Custam-me a sair as palavras. Era assim que acontecia sempre que morria um dos nossos. Uma coisa sem sossego no peito e nós todos calados de os olhos postos no chão. Mas se nos calarmos, que seja por pouco tempo, o minuto cerimonial e mais nada, depois falemos, contemos a toda a gente quem foi a enfermeira paraquedista Piedade Gouveia. Ela merece ser recordada de cabeça levantada e em continência, como só os verdadeiros heróis merecem. Chamei-lhe "A enfermeira que vinha do céu" e todos os soldados que um dia combateram perceberam logo porquê. Um dia foi-lhe confiada a minha vida, e na meia hora mais dramática que vivi até hoje, a Piedade cuidou dela com desvelo. Eram dias dramáticos, tinha-se um sentimento de vida à beira do abismo, de experiência limite, e todos nós, os que combatíamos, obrigados ou não, sentíamos, pelo menos durante algum tempo, que cumpríamos um dever inelutável. Outros momentos dramáticos se sucederam neste país limítrofe, sempre à beira de um abismo qualquer; mas ser combatente não é só ter capacidade para pegar em armas, e o exemplo das enfermeiras paraquedistas, as únicas mulheres combatentes na guerra colonial, ensina-nos como a coragem para enfrentar o perigo e o medo, e a generosidade e a disponibilidade para com os outros, podem salvar-nos a todos do recorrente abismo. Nós que as conhecemos, não deixemos que os portugueses se esqueçam disso. Hoje partiu a enfermeira que vinha do céu. Vai só. O héli que a leva não regressará com ela para nos salvar quando tombarmos de novo. Ficámos mais sós também.
[…]
A notícia de que havia mortos preocupou-me, pelo algo estranho que senti quando os hélis estavam a passar por mim, minutos antes. Tendo um bom relacionamento com o 1º sargento do hospital, na primeira oportunidade que tive fui pedir-lhe que me deixasse ver os nomes dos feridos e dos mortos que tinham dado entrada naquele dia, na esperança de não encontrar lá o nome do meu amigo.
Foi um choque enorme, um nó na garganta, uma raiva. Foram mil e um pensamentos e palavrões que dirigi naquele momento aos autores da morte daquele meu amigo de infância, quando li o seu nome na lista dos mortos.
Pedi para ir ver o corpo mas não foi possível, porque tinha ido para a casa mortuária e esta já se encontrava fechada.
Bastante abalado fui para a flat escrever um aerograma a uma pessoa amiga e vizinha dos pais do falecido, aerograma que levaria, em média, quatro a cinco dias a chegar ao destino, pensando eu, que quando o aerograma chegasse, os pais já eram conhecedores da morte do filho, e aquele aerograma seria a explicação de como aconteceu, o que, segundo a informação que me deram, com a explosão, foi projectado, e ao cair, bateu com a cabeça numa pedra e teve morte imediata. Só que o aerograma chegou no mesmo dia que os dois telegramas que foram enviados aos pais, o primeiro da parte da manhã a dizer que o filho tinha sido gravemente ferido e o segundo da parte da tarde a dizer que não tinha resistido aos ferimentos e tinha falecido.
A pessoa amiga a quem escrevi, quando chegou a casa depois de um dia de trabalho, deparou com os vizinhos aos gritos e com os pais em pranto pela morte do filho, esteve um pouco junto deles e foi depois para casa, onde só então viu na caixa do correio o meu aerograma. Diz-se que as más notícias correm velozes, mas quando chegam todas ao mesmo tempo, fazem pensar que o destino é demasiado cruel.
[...]
Texto de José Caseiro
A chuva a atormentar as folhas da laranjeira, e dentro de casa a ideia que o mundo é diferente: um conforto de mantas e escalfetas e a ausência do vento, só a chuva impotente de encontro às vidraças. O Inverno acaba por passar para os corpos. Os pés e as mãos a escaldarem em frente do lume e um frio cá dentro ainda. O rádio a crepitar estalidos com uma música de piano lá no fundo, tão no fundo, que parecem dois mundos também, o dos ruídos e o da música. A minha mãe de termómetro na mão a ler o tamanho da minha gripe. O meu pai à porta, à espera de ler nos olhos dela o que ela lê no tubinho de vidro. E depois eu a ler nos olhos dele o que ele leu nos dela. A minha mãe sacode a minha gripe do tubinho. Sacode, sacode e olha desanimada para o meu pai. – 39! – 39?! – 39. Esta casa é tão alegre quando não chove. Na sala, os retratos de antepassados defuntos não me tiram os olhos de cima, mas quando não chove nascem flores no cachepô da mesa. Agora a chuva lá fora a criar bolor nas paredes cá dentro, a humidade a desenhar figuras nas paredes. Olhando de certa maneira: – Um cão, mãe. De outra: – Uma pomba. – É a febre, meu filho. Devia faltar pouco para o Carnaval, porque chegada a noite, lá fora, alguém usava um funil de almude como megafone para lançar pulhas ao namorado de uma vizinha, enquanto um coro ao lado uivava a cada provocação: – É verdade! É verdade! E na sala, os defuntos pendurados nas paredes sem tirarem os olhos de mim. Muitos anos mais tarde, haveria de substituir os retratos todos por telas sujas de tinta com títulos inteligentes para serem tomados por obras de arte. E a minha mãe dividida entre a saudade dos olhos dos defuntos e o afeto pelas minhas manchas de tinta. Mas nessa altura, ainda, os olhos da minha bisavó, pendurada na parede acima da cómoda, a olharem-me pela frincha da porta. E a aflição das folhas da laranjeira. E os dedos esqueléticos da figueira a lutarem com o vento. E o inverno no interior do corpo, embora tanto calor no rosto. E a minha avó a insultar a gripe: – Aquela cadela que não o larga! O sono era um delírio com as cores da vigília em negativo. Só que o quarto não tinha paredes e a mesma imagem teimosa a repetir-se vezes sem conta: um rio de tintas escuras e eu a afogar-me, a afogar-me. Depois desapareceu tudo e passou uma eternidade. Ou um instante, tanto faz; quando se perde a noção do tempo, tanto faz. Acordei. E quando acordei, a cabeça tão leve, uma dorzinha de fome tão boa, os sons da rua a enfeitarem o silêncio, uma voz que se aproxima lentamente, tão lentamente. Que passa e continua lentamente, tão lentamente. As pessoas vão-se levantando e os ruídos da casa repentinos, estremunhados. Alguma coisa mudou no mundo e não foi só a minha febre, a minha dor de cabeça, a preguiça que me dissolvia todos os músculos do corpo. Sinto uma lucidez que me vem de fora. Da luz que altera as cores do quarto, dos sons que parecem decididos. Tudo parece ter um propósito qualquer. Havia um ruído indeciso que desapareceu. Havia uma velatura amorfa que se dissolveu. Uma humidade pesada que enxugou, deixando a superfície das coisas nítida e sólida. Mas a luz ainda húmida. Um dedo da figueira toca na vidraça um código de morse a anunciar que algo alegre se aproxima. Não havia mais música que o som da bigorna do Ti Zé e o perfilar das vozes que vinham todas do lugar e se dirigiam todas para o campo. Primeiro só algumas madrugadoras sem pressa, depois em maior número como um coro no compasso certo, e por fim as tardias, que passavam quase a correr. Não havia mais música do que isso, e se houvesse seria de mais, porque uma alegria amanhecia no corpo, uma euforia de festa que entrava com a luz da janela e que tornaria toda a música desnecessária. A minha mãe à porta num júbilo de puérpera a ver-me despertar. A minha avó arrependida da imprecação da véspera: – Aquela cadela! Que deus me perdoe. O meu pai a aliviar da memória o agouro da pneumónica e a lutar com uma lágrima embaraçosa. Em breve eu livre dos abafos e das portas fechadas. Em breve a corrida por entre as vozes dos meus pares como um coelho entre coelhos, como um pardal entre pardais. Será que só retive o essencial ou era tudo verde? Recordo quando muito uns pingos de amarelo sobre o trevo, e umas erupções de púrpura na bungavília que enfeitava com as suas flores de papel o muro do Senhor Afonso Bandarra. Ali, eu sabia um ninho de pintassilgo. Sabia eu e o gato da Ti Maria Adôa. Uma madrugada, os gravetos e a penugem no chão e uma pintassilga quieta num ramo. Uma comoção de pólen no nariz e lágrimas de alergia nos olhos; ou então, eu a entender o júbilo de puérpera da minha mãe. Nada acontecia de especial em Aguim quando chegava a Primavera. Tirando o arraial do São José. Uma festa meio cristã meio pagã. As bandas a tocarem ao despique e uma parelha de cavadores a desenterrarem a Pedra-da-sesta. Mas quando a Pedra-da-sesta ficava ali à espera da festa do Castro para ser enterrada de novo e os coretos, desfeitos no chão em despojos de palmas e açucenas, davam a ideia de que se travara ali um combate, regressava o sentimento de que todo o som era quase música, e que mais música seria de mais; a não ser, às vezes em dias muito especiais, quando o Sr. Manuel da Leonarda decidia acompanhar ao violino o concerto do Ti Zé na bigorna. Nada acontecia de especial porque o Sol fazia a festa sozinho. Que tinha o Sol da minha infância que nunca mais o vi assim? Nascia mesmo por detrás do Monte Grande e já vinha em festa, e punha-se ainda alegre atrás da torre da capela. À noite apetecia dormir e de manhã apetecia acordar. Tudo estava certo na Primavera. Na verdade, tudo me parece ter estado certo nesse tempo. É costume, quando se olha o que já aconteceu, porque as coisas más já não podem fazer-nos mal; como quando olhamos pelo retrovisor desvalorizando as derrapagens perigosas que fizemos e amando já a estrada percorrida. E nesta viagem em que parei algumas vezes para corporizar esse amor, as cidades foram as minhas verdadeiras amantes: Coimbra, a mulher tricana de todos os meus dias. Lisboa, a promíscua, tão fiel de dia e tão infiel de noite. Hamburgo, a altiva, com as suas cicatrizes de guerra a ensinar-me que há vida depois da morte. Mueda, a grande prostituta, onde desci ao mais baixo patamar da humanidade, que me levou quase tudo e que apesar disso me deixou, não sei em que parte de mim, um amor fatal e doloroso. E Aguim. Aguim trigueira, tisnada do sol, elevada sobre uma colina para parecer mais alta, onde tudo o que há em mim nasceu. Nasceram as palavras na sua pronúncia um tanto abrupta no início das frases e cantada nas vogais finais, e, onde não havia vogais, a acrescentar um i. Nasceu a música. O violino velho do meu pai de onde só saía o som dorido da única corda sobreviva, e o milagre da metamorfose do ruído em música, quando em dias especiais o violino do Sr. Manuel da Leonarda transformava a bigorna do Ti Zé Sécio no mais glorioso timbale que se pode conceber. Nasceu esta minha fidelidade de rafeiro doméstico pelos meus amigos, que julgava tão poucos, e afinal muitos; tanto que, vão morrendo já e continuam meus amigos. E nasceu esta minha paixão de gato vadio pelos becos e pelos telhados, pela tessitura prolixa das cidades e pelo deslumbramento da Natureza; tanto quanto me lembro, desde que via o Sol a erguer-se por detrás do Monte Grande já em festa e ainda convalescente do Inverno.
