tinha direito a ela.
Agora a emboscada terminou, o perigo afastou-se. O tempo suficiente para fingirmos que o medo se afastou também.
Os soldados alojados nas crateras das duas minas anticarro olham para mim enquanto tiro a foto de cima do rebenta-minas.
O furriel Ribeiro olha pela picada fora apreensivo. Abraça a G3 e olha o caminho ainda por desbravar, calculando talvez a cotação da sua vida até chegar ao objetivo.
O soldado Lourenço está triste. Olha o chão segurando o detetor de minas como um objeto inútil. Como se soubesse que nada poderá fazer para evitar a morte. Nada.
Mas agora não há perigo, Lourenço. Só vais morrer amanhã.




Manif
No cimo da Avenida da Liberdade os manifestantes formam um friso humano multicolor de fundo. Agrupam-se, organizam-se, perfilam-se, para descerem os três quilómetros até ao Terreiro do Paço.
Um homem de meia-idade caminha em sentido contrário de costas para o bulício, em direção à placa central da Rotunda do Marquês. Esse percurso díspar acrescenta uma nota dissonante mas sem lhe alterar o efeito de conjunto, na medida em que os opostos em movimento divergente pressupõem um prévio ponto comum.
Mas eis que uma mulher de luto retinto, de lenço na cabeça e mãos nos bolsos, numa trajetória oblíqua no quadro, é apanhada por mim a meio da imagem como um contraponto.
A antítese. A dissidência. O luto como negação da luta. A desgraçada rendição incondicional perante o inelutável. Enquanto em pano de fundo a luta apenas começa numa alegria contrastante de confiança e esperança.
Há uma alegria no combate quando sentimos que estamos do lado certo pela causa justa. Há uma coisa à espera de nome para ser celebrada. A esperança em sintonia e as palavras-de-ordem em uníssono a disciplinar o caos. Há uma utopia tão verificável e garantida como uma miragem que nos faz caminhar pelo deserto. Claro que nunca a alcançaremos, claro!
Mas faz-nos caminhar, não faz?


14.5.12

Uma Janela Aberta

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Ela lançou o olhar sobre o mar como se fosse uma rede, como os pescadores costumam fazer num movimento circular, e que cai suavemente sobre as águas, só que mais lentamente, muito mais lentamente.
«Porque me passou a chamar Zulmira se sabe que eu não gosto?»
Ela ali olhando o mar como se fosse uma rede, como se quisesse agarrar a água que escoava entre as suas malhas enquanto se afundasse lentamente, muito lentamente. Ele sentado no muro que ladeia a praia olhando com ar assustado para os pinheiros raquíticos contorcidos sobre as dunas, que lhe pediam socorro e se iam afogando na areia. Ela olhava-o com um véu de sofrimento colado à cara. Ele olhava para coisa nenhuma mas via nitidamente os pinheiros retorcidos a pedirem-lhe socorro. Havia uma animação nos pinheiros, indefinida e lenta. Havia qualquer coisa lenta nos pinheiros. Muito lenta.
Um casal aproximou-se e dirigiu-se ao muro, entre eles.
Havia algo rápido no casal, algo muito diferente deles, algo novo, ou ainda por acontecer. Vinham tão juntos que pareciam, não bem uma só pessoa, mas duas em vias de se fundirem numa só a qualquer momento. Os olhos do casal; cada par, ou olhava para o outro par de olhos ali perto, tão perto que quem não conhecesse a anatomia humana, poderia de facto julgar que pertenciam ao mesmo corpo, ou então olhavam o mar; mas mesmo quando olhavam para longe, para o mar, partilhavam esse olhar como se um fio, um nervo, uma onda de rádio os ligasse a um só cérebro.
Zulmira não entendeu logo que isso era paixão. Só passado alguns segundos a palavra amor aflorou à sua memória. Não como uma certeza, não como uma suspeita, mas apenas como algo que não tinha a certeza de existir. Amor.
O casal dava risadas patetas. Ela dava-lhe palmadas sem o magoar, ele pegava-lhe nos braços sem a dominar. Havia uma certa violência subjacente à ternura. Um desafio, uma ameaça, uma luta iminente ainda apenas adivinhada.
Zulmira começou a sentir-se incomodada, como uma pessoa no meio de um grupo de comensais sem ter sido convidada, como uma pessoa preparada para um funeral que depara com um casamento. Uma mulher com um véu de amargura colado ao rosto no meio de foliões na Terça-feira de Carnaval.
Não há maior sofrimento que recordar os tempos felizes na desgraça.
Às vezes o corpo esquece os obstáculos da mente, e há pouco, quando os veraneantes iam abandonando a praia – nem reparando nas pequenas tarefas habituais de fechar os grandes chapéus-de-sol, de enrolar os toldos, de sacudir a areia, com ar de quem sabe que em breve os espera os prazeres que o recato da casa lhes oferece – Zulmira sentiu o seu corpo, e apeteceu-lhe dizer "Vamos para casa?" mas dizê-lo para quem? Não estava ali ninguém. O homem ali, olhando o pânico dos pinheiros a afogarem-se, era a imagem da mais inevocável ausência.
O casal foi embora, como se se tivessem lembrado de algo urgente que não poderia esperar mais. Quase corriam. De vez enquanto olhavam para trás como se estivessem a ser perseguidos por almas penadas.
– Viste aqueles dois?
De repente tudo abrandou novamente. A rede do olhar a descer lentamente, a afundar-se lentamente sem conseguir segurar-se na fluidez das águas. Os pinheiros a pedirem socorro.
«Porque me passou a chamar Zulmira se sabe que eu não gosto? Porque passou a odiar-me? Porque será que imagina que o nosso João é filho do Adelino? Tivemos o que tivemos, mas isso foi antes de ele se casar com aquela bruxa. Nunca mais me pôs um dedo em cima. Aceitei o emprego lá na fábrica quando ele foi para África mas o Adelino respeitou-me sempre, de mais a mais, a bruxa trá-lo à rédea curta.
O Dr. Josué diz que eles não vão aceitar que foi a guerra que o pôs assim, que isto é fraqueza do cérebro já de nascença.
Dá-me uma pena tão grande ver o meu Zé naquela consumição. Ele nunca mais foi o mesmo. Eles acharam-no bom para ir para a guerra, não acharam? E agora no fim é que dizem que ele é fraco de nascença. Que país o nosso que leva um homem cheio de força e coragem, com tudo no lugar; o manda para a guerra, e depois devolve à família uma sombra? Devolveram-me apenas a sombra do meu homem, e os que governam isto agora lavam as mãos.»
Ao longe o casal continuava com os seus jogos provocatórios fazendo alongar tanto quanto as hormonas o permitissem, aquele momento de vertigem, de ânsia mal controlada até que fosse impossível de suster.
Como são parecidos o desespero e a paixão. Só que caminham em sentido oposto. O desespero começa no íntimo de nós e alastra até tomar conta de todo o nosso ser, e a paixão começa no olhar, na ponta dos dedos, na pele, e caminha para o nosso íntimo, como todos os rios do mundo correm para o mar.
Quando saíram dali, deixaram um espaço enorme entre aquelas duas figuras sentadas no muro da praia, como se a sua alegria tivesse feito dilatar o espaço. Aquele homem e aquela mulher pareciam agora duas pessoas afastadas por uma fronteira que embora invisível os obrigasse a viver em dois mundos diferentes.
«Porque se põe ele assim às vezes? Que foi que lhe fizeram por lá? Que o obrigaram a fazer?»
O casal ao longe leva a única centelha de sanidade e esperança de todo aquele cenário, como uma lanterna que se vai afastando na noite e deixa para trás a escuridão cerrada.
«Os mortos não tinham valor. E os vivos eram tratados como gado. Nós éramos gado. Como os porcos que a gente alimenta mas que vai matar e comer. E o furriel a tirar fotografias àquilo tudo. Que fará o furriel com as fotografias? Será que precisa das fotografias para se lembrar daquilo? Será que gosta de se lembrar daquilo? Mas que gente é esta?
E agora ninguém quer saber. Estes agora não estão à frente disto? Então, e não pagam as dívidas que herdaram? Mas que gente é esta?»
José Casimiro de Sousa olhou ao comprido, estendeu o olhar pela estrada fora, como se se estivesse a espreguiçar, e viu ao fundo o casal a caminhar. Tão juntos que pareciam um corpo com duas cabeças. Ao olhá-los, o seu olhar iluminou-se como se tivesse visto alguém conhecido no meio de uma multidão de estranhos, como se tivesse olhado para um espelho e se tivesse reconhecido.
As imagens que não paravam de se sobrepor a tudo, em que os mortos eram substituídos por vivos, como se substitui o porco morto por outro porco que também há de morrer; essas imagens cessaram. Os pinheiros sossegaram igualmente, como se o perigo de se afogarem naquela areia movediça tivesse passado.
E depois de muito tempo sem ter sorrido uma só vez, sorriu muito ligeiramente e chamou a mulher sentada no mesmo muro, três metros abaixo, como já a não chamava há tanto tempo.
– Mira!
Do lado da Ria alguém abre uma janela e a luz do sol fica a refletir-se na vidraça. Alguém que quer deixar entrar o ar fresco. Alguém que procura o ar fresco como tantos procuram a esperança.
Uma metáfora do sol a enobrecer a tarde. Um plágio da natureza a um poema de Paul Eluard:
"No limite da dor
Uma janela aberta
Uma janela iluminada."

