A todos os homens com coragem para lutar. A todos os homens com coragem para desertar. A todas as mulheres com coragem para perdoar a ambos.
10.6.08
Voar no Google Hearth até Mueda
Quem ainda não tem, que descarregue a aplicação do Google Hearth. Depois basta escrever: Mueda, Moçambique para voar até ao planalto dos Macondes e repetir vezes sem conta a abordagem da pista que fazíamos sempre com um misto de alívio e de temor.
Podemos ajustar a vista a pouco mais de um quilómetro de altura, com a máxima definição.
Ver mapa maior
27.5.08
Carta a Mueda - Caseiro

[...]
Do posto de água 9 ao 34, do 34 a Omar, ou do 34 a Mocimba do Rovuma e a ida a Muera; muitas batalhas de vida e de morte se travaram, onde infelizmente a morte em algumas venceu.
Do China ao Chindorilho, das Águas às Bananeiras, e de ti Mueda a Nanglolo, a morte esteve sempre presente, mas por distracção sua ou porque não estava interessada, a maior parte dessas batalhas foram ganhas por esses valorosos rapazes da C.ART. 3503 e talvez sejam esses que te amam, porque do ódio pode nascer o amor, segundo dizem os filósofos; ou quem sabe, passados estes anos é que o nosso amor por ti tenha nascido. [...]
José Caseiro
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9.5.08
O Niassa
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[...]
A pouco e pouco os soldados foram saindo do porão. Como se o silêncio do barco os tivesse assustado, e surgiam nas aberturas do convés como zombies, que ao chegarem à luz do sol caíam fulminados. Ou então como vermes escuros, em novelos que se desenovelavam para se espalharem por todo o lado.
Com o seu aparecimento, parece ter ficado mais nítido o bafo intestinal que o Niassa exalava por aquelas cloacas abertas no convés, compondo um complexo bouquet em que se misturavam, num equilíbrio bem doseado, o aroma sulfídrico dos dejectos, o amoniacal da urina e o agridoce do vomitado; rematado com o fénico do peixe podre e o ranço da banha do rancho geral; tudo sobre uma base persistente do bolorento mofo ancestral dos porões. Era dessa atmosfera de compostagem que os soldados emergiam para o ar vibrante de luz e calor, sob um sol tórrido.
[...]

Foto cedida por José Monteiro
Eu regresso ao interior do bar e os soldados regressam aos porões, como se tivessem posto o filme a andar para trás. Eu fujo para o conforto do bar. Os soldados fogem para o sufoco do porão; fogem de uma tortura para outra tortura.
Percebo agora o conselho cristão para oferecer a outra face; é seguramente para não nos estarem a bater sempre na mesma.
Ainda restam alguns soldados a esturricar ao sol. Estes não tiveram forças sequer para descansar a face dorida e oferecer a outra. A que missão urgente vamos nós acudir para que sejamos tratados como escravos? Será que foi por isso que o Niassa parou? Porque ficou indeciso, dado que os negreiros costumavam rumar em sentido contrário?
[...]
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23.4.08
Tão Tarde pela Madrugada