Janeiro, 6 Da fundura do tempo a memória do Dia de Reis, na época em que me cabia a tarefa de desmanchar o presépio. O presépio era uma versão íntima de uma cascata S. Joanina, e o Menino Jesus ainda não tinha envelhecido ao ponto de parecer um pantomineiro de feira com a sua cara de bêbado e barbas de franja de reposteiro, e para cúmulo do mau gosto, envergando um pijama garrido oferecido pela Coca-Cola. Um dia, lá em casa, por alturas do início da minha escola primária, substituímos as figuras da Natividade por um profano píncaro de pinheiro, esgrouviado e meio torto, enfeitado com neve de algodão e uns penduricalhos de plástico, e rendemo-nos modestamente ao consumismo capitalista. E o Menino Jesus envelheceu subitamente e tornou-se no Pai Natal, com aquela cara de avô gaiteiro. Que mão é esta que reduz todas as coisas que nos enfeitam a vida a objetos sem alma?
Fevereiro, 6 – Os soldados, os homens que um dia combaterem, têm dias assim, em que ficam de olhos parados procurando a distância… – Vocês fazem isso por terem saudade dos combates? – Não minha filha, os combatentes não têm saudade dos combates, têm saudade de si mesmos enquanto combatiam. – Então não deviam procurar a distância com o olhar, deviam procurar dentro de si.
Fevereiro, 10 Há anos que não vinha aqui. Parei o carro e subi a vereda do Monte Grande. Tudo parece pequeno, como acontece com as árvores de Natal: nós crescemos e elas ficaram com o tamanho da infância. Caminho, ouvindo as pedras a gemerem debaixo dos ténis. Conheço esta música. Sorrio, porque não tenho medo agora. No outono de 74 vim aqui um dia só para cheirar a urze, ouvir o sussurro do pinhal e fumar um cigarro, e entrei em pânico. As pedras a gemerem debaixo dos pés, e eu ali num trilho deserto, sem arma, sem companhia. O chão era o nosso inimigo e as picadas de Cabo Delgado traiçoeiras. Não se pode lutar contra o chão, cada passo era um ato heroico de sobrevivência. Levei anos a reconciliar-me com os caminhos e as veredas. Só de longe em longe, quando me apanha distraído, ainda a visão das goelas carnívoras da Terra abocanhando-me uma perna.
Março, 8 Os dedos que o cigarro alonga. Uma história que deve vir de tão longe, e de há tanto tempo que são mais as fantasias que as memórias. Uma história que passa por aquela mesa da pastelaria da Avenida e vai continuar até a vida ser um cansaço insuportável. Um fio de fumo soprado quase na vertical e uma perna esticada devagar, numa provocação um pouco menos que elegante, atraindo os olhares dos homens. Os olhares dos homens fazem parte da sua forma de vida. Um dedo negligente no bordo do copo dá a impressão que o resto está ausente: corpo e mente. E um olhar de loba sobre o rebanho. Uma loba olhando os cabritos como se avaliasse o valor nutritivo de cada um deles. Quando o olhar passou por mim, senti-me reduzido a um almoço.
Março, 28 – As fotos são momentos que ficam presos no papel para sempre. Uma ínfima parte da vida de uma pessoa a desafiar a eternidade… – Mas nessa foto não se vê ninguém, para que serve então? – Serve, minha filha, para lembrar o local onde morreram soldados numa guerra. – É um local triste, achas que ficou assim por causa dos soldados que morreram? – Não é o que acontece num local que o torna triste, minha filha, é a tristeza que fica em nós que nos faz vê-lo assim. – Então não devias tirar fotos a lugares onde morreram soldados.
Abril, 13 Paúl de Santa Cristina. A serra sobranceira torna a aldeia mais pequena. Ali há uma casa que tem uma nesga de terreno a servir de pátio. Ao canto do pátio um limonete encosta-se à parede da casa e lança pela janela de um quarto o seu perfume eternamente fresco. Ninguém vive há muitos anos nessa casa, ninguém dorme já naquele quarto. Será que ainda lá está sobre a cama o colchão de farpelas de milho e a travesseira de sumaúma? Acordar com o suavíssimo cheiro a erva seca da sumaúma, o odor intenso a aparas de madeira das farpelas de milho e o perfume cítrico do limonete e ter pela frente as Férias Grandes, convidava a não fazer nada. Pobres dos que nunca aprenderam a amar a vida por terem sempre que fazer.
Abril, 18 Era mais ou menos aqui que estava a bomba do arco de ferro. O corpo cilíndrico da cobertura do poço escondia um mundo misterioso e subterrâneo. Ainda se sente a calma das tardes de verão, em que a vida à superfície do mundo, na sua aparente inconsequência, de vez em quando alterava levemente a substância das coisas. Tenho a certeza que a luz era mais doce. Tenho a certeza que o relógio do tempo tinha outros vagares. Tenho a certeza que se vivia mais; não porque os anos fossem mais numerosos, mas porque os segundos eram mais longos, muito mais longos. O Tempo anda à velocidade por que passamos pelas coisas, e, no tempo em que havia aqui uma bomba de arco de ferro, eu não passava; vivia aqui.
Junho, 4 – Não há a menor equidade neste mundo, por isso é que as desgraças não estão melhor distribuídas. – Mas nós já tivemos bem a nossa conta, Manel. Dizias tu, parecendo não te conformar com a teoria. E eu sempre pessimista: – Quando ultrapassamos uma desgraça o contador volta ao zero e tudo começa de novo, sem respeito nenhum pela equidade. Depois olhámos meio pasmados o casario, naquela arquitetura de mau gosto da Solum e ficamos ambos com pena de eu ter razão. Finalmente remataste com aquele teu jeito impaciente: – Pois, anda! Agora veio a notícia. Como o som sinistro de uma mina antipessoal. Ouvi a notícia e baixei-me um pouco como quando isso acontecia na guerra e um dos nossos era ferido. Passado o choque inicial a que a razão recusa habituar-se, ficou a sensação de que algo ficou a meio, uma conversa adiada, um lugar vazio à mesa. Porque me lembro só de coisas insignificantes? Parte um amigo e só me ocorre que me esqueci de lhe contar a última anedota, que lhe fiquei a dever um almoço. Deve ser o sentimento que me ficou do tempo da guerra, de quando os amigos me eram tirados a meio de uma conversa. Mas nessa altura não havia tempo para o luto, a guerra não respeita sobretudo os que caem. E a esta enorme distância dá a impressão que todos fomos abatidos na guerra, todos morremos um pouco. Mas a verdade, Padilha, é que nós sobrevivemos para podermos ser vítimas de novo, para morrermos de novo. – Também ganhámos alguma coisa na guerra. Dizias tu, com o teu otimismo teimoso. Eu torcia o nariz sem argumentos. Hoje reconheço: pelo menos tu ganhaste. Ganhaste esse aprumo e essa dignidade genuínas, que eu sempre achei falsas na tropa. Ganhaste uma verticalidade que na tropa é apenas arrogância. Mas sobretudo aprendeste, por contraste, a ser feliz na vida e a partilhar essa felicidade com aqueles de quem gostas. Gostaria de te dizer como Cantanhede saiu à rua para te acompanhar, como foram solenes as honras militares que te prestaram, como a tua mulher estava digna, como as tuas filhas são corajosas, como a tua neta estava linda. Devias ter visto, ias gostar! Não devia recusar-se uma última visão das coisas a que um homem dá valor. Que pena, Padilha, tinha uma anedota porreira para te contar. Agora fiquei com ela atravessada aqui na garganta e parece-me estúpida. Se calhar tens razão. Se calhar já tivemos a nossa conta. Se houvesse compaixão neste mundo uma desgraça por pessoa já bastava.
Junho, 6 Na estrada de Vale-de-Cide, daquele lado, onde o muro do arvoredo criava uma cabeceira em que apetecia encostar a cabeça para dormir a sesta, havia um pó finíssimo, sobre o qual os camponeses deixavam uma nítida impressão plantar a cada passada. Nessa altura homem e planeta eram uma comunhão. No meu egoísmo bucólico ignoro toda a dor precisa para imprimir cada uma daquelas pegadas na poeira da estrada morna, como borralha aquecida na fornalha do Sol. Hoje ninguém passa a pé naquela estrada com o peso de um dia de lavoura às costas, e sobre o alcatrão não há uma só marca humana. Há de haver uma forma de sermos felizes sem desumanizarmos o mundo.
Junho, 7 – Onde caíram os soldados, onde tombaram, onde o seu sangue tornou a terra vermelha, nascem às vezes flores… – Então porque não há aqui flores? Ninguém amava os soldados que morreram? – Não é por falta de amor que as flores não nascem, minha filha, é por não ser primavera. – E porque nascem os soldados, por ser inverno? – Não minha filha, os soldados nascem todo o ano, por falta de amor. – Então porque não nascem flores todo o ano em vez de soldados?
Enquadramento da obra Entre 1961-1974 Portugal manteve com as suas então colónias de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau uma guerra, mobilizando perto de um milhão de homens e tocando praticamente todas as famílias portuguesas. A experiência da participação portuguesa neste evento de indefinida colocação historiográfica, quer pela denegação que oficialmente o caracterizou, quer pela radical reformulação geopolítica do país que a partir dele se engendrou com a descolonização, tornou este acontecimento um dos mais complexos, mas também um dos mais trágicos eventos da contemporaneidade portuguesa.
A experiência colectiva e individual da participação dos portugueses neste evento teve, e continua a ter, o seu registo de expressão narrativa e crítica, e o seu registo estético nas mais variadas formas de arte – da pintura e escultura à narrativa, do cinema ao teatro, da música à poesia. Foi sem dúvida na literatura que este registo de reelaboração colectiva e individual do evento se tornou mais marcante, dando origem a cerca de uma centena de romances e a milhares de poemas. Esta poesia, de autores directa ou indirectamente envolvidos na guerra, e elaborada, ou no momento da vivência do evento bélico, ou em seguida, enquanto espaço de memória e de elaboração pós-traumática, foi objecto de estudo do projecto Poesia da Guerra Colonial: “ontologia” de um eu estilhaçado, que decorreu nos últimos anos no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, sob orientaçao científica dos dois organizadores da presente antologia e o financiamento da Fundação da Ciência e Tecnologia. A Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial é o resultado visível deste projecto, reunindo mais de centenas de poemas de cento e oitenta poetas.
Um casal passa por mim. Ambos falando ao telemóvel. Falam, ela apreensiva e comedida, ele autoritário e exuberante. Fazem sinais para comunicarem entre si. Ele aponta o relógio de pulso a dizer que já é tarde, ela bate levemente no telemóvel e abre a mão em sinal de impotência. Ele estica o queixo em direção ao telemóvel dela a perguntar quem é, e ela abre a mão na direção dele a pedir que espere. E falam sempre para os seus contactos; ele autoritário, ela comedida. Passam por mim e dirigem-se para o parque de estacionamento. Antes de entrarem, cada um em seu carro, ele ainda aponta o indicador para ela e depois estica o polegar e o mínimo como se medisse a distância entre o ouvido e a boca, a pedir-lhe que lhe telefone mais tarde, e ela levanta o polegar a concordar.
Seguem cada um para seu lado, com a certeza que estarão sempre em contacto, porque é facílimo falar com as pessoas ausentes.