9.4.12

Palavras ditas, não ditas, malditas



Menina judia

- Mãe?
- Sim filha.
- Deus ama todos os homens?
- Sim filha.
- Os bons e os maus?
- Sim filha.
- Se Deus nos ama a nós e aos nazis, então para que nos serve o amor de Deus?


Infinito negativo

Sonho com um livro que não tenha nenhuma palavra a mais. Um livro que eu tenha escrito e a que vá tirando todas as palavras inúteis.
Umas toneladas de mármore de Carrara, e Michelangelo de maça e cinzel na mão olhando a pedra informe e imaginando a figura de Cristo nos braços da mãe, nítida lá dentro, como a imaginou mil vezes.
Depois Michelangelo atacando o bloco de mármore e deitando fora toda a pedra que está a mais, como se se tratasse de entulho colado às figuras, até ao preciso ponto em que nada mais restou que a forma perfeita da Pietá.
Mas eu quereria continuar para além dessa forma perfeita, quereria ir tirando, desgastando a pedra até ficarem numa coisa só, o coração de ambos: mãe e filho. E desgastar o coração também, até ficar uma esfera de mármore, um átomo de matéria, uma micro partícula, a ínfima coisa primordial de onde todas as formas nasceram no início do universo, esse mundo inteiro desmaterializado no infinito negativo que haveria de explodir e dar lugar a tudo o que conhecemos.
Queria assim um livro com uma palavra apenas, uma palavra que ao ser lida levasse o leitor a criar o seu próprio livro; que todo o livro só é feito pelo leitor, o escritor apenas lhe dá as palavras para ele o poder fazer, nada mais. Como o compositor compõe a partitura no maior silêncio, para que o intérprete faça a música.
O pianista abre a partitura e após um segundo de espera, a partir do silêncio, explode o milagre da música. O leitor abre o livro e com as palavras que lê a partir do caos, composto por marcas de tinta sobre papel, cria a história
O leitor é o intérprete. Sem intérprete não há som. Há só notas numa pauta, só palavras caladas, palavras por dizer.
Sem o leitor só há caos e silêncio.


Testamento

Quando eu morrer, que todos os meus inimigos fiquem felizes porque morri. Será a prova de que são impiedosos e, sendo eu inimigo deles, isso ateste pelo menos o meu bom senso.
Que celebrem a minha morte, pois isso provará que pelo menos uma vez nas suas vidas eu contribui para a sua felicidade, e que a injustiça de me quererem mal tenha pelo menos esse facto como prova.
Que todos os meus falsos amigos sintam alívio pela minha morte, pois que ao julgarem que jamais serão desmascarados, sentindo-se felizes por isso, estarão a trair-se, dado que será pelo menos estranho, para as pessoas atentas, que estejam felizes ao saberem da morte de alguém de quem se dizem amigos.
Às pessoas que gostaram de mim e aos meus verdadeiros amigos, que a minha morte lhes seja contada, para que a encarem como uma simples inevitabilidade; que interrompam as suas vidas com uma contrariedade parecida com o incómodo de terem sido apanhados por uma chuvada em mangas de camisa num dia de sol, não mais do que isso, e que continuem as suas vidas, de modo a poderem lembrar-me, não como algo penoso e distante, mas como se tivessem continuado a conviver comigo e portanto não houvesse lugar a saudades.
Que as mulheres que eu desejei e não tive me odeiem nesse dia, ou por eu não ter tido a inteligência de entender que também me desejaram ou por, embora não me tendo desejado nunca, se sentirem ofendidas no seu amor-próprio pelo meu fraco interesse ou demasiada covardia perante a sua recusa.
Para os outros, os que nunca me conheceram, que eu, simplesmente nunca tenha existido.


Palavras correntes

Ao contrário das pessoas, as palavras rejuvenescem com o tempo. Eu adoro as palavras antigas cheias de consoantes duplas, inúteis, a complicarem as sílabas e a estorvarem a pronúncia. Às vezes encontro¬-as ainda a meio de um livro, em citações a mostrarem a erudição do escritor, e paro para as observar. São blocos de mármore meio esculpidos, que a erosão do tempo e o uso haveriam entretanto de modelar, até terem obtido a jovem forma aerodinâmica de hoje.
As palavras que temos são as palavras que o povo inventa, reinventa, torneia e simplifica, a mostrar aos eruditos que quem faz a língua não sabe nada de linguística. Quem sabe de linguística sabe tudo sobre como a língua chegou até aqui, mas é o povo que sabe melhor como fazer com que ela evolua a partir daqui. Que a língua é como a água corrente que encontra sempre o caminho mais fácil para o mar, e os rios levam-na ao seu destino sem terem estudado engenharia hidráulica.
Quando eu era jovem e as palavras que ouvia eram antigas, as pessoas falavam devagar. Sempre houve pessoas que falavam depressa, mas dessas não lembro o que disseram. Lembro¬-me, isso sim, das pessoas para quem uma palavra era uma coisa tão preciosa que os silêncios tinham que ser grandes como molduras imponentes em torno delas. Hoje que os anos me envelheceram e as palavras se tornaram novas, perdendo as arestas inúteis, deixo-me levar humildemente por elas.
Quase todas as palavras, embora rejuvenescidas, são anteriores a nós e sabem bem o caminho, por isso deixemos simplesmente que elas aconteçam.
Como acontece a água, que é a linguagem dos rios.


Cândida obscenidade

Na minha aldeia era comum os amigos cumprimentarem-se dizendo "Ó meu grande filho da puta, estás bom?", e mais do que uma vez ouvi uma mãe dizer para a filha bebé com os olhos brilhando de ternura: "Minha pecorazinha linda", diminutivo este de uma palavra que em Aguim, no contexto habitual, era o pior insulto para uma mulher.
Não é possível saber o verdadeiro valor de uma palavra sem envolvermos os sentimentos na sua avaliação.


Virose política

Assim que a crise sucede à democracia, começam a ganhar coragem aqueles que viveram em estado latente aguardando um momento de debilidade para tentarem soluções totalitárias.
São como vírus, esses seres minúsculos que não são viáveis a não ser no corpo do hospedeiro que não pode eliminá-los.
Os parasitas que nos levaram à crise dariam assim lugar aos parasitas que não nos deixariam sair dela.
Acusar a democracia pela corrupção, gestão danosa e incompetência que conduziu à crise, é tão estúpido como acusar a saúde pelas bactérias, bacilos e vírus que causam a enfermidade.
É urgente aprendermos noções de profilaxia do fascismo.


Criminosa apatia

O que me assusta mais, não é os nazis terem matado milhões de judeus. Nem o eles não terem remorsos. Nem o eles terem feito da chacina um modo de vida tão banal como o de servirem schnaps ao balcão de um bar no porto de Hamburgo.
O que me assusta verdadeiramente é o tempo que decorreu entre o conhecimento do extermínio por parte dos libertadores e a decisão de lhe porem fim, porque esse tempo excessivo fez com que tenha havido muito menos sobreviventes, mas sobretudo, faz com que o crime continue a parecer viável.
A quem devem agradecer os sobreviventes, a Deus ou a Pearl Harbor?


Comboios de Auschwitz

- Como se chama o lugar para onde vamos, neste comboio apinhado de gente?
- Auschwitz, minha filha.
- E de onde vêm aqueles comboios todos que passaram por nós?
- Vêm do lugar para onde vamos.
- Mãe?
- Sim filha.
- Porque vêm vazios os comboios de Auschwitz?