Explicação do 25 de Abril – Óleo sobre Tela - 1975
Quando os homens são maiores que o chão que pisam não há limites para a ambição.
Chegara pois o tempo do Infante que via sempre um pouco mais para além do horizonte; um homem que não cabia no chão que lhe deram.
Foi por isso que Portugal ficou maior que Portugal.
Portugal do tamanho da visão de um homem.
Portugal hiperbólico, ubíquo, global.
O Infante ia à frente da História e levava consigo a nação inteira, e a História teve que seguir atrás de Portugal.
Ainda a Europa toda pensava que o mar acabava onde começava o medo, e o Infante inventou o mar para além do medo, e deu-lhe um dono: Portugal.
E Portugal cresceu até onde existia mundo; porém nenhuma pátria é suficientemente grande se não deixar crescer os homens dentro de si.
E também nenhum despotismo é suficientemente eficaz para evitar que um dia os negreiros se transformem em escravos.
E assim chegara o tempo do segundo Infante, o descobridor de Portugal para aquém do medo, o navegador às arrecuas, o anti-Infante.
Já a Europa toda sabia que a Liberdade era a maior dimensão humana, e Portugal ainda cultivava a pequenez do medo.
Portugal implodido, paroquial, microcéfalo, autofágico.
Que imperialista pode ser tão tacanho que a sua ambição ocupe apenas o espaço dentro das próprias botas?
Em Portugal, homens livres, só os que estavam na prisão.
Os jovens combatiam em distantes paragens enquanto os seus pais se sentiam cativos em casa.
Os camponeses abandonavam a terra solteira, partindo como fazem as andorinhas quando já não acreditam na Primavera.
E quando os filhos da pátria regressavam finalmente a casa, a juventude amortalhada de silêncio, o último grito congelado no rosto, traziam, no sítio destinado à alma, o relento pútrido da guerra longínqua.
Um manto de viuvez cobria as aldeias e os campos, e uma dor calada asfixiava a esperança no peito.
Portugal estendido pelo mundo inteiro, e os portugueses dentro de casa com falta de ar.
Mas nenhum tirano pode mobilizar a coragem do seu povo para defender um império distante, e impor que viva cobardemente na sua pátria.
Por isso, não faltaram vozes ocultas a traficarem a esperança nas esquinas cúmplices da noite.
Há sempre quem mantenha o lume aceso, mesmo quando ele esmorece na alma dos homens.
Há sempre quem sopre, sopre de mansinho, como quem passa a palavra, para que no âmago do carvão mais escuro se mantenha uma, ainda que ténue, brasa de esperança.
Que longa que foi a noite. Como tardava a amanhecer. Como é sempre mais difícil dobrar o insignificante Cabo Bojador, dentro de nós.
Porém finalmente os portugueses descobriram Portugal, acordando nele.
É que se não derem uma causa justa a uma geração inteira de combatentes, eles inventam uma.
E nunca as armas foram empunhadas tão rente à poesia.
Nunca antes os soldados combateram dançando com o povo.
Nunca o ar da madrugara tão leve.
E o Adamastor que nos asfixiava de medo transformou-se num rato, temendo a vingança daqueles que anoiteceram oprimidos e amanheceram livres.
Os tiranos tremeram.
Os esbirros assanharam-se inutilmente de pavor.
E os muito, muito estúpidos ainda continuam a perguntar-se porque vieram de repente todos os portugueses para a rua.
Os portugueses apenas navegaram mais uma vez para além do medo.
Os portugueses vieram para a rua só para respirar.
5.4.08
Mueda Revisitada
Mueda das minas e das emboscadas. Mueda da saudade e da morte. Mueda do aldeamento, do China, da Águas… Mueda da nossa juventude.
Na guerra demos todos os humores de que somos feitos: muito suor, algumas lágrimas... e tanto sangue, meu deus; mas demos sobretudo a vida. Quem não a deu toda de uma vez, deu pelo menos uma parte… a melhor. A parte da Juventude.
Mueda não é nossa, se calhar nunca foi, mas nós somos de Mueda. Somos de Mueda não por termos nascido lá mas por lá termos conhecido a Morte, essa grande prostituta que nos seduz, nos domina e que nós vamos enganando como pudemos.
É por isso que às vezes sentimos Mueda chamar.
Alguns respondem a esse chamamento fechando o ciclo da memória, fechando o impossível arco do tempo. Obrigando-o a recuar até onde deixámos as nossas emoções, os nossos sentimentos, parte da nossa vida.
A Picada das Águas

A Curva da Morte... sinistra, o alcatrão a cobrir o sangue dos mortos
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África e Moçambique chamarão sempre por nós. Ali somos Benvindos.
Kanimambo.
João Azevedo
21.3.08
Merecer a Água que se Bebe
Estávamos no mês de Dezembro do ano 1972 em Mueda, quando nos foi dito a título sigiloso que a CART 3503 ia levar a cabo uma grande operação hélio transportada.
Sendo uma actuação a nível de companhia o capitão não pode escapar e assim se viu em pleno mato, onde estivemos seis dias; e num desses dias fizemos um achado, que este senhor considerou como troféu de guerra, o que afinal não passava de algumas granadas e um grande número de munições de vários calibres.