Quando terão tempo para sentir o tempo compartilhado como a água quieta de uma lagoa, e as palavras trocadas com todas as frequências da voz humana?
Alguém lhes diga que a voz humana não cabe na largura de banda de um telemóvel. Que a frequência que não se ouve e cria a ereção de todos os pelos do corpo precisa da intimidade sem intermediação; que o que a boca não diz e os olhos mostram se percebe apenas por uma diferença de estado de alma; que há coisas que se têm de dizer com o corpo todo e que precisam do corpo todo para ser entendidas.
Que alguém lhes diga que há um tempo para isso, e que depois esse tempo passa e fica um vazio que levamos para todo o lado; uma viuvez sem o conforto da saudade.
Chaves
Sabia exatamente onde guardavas as chaves: saías, fechavas a porta, mexias no tapete com uma mão só para enganar, e com a outra deixavas cair a chave num vaso. Será que suspeitavas que eu te espiava? Fazias isso tão distraída que a mão que se via melhor era a que levava a chave. Será que era uma precaução extra despida de qualquer critério?
Apetecia-me ir lá, pegar a chave, devassar a tua intimidade, deixar pegadas por todo o lado e depois deixar a chave debaixo do tapete. Irritam-me as diligências inúteis.
Hoje vi-te passar, ainda és bonita. Entras no carro, observas o bilhete do estacionamento, conferes no relógio que ultrapassaste o tempo pago, vais repor a diferença no parquímetro e depois vais embora deixando o estacionamento pago para ninguém.
Fico a ver-te ir embora, com a certeza de que te espiava no passado apenas com a curiosidade com que se olha um macaco numa jaula.
Chato
Tomo a minha bica tentando fingir que presto atenção ao que o meu interlocutor diz. Fala comigo de política, invariavelmentecom um tom pedagógico, como se algures no seu passado lhe tivessem atribuído a incumbência de me converter a um credo estranho,usando uma língua que nenhum de nós fala. O mínimo que posso dizer dele é que é um chato.
Quando tem oportunidade de projetar a voz para um número de vítimas que se assemelhe a uma assembleia, é que ele dá largas ao seu gosto doentio pelo discurso inflamado – no registo da cólera; na aceção que se usa para designar de "bebés coléricos" os recém-nascidos insaciáveis de mimo e que levam por vezes os pais ao suicídio.
O seu conceito de progresso que, como uma interminável epifania,tomou conta de toda a sua atividade intelectual pela vida fora, é uma confusão mental que nunca o deixou viver tranquilo. E a aridez dos seus ideais alimentou-se dessa truculência verbal, sem que ele nunca tenha sentido a necessidade de maiores explicações do que a redução do raciocínio à negação primária.
Como se a capacidade de dizer não a torto e a direito, acusando ao mesmo tempo os nossos pares de todas as infâmias,exigisse alguma coragem, ainda que mínima, sobretudo quando sabemos de antemão que podemos contar com a compaixão daqueles que afrontamos.
É óbvio que confunde coragem com desfaçatez; a coragem leva um homem a correr riscos e a aceitar a consequência dos seus atos, a desfaçatez é a pulhice que pode levar um homem a matar pai e mãe, e depois a comparecer em frente do juiz reclamando despudoradamente clemência por ser um pobre orfãozinho abandonado.
É sempre possível dizer tudo de todas as coisas; é sempre possível pôr em palavras o que não realizámos em atos; é sempre possível sentirmo-nos felizes com o que podia ter acontecido se tivéssemos tido a coragem de termos sido, de facto, o que apenas fomos em discurso. E é possível contar com a distração dos outros, de modo a convencê-los por via do sentimentalismo.
Se se der o improvável acaso de leres estas palavras, deixa-me usar a tua argumentação preferida:
– Não!
Não, não basta de vez em quando subires ao púlpito da tua presunção lançando pulhas sobre os que trabalham para ti, na vil ilusão de poderes desculpar a tua indigência, como fazes com a poeira filosófica do teu discurso político, esse patchwork de citações mal assimiladas, para encobrir o vazio que te vai cabeça.
Orgasmo
Ela quer ser feliz, ele quer sexo. Dos dois, só ele vai sentir-se realizado, porque o sexo é uma coisa que toda a gente sabe o que é, a felicidade não.
Ele adormece depois do orgasmo porque se sente farto, ela fica acordada porque apenas teve prazer e não sabe se era isto que queria.
A felicidade é sempre algo que desconhecemos, algo que fica sempre um passo além do horizonte alcançável. Felizmente que nunca a encontramos, para que valha a pena ficarmos acordados a perguntar se era isto que queríamos. Nunca passará de uma lúcida dúvida pós orgástica enquanto ao nosso lado alguém mais estúpido adormece satisfeito.
Bestialidade
E no Palácio soaram de novo as nossas vozes. O nosso castelo – disse o Maia. Para ali, cobardemente, nos apontou as armas o Jaime, ou lá quem era ele; mais uma corja de escravos domesticados, fazendo instantaneamente de nós heróis.
É esse o destino destes robertos caceteiros na sua pantomima patética de feira – matraquilhos fardados, teimosos bonecos de corda com alma de trapos, rancorosos derrotados dos verdadeiros combates, desertores de todas as nobres causas da vida, fraca imitação de gente, arreganhando a dentuça de rafeiros, a mostrarem a sanha por nos julgarem indefesos – é esse o seu destino: fazerem-nos sentir a que enorme altura a sublime humanidade nos eleva, muito, muito acima da sua torpe bestialidade.
Explosão
O cabo Bento era um vulto verde-sujo lá à frente. Um joelho no chão e dobrado sobre si, como um crente em oração. Olhou a mina anticarro por um instante antes de se mexer. O coração dele acelerou e as mãos abrandaram. Cada segundo continha um dia de vida, cada pequeno gesto consumia a atividade mental de uma obra ciclópica.
Não esperávamos ouvir aquela explosão, que aconteceu?
Nunca entendemos o que aconteceu quando morre um dos nossos.
Ficámos a olhar o lugar onde o cabo Bento devia estar, até a poeira assentar e ficar visível na picada, o buraco negro da sua ausência, marcando o nível zero da compaixão divina.
Fealdade
Na homenagem a Otelo ouve-se de repente alguém dizer de si próprio e da sua participação na Guerra Colonial: "Eu era da secreta", e depois com a voz embargada pela autocomiseração perguntar ao herói de abril qualquer coisa sobre o financiamento dos terroristas. Não param de me surpreender estes zombies erguidos do túmulo fascista para emporcalhar com o seu insuportável fedor os atos democráticos de gente asseada.
Está bem, deixemo-los usar a liberdade que nos negaram, porque lhes somos superiores, mas não podíamos ao menos oferecer-lhes um espelho para que morressem de nojo com a sua letal fealdade?
Troika
O que foi que nos escapou? Não estava previsto tudo isto? Não ouvimos nunca dizer que isto ia acontecer?
Mas os previsores económicos e os analistas políticos, cuja profissão é fabricarem as nossas opiniões, não continuam no seu poleiro mediático como se a crise não tivesse vindo provar que não nos servem para nada?
Enquanto nos preparam para pagar as dívidas que foram avalizadas pela sua incompetência, lá continuam eles cheios de cisma com o seu ar didático a explicarem-nos agora o que uma minoria de entre nós já assegurava antes, seguros de que lhes daremos novamente atenção e crédito, porque contam com a nossa comprovada estupidez.
Se tivéssemos alguma inteligência, deveríamos mandá-los todos para o desemprego.
E os nossos responsáveis políticos? E os nossos agentes económicos? Que deveríamos fazer com eles?
Garanto-vos que não iremos fazer nada, porque o mal dos nossos políticos e capitalistas não é serem políticos e capitalistas nem mentirosos e ladrões, é serem ainda mais incompetentes e estúpidos do que nós.
Felizmente que há sempre uma troika que vem ensiná-los a mentirem-nos e a roubarem-nos com competência e inteligência, poupando-nos à humilhação de aceitarmos o castigo por cobardia.
Uff! Que alívio! Já podemos fingir que está tudo bem sem nos sentirmos ofendidos no nosso amor-próprio.
Não há uma palavra para o odor do teu corpo; não o teu perfume feito de modulações complexas como uma sinfonia de aldeídos florais, mas o odor do teu corpo por debaixo do teu perfume, com este vestindo-o, cobrindo-o, mas não completamente; deixando à transparência, que a nudez desse odor fresco, fresco mas não por uma questão de temperatura, antes por uma questão de viço, consiga perceber-se, embora apenas levemente, como a nudez de um corpo sob uma túnica de seda fina, ou como uma música que se ouvisse por conseguir atravessar o manto esparso, composto pela tessitura dos ruídos da rua, e viesse despertar em mim a sensação de que o dia voltou a amanhecer, e que algo de inesperado, como uma notícia há muito aguardada e já esquecida de todo, acabasse de ser anunciada, de tal modo, que despertasse em mim esta alegria infantil, e tão inocente que me apetece seguir-te por entre os cheiros dissonantes que emanam das casas e as fragrâncias harmoniosas que se soltam das flores, com o propósito de partilhar essa alegria contigo, só porque sinto que o teu odor é irmão do meu; irmão não: parceiro; algo que me falta e que sobra em ti, ou algo que em mim é convexo e é em ti côncavo, assim como duas mãos que se entrelaçam, como se dançassem, não que alguma vez tivéssemos dançado, não; mas o teu odor parece ter notas musicais que fazem balançar algo em mim, e no entanto há um silêncio no teu odor que me tira a lucidez e me atrai, como o abismo atrai o suicida, como a luz atrai o inseto; porém, agora que falo nisso, se o teu odor tem luz, é aquela luz irreal que existe nas praias frias do Norte, uma luz que não faz sombra, e onde as pessoas, ao imergirem da água, parecem só alma, mal interrompendo a bruma do mar, como o teu odor mal interrompe a torrente de cheiros da rua; mas está presente, ou antes: flui, e isso dá-me uma esperança infinita, como o caminho dá esperança ao caminheiro errante, quando, depois de cansado da lonjura, sente que chegou a hora de regressar a casa, porque nele se fará a viagem de regresso, como pelo teu odor se pode fazer a viagem para ti, sobretudo quando o banho ao fim do dia te despe do teu perfume e te deixa só com o teu odor, um odor que o banho não consegue tirar totalmente, apenas suaviza, deixando-te mais exposta aos meus sentidos; mal comparando, como se sobre ti apenas pousasse um desejo, e esse desejo é feito desse teu odor sem nome, esse odor que te aumenta a nudez, como uma praia matinal na maré-baixa, à mercê do vento, parece mais desamparada, sobretudo, se ainda emana da areia, quase impercetível, o hálito fresco do mar.