12.3.12

Badalhoquices



Eructação

O Sr. Osório gosta muito de morcela. Depois do almoço, quando temos a desdita de faltar um professor e de o único prefeito disponível ser o Sr. Osório, reparamos que parece sempre um pouco indisposto, e o seu corpo de mais de cem quilos parece sempre agitado, como se uma enorme bolha de ar andasse inquieta a tentar acomodar-se por entre as sinuosidades do seu aparelho digestivo. Penso que a dificuldade consiste na indecisão entre descer com a ajuda da gravidade, ou subir graças à volatilidade do dióxido de carbono, de que é essencialmente composta, a par com os aromas dos diferentes componentes do bolo alimentar.
Hoje pelo menos, a gravidade não levou a melhor, pois que o Sr. Osório, à força de tanto se contorcer na cadeira, acabou por facilitar o alívio pelas vias superiores, o que nos permite a todos saber que comeu mais uma vez morcela.
O Sr. Osório desculpa a sua hiperbólica obesidade com a genética. Parece que provém de uma ancestral estirpe de apreciadores de morcela que, creio eu, têm contribuído ao longo dos tempos, para o efeito de estufa, muito mais que a indústria automóvel.
Mas não se pense que o seu gosto pelas morcelas está confinado a alguma variedade em especial. Pelo menos no que diz respeito a este tipo de enchidos, o Sr. Osório tem um gosto muito eclético. Mas foi justamente essa virtude que o traiu, porque a sua inegável tolerância para com a diversidade na confeção de morcelas, levou-o a não ter desprezado uma certa variedade, cuja receita, segundo o Hélder de Paredes, a sua avó era a única detentora neste mundo.
E um mistério de já alguns meses ficou resolvido em segundos:
O Sr. Osório contorceu-se em estertores de jiboia à beira de uma congestão fatal, após a deglutição de um hipopótamo inteiro; depois, vencendo mais uma vez a gravidade, obrigou a bolha de dióxido de carbono a libertar-se num apoteótico arroto, e o Helder ficou definitivamente esclarecido quanto ao destino misterioso das morcelas desaparecidas, que a sua avó, orgulhosa da sua receita inimitável, lhe incluía quase diariamente no cesto do almoço.
O Hélder, sem a mais pálida dúvida, saltou da carteira e, de nariz no ar, ainda a confirmar o bouquet inconfundível, composto pelos ingredientes que, embora desconhecidos para os restantes mortais, lhe eram intimamente familiares, gritou: - É ele que anda a abafar a morcela.
Longe de o saber, o Hélder, com esta frase, a que mentes mais distorcidas poderiam atribuir ironia, estava, isso sim, a ser divinatório.
Não faltava quem dissesse perversamente, que o contorcionismo ruminante do Sr. Osório se devia a outros prazeres mais viciosos que a ingestão de morcela pelas vias normais, o que deixaria sequelas incompatíveis com a acomodação dos seus quase 150 quilos sobre o objeto do pecado, e por isso, quando o Hélder, numa pose de delator apontando o herege perante a Santa Inquisição, proferiu aquelas palavras, as gargalhadas em coro de todos nós, tinham esse acréscimo de perversidade.
Tal como o Bolero de Ravel vai repetindo a mesma frase musical em crescendo até ao grande final, assim a história da descoberta do ladrão das morcelas do Hélder, através da eructação comprometedora do Sr. Osório, foi-se repetindo incessantemente, o que acabaria na exaustão, não fora, de facto, o grande final.
O marido da Diretora, a quem chamávamos carinhosamente "O Vacas", despediu o Sr. Osório servindo-se deste incidente, para não revelar o verdadeiro, bem mais escabroso; mas um fatal lapsus linguae traiu-o quando ele anunciou publicamente a sua decisão.
Já todos tínhamos reparado que o Raposo andava ultimamente muito diferente. Calado e excessivamente reservado como era seu hábito, o Raposo mantinha também as mesmas olheiras, a que associávamos as frustrações típicas da puberdade, que costumam prejudicar o descanso noturno; mas a par com as olheiras que mantinha iguais, senão mais profundas, agora acrescentava-se um definhamento crescente, indiciador de terem as frustrações aumentado, ou então de as ter heroicamente ultrapassado. Hipótese que parecia mais comummente aceite devido àquele sorriso de sinistra perfídia que por vezes lhe detetávamos. Mas que detetávamos, estranhamente, quando ele se encontrava na presença do Sr. Osório.
E eis que o Vacas anuncia num português um tanto refinado, mas fugindo-lhe a língua para a verdade, perante uma dezena de empregados, duas dezenas de professores e cerca de duas centenas de alunos, que o despedimento do Sr. Osório se devia ao facto de ele ter andado " a locupletar-se vergonhosamente com a morcela do Raposo."


Bromidrose

Quem conhece o Doninha, e sobretudo quem alguma vez esteve num espaço fechado na sua presença, ficou com a convicção de que temos um sentido a mais: o olfato.
Quando o Doninha está, nós não. A menos que seja de todo inevitável. E mesmo a céu aberto, guardamos um espaço de segurança em torno dele, ao qual a Tininha, a Diretora, chama eloquentemente "o círculo de repugnância".
A Tininha tem uma personalidade, não direi histriónica, mas pelo menos exuberante, e é conhecida pela sua inclinação para soluções espetaculares, o que nos levou a temer que neste caso, algo de anormal se passava, dado que a sua tolerância é totalmente incompreensível, tanto mais que o Doninha é um aluno interno.
Numa certa tarde de verão em que nem a mais leve aragem fazia dispersar o cheiro nauseabundo em torno do Doninha, a ideia era a de que ele vinha calçado com um gato morto em cada pé, e já em putrefação.
Face ao nosso ar de mortificação e com alguns de nós a darem mostras de desfalecimento, a Tininha interrompeu a aula e proferiu esta sentença:
- Eu compreendo a vossa aflição, mas o vosso colega não cheira a chulé, sofre de bromidrose.
E ficou ali mais que provado, no nosso olhar cada vez mais esgazeado, que por mais bem fundamentada cientificamente que seja uma explicação, nunca consegue negar os efeitos da prosaica realidade no senso comum.
E a Tininha, em desespero de causa ordenou:
Levantem todos a mão direita!
Levantámos todos a mão direita.
Ela avança sobre nós empunhando um objeto que nos pareceu ameaçador e disparou.
Disparou um jato de perfume em cada mão.


Flatulência

O Primeiro Fagundes senta-se sempre de lado na cadeira da secretaria da companhia. Às vezes, porém, muda de nádega. É durante essa mudança que toda a gente suspende os seus afazeres, fazendo lembrar os atletas dos 110 metros barreiras à espera de ouvirem o tiro de partida, para desarvorarem porta fora.
A flatulência do Primeiro Fagundes é famosa, mas não se julgue que a deselegância demonstrada pelas pituitárias dos presentes se estende aos seus tímpanos. Não. Ele tem o cuidado de elevar pudicamente o som do rádio a pilhas que tem sempre ligado, como que de plantão para estas eventualidades, ou então, simplesmente aproveita-se de um som intenso que seja previsível, como o do clarim a dar os comandos para a ordem-unida.
Às vezes perguntamo-nos se o Primeiro Fagundes pode ouvir algum som mais intenso sem que os seus esfíncteres não sintam uma irresistível vontade de relaxamento.
As ocorrências mais dramáticas são os momentos que se sucedem ao toque de sentido em que, como se sabe, nenhum militar pode sequer coçar o nariz, quanto mais abanar a mão à frente dele para dispersar o fedor.
Nunca se viu um pelotão em sentido com os rostos tão deformados pelo sofrimento, e toda a gente sabe que um sofrimento extremo pode levar uma pessoa a praticar os atos mais insanos.
Foi pois, no limite da luta pela sobrevivência, que se decidiu constituir uma força de elite para pôr em prática uma das técnicas de contraguerrilha recentemente aprendidas: infligir ao inimigo uma pressão constante com o intuito de o desmoralizar, levando-o a perder o ânimo de combater.
A dificuldade residia em obter uma arma à altura da bomba biológica dos seus intestinos.
Finalmente decidiu-se por um composto de leite azedo, ovos podres e dejetos de cão que foi cuidadosamente colocado num frasco de Nescafé suspenso sob o colchão, à cabeceira da cama do inimigo.
Mas o inimigo não dá mostras de perder o moral, e os instantes passados em sentido tornaram-se verdadeiramente excruciantes e sem esperança alguma de terem um fim digno, dado o estoicismo demonstrado pelo Primeiro Fagundes.
Mas vinham aí piores notícias: o Doutor Sardaneta andou a passear os livros pela Faculdade de Medicina em Coimbra sem nunca ter passado do primeiro ano, mas aprendeu o suficiente para garantir que o Primeiro Fagundes é imune à pestilência: sofre de anosmia. Além de flatulência, claro, o que faz dele um inimigo invencível na sua especialidade.
Recebemos com alívio a notícia que estamos todos mobilizados para a Guerra Colonial.

4.2.12

A síndrome do sobrevivente

You haven't looked at me that way in years,
But I'm still here.