Ler o texto completo do Caseiro em Histórias da CART 3503
9.3.08
A Incerteza do Sol Nascente

[...]
Havia dias, como hoje, em que o pôr-do-sol pintava tudo em cores quentes e do terraço eu olhava-o seguro de que Deus o haveria de fazer nascer no dia seguinte, e depois ia dormir sem remorsos. Mas hoje sei menos do que quando era criança; olho o sol e não acredito que Deus tenha as coisas sob controlo. Pode muito bem acontecer que se esqueça de o fazer nascer amanhã. Hoje não irei dormir sem remorsos.
Ao menos se a voz quase humana de um violoncelo acordasse o calor das vozes esquecidas; ou o som da chuva na vidraça, tão próximo da música, restituísse a alma a esta casa deserta; ou faltando tudo o mais, se ao menos um eco, que tivesse ficado reverberando por entre estas paredes dissesse o meu nome e perguntasse “Já viestes?” só para eu ter a certeza que regressei a casa…
Espreito pelo vidro sujo da janela para o pátio onde falta a velha figueira. Como morreu a velha figueira? Sinto uma dor imensa por não me lembrar; como se tivesse perdido a oportunidade de lhe dizer algo de muito importante e íntimo; como se tivesse remorsos de não ter vertido uma única lágrima pela sua morte. Até parece que uma música parou repentinamente dentro de mim. Talvez por isso a laranjeira se recuse a dar laranjas, ressentida pela minha ingratidão. Não sabe que as comíamos apenas por amizade, dado que eram um pouco azedas “São muito boas para acompanhar o leitão” desculpava-a o meu avô, que a conhecia desde pequenina… e nós sorriamos de ternura.
Também devo ter sido infeliz aqui, mas não me lembro.
[...]
Ler texto completo em Aguim em Mim ou na pág. 8 do Elo da ADFA
27.2.08
Heróis?! - 2

Continuação daqui
Numa pequena mesa, cartas na mão, os comandos «superiores» fingiam não escutar as «bocas» daquele médico feito «major», que os «operacionais» tinham como grande amigo.
A proximidade da época natalícia, e do fim do ano tornavam o ambiente ainda mais tenso que o normal. Toda a companhia preparava a sua festa de Natal. A «Companhia Macaca» com um pinheiro, símbolo clássico lá longe, na terra, e a que os soldados africanos aderiam, colocado no meio da caserna, criou o ambiente possível para esquecer, ou pelo menos, tentar amenizar as saudades, uma vez mais, exactamente naquela que é por todos considerada a festa da família.
Ler o texto completo aqui
21.2.08
Ex-combatentes na Guiné com ajuda na bagagem
Um grupo de ex-combatentes na Guiné parte hoje para aquele país com a missão de entregar 22 toneladas de material didáctico e de saúde a uma organização não-governamental (ONG) que fará a gestão dos recursos por forma a que estes cheguem a milhares de pessoas.
[...]
Ler o texto completo aqui
4.2.08
A Dor Fantasma

Ó Manuel (a minha mãe pronunciava sempre todas as sílabas do meu nome) está ali uma senhora que quer falar contigo.
Eu fui de canadianas até à sala e a senhora levantou-se e desatou a pedir desculpas numa torrente de palavras que não me dava hipótese de falar.
- E o meu home' chama-me tola, aquele bêbado diz qu' isto é maluqueira minha. E mostrou a mão a que faltava o polegar. – Qu' eu não devia vir incomodá-lo. Mas disseram-me q' o senhor tinha ficado sem uma perna em África e eu tinha que vir cá. Não estou nada maluca 'tão não?
Ainda o pó não tinha assentado bem na picada, e o Lemos para o enfermeiro Costa: – Eu sinto as minhas pernas… eu não fiquei sem as pernas, pois não, Costa? E nós a segurarmos o soluço na garganta.
Ainda nesse mesmo dia, no Hospital do mato em Mueda, o cirurgião, num exercício didáctico de psicoterapia, a explicar-me a mim que o que eu sentia era psicológico, que o fenómeno se devia ao facto de o amputado não aceitar a mutilação e isso gerar alucinações, induzindo na imaginação a presença do membro perdido. Que a dor que eu sentia era um sonho, era o desejo da preservação da integridade anatómica do corpo. E o cabo enfermeiro: - Ó furriel, isso são só as dores fantasmas, 'tá pe'ceber?
[...]
Ler o texto Completo aqui
16.1.08
A Primeira Mina