Visão Falavas, e a bem dizer eu não te ouvia, distraído pelos movimentos dos teus lábios e pela forma como sobre a fronte uma pregazinha de pele franzia e alisava, alisava e franzia; para além de estar intrigado pela humidade que se formava junto às têmporas, a fazer adivinhar que se formariam ali, muito em breve, algumas gotículas de suor que tornariam o teu rosto ainda mais sensual; porém, eram os teus lábios que me atraiam mais; embora me surpreendesse que os teus olhos parecessem mais claros agora sob o efeito da luz, assim, entre a cor de avelã e o pistáchio, isto é, um castanho que de tão doce ameaçava esverdear um pouco, a sugerir a tua remota origem celta, ou quem sabe a querer denunciar algum invasor napoleónico que tivesse impregnado a paleta dos teus genes quando se aboletou na casa de alguma distante trisavó tua durante a guerra peninsular, porque mais nenhuma feição nórdica se vislumbra nos teus traços gerais, a não ser talvez na tua tês demasiadamente clara, já que em tudo o mais são predominantes as características trigueiras dos povos mediterrânicos; e daí, talvez nem seja tanto assim, porque há qualquer coisa de oriental no amendoado dos teus olhos que agora me encararam mais, ao mesmo tempo que o teu rosto ganhou uma iridescência de malmequer em que tivesse incidido um raio de luz do sol, talvez porque eu tenha respondido a alguma pergunta tua com um disparate qualquer, por não ter prestado atenção ao que dizias, embevecido que estou pelo encanto do teu rosto, e agora ainda mais, que se acendeu essa luz nele, ao sorrires; que persiste, dado o meu embaraço ao constatar que não prestava atenção ao que dizias, porque estava lendo cada gesto teu, todas as cambiantes da luz nos teus olhos e a mínima mudança de volume sob a pele do teu colo, onde as carótidas pulsam a um ritmo cada vez mais acelerado, levando-me a pensar que o teu ritmo cardíaco aumentou por teres adivinhado que o meu também aumentara, só de nos olharmos um ao outro; o desejo mise en abîme, como dois espelhos frente a frente, que se multiplicam reciprocamente, ao infinito.
Audição A tua voz à beira-sonho afaga-me, e embala-me, à medida que os meus olhos adormecem, enquanto a mente ainda lúcida apenas se solta um pouco do corpo e se liberta; um tudo-nada como o riso liberta a alma, e nem a censura do bom senso segura a imaginação, de tal maneira, que parece que estou em queda livre por dentro da tua voz; como se houvesse abismos e tentações em cada palavra, que tivessem o sortilégio de redimir em vez de condenar, fosse qual fosse o credo, fosse qual fosse o deus; isto é, ouço a tua voz quando estou neste meio transe, e não há perdões impossíveis: mouros e cruzados ajoelhados numa expiação de todos os crimes mutuamente cometidos ao longo dos séculos, numa comunhão ecuménica que convocasse todo o perdão, mas tudo por dentro da tua voz, tudo a viajar no som das tuas palavras, que chega até bem dentro de mim; não apenas como ondas acústicas, mas como uma vibração da alma, em todas as frequências possíveis, desde a ternura até ao gozo, desde o júbilo até à mágoa, mas tudo de uma forma serena, mais serena ainda que uma asa de ave na noite calma, riscando a pele virgem de um lago sob o rosto complacente da lua, e tudo na tua voz; tal como o apelo do mar, misterioso e antiquíssimo, desde os nossos egrégios avós, aumentando o conceito do longe e da aventura e a ânsia louca de chegar, de chegar seja onde for, só pelo prazer de chegar a algum lado, e tudo na tua voz; na tua voz como numa viagem, onde imagino navegantes seguindo as estrelas, pela noite do desconhecido; na tua voz como numa partida onde eu, perdido numa praia deserta, ouvisse o orgasmo do mar e ardesse com o ciúme de ver partir as caravelas, enquanto ficasse para trás, longe da ação e da aventura, triste e só, masturbando-me ao luar; e tudo, tudo, na tua voz.
Tato Conheço-te melhor desde o dia em que o teu braço roçou no meu, nem sei se roçou, mas imaginei que sim, pelo menos eu senti uma pequena corrente elétrica subindo até algures na coluna cervical; sim, logo abaixo da nuca, onde ainda hoje sinto prazer quando me tocas, embora depois percorra todo o corpo, mas é dali que emana, especialmente, se não estou a contar que uma mão tua me procure imitando uma gaivota pousando numa arriba como prenúncio de mar bravo, quando ainda a água está calma e os pensamentos distraídos não passam de albatrozes sentados no vento, e é aí que subitamente tudo se agita, porque as tempestades começam quando essa primeira gaivota poisa em terra, quando ainda ninguém espera que o dia se embrulhe todo como um turbilhão de corpos em luta, tal e qual como acaba por acontecer connosco algum tempo depois de nos tocarmos, e depois que um pequeno choque elétrico liga não sei que interruptor logo aqui abaixo da nuca, o que é estranho, porque quando sou eu a procurar a superfície da tua pele, tudo parece tão lúcido em mim, tão lúcido que cada milímetro quadrado é um continente inexplorado, tão lúcido que sinto os teus poros na polpa dos dedos ao percorrer os vãos e desvãos do teu corpo, mal te tocando, não te tocando mesmo, apenas cada mão minha imitando uma ave de rapina em voo rasante sobre a pradaria, não sentindo tu nada, senão por um movimento no ar, senão por uma diferença de temperatura; nem tanto: apenas por uma troca subtil de eletrões entre a minha pele e a tua; ou menos ainda: só pela atração universal da matéria, tão impercetível que nem dá para acreditar que arquitete o Universo todo, e a nós faça com que, perdidos no vácuo cósmico deste quarto, sintamos a gravidade da Terra em cada dedo; de tal forma, que todos os frutos já maduros do teu corpo anseiem por ser colhidos, e a minha fome de tocá-los, não ainda de colhe-los ou de comê-los, mas apenas de tocá-los, crie este magnetismo entre fome e fruto, o que me convence que nós somos um todo, apenas aguardado a conjunção dos nossos corpos, enquanto desde o interior de cada um de nós cresce esta vontade incontrolável de contacto, em mim de dentro para fora, e em ti de fora para dentro, como um vórtice que ora gira para um lado ora para o outro, conforme se encontre de um ou de outro lado do equador, e se alimenta a si próprio até todas as forças eólicas se equilibrarem, mas antes há a tempestade, antes há a agitação, e ainda antes de tudo isso há o toque quase inadvertido do teu braço no meu que desperta em mim a certeza de te conhecer desde sempre, e aciona a ignição de todo o desejo.
Paladar Acordei na tua boca como fruto intumescido e ardente. Eu indefeso, tu felina devorando a minha carne eminente. Tanto prazer até dói. A tua alma girou dentro do teu corpo como se a Terra invertesse a polaridade. Neste beijo excêntrico, o que em ti é sul, é norte em mim, cumprindo a lei da atração dos contrários. Flor carnívora, que esmagas em mim a corola rubra do teu corpo, a que me sabes tu? Ostra ou açafrão? E a que te saibo eu? Jasmim ou maçapão? Tu em equilíbrios de fogo e gelo. Eu tentando suster a espiral de uma galáxia. De um lado desfaleces desfolhada, do outro espirro desfeito. Acabamos, tu pétala a pétala sob o meu rosto, eu gota a gota no teu peito.
O cavaco de cerne fumarento preso na pinça da candeia de lata nunca deixava a Ti Maria Adôa às escuras. As sombras assombrando as paredes. A imagem de uma família humilde a comer as batatas da ceia sentada na minha memória para sempre. Um dia reconheci-a num quadro de Van Gogh. Em minha casa a luz elétrica faltava sempre quando era mais precisa. Virá ainda hoje? Não virá? A incerteza à luz de uma vela é sempre mais vacilante, e as sombras do cavaco de cerne a mudarem-se para as paredes da minha cozinha. Se não chovesse eu dava uma corrida até ao Rebelho para ver o Ti Zé Quiaios a manejar os fusíveis da cabine elétrica como um organista a puxar os registos de um órgão de igreja. O Ti Zé Quiaios era quase cego, com os olhos dilatados pelas lentes de cu de garrafa, mas as suas mãos tinham uma precisão de milímetros. Ou era ele que conhecia a cabine elétrica, ou então era a cabine que o conhecia a ele. – Ai no auguentas? Espera aí que já cospes! A ferramenta e a mão, o nervo e a eletricidade, a cegueira e a luz. Tudo tão irmanado. Tão afeiçoados um ao outro homem e máquina. E Aguim iluminava-se por fases e apagava-se por fases, e os fusíveis a estourarem, e o Ti Zé Quiaios a reforçar os bornes. Uma luta; não uma luta: um jogo. Um jogo não: um namoro, uma sedução mútua entre a tecnologia e a humanidade; porque nesse tempo a tecnologia casava com a humanidade. Quando Aguim finalmente ganhava a cintilação dos presépios, o Ti Zé Quiaios regressava a casa dele vitorioso, e eu à minha deslumbrado. Os invernos eram eternos. E dava a ideia que começavam sempre antes do tempo. Eternos, porque quando ainda não conhecemos suficientemente o presente, ele parece não ter fim; a eternidade é apenas a ignorância dos limites. Habituámo-nos ao verão e de repente o tempo a tomar balanço no outono para a chuva nos apanhar desprevenidos. – Podia esperar que apanhássemos os cachos da Casqueira. O meu avô e o clima poucas vezes estavam de acordo, mas o meu avô já sabia de mais para se deixar surpreender; só os inocentes têm esse privilégio. O inverno, na verdade, começava muitas vezes a meio do outono, como a morte começa a meio da vida. Quando começamos a morrer? Sei lá! Mas há sempre uma primeira chuvada que nos estraga a vindima, uma chuvada que nos apanha sempre desprevenidos. Acho que era por isso que o meu avô não gostava do inverno. Vista do alpendre do pátio a vida na rua era um filme. O Ti F'lipe batendo com um maço na madeira e transformando uma molhada de aduelas numa pipa de vinho. O novo aprendiz de pé sobre um dos tampos a segurar as aduelas pelo interior como uma margarida de pétalas abertas, enquanto por fora o Ti F'lipe as ia fechando. Quando a margarida se fechava, nascia uma tulipa de madeira que surpreendia o aprendiz, preso lá dentro aos berros. O Ti Zé Sécio com uma enorme tenaz encaixava um aro em brasa numa roda de um carro de bois. Batia-lhe com o malho à vez com dois ajudantes. O fogo a dilatar o