Hoje parei. Algo me chamou a atenção.
Ao descer a rua costumo olhar de viés para a direita. Emoldurada por cortinados e ladeada de vasos de sardinheiras lá está sempre a velha. A velha olhando a rua.
Em que estará pensando uma pessoa cujo rosto nunca muda de expressão?
Parece uma estátua de madeira de oliveira com as nervuras concêntricas a pronunciarem as maçãs do rosto. Eu passo, as demais pessoas passam; todos passamos e a velha fica.
Dia após dia, ali, vendo o movimento do trânsito e o de algum ocasional peão, pedestre, caminhante, ou sei lá como chamar-lhe, que cada vez é mais raro; tão raro que a velha já não nos segue com o olhar ao passarmos, apenas dirige o olhar para o trânsito que vê como uma fiada de casulos metálicos presumivelmente com gente dentro.
De cada vez que passo, dá-me a ideia que se vê menos, cada vez mais encoberta pelas cortinas, sempre olhando a rua, a madeira de oliveira do rosto, mais nodosa, mais macilenta, mais mirrada.
Será que sai dali para comer, para dormir? Será que vêm visitá-la?
Os olhos acinzentados perdem brilho a cada dia que passa, como se lentamente, também, fossem perdendo a capacidade de ver. A sua imaginação reduzida à imagem de uma ocorrência resgatada do esquecimento: um diapositivo projetado na tela da memória, ao acaso, imóvel ele também, sem o alívio de se ver rendido por outro diapositivo que lhe venha dar descanso.
Se fosse possível assistir ao diaporama das suas memórias ordenadamente, e não como um puzzle feito dessas imagens apanhadas ao acaso e colocadas no projetor da memória sem critério, haveríamos de ver a alternância usual dos prazeres e das dores, da esperança e do desalento, dos amores e dos ódios; de todas as coisas de sinal contrário que compõem a vida de uma pessoa, e, algures, há muitos anos já, haveríamos de encontrar o seu rosto jovem a ver-se ao espelho, a arranjar-se para um encontro; o seu rosto luminoso, expressivo e belo.
Por favor, que tenha sido bela esta mulher que agora definha olhando o mundo.
Diapositivo após diapositivo, e agora, uma imagem de quando era tida como um ser precioso para alguém, um ser amado pela pureza, pela candura, como resultado de um outro amor anterior a ela. Quando foi que isso acabou? Quando deixou de ser amada assim?
Houve uma mudança, entre ser amada assim e começar a ver-se mulher nos olhos dos que a desejavam, como então, há muitos anos já, ao ver-se a si própria ao espelho, antecipando o prazer de ser desfrutada.
Algures na fiada dos dias que é impossível reconstituir agora, algo provavelmente aconteceu que alterou a sua vida, uma partida, uma morte talvez. Talvez a eclosão da guerra em África lhe tenha interrompido um romance; uma guerra quase do outro lado do mundo e ela vítima aqui, como um dano colateral.
Ou simplesmente uma decisão que alguém tomou, ou um incidente sem grande relevância mas que alterou a trajetória da sua vida; talvez apenas a correnteza dos dias, talvez tão só a fiada das horas, a teimosia dos segundos a caírem um após outro para pontilharem a linha cruel do tempo.
A ver-se ao espelho. A desfrutar a própria beleza. Há algo de solitário nisso, algo de esfíngico, de intemporal. O olhar a prender a beleza e a ignorar a perspetiva do tempo. Um momento bela – bela para sempre. A desmentir que a beleza não passa de uma ilusão, ou pelo menos de uma simples contingência que a mente humana amplia para compensar a consciência de se saber degradável e perecível.
Mas é essa ilusão e a consciência disso que nos faz divinos.
A ver-se ao espelho. Os seios levantando e descendo ligeiramente, como algo feito para se lhes ver o peso, ao ritmo do peito que arfa de ansiedade. A roupa apenas sobre o corpo. Há tão pouco tempo vestida, que parece só pousada e se adivinha o corpo sem ela. A esperança no olhar a ser devolvida pelo espelho, uma esperança de mulher bela que não antecipa uma aventura mas uma vida de ventura, justamente por se saber bela.
De tudo isso, se isso houve, ficou um resto, uma coisa esquecida à beira da vida, à beira de uma estrada, sem ao menos chamar à atenção de quem passa. Uma sombra sem objeto que observa o mundo a que não pertence já, como uma não-existência apenas adiada.
Será que foi mesmo bela? Será que foi amada? Será que teve uma vida de ventura? Será que foi jovem?
Como é esta aritmética da vida, onde não conseguimos ver os seus 18 anos, de entre os 81 que já terá?
Quem sabe, não terá sido apenas uma mulher comum, com um percurso linear, sem grandes paixões nem grandes sobressaltos. Parada no espaço, mas viajante no tempo. Com uma vida longa, em que foi deixando pelo caminho todos os seus companheiros de viagem.
Habituei-me à sua figura, sem lhe dar atenção. Será que também se terá habituado a ver-me passar, e assim me tenha tornado familiar para ela? Será que se eu tivesse parado, uma vez que fosse, e lhe tivesse dirigido o olhar, ela me teria sorrido? Naquela rua onde ninguém passa a pé, éramos, a maior parte das vezes, os únicos seres humanos visíveis, e no entanto, eu passei sempre sem parar, sempre sem olhar para ela, porque esta vida urbana nos desumaniza, e encararmos um semelhante tornou-se um ato de impudência ou de devassa. Habituei-me à sua presença silenciosa do mesmo modo que nos habituamos a um ruído de fundo.
Hoje parei. Algo me chamou a atenção. A ausência da sua silhueta esfíngica atraiu-me o olhar. A janela está vazia como um olho vazado. Atrás das cortinas de renda apenas o negrume de uma sala sem alma. E de repente toda aquela fachada do prédio se transformou num corpo morto a que só falta cair para o lado, porque cresceu em mim a certeza absoluta de que não voltarei a sentir o cálido alento de humanidade que a figura daquela senhora idosa me oferecia. Porque me parece irremissível o despovoamento da cidade e do mundo, de cada vez que um só dos seus habitantes nos abandone.
Será que é por causa deste trauma obsessivo, que não me deixará nunca, de ter visto a meu lado caírem desumanamente pessoas que eu não conhecia antes, mas que a solidão, o sofrimento e a guerra me ofereceram como amigos?
Os feridos e os mortos partem e os sobreviventes continuam com a ilusão de que têm algo importante para fazer, sem se darem conta que a sua progressão os irá aproximar da morte. Todos os caminhos se encontrarão nesse objetivo comum da vida, e, se pararmos um pouco antes de darmos o derradeiro passo, poderemos reverter ilusoriamente o tempo através da memória, e se o fizermos, talvez nos lembremos de como não demos verdadeiramente importância à felicidade de um dia termos estado todos juntos.
Os carros, em filas de latas atrás de latas, a poluírem a rua com fealdade, mais do que com monóxido de carbono. Os rostos por detrás dos para-brisas a envelhecerem assustadoramente como crisálidas dentro daqueles casulos móveis, sem a esperança de uma metamorfose que um dia lhes dê asas.
De repente a cidade tão grande. De repente a rua deserta. Regresso a casa de luto. Um sobrevivente desamparado pela rua abaixo.
A janela vazia como um olho vazado, uma moldura sem quadro; uma janela que deixa antever a noite aprisionada para sempre dentro de casa.
Vou descendo a rua sentindo que ficou algo para trás, algo de irrecuperável, porque o rio do trânsito que desce a rua leva consigo a veleidade de um tempo presente em que seria possível deixar uma impressão pessoal, uma marca que resistisse para além da memória.
É sempre isso que nos faz caminhar. Tentar ultrapassar essa torrente que na verdade acabará por nos deixar ficar a todos para trás, como nós fomos deixando os outros, enquanto tentávamos sobreviver. Mas ao sobrevivermos a todos, não acabaremos por morrer sozinhos?
Um após outro, pelo caminho, quantos perdemos? Quantos tombaram enquanto progredíamos ao encontro do inimigo? E de cada vez, que parte de nós perdemos também?
O capitão a chorar, com as mãos no tablier da Berliet como se fosse a amurada de um navio, olhando os helicópteros que levavam os mortos e os feridos, enquanto a coluna finalmente seguia para o objetivo. E na sala do comando, em Mueda, espetaram um alfinete no mapa com alívio, marcando o local onde íamos morrendo todos. Como é difícil o trabalho dos burocratas da guerra!
E depois a coluna seguiu, o sangue regressou ao corpo. E apesar de menos, sentimos o conforto da companhia uns dos outros, porque é muito mais difícil morrer sozinho.

28.1.12

Pássaros como que de fogo


"Soon, oh soon the light
Pass within and sooth this endless night"