[...]
E lá fomos novamente eu e o meu ajudante, agora com alguns curiosos atrás que queriam ver com os seus próprios olhos o que teria acontecido. Com o máximo cuidado aproximámo-nos lentamente e verificámos que não havia nenhum mistério, simplesmente o cordão lento que já era velho ardera apenas um bocado e apagara-se, por sorte não era cordão detonante, pois os checas tinham pegado no primeiro cordão que encontraram e foi esse que utilizaram.
Resolvemos começar tudo de novo e enquanto eu preparava o detonador e o petardo, o meu ajudante, já mestre, cortava um bocado de cordão lento agora bastante maior, cerca de 25cm e desfiava os lados do mesmo para que este pudesse arder nas melhores condições. Depois de tudo novamente preparado, acendemos o rastilho, esperámos um pouco para ver se ele não se apagava e como verificámos que estava a arder normalmente iniciámos nova corrida e abrigámo-nos debaixo do rebenta minas. De repente um estrondo enorme, pedras e areias a cair por todos os lados.
Olhei para a picada e um cogumelo elevava-se no ar e um cheiro diferente entrava-me pelas narinas, cheiro esse que me iria acompanhar muitas vezes e que fiquei depois a saber que era o que os velhinhos chamavam “cheiro a trotil“.
[...]
Texto de António Silvestre - Ler texto completo aqui
8.1.08
Saudade de Azul
[...]
A minha vida parece uma tarde de chuva na praia, a baba da chuva a escorrer na pala da barraca e as gaivotas murchas no areal deserto. E eu sentado a fumar um cigarro e a olhar pra ontem. Às vezes chovia assim em Moçambique mas nós nunca parávamos por causa disso. Porque havia eu de ir embora daqui? – Ó Zé, anda embora que vai chover. E eu cá pra mim: Vai-te fornicar. Que vou eu fazer para casa? Um gajo casa com uma mulher jeitosa e a pouco e pouco ela fica seca como as palhas, e não tarda nada ficamos com a impressão que nos distraímos e casámos com a sogra.
[...]

Às vezes dou pela Zulmira na cozinha a abanar a cabeça e a olhar para mim quando me sento à frente do microondas para ver o telejornal ou quando tento aquecer a sopa na televisão; mas que tem de mais? Ela tem os dois aparelhos na cozinha ao lado um do outro, e eu sou um bocado distraído, mais nada. Às vezes pego no telecomando para fazer um telefonema ou no telemóvel para mudar de canal mas isso é porque não me dou com estas tecnologias de agora, aquilo para mim é tudo igual, e ela a abanar a cabeça…
- Põe os olhos no nosso Mário, a combater em Timor e sempre tão cheio de coragem. E mostra-me a foto do catraio com aquele nariz curto, tão parecido com o patrão dela. Demasiado parecido com o patrão dela. Eu quero que eles se forniquem todos. A combater, a combater quem? Algum deles alguma vez ouviu uma Kalash, uma costureirinha, um morteiro 122? Eles sabem o que são minas e fornilhos? Está tudo muito certo, sim senhor, mas o catraio foi pra lá por causa do guito e agora esta gaja fala dele como um herói e mostra-me a foto com aquela tromba curta a lembrar-me o amante.
[...]
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17.12.07
HERÓIS?!

Estava-se no fim do ano, no derradeiro trimestre e, como era já tradição, iria assistir-se a uma forte ofensiva da Frelimo. Os homens com quem agora compartilhava a sua vida, encontravam-se na fase derradeira da respectiva comissão. No mês de Janeiro próximo, completariam 24 meses de comissão, sempre em Mueda, o que era inédito e acabou talvez, por ser caso único.
Para obviar à escassez de homens, a direcção da guerra, em Nampula, reduziu o número de militares hospitalizados, com «altas» (doentes considerados já clinicamente aptos) que obrigou um grande número a seguir para as respectivas frentes de combate onde se situavam as suas companhias. A «companhia macaca» com alguns militares nesta situação, também viu o seu número crescer com a chegada de meia dúzia de militares que se encontravam há alguns meses no hospital de Nampula.
Um de entre eles se destacava. Há cerca de 10 meses que havia sido evacuado e voltava agora, coagido pelas decisões daqueles que viam em cada homem, um militar pronto a sacrificar-se pela guerra. Foi o comandante de Batalhão, o mais directo superior hierárquico do comandante da companhia quem lhe anunciou a chegada próxima daquele alferes e sugeriu logo, que o deveria integrar activamente como qualquer outro militar na realização das operações que a companhia era constantemente chamada a efectuar. O capitão facilmente pôde compreender que o regressado não gozava das simpatias daquele comandante. E, quando um comandante não gosta de um subalterno... a vida deste será dura.
[...]
© António Almeida
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2.12.07
Black-out