ferro, os malhos a domá-lo e a água a contraí-lo em torno da roda; tudo envolto em fumo, vapor e algazarra. O Ti Antóino Mateus dedilhando os vimes como um tocador de harpa, e quem havia de dizer que aquela harpa de vimes ia acabar num poceiro para a vindima! Tudo tão vivo, tudo tão animado. Uma coreografia que olhada assim de perto parecia não ter outro propósito que deslumbrar o meu olhar. Mas olhando de perto nunca se percebe bem o propósito da vida; só muitos anos mais tarde percebi tudo numa ópera de Verdi. No enquadramento do portão, Aguim desfilava num traveling rápido, com uma banda sonora ao vivo. O Ti Zé Sécio ferreiro nos metais, do Ti F'lipe tanoeiro nas madeiras e o Ti Antóino Mateus cesteiro nas cordas. E a voz de falsete da moça serrana a fazer as camas de lavado sob o olhar oblíquo do meu avô. – Andas-me muito delambida… – Enquanto passava a carda com vagares de barbeiro no lombo do cavalo. Aos primeiros pingos, a chuva fazia acelerar o filme do portão do pátio, com as pessoas a fugirem e a falarem mais alto, mas logo a abrandarem de novo conformadas. Um saco de estopa com um dos cantos encaixado para dentro do outro, e pronto, aí está um capote reforçado. A chuva molhava à mesma mas pelo menos dava-se-lhe luta. E nisto o assombro dos trovões. A minha avó a dizer uma ladainha elevando a voz à medida que a trovoada aumentava, não fosse Santa Bárbara não ouvir bem por causa do barulho, e a confirmar se a cruz de alecrim benzida no Dia de Ramos estava atrás da porta para afastar todos os agouros. E resultava, porque a trovoada afastava-se e ia fazer barulho para outro lado. E depois ficava a chuva apenas, e o som da chuva parecia silêncio. – Ela é cá precisa. – Podia esperar que apanhássemos os cachos da Casqueira. – Este ano vai ter menos grau. – Pró ano começamos mais cedo. As conversas à lareira da cozinha do forno só faziam sentido para os adultos. Falavam para si próprios como se estivessem sós, mas cientes de que se falassem todos a mesmo tempo, as várias solidões se uniriam para criar uma confraternidade. Mas eu acho que era o encantamento do lume na lareira que tornava aquelas sombras taciturnas nos rostos luminosos da minha família. O lume a fazer gemer as cavacas molhadas. Às vezes um estalido e os tições a aconchegarem-se uns aos outros. E a trovoada tão longe agora que a ladainha da minha avó era só por mera precaução um simples tremelicar dos lábios. Dias e dias, noites e noites, sem parar. A chuva era eterna também. Passada a surpresa, as coisas permaneciam para ficar, não davam um único indício de que teriam um fim. Havia lagos no Largo do Sobreirinho e rios que desaguavam na minha valeta. A água era uma constante à face da terra. Mas uma noite, todo aquele dilúvio acalmava como um pranto de viúva esgotada de mágoa e resignada ao vazio do corpo. Primeiro começava por nos surpreender o silêncio. O silêncio é o que ouvimos quando termina um ruído. Agora o silêncio era o xilofone das gotas grossas dos beirais a baterem nas latas à porta da oficina do Ti Zé Sécio. O vento norte foi-se embora desvairado pelo Caminho dos Poços abaixo e a noite sossegava finalmente. E logo mais, a madrugada acordava sem outro sobressalto que a brisa a trazer consigo os primeiros frios. Um vidro a cobrir a água do tanque, a bomba de alavanca que não deitava uma gota, o cavalo a resfolegar na cavalariça, os gatos em novelos pelos cantos e a minha mãe a enchouriçar-me de roupa. Eu tinha que caminhar de braços e pernas abertas por causa das várias camadas de pano que me transformavam numa cebola ambulante. – Cuidado com as correntes de ar. Em minha casa nunca havia duas portas abertas ao mesmo tempo. Para mudar de divisão tínhamos os cuidados de um mergulhador na câmara de descompressão de um submarino. Em breve o frio e a geada passavam a ser eternos também. E lá faltava a luz de novo. Logo aparecia uma vela acesa mas quase tudo ficava na escuridão, porém, as coisas importantes sobressaíam a esta luz. Acho que é daí que vem a crença que é mais romântica. Se foi esta incapacidade de ver para além de certos limites que nos permitiu criar a conceção de infinito, foi ela também que nos permitiu criar a da intimidade. Se não, de onde me vem esta ideia de que jantávamos abraçados uns aos outros? E a luz voltou. Apagávamos a vela e as baratas regressavam ao pátio. E quando nos preparávamos para continuar a ceia, voltava a falhar a luz e acendíamos a vela de novo. E eu imaginava o Ti Zé Quiaios quase cego enrolando e desenrolando fios nos bornes dos fusíveis, pontificando do seu púlpito da mais avançada tecnologia a eterna luta entre a luz e as trevas, e a dizer sentencioso: – Ai no auguentas? Espera aí que já cospes!
A tarde numa tristeza de pássaros pousados num fio elétrico. Pousados como uma fiada de farrapos abandonados, com o vento norte a levantar-lhes a ponta das penas. Um prenúncio de tempestade nos pingos de chuva esparsos. Grossos e tão esparsos que parece possível passar por entre eles sem nos molharmos. Mas não há pássaros nem chuva, de onde fui eu buscar isto agora? Porém, eu sinto a tristeza na tarde, sinto-a como se costuma sentir no quarto de um doente terminal – uma tristeza que se adivinha por ali pairando, um relento de moribundo que as visitas percebem como se fizesse parte da composição do ar. As pessoas passam umas pelas outras sem se verem. Estranhas. Ausentes. Apetece dar um grito ou partir qualquer coisa para as acordar da apatia. Um sem-abrigo cabisbaixo, sentado no passeio, com a mão semiaberta pousada no chão. Uma mão cansada da indiferença dos transeuntes, onde se vê uma moeda de 50 cêntimos a pedir companhia, embora a mão semiaberta pareça recear que lha roubem. Um dia em África senti essa tristeza do ar, essa dor impessoal, esse abandono das coisas a divorciarem-se das pessoas, como se as pessoas lhes metessem medo. Foi daí que me veio isso à ideia agora; porque havia um fio elétrico com pássaros pousados como farrapos, e um prenúncio de tempestade nos pingos grossos da chuva. Grossos e esparsos. E ao meu lado uma prostituta oferecia-me suruma. Ao longe um pequeno grupo de pessoas rodeavam uma fogueira embora fizesse um calor de sufocar. A prostituta ora me oferecia suruma, ora me perguntava se eu estava com medo de ir para o Norte. Não – respondo à prostituta 38 anos depois – não tenho medo. Talvez amanhã tenha medo no meio dos tiros, mas agora não. Agora sinto que estou no meio de um romance, e que o autor acabou um capítulo inesperadamente; deixou a história em suspenso e prepara-se para falar de outra coisa só para aumentar a expectativa. Mas o que é verdadeiramente estranho, é que, 38 anos depois, o que me resta disso tudo seja apenas uma raiva incontida, não bem uma raiva, mais uma vontade de lutar, uma vontade de partir qualquer coisa para fazer as pessoas acordarem da apatia. Roubar os 50 cêntimos ao sem-abrigo para o obrigar a acordar também. Procurar um fio elétrico onde haja pássaros pousados e espantá-los à pedrada. Na Fernão de Magalhães o trânsito flui como uma coisa automática. Os peões atravessam as passadeiras quase a correr, parecendo temer ser assassinados pelos automobilistas. Ao meu lado na mesa da esplanada uma mulher tem o braço esquerdo esticado e olha as costas da mão enquanto faz rodar no anelar uma aliança de ouro. Uma chávena de café esquecida ao lado. No braço direito várias marcas roxas denunciam violência doméstica. Roda a aliança. A bica arrefece. O trânsito automático. Eu a contas com a tristeza de uma tarde na minha memória. O eco de uma prostituta perguntando se tenho medo. Sim – respondo à prostituta de novo – um medo a haver. Quando chegar ao Norte; agora não. Agora sinto que algo ainda distante me atrai, algo perigoso e fatal; mas imperioso, como só imperioso assim é um dever a cumprir. Quando passei pelas pessoas em torno da fogueira pareciam fantasmas, olhei ainda para trás e vi a silhueta da prostituta na luz amarelada da rua; a prostituta fumando suruma. Eu a caminho do Norte. Um prenúncio de tempestade. Uma tristeza como um componente do ar, para além do oxigénio e dos restantes 16 gazes principais. Com o tempo, estas coisas parecem mentira. Pensei: será que um dia vou sentar-me ao sol no meio de gente que goste de mim e me vou lembrar desta tarde como um pesadelo do passado? Mas não. Nunca me lembro dessa tarde em África quando está sol e eu estou entre amigos. Agora sim. Agora que as pessoas passam com pressa, como se fugissem de uma tempestade que ameaça cair sobre a cidade, ou dos automobilistas que as parecem querer assassinar. E dá-me a ideia que algo imperioso me chama, e que estou de novo a ir para o Norte, e que o romance só parou um pouco para mudar de capítulo. Mas aqui, na Fernão de Magalhães, não há romance nenhum, nem há um miserável fio elétrico onde poisem pássaros a criarem na nossa imaginação a impressão de que é o ar da tarde que tem tristeza na sua composição química, nem pessoas à volta de uma fogueira apesar do calor sufocante, nem uma prostituta de subúrbio a tentar adivinhar o medo da guerra escondido no coração dos soldados. Na esplanada da Fernão de Magalhães a mulher puxa a aliança um pouco e esfrega o local onde ela deixou uma marca no dedo, como os escravos faziam com as marcas das grilhetas. Puxa a aliança mas a aliança não sai. Contenta-se em esfregar a marca no dedo. A bica já fria. Aqui há apenas gente que não se conhece. Pedintes com medo que lhes roubem a moeda que usam como isco para atrair uma caridade que não existe. Parecem todos órfãos de uma esperança fora de validade que ainda não acordaram para a realidade de uma vida sem opções. Uma apatia que gera em mim esta vontade visceral de lutar, de pegar novamente numa arma, puxar a culatra atrás, depois soltá-la e senti-la introduzir a primeira bala na câmara, e ir defender o Império. Ter ao menos a ilusão de um dever a cumprir. Olhar em volta e ter a sensação que quem escreveu este romance estúpido acabou abruptamente o capítulo da esperança só para criar uma falsa expectativa. Depois, abrir um capítulo novo, ganhar coragem, e partir finalmente para o Norte.