Se eu pudesse levar algo de África, levava esta praia.
Quero levar, pelo menos, a memória de cá ter estado.
Daqui a pouco vai nascer o Sol. Um pouco antes, um homem chegará de bicicleta, abrirá aquele barraco e acenderá o fogo num destes bidões, e eu sentar-me-ei numa daquelas pedras e tomarei aqui o pequeno-almoço pela segunda vez. E será essa a minha despedida de África.
No momento de virar as costas o que pesa mais? A antecipação da saudade ou o receio de virmos a ser esquecidos? Partirei com o absurdo desejo de que as madrugadas da Praia das Chocas guardem uma boa memória de mim.
Eu encherei os olhos de luz e de mar e depois partirei. Atravessarei dois oceanos e jamais voltarei aqui.
Entristece-me pensar que um dia me terei esquecido disto, que tudo isto se desvanecerá como uma aguarela à chuva, e que por fim, ficará apenas uma memória duvidosa, como se não tivesse passado de algo com que sonhei.
As ostras não me sabem tão bem como da primeira vez; os prazeres premeditados perdem sempre sabor.
Quase, quase nasce o sol. Um bando de aves aproxima-se. Tão grande e denso que parece uma nuvem.
O sol demora a nascer e as ostras estão a acabar. É difícil viver segundo um guião. Queria apenas despedir-me de África, repetindo um dos melhores momentos que vivi aqui, mas parece que estou a posar para uma fotografia, a representar para um filme. Um prazer premeditado é como um crime premeditado, não tem a atenuante da paixão.
Parece que estou a decalcar um desenho para que fique bem marcado na minha memória. Para levar comigo. Para impedir que o tempo o apague facilmente. Porém sabe-me a falso; não é possível ser feliz seguindo um plano.
É possível estar distraído a desfrutar do prazer, é possível deslumbrarmo-nos com uma beleza inesperada, é possível a antecipação do prazer na imaginação, mas a felicidade é a acumulação do prazer na memória; só é possível em diferido.
O Sol parece estar a demorar a aparecer. Eu a poupar as ostras…
A nuvem de aves é enorme. Enormes as aves também. Flamingos!
Flamingos, numa fragilidade de esculturas de vidro soprado, numa delicadeza de branco e rosa, pousando com as suas pernas longas de inseto, na franja ondulante do Índico.
Continuam a chegar. A maré rasa da praia das Chocas entra em ebulição. Um rebuliço de vida.
Não dezenas, não centenas; muitos milhares de aves. Flamingos com o seu bico de colher a coar a tona da água. Muitos milhares de flamingos. Muitos milhares de colheres coando a água do mar. Eles com a cabeça de lado e depois com a colher do bico a retirar não sei o quê da água. E o Sol a prometer luz, ainda não o Sol, ainda não a luz, apenas uma promessa no azul quase prateado do céu, lá muito ao longe.
E finalmente o Sol!
Primeiro uma borbulha luminosa na linha da água, depois, em câmara lenta, uma explosão de ouro incandescente, incendiando os flamingos, ruborizando o cor-de-rosa em todos os cambiantes até ao carmim, até se tornarem chamas vivas à beira da praia, e transformando o mundo visível no que de mais glorioso me foi presenteado na vida.
Não voltarei aqui. Nunca mais voltarei aqui. Quero levar esta imagem comigo para usar num dia triste. Tenho a certeza que nunca mais verei nada assim. Só um dia o teu rosto. Num outro nascer do sol. Um nascer do sol sem mar, que na minha terra o sol nasce na serra. Sem flamingos. Sem pássaros de fogo.
Se a felicidade total fosse possível, estarias aqui comigo, estarias aqui e agora; mas nem te conheço ainda. Não sei se te encontrarei um dia para achar que faltam flamingos nesse outro nascer do Sol que há de vir.
Há quem se satisfaça por atribuir a autoria de momentos como este à inspiração artística de um criador magnífico, mas o meu êxtase, a minha epifania consiste em ter a certeza que a Natureza é como é, sem emoção nem beleza, sem memória nem criatividade, e somos nós que possuímos esses atributos. O humano milagre de criar e recriar o belo.
Não inventamos o belo apenas, olhando os ocasionais incidentes naturais, damos-lhe um propósito e uma persistência para além do momento corrente.
Nada disto seria mais do que um bando de pássaros a pousar na baixa-mar da praia das Chocas da Ilha de Moçambique se eu não sentisse já uma saudade a haver desta madrugada, se eu não sentisse já o prazer futuro da evocação deste momento, como um relâmpago vindo do passado, um sonho que a imaginação tornará vígil e lúcido como se tivesse acabado de acontecer. A memória da minha despedida de África tão vívida que parecerá uma invenção minha.
Há uns cinco meses atrás, à minha chegada a Lourenço Marques, fiquei deslumbrado com um nascer do sol nesta praia, enquanto comia ostras cruas com lima, mas entretanto fui acumulando os pesadelos de uma guerra. Uma guerra sem objetivo nem prazo. Uma guerra em ciclo vicioso. Uma guerra que não parece ser feita para ganhar nem para perder, apenas para aguentar o país em estado vegetativo. Um estado comatoso que mantém a morte em lume brando. A indústria nacional da matança, sem a desculpa sequer de um falso motivo. A matança como meio de vida. Como desígnio nacional.
E o que há cinco meses me pareceu deslumbrante não passaria hoje de uma pobre representação, sem a capacidade humana para a poesia e o deslumbramento que transforma as simples ocorrências, aleatórias e insignificativas, na gloriosa exuberância da Natureza.
De que é feita a poesia? De que são feitos os flamingos?
Aves transfiguradas pela imaginação. Como um sonho vivido em África, unindo para sempre este momento a todos os outros momentos em que a memória os evoque, e em que serei feliz hoje de novo amanhã e sempre que me recordar desta madrugada, como se o tempo decorrido não importasse. Um prazer diacrónico a que chamarei saudade se me faltar inspiração.
Um momento guardado em mim, que África me ofereceu depois de me ter tirado quase tudo, para me servir de alento enquanto não te conhecer e tiver que alimentar a esperança de vir a ser feliz, porque a felicidade é como uma conta corrente em que é preciso fazer créditos para levantar em dias de penúria.
Pássaros como que de vidro. Se os não tivesse visto modelar na feira da Moita de Anadia – o meu avô a contas com o cavalo enquanto a minha avó regateava um avental com uma freguesa – não os reconheceria agora. Eu maravilhado com a delicadeza daquelas mãos rudes ali ao lado a criarem beleza com vidro e fogo. E entre dois sopros de vida que davam alma ao vidro: "100 mil réis, ó freguês!"
Agora reconheço-os pousando na fímbria do mar com os seus passos desengonçados de inseto.
Pássaros como que de fogo. O teu rosto ao nascer do dia incendiará em mim de novo o rosa flamejante destas aves, e nos meus olhos, a luz dos teus terá a emoção desta praia de África no momento de partir, no momento de regressar a casa. E África para mim permanecerá para sempre feita de extremos: o terror e a exultação.
Pássaros como que de sonho. Enfeitando cada nascer do Sol de hoje em diante. O prazer de hoje de novo amanhã e o prazer de amanhã antecipado hoje.
E a beleza maior de todas, a alegria maior: o êxtase de ver a beleza noutro ser humano. Um ser como um reflexo de nós, mas já outro e sublimado, como se fossemos, eu Narciso perante o lago e tu a imagem divinizada no lago perante mim; mas sem a insipidez da solidão, sem a monotonia da clonagem. Com a diferença no outro; com o fascínio da alteridade. E tudo sem bom senso, sem parcimónia; na exuberância exultante da felicidade.
Em mim, já, o teu rosto a haver, a tua beleza ainda não conhecida. Apenas um prenúncio da felicidade futura. Esta madrugada sem ti, ganha por antecipação o prazer de te ver sorrir para mim, quando já tiver esquecido tudo isto, a não ser pelo que em mim permaneça na memória de te ter amado antecipadamente, quando um bando de aves pousou num assombro de beleza no meu último nascer do sol em África.
Vivemos permanentemente a dois tempos, recordando o passado e projetando o futuro, numa ubiquidade cronológica; onde estamos menos é no presente, que quando pensamos nele é fugidio, e ao tentar retê-lo, não fazemos mais do que vivê-lo em função do que dele nos haveremos de lembrar um dia, ou do que a nossa experiência passada nos habilitou a ver nele. Nós vivemos na nossa memória e na nossa imaginação, não nos nossos atos.
Mas sinto hoje intensamente que tudo se reunirá num êxtase – memória e imaginação, sonho e ato – quando sorrires para mim como o Sol pela madrugada. O sol a prometer luz, ainda não a luz, só a promessa da luz, como se a felicidade estivesse sempre a espreitar na linha do horizonte.
O momento corrente pode dar prazer, pode fazer-nos tombar de plenitude, mas não passará nunca de uma etapa para a felicidade. E a soma de todos esses momentos será a felicidade? Pelo menos foi o caminho.
E chegados ao último êxtase, virando a cabeça para trás, que vemos? Vemos que percorremos um longo caminho de busca. E que, afinal, caminhando chegámos a casa. E que, afinal, era isto que buscávamos, era sempre isto: a nossa casa.
Enquanto a não encontrámos procurámos sempre, e agora iremos habitar aqui. Podemos dizer sustendo as lágrimas: – Eras sempre tu. Tu és a minha casa e sempre que amei foi a ti.
E nessa altura seremos mais felizes, porque eu levo daqui, já um lastro de beleza ao teu encontro.

20.1.12

Bananeiras

As Águas - Mueda
Foto retirada daqui e posteriormente editada.
Texto de António Almeida
[...]
Relativamente perto das Bananeiras deu-se o reencontro com os homens vindos de Nancatary. Assim, suspendemos a picagem, já que a picada acabara de ser passada pelos recém-chegados de Nancatary, e mais aceleradamente, já todos quantos iriam assegurar a construção da ponte, rolamos para o local determinado que uma vez atingido, e porque naquelas paragens anoitecia muito cedo, toca a derrubar umas quantas árvores, de modo a melhor instalar o acampamento, atentos todos os dispositivos de segurança.
A queda de uma das árvores acabou por despoletar um enxame de abelhas, que rapidamente se espalhou pelo local tomado pelos militares e começou a atacá-los. O alvoroço de todos e o pânico de muitos, recorrendo a granadas de fumo, às próprias viaturas com os canos de escape a exalar fumos, fugindo para as respectivas cabines ou lançando-se para debaixo das mesmas, foi a forma encontrada para combater um tal “ataque”.
Entre os vários militares picados pelas abelhas um teve mesmo de ser evacuado, atenta a gravidade do seu estado de saúde.
Socorrido por um heli que logo foi chamado de Mueda, o ferido foi evacuado. Logo à chegada, a primeira baixa.
Terminado o ataque das abelhas, que trouxera à memória uma situação semelhante aquando da passagem, exactamente, pelo mesmo local, da coluna que trouxera, em 1972, muitos daqueles homens para Mueda e onde sofreram logo, num ataque, também de abelhas, a evacuação do seu primeiro elemento, um dos alferes, que não voltou mais à companhia. Mau agoiro, pensaram muitos.
Agora, todos ao trabalho, na montagem e organização do acampamento, com especial incidência na manutenção da segurança, porque a tarde apressadamente ia desaparecendo e a noite, a “noite de fim de ano”, rapidamente se aproximava.
Instalados, caída a noite, foi impossível não recordar passagens de ano anteriores, sobretudo algures em Portugal. Os homens da 3503 que haviam carregado algumas bebidas recolhidas na árvore de Natal que tinham “plantado” na sua camarata, por todos fizeram uma distribuição para que ninguém ficasse sem brindar ao ano que nasceria à meia-noite.
Chovia torrencialmente quando bateu a meia-noite e, desde gritos e vivas, a tiros para o ar, enfim, um barulho em pleno mato, impossível de controlar, foi a forma que os militares estacionados nas Bananeiras encontraram para festejar a chegada do novo ano, aliás, que seria o último para os homens da duas companhias de atiradores ali presentes, as Cart´s 3501 e 3503, tirando um ou outro homem que havia chegado em rendição individual, caso do capitão e que ainda estava no princípio da sua comissão, enquanto os demais, sem contar com o mata-bicho, isto é, mais uns três meses, terminariam a comissão nos primeiros dias, exactamente, do mês de Janeiro que estava a nascer.
[...]
Texto de António de Almeida
Ler texto completo aqui

8.1.12

Ana, vítima de guerra



"And I am not frightened of dying, any time will do, I Don't mind.
Why should I be frightened of dying?
There's no reason for it, you've gotta go sometime."