Nunca mais a réstia matinal, num risco cintilante da janela mal fechada até à parede do quarto; nunca mais as refulgências da água do tanque, espelhadas no tecto do alpendre; nunca mais o brilho das lágrimas tremeluzentes, nos três primeiros segundos do orgasmo, quando os olhos da mulher se alargam tão infantis como maternais, tão inocentes como impudicos e nos redimem de todas as nossas culpas e nos fazem esquecer todas as nossas mágoas e nos exorcizam todos os nossos fantasmas.
Foi mais difícil quando o primeiro filho nasceu. Era como se ele se escondesse permanentemente atrás de um pano negro impossível de rasgar. Mas a tudo nesta vida um ser humano se habitua, até à noite infinita.
16.11.07
O Preço do Pão

Foto de Manuel Bastos
Olhei para o relógio, eram 10 horas da manhã do dia 31 de Dezembro de 1973 e ali íamos nós a caminho das Bananeiras, uma dúzia de viaturas e cerca de sessenta homens, privilegiados, que tínhamos tido o bónus de ir passar a passagem do ano às Bananeiras, o pretexto era arranjar a ponte para que a coluna, que no princípio do ano viria de Porto Amélia, conseguisse chegar a Mueda .
Isso era o pretexto, pois a finalidade principal era afastar de Mueda a maioria dos homens da 3503, companhia que em Janeiro faria 24 meses de comissão, e em que a insatisfação e até mesmo a revolta já grassava tanto entre os graduados como entre os soldados.
Assim, a caminho das Bananeiras, zona a 15Kms de Mueda, famosa pelas emboscadas aí já acontecidas e pelas minas normalmente aí colocadas, seguiam cerca de 40 homens da 3503 mais 20 e tal homens da engenharia com algumas máquinas. Os atiradores tinham por missão montar a segurança e fazer a protecção aos homens da engenharia enquanto durassem os trabalhos do arranjo da picada e da reconstrução da ponte. Comandavam esses homens, o capitão Almeida e o alferes Silvestre, ambos da 3503, que por diversas vezes tinham levantado a voz em defesa dos homens da companhia e portanto não era conveniente estarem em Mueda no dia 1, onde estava previsto haver um almoço de Ano Novo com algumas individualidades vindas de Nampula, de Lourenço Marques e talvez até algum ministro da Metrópole, os quais faziam o sacrifício de nesse dia se deslocarem às zonas de guerra para, diziam eles, levantar o moral das tropas, algumas das quais já há quase 24 meses ali se encontravam.
Para evitar que Suas Excelências apanhassem algum susto enquanto estivessem em Mueda, a maioria das tropas operacionais eram colocadas no mato, quer em patrulhamentos afastados quer alguns próximos do arame farpado, de modo que os combatentes da Frelimo se mantivessem o mais longe possível e sem possibilidades de efectuar qualquer ataque.
[...]
Ler o texto completo aqui.
© António Silvestre
8.11.07
A Irreverência do Meu Pé Esquerdo

[...]
Para poder rastejar à vontade sobre a relva eu deixara a prótese e a canadiana equilibradas uma na outra, talvez inspirado no método que usávamos na tropa para pôr as armas de cano para cima num feixe em pirâmide a que chamávamos pitorescamente "ensarilhar armas". Não sei qual das duas coisas mais interessava aos alemães que já constituíam um público considerável nas janelas do hospital, cracanholos para os portugueses; se o ensarilhar armas da minha prótese com a canadiana se a figura altamente suspeita, deitada sobre a relva, de pijama e de máquina fotográfica em punho, apontada para coisa nenhuma, à espera que os coelhos saíssem da toca.
Enquanto a minha teimosia em não pôr o pé para baixo aumentava a indignação da menina dos olhos negros ali à minha frente; a minha teimosia em fotografar os coelhos aumentava o assombro dos alemães, na minha memória.
[...]
24.10.07
Sagal
O ataque ao aquartelamento do Sagal durava já há mais de 48 horas, quando regressou a Mueda a coluna de abastecimento a Mocimboa do Rovuma.
O empenhamento das forças da Frelimo, que actuavam em Cabo Delgado, neste ataque, possibilitou a realização da coluna, sem grandes sobressaltos, o que era inédito naquelas paragens.
Entretanto em Mueda, com as notícias que chegavam dos militares cercados no Sagal, a situação ia-se agravando. Os meios aéreos não se aproximavam, face aos dispositivos de defesa montados pelos guerrilheiros, conhecedores dos efeitos da ajuda que os aviões e hélis prestavam aos quartéis atacados. As notícias apontavam para a quase impossibilidade de uma coluna militarizada, por terra, lá chegar. Não se sabia ao certo se havia feridos graves, mas havia já a certeza que não existiam mortos.
[...]