O dia menos desejado chegou, era por volta das cinco, seis horas da tarde que as Berlliet e as Peugeot começaram a chegar e a ficarem alinhadas umas ao lado das outras, lá na parada do Quartel da Barra, já com a frente virada para portão de saída. Todos sabíamos que ainda era cedo, mas elas já ali estavam esperando por nós, se alguns já tinham as malas e os sacos prontos outros acabaram por dar mais um jeito nas suas coisas, porque dentro de poucas horas iria dar-se o início da viagem para Moçambique. À hora de jantar, a vontade de comer era pouca mas tínhamos que comer, porque íamos ter uma viagem de comboio durante toda a noite, era longa a viagem, e era necessário levar o estômago cheio. Após o jantar e um pouco de descontracção, chegou a hora da formatura já com as casernas abandonadas porque as malas já se encontravam nos camiões. Lá fomos para a formatura para nos desejarem boa sorte. Após o destroçar, começámos a dirigir-nos para os camiões, mas com pouca vontade de para eles subir, porque todos tínhamos a consciência que a partir daquele momento se iria dar o início da viagem para o inferno. A viagem do Quartel da Barra em Viana do Castelo até á estação dos caminhos-de-ferro foi curta, porque ficam perto um da outra. Pouco a pouco fomos descendo das Berlliet e das Peugeot, e com as malas e os sacos pendurados nos ombros, lá fomos caminhando devagar para dentro da estação, para encararmos aquele comboio ali parado á horas, esperando por nós. Quase se podia imaginar nele um ar sínico, como quem gozasse connosco; mas para ele era-lhe indiferente porque a sua função era levar-nos para Lisboa, e desde que até lá nada de mal nos acontecesse, assim ele se livraria de responsabilidades. Já dentro do comboio e antes de este começar a andar, comecei a notar algo diferente em relação a outras viagens de comboio que tinha feito enquanto militar. Recordo-me que quando ia para a Estação de Campanhã no Porto, para apanhar o comboio da meia-noite, ou o das onze horas, que eram comboios militares, notava um ambiente descontraído, alguns bebiam bastante cerveja e tocavam viola – e a muito mais coisas se assistia naquela Estação de Campanhã – mas nesta viagem nada disso se passava; embora se compreenda, que o motivo da viagem era outro, os militares muito pensativos. Só Deus sabe se alguns até iriam a rezar naquele início de viagem, que sabíamos seria longa mas não sabíamos se teria regresso. Mas não só isso se notava; notava-se algo mais, mas mais pesado que não sei descrever… sei lá! Talvez fosse a morte a fazer a sua escolha já ali no comboio dos que iriam morrer e não fazer a viagem de regresso. Foi uma viagem feita de noite, uma noite muita escura. Foram horas de viagem que dariam para pensar em muitas coisas, mas naquelas horas não se deve ter pensado em muitas coisas, porque o que nos ocupava a mente era aquela viagem mesmo, e o que seria de nós depois que ela terminasse quando chegássemos a Moçambique. Foi uma viagem sempre pensando no mesmo. As horas foram passando, o comboio foi andando e lá chegamos a Lisboa. Fomos para o Cais do Sodré. Aí, foi mais um reviver a despedida dos nossos familiares que tínhamos deixado em casa e que se sabíamos que não estariam ali. Ao verem tantos militares com os seus familiares e a chorarem, os que não tinham ali as suas famílias fugiam para um lugar onde pudessem estar sós para dar livre curso a mais umas quantas lágrimas e fumarem mais um cigarro, desejando que a família também lá estivesse para mais um abraço, um beijo, um adeus. Em casa, quando da despedia da família, quantos disseram que não era necessário irem a Lisboa, imaginando que seria sofrer duas vezes, mas aqueles que estavam ali com a família mais uma vez, mais uma vez sofreram e mais uma vez fizeram sofrer. Depois dá-se aquela imagem a que já estávamos habituados a ver na televisão, que era a subida pelas escadas para o barco com as malas e os sacos às costas, que no nosso caso era para o navio Niassa, com a convicção que a viagem para o inferno não começava ali, pois que já tinha começado em Viana do Castelo, e que, quando iria acabar é que ali não se podia saber. Já dentro do navio e com as malas e os sacos guardados, lá nos juntamos todos para mais uma vez dizermos adeus, alguns aos seus familiares, outros como não tinham lá a sua família, diziam adeus ao cais, à terra firme, àquilo que fora a sua vida até ali, a que davam um nome só: Portugal. Depois, cada um como podia tentava mostrar aos outros que estava ali forte para enfrentar fosse o que fosse, mas só Deus sabe como cada um passou aquela primeira noite a bordo do Niassa. A primeira de vinte e oito noites nos porões do Niassa nas condições mais degradantes que se podiam dar a um ser humano, quando, mobilizado para a guerra em África, o que precisava no mínimo era de um pouco de bem-estar. Foram vinte e oito noites a sobreviver naquelas condições, e que noite após noite se iam agravando; uma viagem que para muitos teve regresso e para outros não, viagem igual a tantas outras que foram feitas durante o período da guerra colonial, que hoje recordo, talvez por saber as condições que hoje os nossos militares têm, quando naquela altura não éramos mais que carne para canhão. Quando passo por um camião com animais para o matadouro vem-me sempre á memória aquela viagem onde homens, filhos do povo feitos soldados, feitos militares do exército português a que nos orgulhámos de ter pertencido, foram tratados assim mesmo, como animais a caminho do matadouro.
De repente, do nada: saudades da guerra. Porco e malcheiroso, de mãos sebentas, de G3 nas unhas, fuçando a mata virgem, cheio de fome e de sede, com raiva não sei de quê. Mais vinte e tal tipos como eu, em fila por entre o capim, mal falando uns com os outros, sabendo que cada passo dado nos aproximava da morte. Porque tenho saudades disto às vezes? Porque passo dias e dias a escrever, tentando pôr nas palavras que me visitam a recusa de qualquer visão romântica da guerra e de repente a memória me deita tudo a perder? Os helicópteros a largarem soldados dando a impressão que se sacudiam e que eles caíam de ambos os lados para o chão. E depois, vultos a correrem para a orla da clareira, encurvados, numa coreografia rude de hienas em matilha. Os helicópteros a ganharem altura, um após outro, como insetos pré-históricos, e alguns minutos de seguida, o silêncio feito das batidas dos nossos corações. Só a massa imensa da floresta à nossa frente. Quem nunca sentiu assim a mata, feita de muitos corpos, uns vivos e outros mortos e outros já apodrecidos, convivendo num corpo só, não faz a menor ideia do que estou a falar. Um corpo enorme que nos reduzia a simples vermes. Agora assusta-me esta ideia de ter sido verme a esburacar um ser vivo procurando outros vermes como eu para os matar, mas mentiria se dissesse que, talvez por causa de um qualquer elemento químico fazendo parte de mim, não sentia um instinto de felino em busca da presa, não por fome, não por ódio, mas por um desejo desconhecido qualquer, que me impelia para a frente, onde eu próprio poderia encontrar o meu fim. Não sei de maior desafio que o da superação do medo: encarar a exiguidade da margem que existe entre a probabilidade de sobrevivência e a do aniquilamento, e ter a consciência de que o desespero diminui essa margem; sentir um resquício de amor-próprio a impedir a perda de uma, ainda que aparente, dignidade; como um ator que representasse a coragem, mas correndo mesmo perigo, recusando, por presunção, um duplo. Por assim dizer, um ator representando a própria vida. Ou ainda por outras palavras: a coragem é sempre a fingir, porque sem medo a coragem é apenas um duplo que não sabe que a cena contém perigo. É tentador aceitar esta saudade que de repente me assaltou. Deixo que a minha memória me conduza até esse tempo em que me sentia do lado da razão, combatendo os inimigos do Império. Como nas aventuras da minha infância: eu, colono e pistoleiro combatendo os índios que teimavam em não gostar de nós. Perguntei muitas vezes, durante as minhas leituras infantis, porque não gostavam os índios dos colonos. Respondeu-me um dia o Sousa, sentado a meu lado num Hunimog. "Estão cá há mais tempo do que nós, furriel." Não lhe dei crédito, porque eu não tinha o instinto territorial tão desenvolvido como ele. Continuei por algum tempo mais a experimentar esse sentimento de incompreensão para com a obstinação de alguns indígenas em não gostarem de nós, o que alimentava a minha coragem de ator sem duplo ao serviço de um dever que se tornava desconfortavelmente cada vez mais abstrato. Que ganhava o Sousa, quando voltasse para a Bairrada, com a permanência de Cabo Delgado no Império Colonial Português? "Ganho o mesmo que você, furriel." Que instinto me faltou ali, quando ele me respondeu assim, para não lhe dar crédito de novo? Será que todos e cada um dos soldados que combatiam em África deveriam saber exatamente porque arriscavam a vida? Ou ter em conta que migalha do Império lhes caberia como recompensa? Eu, aqui sentado numa cadeira da esplanada do Café Santa Cruz, olhando as pessoas distraídas a viver, sem procurarem razões para os seus atos, acho agora essa questão ingénua. É-me claro agora que a um soldado se pede que aceite dar a vida por uma razão que o transcende quase sempre. O que ainda verdadeiramente me intriga é a facilidade com que ele aceita, pois que os refratários e desertores são normalmente em número desprezível, mesmo tendo em conta que por vezes é mais perigoso desertar do que continuar combatendo. É certo que o soldado é sempre pouco mais do que uma criança, e que a ignorância do que o espera contribui para que ele se deixe mobilizar, mas mais ainda do que aceitar a mobilização, surpreende-me a facilidade como que ele se torna um matador. Ali em baixo passam inúmeros jovens de vinte e poucos anos, estudantes e empregados de serviços a quem criaria um pânico incontrolável, a ideia de pegar numa arma e matar alguém; mas, se o estado precisar, eles fá-lo-ão; como a esmagadora maioria dos jovens de vinte e poucos anos, de todas as épocas, de todos os países do mundo, quando o estado lhes diz para o fazerem. E a nenhum deles o estado se dá ao trabalho de explicar muito bem porque é que o devem fazer. Se o estado não precisa de fazer esse trabalho na hora da mobilização é porque esse trabalho já deve estar feito. E deve ser algo tão simples que nem damos por isso. Talvez seja preciso apenas ativar um qualquer elemento químico fazendo parte de nós, algum instinto, alguma característica genética adormecida dentro de nós desde tempos imemoriais, que serviu para a preservação do grupo, quando a sobrevivência se fazia à custa do aniquilamento do outro. Mas quase de certeza que a ilusão de imunidade transmitida através da vulgarização gratuita da violência deve ter um papel importante. Basta ver o subproduto da indústria cinematográfica americana que importamos a baixo preço, onde a visão da nudez e do sexo explícito são mais censurados do que a visão do esventramento e da sanguinolência. Mas é um processo mais generalizado e aparentemente mais inocente, e por isso mais eficaz, que tem a maior responsabilidade no embuste da imunidade e da impunidade do ato de guerra. Basta criar um imaginário de aventuras em que os outros são sempre os maus que teimam em não gostar de nós, e que nós temos o dever de aniquilar em vez de os deixarmos em paz. Mas para entender este processo é preciso ter em conta o efeito manipulador do enredo. Na ficção, a história está sempre sob controlo; o seu autor sabe de antemão como ela vai terminar, apenas se diverte a criar falsos equívocos e falsos labirintos de que possui desde muito cedo a chave. E não é só na fast-food dos filmes de terceira categoria da indústria cinematográfica americana, é a própria História que não passa nunca de um conjunto de enredos e com autores conhecidos. É certo que o enredo é-nos sempre contado para nos levar a aceitar a conclusão previamente conhecida, mas é já o enredo, ele mesmo, que tem esse papel manipulador de educar para o "ato heroico", ato este que na guerra, muitas vezes só se distingue do crime porque está dentro da Lei. A lei de um dado estado, de uma dada época. E é a lei, sempre temporal, sempre efémera, que confere impunidade ao matador. Ou então uma dada ideologia ou religião. Deus reduzido ao papel de autor a quem confiamos a chave do enredo da vida, como se Ele já não tivesse dado provas, vezes de mais, de não gostar de finais felizes. E, evidentemente, há a instituição militar, que, quando não se alimenta gratuitamente do alistamento obrigatório, transformando o serviço militar em trabalho escravo, se locupleta no desemprego, oferecendo aos jovens desempregados uma "carreira de futuro", que não passa de um contrato a termo certo, de trabalho precário e com um futuro de curta duração. Mas a instituição militar, afinal, só aguarda que lhe entreguem a carne para canhão de mão beijada, e apenas vem dar um último toque de mestre, que tem como finalidade dignificar o ato de matar, transformando-o na arte da nobre profissão das armas. A minha saudade da guerra acabou desbotada com o caminho que levaram estas minhas mal amanhadas lucubrações. Chegam-me agora apenas alguns flash-backs desconexos, de soldados saltando de helicópteros, soldados correndo para dentro da mata, seguindo depois silenciosamente por ela dentro. As pessoas a passarem lá em baixo, na Praça 8 de Maio, distraídas a viver. Alguns são jovens de vinte e tal anos, soldados a haver. O soldado da frente levanta o braço e depois baixa-o lentamente. Todos se baixam, e seguidamente mudam de posição até ficarem ao lado uns dos outros. Os jovens estudantes e a subirem a rua Visconde da Luz com uma coisa dentro deles. Uma coisa herdada dos seus ancestrais; algo químico que basta acionar para os transformar em matadores. Vozes das pessoas no aldeamento. Distraídas a viver também. Jovens de vinte e tal anos de arma na mão. Valorosos soldados facas-longas prontos a atacar uma aldeia de índios teimosos, que não gostam de rostos-pálidos. É só uma história aos quadradinhos. Tudo a fazer de conta. Somos todos bonecos. Basta fechar a revista. Basta olhar para a Praça 8 de Maio e ver que as pessoas continuam distraídas a viver. E olho. E de facto está tudo normal. Tudo em paz. Estico lentamente as pernas como quem acorda. E o pé da minha prótese faz um pequeno ruído seco ao roçar no chão.