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Ana Rute disse-me que não é feliz.
A primeira reação íntima que tive foi a de não acreditar no
que me disse.
Uma jovem mulher de 26 anos, com um curso de enfermagem,
senhora de uma vivacidade a que o seu belo rosto empresta um inegável encanto,
olhando-me de frente e como se estivesse a falar de algo que toda a gente
deveria saber, diz-me que não é feliz.
Ana Rute é vítima da Guerra Colonial.
Quando a Ana nasceu já a guerra tinha acabado há muito, e
por isso, nenhum tiro, nenhum estilhaço, nenhum horror da guerra a pode ter
atingido, e no entanto a Ana é infeliz por causa da guerra.
Mas ela sabe o que são tiros, ela sabe o que são estilhaços,
e o que ela mais sabe é o que são os horrores da guerra.
Já sentiu o medo, já sentiu a ansiedade, já ouviu os gritos,
já acordou a meio da noite em sobressalto, já teve que se proteger para não ser
abatida, mas nunca fugiu. A Ana continua no seu posto tão contrariada como
todos os soldados que se veem obrigados a ficar no seu posto quanto todos
fogem.
Foi-lhe roubada a juventude como a todos os combatentes. Foi
adiando um relacionamento sério, porque um dever que lhe foi imposto não lhe
deixa espaço para os afetos. E hoje ao falar disso, parece um veterano a
queixar-se que às vezes a chamavam de maluca por deixar transparecer os seus
traumas.
Sim, a Ana Rute tem traumas de guerra. Traumas a que nenhuma
junta médica reconhecerá qualquer nexo de causalidade com o serviço militar e
muito menos com o teatro de guerra.
O estado, que tem dificuldade em aceitar que os seus
combatentes, que foram recrutados, mobilizados e massacrados no açougue da
guerra, sejam condignamente reconhecidos como vítimas desse processo todo e portadores de sequelas geradoras
de sofrimento, concedendo-lhes o estatuto de DFA, jamais aceitaria sequer a
hipótese de olhar a Ana como uma vítima também.
E no entanto, a Ana fez durante anos o que o estado deveria
ter feito. O que alguém deveria ter feito, mas ninguém fez: tratar do seu pai.
O seu pai tem 16 dos 17 sintomas que se usam para
diagnosticar a Perturbação Pós-Stress Traumático, em que 5 seriam suficientes
para um diagnóstico seguro, e a Ana tem sido vítima de todos esses sintomas.
A violência verbal e física em torno de si, a deserção, um a
um de todos os familiares, primeiro a mãe e depois os irmãos; e por fim,
indefesa, sozinha, convivendo dia e noite com a Guerra Colonial debaixo do
mesmo teto.
Os colegas da escola que lhe diziam que ela era maluca como
o pai e se afastavam. Uma professora que lhe disse em frente de todos que ela
não deveria poder frequentar a sua aula porque era filha de um combatente
maluco e era maluca também; a quem a Ana moveu um processo que resultou numa
simples chamada de atenção à professora e numa
reprovação para si, conforme tinha sido ameaçada. Os rapazes que se afastavam
dela com medo do pai. As festas a que não foi. O atraso na conclusão do curso
de enfermagem, o que
contribuiu para que agora não arranje colocação. E uma vida afetiva que foi
impossível paginar com este verdadeiro serviço de campanha numa missão pouco
menos que impossível.
Quando ela saiu do gabinete onde a recebi vieram-me à cabeça
as palavras que uma visitante do Facebook me enviou. "Não vives demasiado
no passado? Não devias procurar coisas alegres e esquecer a guerra?"
Ana Rute, uma jovem mulher que deveria viver nesse meu
futuro, onde supostamente haveria coisas alegres para procurar. E que me diz
que não é feliz, como eu digo que não sou alentejano: um facto indiscutível,
que toda a gente já sabe. Uma coisa que se diz embora se saiba que é óbvia e
consensual.
Mas a Ana não anda em busca de piedade ou de comiseração,
anda em busca de justiça e reconhecimento. Para o seu pai. Que ela, como todos
os lutadores, sabe que se se fizer justiça sairá recompensada.
O pai precisa de cuidados médicos especializados que não tem
por falta de dinheiro. Precisa de medicamentos que às vezes não compra por
falta de dinheiro, precisa de algum conforto para si
e para ela, que não obtém por falta de
dinheiro. É isso mesmo: tudo por falta de dinheiro.
E há coisas que a Ana não entende: se os médicos são
unânimes em afirmar que o pai sofre de uma doença que se apanha na guerra, como
podem as autoridades médicas militares dizerem que essa doença não tem relação
nenhuma, nem com a guerra onde ele combateu e que trouxe para casa, nem sequer
com o serviço militar? Eu bem tento explicar que se trata de um problema
processual, uma coisa burocrática, que o que é preciso é delinear uma
estratégia para tentar desenovelar isto tudo, mas a verdade é que também não
entendo.
Ana Rute é vítima da Guerra Colonial. Um dano colateral, um
dano diferido, mas uma vítima. E eu que deveria olhar mais para o presente do
que para o passado, em busca de coisas alegres, segundo a minha visitante do
Facebook, fico com a impressão que ganhei o dia, porque alguém me olhou nos
olhos com a coragem dos heróis e me disse: "Não sou feliz." Não como
um lamento, também não como se fosse eu a dizer que não sou alentejano. Não.
Foi uma declaração de quem se conhece e sabe o que quer. De quem está em guerra
e não vai baixar as armas. De quem está habituada a deixar pelo caminho os
desertores e os cobardes e que olha de frente as pessoas com quem lida para
saber se pode contar com elas.
Ana Rute, nós somos uma associação de combatentes, de sobreviventes,
de camaradas que depois da guerra ter acabado escolhemos continuar nela, porque
outros não conseguem sair dela; que conseguimos ainda assim ser felizes, pelo
menos alguns de nós, e continuar combatendo.
Enquanto houver uma jovem que nos diga que não é feliz por causa da
Guerra Colonial, nós também não esqueceremos esse passado de pesadelo, para ir em busca da fácil alegria do presente, e também não baixaremos as armas. Cada drama de um só de nós será um drama de todos. E a Ana Rute é um de nós.
Publicado no jornal Elo da ADFA