(c) António Almeida
24.9.07
O Dia em que se Viu Mueda a Arder
Ler o texto completo aqui.
[...]Não sei, nem nunca aprendi a conhecer um herói; a não ser talvez quando um enfermeiro desarmado nos socorre na picada; a não ser talvez quando um soldado se esquece momentaneamente de si para se lembrar dos outros, como ali o Caseiro e o Silvestre.
Pôr a própria vida em perigo para salvar uma nação inteira é um acto heróico por certo, mas pagar o mesmo preço para salvar um punhado de amigos acossados pelos guerrilheiros no meio do mato é sem dúvida um acto mais heróico ainda, que o valor da nossa coragem está naquilo que se oferece e não no que se recebe. [...]
Ler o texto completo aqui.
3.9.07
Louvor e Punição
Os soldados têm que estar à altura da missão que lhes confiam. Os políticos têm que estar à altura do momento histórico em que vivem e os comandantes militares têm que estar à altura de ambos.
Sabemos hoje, todos os que ainda não sabiam nessa altura, que os políticos portugueses que mantiveram a guerra colonial viviam orgulhosamente autistas num momento histórico anacrónico; sabemos que os soldados portugueses fizeram o que se lhes pediu como todos os soldados fazem em todas as guerras; e os comandos militares? Será que ao menos respeitavam aqueles que lhes ganhavam os louvores e as condecorações, com o seu suor, o seu sangue e os seus traumas?
Cada um que fale pela experiência que tem.
A CART 3503 combateu durante dois anos e dois meses, teve 58 baixas; durante esse tempo teve 6 (SEIS) comandantes e no mês de Junho de 1972, segundo os registos da unidade, já tinha sofrido 2 feridos, destruído vinte e quatro minas e feito 5 mortos ao inimigo, quando finalmente o comandante do batalhão decidiu louvar um dos seus homens. Quem? Será que louvou um militar dos que arriscaram a vida no mato e nas picadas? Ingénuos! Leiam só:
[…] o Exmo Comandante do B. Caç. 15, louvou o 1º. Sargento de Artª. NM-(xxxxxxxx) – Jxxxxx, desta CART., porque em todo o tempo que exerceu as funções de 1º sargento, responsável pela escrita da companhia, sempre levou a bom termo os inúmeros dele dependentes de forma pertinente e eficaz.
A omissão do número mecanográfico e do nome do sargento devem-se ao meu respeito pela preservação da sua identidade, a pobreza do português deve-se ao louvado sargento que foi quem escreveu isto, embora lhe tenham sido reconhecidos inúmeros. Inúmeros?! "inúmeros" quê? Parece que ninguém lhe identificou os motivos para o louvor, apesar de serem "inúmeros" e de os ter "levado a bom termo".
Mas até essa data, além dos factos acima descritos pelo menos 5 militares já se tinham evidenciado por actos de coragem, ao ponto de serem mencionados pelos seus respectivos comandantes nos relatórios de operações.
Até ao nosso primeiro morto ter ocorrido, os únicos militares louvados foram os que fizeram doações de sangue, o impedido da messe e nosso primeiro-sargento.
Daí até ao fim da comissão, muita coisa ocorreu, muitos comandantes vieram e foram embora, mas a CART 3503 continuou lá, não como chegou, porque foram muitos os que tombaram em combate, e continuou lá muito para além da sua obrigação. Cinquenta e sete dias de guerra para além da sua obrigação, para sermos precisos.
E quando chegou finalmente o dia tão esperado para a sua partida, adiado numa sucessão interminável de cinquenta e sete dias? Que se espera de um grupo de homens que deram o melhor de si, quase tudo de si, e que finalmente vêm o fim do seu degredo e do seu martírio? Alegria, não é? Normal, não?