A colina relvada descia até ao lago artificial a convidar os veraneantes mais para contemplações do que para intimidades. A meio da colina um homem parado, olhando uma mulher que sai de um automóvel familiar topo de gama, estacionado à entrada do parque, e que depois se aproxima. Ele firme aguardando por ela, ela débil, aproximando-se dele a custo. Um vulto por detrás dos vidros fumados do carro. A mulher para à distância de um metro. Não se tocam. Não sentem o convite da colina para contemplar o lago, não vêm as sombras a realçarem as irregularidades do chão, não vêm os veraneantes que tendem a descer para junto da água. Uma mulher que vem encontrar-se com um homem e fica parada a olhá-lo, numa idade em que as subtilezas dos afetos não dispensam o calor dos corpos. Um homem e uma mulher amando-se através do olhar. Acabando de se encontrar mas olhando-se como se fosse uma despedida, e quisessem guardar uma última imagem dos seus rostos antes de partirem. Não ouvem os risos despreocupados das crianças, os chamamentos disciplinadores dos pais. Não ouvem a música que vem do restaurante a meio da colina. Só os amantes furtivos ficam surdos no meio do ruído. Só os amantes clandestinos se julgam a sós no meio da multidão. As pessoas passam por eles sem os verem. Um cachorro fareja as calças do homem. Uma borboleta quase pousa no lenço da mulher. Há ali, no meio do bulício, um mundo recatado e íntimo com apenas dois habitantes que se olham mutuamente, como se o tempo fosse um bem tão raro que um só momento sem se contemplarem seria uma perda incalculável. Que fatalidade irremediável se avizinha? Que contagem decrescente lhes faz sentir este momento como derradeiro? Um homem de cabelo ralo e uma mulher de lenço a cobrir a cabeça como um turbante, mais a encobrir do que a proteger, olham-se como quem perdeu a maior parte das suas vidas e quer aproveitar os derradeiros minutos. Tiro a tampa da objetiva e preparo-me para fotografá-los, mas sinto-me como um caçador que exulta perante a visão da peça de caça, mas que perde a coragem quando se prepara para a abater; e recolho a máquina com a consciência pesada de quem esconde a arma de um crime. Erguem as mãos lentamente e tocam-se, palmas com palmas, como fazem os prisioneiros com os seus entes queridos através de um vidro. Que relação proibida, que amor impossível separa o homem e a mulher a meio da colina, que parecem ter-se encontrado no fim da história, quando já não há tempo para a paixão e lhes resta apenas um olhar de despedida? Com quem desperdiçaram a vida que agora parecem querer segurar em desespero entre as palmas das suas mãos? É tarde… será tarde? Será que não há tempo para se encontrarem a sós? Será que o eterno desencontro da vida não lhes deu a provar um momento de felicidade e só lhes permite a despedida sem o conforto da partilha, sem a cumplicidade na aventura dos afetos e dos prazeres? Afastam as mãos. Ela recua alguns passos, sempre olhando para ele, depois vira-se como se quisesse fugir, como se tivesse acabado o seu tempo, e se fosse entregar ao carrasco. A mão tapando a boca a abafar um grito. As pernas inseguras a levarem-na dali. Sente-se daqui a dor que leva no peito. Ele parado a vê-la desaparecer por entre os veraneantes. Ainda surdo ao bulício, ainda cego a toda a vivacidade em redor. Que crueldade pode separar duas pessoas assim? Que misericórdia permitiu que ao menos se tenham despedido? Que vulto escolheu a velatura dos vidros fumados do carro para ficar aguardando, excluindo-se da história num ato de extrema dignidade? O homem desce agora a colina até à beira do lago, olhando o chão, como um general que tivesse assistido impotente à chacina de todos seus soldados. Por momentos imaginei que num impulso tresloucado puxasse de uma arma e pusesse fim à vida ali mesmo. Desapareceu também no meio das pessoas, e a colina ficou imediatamente transformada num deserto onde os veraneantes não conseguiam preencher a solidão. Uma enorme ausência tomou conta da tarde, e a vida naquela colina transformou-se numa história com figurantes anónimos mas sem protagonistas. As vozes e a música amorfas, desumanas; as pessoas, todas elas estranhas; um mundo hostil sem a familiaridade de um olhar amigo. A colina, como uma vertigem, criando tentações de suicídio no lago artificial. Mas lentamente os ruídos regressam e preenchem o silêncio. A pouco e pouco as vozes das crianças animam a tarde. A música vinda do restaurante. As sombras a espreguiçarem-se pela colina abaixo convidando de novo os veraneantes a acercarem-se da frescura do lago. A despreocupação da vida ao ar livre a substituir os dramas íntimos. A fazê-los esquecer. Que homem e que mulher estiveram aqui há pouco, onde agora não resta um vestígio? Dois entre mil que se encontraram anonimamente no meio da multidão, e que viveram alguns minutos ínfimos e efémeros comparados com o resto das suas vidas. Será que não foi apenas a melancolia de uma tarde de fim de verão, feita das sombras sobre a relva e de um lago ao fundo, que me levou a fantasiar? Que insignificância foi essa que alterou a minha tarde de domingo? Que memória perdida, vinda não sei de que vivências do passado ou temores do futuro, transformou um encontro casual de duas pessoas num drama? Será que aconteceu?
A última rosa do verão. Vieste, minha amiga, conversar comigo nesta noite fria. Trouxeste o velho disco. Eu trouxe-te uma rosa. Que aventura é a nossa que desafia as leis do bom senso? Quando te sentas assim a meu lado parece que vens de longe para visitar-me, ou de um passado distante; e um peso no peito faz-me sentir que as rodas do tempo nos deixaram trilhos profundos na alma. Mas em breve, a música, o vinho e o fogo mostrarão tão só as marcas do tempo nos nossos corpos. E estas, minha amiga, aceitemo-las como atestados de sobrevivência. Sabia que virias, e enquanto te esperava escrevi estas palavras como quem faz uma canção. Só para pôr nome ao que sinto por ti. É preciso dizer os afetos, não basta senti-los; é preciso dizê-los como se o tempo fosse pouco e houvesse o risco de algo de belo se perder. Como esta última rosa na tarde que arrefecia. Trouxe-a para lhe fazeres companhia, minha amiga. Porque sorris? Não há nada mais triste que uma rosa solitária ao frio. Tudo o que morre renasce na reciclagem da Natureza. E tudo o que a Natureza dá avulso, o Homem organiza porque ama o belo. É assim que dos sons faz música, das palavras poesia e das uvas, minha amiga, faz vinho. Senta-te aqui. Ao meu lado. Ouçamos o disco que me trouxeste. Logo abrirei a garrafa. Um dia, assusta-me concebê-lo, tudo acabará; mas o que me assusta não é o colapso do tempo, é a extinção da memória. Sabes, a morte não assusta facilmente um ex-combatente como eu, somos velhos conhecidos. Havemos de morrer, sim; mas a Terra mãe, dos nossos restos, fará plantas e flores e frutos, e os animais alimentar-se-ão deles, e os nossos restos ganharão vida e movimento de novo. O que me assusta é saber que a memória acabará, e com ela todos os afetos. Um dia, ninguém se lembrará de nós, ninguém ouvirá o nosso disco, ninguém beberá deste vinho. Ninguém saberá que para te ver sorrir, resgatei ao frio a última rosa deste verão.
A estrada velha 366 curvas, como os dias de um ano bissexto, e a cada curva a vertigem da beleza. Que deu nos homens, que desataram a fazer estradas cortando a direito, convencidos que a vida é a menor distância entre dois pontos? A estrada velha de Penacova não é uma estrada para chegar mais cedo ao fim, é uma estrada para quem acha que a vida deve ser degustada devagar. Quando não quero chegar cedo a lado nenhum, tomo a estrada mais bela do mundo e faço dançar o carro com a estrada enquanto a estrada dança com o rio. Chego a Penacova e paro debaixo da Pérgola para olhar o Proventório e o Reconquinho, depois subo ao Penedo Castro para olhar 360 graus em redor e confirmar que o mundo é belo.
Stress de Guerra Queria que sentisses o cheiro. Não há uma boa descrição para este cheiro. O camuflado de cores desbotadas de tão sujo. Ligeiramente brilhante, porque o suor conseguia embebê-lo e acabava por aflorar à superfície. As mãos que pareciam também camufladas. E as caras. E tudo. E o cheiro. Habituávamo-nos ao cheiro com o tempo, mas às vezes com uma reviravolta do ar, algo de untuoso e adocicado, como vindo de um cadáver de dias, envolvia-nos. Mas, como se tivesse origem nas nossas entranhas, como se a própria morte já andasse cá dentro há tempos, e quisesse tomar conta de nós, abraçar-nos, esticando para fora os seus finos tentáculos como heras enredando-se sobre um muro. Queria que sentisses o cheiro, não para te fazer mal, mas para saberes que uma coisa assim não sai. Fica cá dentro. Fomos, combatemos, sobrevivemos e voltámos, mas trouxemos a guerra dentro de nós. Uma espécie de morte interrompida, inacabada, como uma fera hibernando. E nós vivemos e fomos felizes e demos prazer e criámos beleza. Mas dentro de cada um de nós como uma doença em estado latente Ela vive aguardando, com a certeza de que um dia vencerá.
Menina da esplanada Chegas sempre com o ar de quem perdeu a noite. A solidão à tua mesa às vezes parece uma guitarra de Coimbra lamuriando saudades mal resolvidas. De que sonho de princesa acordaste para a realidade plebeia de encontros por telemóvel? Imagino expedientes canalhas a tentarem aproveitar-se do que resta em ti de esperança, e nesse teu rosto, onde se desenha o perfil egípcio de uma deusa triste, nunca se iluminou um sorriso que eu visse. Esse rosto, que inevitavelmente vai amadurecer e depois fenecer, precisa com urgência de um motivo para sorrir. Imaginar que foste o amor impossível de um homem apaixonado, a primeira fantasia de um adolescente, a criança que encheu de orgulho um casal ainda jovem; imaginar que um dia foste o bebé de alguém, e que o balanço da tua vida se salda pela ressaca de uma noite perdida, que ensombra o teu rosto encostado a um telemóvel, carrega-me a alma de pesar; sobretudo por não haver um gesto de ternura que te aconchegue esse rosto cansado contra o peito, depois de ter sentido a fartura de prazer do teu corpo; mas como uma dádiva, e não como um roubo. Se houvesse compaixão debaixo do Sol, um dia ver-te-ia sorrir. Sinto um desgosto antecipado com a ideia de desistires de vez de algum sonho que te reste, e de aceitares o compromisso possível, como um soldado que se rende apenas para poupar a vida, sem que a sua resignação permita o benefício de uma causa maior. Então, para viveres a insipidez compartilhada, deixarás de aparecer. E eu sentirei falta desse teu ar de quem perdeu a noite, desse teu ar de viúva da esperança que povoa de drama a minha imaginação; e a partir daí, a esplanada encher-se-á de desalento, sem ao menos esse resquício de afeto que agora partilhas com alguém por telemóvel; e onde eu, de longe, contigo partilho a solidão. E onde, às vezes, até parece que o trinado condoído de uma guitarra de Coimbra nos faz companhia.