20.12.11

Nunca se regressa de África


Os soldados baixaram-se todos, o furriel Bastos começou a espreitar pela máquina fotográfica e o cabo Bento sozinho lá à frente na picada a tentar levantar a mina anticarro.
Parece um filme na minha cabeça. Sempre a repetir a mesma coisa: o palerma do furriel a tirar fotos a tudo, os soldados alapados e o Bento ajoelhado como se estivesse a rezar.
A minha G3 cheirava à máquina de costura da minha mãe.
Não ouvi o rebentamento da mina. Não me lembro. Dizem que andei à procura dos restos do Bento, mas também não me lembro. Dizem de tudo. Cada um a sua versão, mas eu que estava a olhar para o Bento, não me lembro de mais nada. Só mais tarde, um poncho enrolado com qualquer coisa lá dentro, e o enfermeiro Costa desfigurado, abanando a cabeça.
Será que Deus apaga da nossa memória aquilo que acha que é demais para nós? Parece que estou a ouvir o furriel a dizer "Ó Sousa, se Deus pode fazer alguma coisa, que acabe a Guerra de uma vez e pronto!" Às vezes parece parvo, para que quer ele as fotos daquelas desgraças?
A minha G3 depois de oleada cheirava tal e qual a máquina de costura da minha mãe.
Se calhar é melhor assim, se Deus não pôde acabar com a guerra ao menos que apague as lembranças que nós trouxemos.
Mas às vezes parece-me muito estranho que não me lembre de certas coisas, como quando te vi a falar com o Adelino. Tenho a certeza que vi qualquer coisa: uma mão, um sorriso, um gesto. Fiquei para morrer. Tu ali, de frente para ele, debaixo do alpendre.
- Estavas a falar com quem?
E tu: - Ninguém, era o Adelino.
Eu fiquei em silêncio uma data de tempo, e tu: - Qual é o problema? Ele parou para saber se estava tudo bem comigo, e eu disse-lhe que sim.
E eu, nada.
E passou mais uma data de tempo, e tu: - Isso não te passa nunca, é?
E foste embora para o trabalho.
Não passa não, Zulmira. Parece que são borboletas no meu peito. Borboletas a gritar. Sei que nunca entenderias. Elas gritam batendo as asas. Milhões de borboletas dentro do meu peito.
Parece que os pesadelos nunca passam. Que foi que eu vi, Zulmira? O que vi eu na picada em África, que me plantou um cardo no peito que me faz sangrar, sem eu saber porquê, e que vi eu no alpendre que me faz sentir as asas das borboletas a ferver, a ferver sem descanso? Não sei, mas é como acordarmos de um pesadelo. Não sabemos bem com que sonhamos, mas sabemos que foi um pesadelo porque sentimos o coração aflito e falta de ar. Mas não passa, não desaparece. É como se fosse uma memória encravada, que não anda nem desanda. Uma tatuagem feita com um ferro em brasa não sei onde, mas que me queima a alma. Uma alma tatuada. Tatuada com uma memória invisível que dói.
A minha G3 era uma máquina de costura.
Sinto-me cansado. Tão cansado. Queria abrir uma janela no peito e tirar os cardos e deixar sair as borboletas.
Que pena não me teres amado antes, Zulmira. Que pena não me teres amado quando viajávamos sem este fardo e estávamos no princípio da viagem.
Tu chegavas devagar, sempre tão devagar, que parecia uma aparição, e abria-se uma janela algures quando tu chegavas. Quando eu olhava para ti, parecia dia de festa, e ficava quedo e mudo, porque eu não estava preparado para a tua beleza.
Se eu dizia "Ó Zulmira, uma mulher linda como tu não tem o direito de estar triste", tu zangavas-te. É que era estranho que a tua beleza fizesse os outros felizes e a ti não.
O furriel um dia viu a tua foto e disse que tinhas um ar de mulher fatal.
E depois disse: - Coitada!
E eu: - Coitada, porquê?
E ele: - As mulheres fatais matam de amor e morrem de solidão.
Falava de mais o furriel.
A nossa história é só um desencontro Zulmira, nunca deu certo. Quando eu te amava, tu até troçavas de mim; agora que me procuras de noite na cama, eu sinto um frio tão grande como se o meu corpo fosse um cadáver e tu tivesses vindo chorar sobre o meu caixão.
Gostaria de contar a nossa história a alguém, gostaria de escrever a nossa história para fazer chorar alguém com ela, de maneira a não me sentir tão só, mas como não serei capaz de a escrever, hei de plantar uma árvore que dure quinhentos anos, e hei de pôr-lhe o teu nome; sempre que o vento passar por entre os seus ramos ficará a saber um pouco de nós.
Já não te amo, Zulmira, mas lembro-me bem de te ter amado, e por baixo das borboletas e dos cardos, trago no peito um grande amor por ti. Um amor que ainda tenho dentro de mim, mas já não sinto, como uma dor de cabeça que deixou de doer por causa do remédio, mas que a gente sente que ainda está lá.
A minha G3 era uma máquina de costura, não era mais do que uma máquina de costura.
O furriel a tirar fotografias àquela desgraça. A cara do enfermeiro Costa desfigurada. Toda a gente aterrorizada. Às vezes penso que tudo aquilo foi um pesadelo que tive. Um pesadelo como os que ainda tenho, onde vejo tudo sempre a repetir-se, mesmo a meio do dia. Mas nunca vejo os rostos nem ouço os gritos. Como não me lembro da mina a explodir.
Depois deu-me uma vontade de destruir. Não era vontade de matar, Zulmira, era uma vontade de destruir. Destruir a guerra, se fosse possível.
O Bento desapareceu. Não morreu, desapareceu. Só encontraram uma bota com um pé lá dentro e um fio de ouro com a Nossa Senhora de Fátima.
- Se Deus existe, anda a gozar connosco. - Disse o furriel.
E eu olhei para o poncho a embrulhar a bota do Bento e depois virei-me prá malta ali à volta e disse que queria ser enterrado na minha terra, como devia ser.
E ele: - Não achas que deves morrer primeiro?
Porque precisava ele de dizer aquelas coisas?
Que se vê naquelas fotos? Floresta, soldados, mortos e feridos. Coisas paradas como se não tivessem alma. Uma foto não apanha o cheiro da minha G3, não apanha a dor, não apanha o último pensamento do soldado que vai morrer.
Em que pensou o Bento, quando estava debruçado sobre a mina como se estivesse a rezar? Que foto pode guardar isso? Será que o furriel vai mostrar essa foto a alguém e depois vai dizer "Este gajo morreu logo", como fazem os caçadores com os troféus de caça?
Depois rebentou a emboscada e eu descarreguei a G3 para o capim. Não sei se matei alguém. Só apertei o gatilho.
Eu disparava a G3, e ela trabalhava afinadinha como uma máquina de costura. Ta-ta-ta-ta. Era tão fácil. Ta-ta-ta-ta. Costurava o medo.
Depois: silêncio. Quando penso nisso, fico com a ideia que desde então não se passou nem se disse nada, só silêncio. Alguns vultos a passar à frente da luz, mas eu encandeado, não distingo mais nada. Não sei se me estou a lembrar da guerra ou do pesadelo da guerra. Há luz a mais, não vejo bem o que se passa. Ficou um vazio cheio de uma luz que cega. E esse vazio tem vozes e gritos tão dolorosos que eu não os ouço. Tem dores e medos tão assustadores que eu não vejo os rostos das pessoas assustadas.
Às vezes eu sei que é um pesadelo, um pesadelo apenas, mas quero acordar e não sou capaz. Quero sair dali, quero vir embora e não é possível; a gente vai à guerra e nunca mais sai de lá. Nunca se regressa de África. Nunca se regressa da guerra, Zulmira.
Que medo é este? Que dor é esta que Deus, por piedade de mim, me impede de conhecer? Sinto que não é um medo meu. Sinto que é o medo de todos os mortos da guerra, todos juntos, a sentirem medo de si próprios.
Só me lembro do furriel a tirar fotos, o Bento ajoelhado, a cara do Costa desfigurada, eu a disparar a minha G3 para o capim, tal e qual a máquina da minha mãe. A costurar o medo. E enquanto disparava não sentia medo, nem raiva, nem nada. Será que morreu alguém por causa disso? Será que matei alguém?
E depois o silêncio. Um silêncio como uma luz que encandeia. É esse silêncio que me mata.
Não matei ninguém, os turras eram fantasmas, estavam lá apenas para nos meterem medo a nós, e nós estávamos lá também só para assustarmos esses fantasmas.
Ta-ta-ta-ta!
Era só a máquina de costura da minha mãe. Ta-ta-ta-ta.
Ninguém morria com uma máquina de costura, pois não mãe?

10.11.11

Encontros e desencontros


Neve
Não hei de amar a neve que há de cair amanhã. Haveria de amar vê-la cair contigo a meu lado. Nada neste mundo é belo ou feio, é apenas mundo. A beleza está em eu poder dizer-te isto enquanto a neve cai.

Janela
Passo à tua porta.
A tua janela entreaberta. A luz coada pela cortina. Entre a janela e a parede um risco nítido de luz. Às vezes, a luz quase se apaga porque a tua sombra se projeta na janela.
Passo à tua porta.
A solidão é uma noite com a tua janela inacessível e a tua sombra nela. Entre essa sombra e eu há um espaço vazio, um infinito sideral, a irreversibilidade de um momento já passado.
Passo à tua porta…
Agora que conheço o teu quarto, a tua janela já não tem mistério nenhum.

Miragem
Não há um tempo para nós. Não há um lugar para nós. Somos duas metades de duas peças diferentes que nenhuma oportunidade unirá. Cada um de nós é o sonho do outro, mas na vigília é que sabemos o quanto dói entender a impossibilidade de ser feliz e ter imaginação.
Mas é por isso que o nosso amor é perfeito. Nada pode pôr fim de facto ao que ainda não começou senão em desejo.
Se nos tivéssemos amado livremente e saciado os nossos corpos famintos, que fome nos restaria para nos continuarmos amando? Que outros caminhos tomaríamos nesta busca incessante pela miragem a que pusemos o nome de felicidade?
Os amores bem sucedidos morrem lentamente, como a tarde morre no crepúsculo, sofrendo em cinzento com a saudade do dia colorido.

Despojos
Sinto claramente que cheguei tarde. Tens um ar de fim de festa, como se já tivesses gasto todo o champanhe e agora estivesses a água mineral para a ressaca.
As tuas palavras são de náufraga e as tuas roupas, pousadas no corpo com negligência, criam em mim a imagem de despojos de uma batalha abandonados à pilhagem.
Tentas um sorriso que morre antes de se ver, e não te ocorre uma única palavra que possa salvar este encontro.
Há, no entanto, nesse teu desalinho, uma poesia crepuscular, uma beleza sobreviva que comove, como o sol em certas tardes dramáticas de outono a oferecer a última reserva de calor.
Sinto claramente que cheguei tarde, ou então, não soubeste esperar por mim.

Bipolaridade
Tudo é uma coisa e o seu contrário. Tudo vale pela sua presença, tanto quanto pela sua ausência. Crescemos sucumbindo ao prazer, mas é superando a dor que somos grandes.
Desgraça e fortuna, amor e ódio, derrota e vitória fazem-nos de igual modo viver intensamente, e, nesse ganho de intensidade, é que crescemos para além da mera cápsula de gozo a que nos reduz a monótona fiada de prazeres que parece ser a promessa de felicidade.
É por isso, percebes? …que distante, estás às vezes mais perto que as pessoas que chocam comigo no passeio.
É por isso, percebes?

Ternura
Ele ajeitou duas farripas de cabelo sobre a calvície, e constatou o insucesso no espelho da pala do carro, enquanto um vulto volumoso de mulher atravessava a rua na sua direção.
Ela olhou de relance a sua própria imagem na parede de vidro do Hotel, conformada com a sua silhueta elefantíaca.
Da esplanada do café alguns olhares medem-lhe o volume do corpo e nem sonham a menina frágil que ali vai. Um coração delicado em busca de um pouco de ternura e prazer.
Ele sai do carro, numa agilidade precária. O coração bate a descompasso, mas não é uma arritmia, é um coração de adolescente antecipando a aventura.
Sorriem.
Que pintor conceberia um quadro onde aqueles dois corpos fossem o símbolo da paixão? E no entanto daqui a pouco, no quarto do hotel, esgrimirão todos os gestos do prazer. Mas depois, exaustos, vão olhar a descompostura dos seus corpos nus sobre a roupa em desalinho, sem o adorno da beleza, e um enjoo tomará conta do resto da tarde.
Ao separarem-se de novo, um relance de ternura promete uma futura redenção do prazer. Mas ela passa junto à parede de vidro do Hotel olhando para o outro lado, e ele recolhe a pala do sol antes de entrar no carro.

Poesia
A minha avó vinha aqui à travessa da rua da loja consultar o Sr. Augusto enfermeiro. O Sr. Augusto enfermeiro era na verdade o médico da aldeia. Eu esperava sentado no chão empedrado da travessa da rua da loja, que fazia as vezes de sala de espera, e achei o livro. Não era grande o livro. Parecia um pequeno taco de madeira suja, de folhas grossas.
"Não faças teu o que não é teu" era o aforismo da minha mãe para que procurasse sempre o dono das coisas que encontrasse e assim perdesse o prazer da descoberta e os favores da fortuna.
Guardei o livro com o gozo de quem lança mão de um furto e todas as noites o olhava secretamente, tentando interpretar as manchas de tinta que sabia chamarem-se letras.
Fui entendendo o que estava escrito à velocidade com que fui aprendendo a ler. Letra a letra, palavra a palavra.
Mas um conjunto de palavras não é um texto, como um conjunto de ramos não é uma árvore. Tem sempre que haver um tronco comum para que as palavras façam sentido. Esse tronco demorou tanto a aparecer que as palavras ficaram soltas na minha memória antes de lhes ter captado o sentido.
As palavras bailavam na minha mente. Não eram uma história, eram um bailado de palavras.
Tenho hoje a certeza: a poesia nasceu em mim, muito antes de eu saber ler.

Vazio
Nunca vi partir um vapor de um cais pela neblina da manhã, onde viajasses, para ir ter com o homem da tua vida enquanto eu ficasse, de cabelo escorrido pela morrinha matinal, olhando as insignificâncias do ancoradouro para não sentir o vácuo que o vapor ia deixando no meu peito, à medida que se afastava.
Nunca vi partir um vapor, porque deixaram de existir antes de eu ter nascido, sinto apenas esta saudade, como se tivesse a memória de ter visto partir um, contigo lá dentro. Partires de uma estação de caminho de ferro no TGV, não seria a mesma coisa; a rapidez tira drama à vida. E até os amores impossíveis precisam de um tempo certo, e, vermos afastar-se um vapor numa manhã de nevoeiro, enquanto a morrinha matinal nos escorra o cabelo, a acentuar o desgosto, é ainda mais doloroso que ver-te partir, porque partires é algo teoricamente reversível; e uma esperança, embora tão ténue e efémera como o fumo do vapor que a morrinha dissolve antes de chegar a mim, ficaria a unir-nos; porém, ver um vapor afastar-se lentamente, quando já não existem a não ser no nosso imaginário, é mais do que doloroso, é simbolicamente doloroso, o que quer dizer que será a conjunção de todas as dores dentro de mim e não apenas a dor de te perder.
A dor de ver-te partir teria ao menos o conforto de ser o reverso de um momento hipoteticamente feliz que, pelo menos na minha memória, ainda persistiria para preencher o vazio que iria crescendo com o tempo e com a distância.
Mas para preencher este vazio não há anverso desta dor, porque não há vapor, nem partida...
Nem tu.

Indignados
Ganhaste direito a escolher, mas não a escolher os que te tiram esse direito; que ao tirarem-to, no-lo tiram a todos. A liberdade é um conceito biunívoco, sistémico e inalienável; quem a use para a destruir perde-lhe o direito, ainda que constitua a maioria.
Chegou a altura de te dizer isto, porque a tua desistência da liberdade começa a ameaçar a nossa.

Metáforas
O que quer que haja de corsa em cada passo que dás, o que quer que haja de gaivota no modo como dizes "Vamos?", o que quer que haja no que quer que seja em ti, não explica nada do que sinto.
Não há uma boa metáfora para o teu encanto.

Milagre
Era de vagar que falávamos:
– Desde quando, mãe?
– Desde que senti o teu coração bater pela primeira vez.
– E como era isso?
– Era um milagre.
– E nunca perdeste a esperança?
– Muita vez.
– E depois?
– E depois a esperança nascia de novo, como quando senti o teu coração pela primeira vez.
(Era de amor que falávamos.)

11.9.11

Crónica de uma operação falhada

Texto de José Raimundo

[...] A manhã estava fresquinha e o orvalho existente na vegetação ia penetrando pelo camuflado, mas o sol começava a raiar tornando aquela caminhada silenciosa em algo surreal, pois ninguém dizia fosse o que fosse, e a coluna movimenta-se como sombras ora mais rápida em campo aberto ora mais lenta em zona densamente arborizada ou com muito capim. Cerca das sete da manhã a coluna parou. Que aconteceu, perguntam lá de trás, nada, responde-se da cabeça da coluna, apenas temos um milheiral pela frente. O Tubarão, elemento que seguia na cabeça da coluna ao sair de uma zona arborizada depa
ra-se com uma plantação de milho de grande extensão e parou. Chamou o Raimundo à frente o qual observou o milheiral que teria forçosamente mais de dois metros de altura e concluiu que o melhor para seguir em frente era atravessar a plantação, solução que foi aprovada pelo Capitão e a marcha seguiu. A companhia esteve toda dentro do milheiral e cerca de 100 homens em fila indiana ainda representam uns bons metros podendo-se aquilatar por aqui a extensão daquela plantação. À medida que iamos avançando no atravessamento do milheiral começamos a distinguir uns sons os quais estavam cada vez mais próximos e que eram nada mais nada menos do que vozes de homens conversando animadamente. Feita a respectiva transmissão para a traseira da coluna, no sentido de haver o máximo cuidado e evitar todo e qualquer barulho fomo-nos aproximando do fim do milheiral. Quando a cabeça da coluna aí chegou, Raimundo e Tubarão pararam, agacharam e mediram a envolvência. A mata desenrolava-se novamente a cerca de cinco-dez metros do fim da plantação do milho, pelo que haveria de se ter o maior cuidado na travessia do campo descoberto. À esquerda do local onde atingimos a orla do milheiral havia uma espécie de banca, com alguma dimensão, repleta de abóboras e outros produtos agrícolas que certamente estavam ali a secar. As vozes ouviam-se mais para a esquerda dessa banca, mas deveriam estar a uma distância relativamente curta tal a nitidez com que se chegavam até nós.
Com o máximo cuidado mas também com a rapidez possível numa situação daquelas embrenhamo-nos na mata tendo toda a coluna feito a transposição sem qualquer problema. As vozes iam agora desaparecendo aos poucos e poucos. E também pouco a pouco a companhia foi avançando na mata rumo ao objectivo. O sol começa a apertar e o ritmo da marcha abrandava um pouco. Perto da oito da manhã chegamos ao local onde em tempos, por altura da operação Nó Górdio, tinha estado estacionada uma bateria de artilharia, pelo que aproveitando o local, foi dada ordem de paragem para descansar. O pessoal espalhou-se pelo terreno, aproveitando os “buracos” dos obuses ou estendendo-se ao longo de um trilho que ali passava, e enquanto uns apenas descansavam outros comiam, outros dormiam ou pelo menos tentavam e outros ainda, escondendo-se nas traseiras de qualquer árvore ou arbusto ali existente satisfaziam as suas necessidades fisiológicas. O local onde tinham estacionado os obuses era, como não podia deixar de ser, uma clareira, onde apenas alguns arbustos e capim tinham crescido naquele espaço, pelo que dada a sua largueza foi aproveitado pelo Capitão e pelos furriéis para fazer uma breve “reunião” tendo em vista o ponto de situação, finda a qual cada um voltou à sua posição.
[...]
Escrito 39 anos depois dos acontecimentos.

Texto de José Raimundo