Memória imprecisa Surgiu de repente por entre o capim e eu ergui a arma. Uma jovem maconde escavando mandioca sorriu para mim. Baixei a arma. Sei que o capim era alto, sei que sorria, sei que se ouviam vozes ao longe e sei que o meu coração batia com força, mas já não sei se de susto ou de desejo. Quando tento lembrar-me dessa diferença só me ocorre que é demasiadamente curta a distância entre o prazer e a morte. Não ficou quase nada na minha memória, a não ser a impressão que me contaram isto há imenso tempo.
Verruga A médica olhou-me sem entender, e eu repeti: Não quero mandar analisar nada. Se for algo maligno haveria mais alguma coisa a fazer neste momento para além de ter removido a verruga? – Não, nada mais. – Então qual é a utilidade? – Saber a verdade! – Mas eu já sei a verdade. Vou morrer de certeza absoluta, vamos todos; mas não saber quando, nem como, é que nos permite a ilusão da felicidade. Ao sair daqui posso ser esmagado contra a parede por um autocarro, mas até lá posso viver o melhor momento da minha vida e não quero perder essa hipótese por nada. Se souber já, poderei tornar-me num condenado no corredor da morte, e a felicidade passa a ser impossível; passarei a ser um morto a prazo. Desde que articulámos a primeira palavra que andamos a fazer perguntas, mas não é para sabermos a verdade sobre coisa nenhuma, é porque temos a esperança que uma dessas perguntas venha a ter uma resposta que mude uma pequena coisa nas nossas vidas, uma pequena coisa que nos faça menos infelizes. Saber antecipadamente as coisas, retira-nos a necessidade de fazer perguntas e não nos garante apenas que ficaremos sem respostas, garante-nos sobretudo que ficaremos sem esperança.
Tu que sabes como é ver morrer um ente querido; tu que sabes como é ver morrer um avô que te ensinou a viver, cujas rugas te pareciam eternas e, por julgares que sempre fora velho, não teria idade, e portanto jamais morreria; tu que sabes o que é ver morrer um pai, que era aquele que ia sempre à tua frente, aquele que abria o caminho, para quem olhavas quando tinhas medo, a quem te seguravas quando não confiavas nos teus próprios passos, e que agora finalmente te fez homem por te ter cedido o seu lugar; tu que viste morrer a tua mãe, e entendeste que perdeste o teu princípio, e que viste que ainda assim terias que seguir em frente, como um barco a que falta a ré; tu que até sabes o que é ver morrer um filho, algo que ninguém deveria saber por ser tão estupidamente cruel, e que ao sabê-lo, mais nada deve valer a pena querer saber-se, porque é a prova que Deus não ama suficientemente os seus; tu, tu que sabes tudo isso, não sabes, meu amigo, o que é ver morrer um irmão de armas, porque felizmente para ti nunca tiveste a sua vida nas tuas mãos, tendo ele a tua nas dele, numa reciprocidade inigualável em mais lugar nenhum; senão lá onde tudo parecia debater-se com os valores mais primordiais do Mundo; a carne e o ferro, a esperança e o desespero, o poder supremo de tirar uma vida e a miserável impotência de a perder; lá onde tu não foste a moeda com que se comprava a guerra e se vendia a paz, onde tu não foste o alimento lançado à metralha e o pasto das minas; onde valerias menos que uma arma; onde a tua vida, toda a tua história, e a memória de todas as coisas que aprendeste, e ainda o conjunto de todos os teus sentimentos e emoções, que fazem de ti a obra-prima de toda a Criação; tudo isso, tudo isso teria lá apenas o valor insignificante de uma bala certeira; e por isso, não podes saber o que é ver morrer um teu igual, amigo do peito, ou inimigo até, não importa, porque o que importa é que ele serias tu, porque morreu na tua vez, e tu não sabes o que é isso; se soubesses, saberias que todos os que morreram, num incontável número de vezes, eras sempre tu; mas não sabes, meu amigo, por isso não finjas que sabes, e não sejas estúpido ao ponto de desvalorizares a tua ignorância e de sorrires quando me vês uma saudade incompreensível no rosto, e de desdenhares quando a voz me atraiçoa, e me tenho que calar para não se ver que as minhas palavras choram, como só assim choram as palavras de quem combateu, ainda que por ter acreditado que era seu dever, ainda que para sobreviver a cada tiro que dava, mas sobretudo por desespero de julgar já ter morrido; e tu, tu se és homem e tens dignidade, põe-te em sentido, e respeita esta dor irrecuperável de eu ter morrido vezes sem conta.
Pretérito perfeito Teimo em dizer isto: fazem-me impressão as pessoas emparedadas na obrigação de levarem a vida como uma festa permanente. Coitadas, não sabem o que é o peso de um drama e a luta para levarmos a melhor à vida. Não sabem o que é olharmos uma porta que abrimos, e por onde temos imperiosamente de sair, e sentirmos que o que era reversível até aqui, a partir de agora já não tem retorno. Sofrem da ilusão de que o tempo tem um presente no gerúndio, como um espaço contínuo de fruição, onde, afinal, tudo não passa de uma acumulação de pretéritos perfeitos. O dia amanhecendo de esperança, e a cada manhã que passa o acréscimo de uma saudade. As manhãs renovam-se, mas jamais, jamais regressam.
Coisas de soldado Volto a convidar-te minha amiga: vem sentar-te junto à minha lareira e beber do meu vinho. Vem embebedar-te de poesia. Eu convoco aquele velho disco de vinil onde a estática já não me irrita. Sinto esses estalidos agora, como carícias nas rugas do tempo, uma ternura tua sobre a minha pele cansada de velho soldado. A garrafa aguardará um pouco na garrafeira, para que nenhuma variação de temperatura acorde o vinho antes do tempo. Quando a música nos soltar os pensamentos e a imaginação nos fizer sentir os taninos um tanto secos mas bem distintos e integrados na voz mineral, ligeiramente gorda, ligeiramente ácida, do Tom Waits, e uma nostalgia outonal crescer em nós como a revisitação de uma memória esquecida desde a juventude; então sim, eu convocarei o Frei João tinto para soltar a complexidade dos afetos, com fluidez e caráter, e amar-nos-emos com sabores de frutos silvestres de onde desponta um quase impercetível aroma herbal. E o suave balsâmico do nosso beijo será o sonho de qualquer escanção. Talvez choremos um pouco também, porque, tu já sabes, não me basta o riso fácil; mas verás minha amiga, que os nossos corpos se reconhecerão, e faremos amor em frente ao fogo projetando as nossas sombras na parede da sala como se nos observássemos de uma outra vida.
Menina feia Recordo-te, não por seres bela, mas porque quando me olhas te vejo mais do que o rosto. Guardo a tua imagem na memória como uma pedra que a natureza esculpiu com vento e com água, com frio e com calor, e depois no-la ofereceu, mas não a todos; só aos que gostam de mulheres. Se fosses bonita olhar-te-ia como olho todas as mulheres bonitas, que um critério estreito elege mais como modelos de beleza do que como mulheres. Não ligues se alguns homens com boa pinta passam por ti sem te ver, esses gajos são mariconsos disfarçados, precisam de muito estímulo para terem uma ereção. Fazer sexo é como degustar uma boa refeição, e comer com os olhos é falta de respeito ao cozinheiro. Senta-te ao meu lado. Falemos do pôr do sol. Falemos de música. Falemos apenas das coisas de que não percebemos nada; vais ver que os nossos corpos se entenderão melhor.
Crepúsculo Quando a luz esmorece e as casas ganham olheiras de sombra, sabes? à hora em que os sons parecem conversas desinteressadas, sem nos quererem verdadeiramente prender a atenção, estás a ver? e em que as coisas distantes parecem mais próximas e as próximas parecem mais íntimas; a esta hora os pensamentos têm uma profundidade diferente e as palavras surgem-me com uma imposição inelutável. A esta hora apetece-me escrever-te; não falar contigo, mas escrever-te; ainda que vivesses na porta ao lado, ainda que eu tivesse que sair da sala, onde estivéssemos ambos, para poder fazê-lo. E depois, ficar em silêncio à espera, na ansiedade e na incerteza, só para receber a suprema graça de uma resposta tua, e finalmente ficar com a certeza de que se me respondeste é porque valho alguma coisa para ti. Mas antes, era preciso esquecer tudo, viajar para trás, saltar de costas do fundo do poço do tempo até atingir o cimo, e encarar as coisas entretanto já vividas com a ignorância que permite o prazer da descoberta; passar de novo à tua porta, como se fosse por acaso, e depois cometer todos os erros de novo; ter os mesmos prazeres e o mesmo sofrimento, percebes? Em breve o dia morrerá, e as olheiras das casas transformar-se-ão numa velatura, e depois no manto escuro da noite que cobrirá tudo. A essa hora já as palavras e os pensamentos serão de puro deleite, e tudo estará bem no seu lugar, entendes?
Os crimes do António Não entendo a autoflagelação nacional. Fazendo um esforço para descer o meu nível de entendimento à escala da imbecilidade, vejo de vez em quando uns inconsoláveis patriotas cheios de piedosas intenções, ungindo a desgraça nacional com uma autoridade moral de que me escapa a origem. Não passam de criaturas carentes de atenção e de afeto a babarem-se de ciúme. Viram para os seus pares as suas pulhas, e são frequentemente aduladores das grandezas forasteiras; como se ao dizerem mal da sua própria família fizessem crer que degeneraram em qualidade. O nosso grande defeito é dar-lhes atenção. Alguns chegam ao extremo, como se viu recentemente fazer um grande escritor numa pequena entrevista, de confessarem crimes de guerra que nunca cometeram, por mera falta de oportunidade, já que não por retidão, pois que não estão a penitenciar-se, estão a tentar resgatar um passado em que passaram ao lado da tragédia sem mérito nem glória, e de onde vieram sem ao menos terem uma história sua para contar. O espaço da ficção é onde podem recriar o enredo das suas vidas, corrigindo a mediocridade das suas experiências, quando as tiveram. Já as declarações públicas, tentando o número da carpideira lamurienta alardeando os podres nacionais, e ainda por cima incluindo-se neles sem pudor nem arrependimento, são um ato patético de volúpia do ignóbil. Coitados, fazem tudo isto por vergonha de assumirem a própria insignificância; preferem negar a inocência sem mérito, à custa da duvidosa confissão de um crime coletivo.
Tudo bem Vejo com uma tristeza enorme todos os campeões da nossa democracia rirem-se como se estivéssemos em festa. Insulta-me o seu otimismo apesar de estarmos em queda desamparada no precipício da crise que eles teimam em desvalorizar. Custa-me admitir que acreditei em alguns deles. Mas olho à minha volta e vejo tudo normal. Acho que as pessoas evitam olhar para baixo para não sentirem vertigens. De facto, até agora está tudo bem, estamos só a cair. Será que só vamos acordar ao batermos no chão?