Ingénuos! Isso é para vocês, que não sabem que entre os políticos que não estavam à altura do momento histórico e os soldados que aceitaram cumprir o seu dever como em todos os momentos da história, existia uma classe de pessoas que viviam à sombra dos primeiros e à custa dos segundos.
NOTA DE PUNIÇÃO
puno com repreensão agravada o capitão milº. de Infantaria ANTÓNIO PEREIRA DE ALMEIDA, da C.ART. 3503, porque, sem para isso estar devidamente autorizado, tomou parte numa exteriorização de alegria, levada a efeito pelo pessoal da sua companhia, no dia 05ABR74, entre as 21 e as 24 horas, originada pelo final da comissão e regresso à Metrópole, […]
Não omito o nome do capitão punido, porque há punições que nos dignificam por revelarem um tal nível de estupidez que deveras embaraçoso seria recebermos um louvor.
É sim. É preciso dizer que acreditámos em vocês, políticos e comandantes. É preciso dizer também que jamais esqueceremos isso. Nós aprendemos. E vocês? Será que vocês já aprenderam a estar ao nível do momento histórico em que vivem?
Duvido. A estupidez é crónica.
20.8.07
Os Sonhos dos Nossos Filhos
Ainda fazem sentido para eles as bandeiras que erguemos? Ainda ouvirão os tiros que demos? E o amor que fizemos?
Quando foi que nos distraímos e os deixámos crescer? Fomos nós que os perdemos ou foram eles que nos perderam a nós?
Com sorte, encontrar-nos-emos por aí. A meio de um livro, seria esperar muito?
Talvez possamos encontrá-los numa canção. Esta é uma amostra das canções que ouvem. Tentar entender as suas inquietações pode ser um passo para ajudar a encurtar a metade do caminho que nos cabe a nós percorrer.
Para ouvir, faça stop no leitor media player na barra lateral do blog e faça play neste
Dave Matthews Band
Os Sonhos dos Nossos Pais
(tradução livre)
Oh, eu sufoco, eu sufoco,
No fumo desta casa em chamas.
Arranho e esgravato
Mas não consigo sair daqui.
Mas quem há-de ser, quem,
Que esgravata o chão?
Oh, é o meu mundo, claro,
Mas de quem é este ouro que desenterro?
Quando vamos, para aonde vamos
Quando estivermos mortos?
A sentença ainda é válida?
Ainda estamos na fila
A seguir aos que já morreram há muito,
Com as lágrimas de dor abafadas,
Os ossos enterrados?
Já chegou a nossa hora?
Já chegou sim,
Sem apelo nem agravo.
Não quero acordar
Perdido nos sonhos dos nossos pais.
Oh, é um desperdício puto,
Viver e morrer pelos sonhos dos nossos pais.
Embora deva confessar, sim,
O meu espanto sobre este,
Este amor que sinto, amor.
Devem ser os sonhos dos nossos pais.
Quero partir, quero fugir.
Mas voltamos por saber que nos reprovam.
Estou a ser perseguido, perseguido.
Larguem-nos, libertem-nos.
Mas não acredito, não acredito,
Que este sabor na boca
Seja apenas a língua,
Tão amarga que quero cuspi-la.
Repito estas palavras,
Saem cá para fora
Sob a luz azul do céu,
Encho as folhas em branco
Com estas torpes mentiras,
Mas ouço no fundo de mim
Um eco, um eco,
De vácuo… vácuo… vacuidade,
Que vomito e engulo.
Não quero acordar
Perdido nos sonhos dos nossos pais.
Oh, é um desperdício puto,
Viver e morrer pelos sonhos dos nossos pais.
Embora deva confessar, sim,
O meu espanto sobre este,
Este amor que sinto, amor.
Devem ser os sonhos dos nossos pais.
Chove-me na cabeça.
Chove-me na cabeça.
Chove sobre mim.
E então respiro.
Chove me no amor.
Chove mais e mais.
Porque não consigo tirar-te dos meus sonhos?
Olha aqui, olha aqui,
Inchado, boiando
De pança para baixo,
De pança para cima, na água.
Mas quem é que se está a afogar?
Fomos atrás de um bêbado
E ele pegou-nos a bebedeira,
Mas é como se ele tivesse bebido o juízo
E nós ficássemos sem saída.
Não quero acordar
Perdido nos sonhos dos nossos pais.
Oh, é uma pena puto,
Viver e morrer pelos sonhos dos nossos pais.
Embora deva confessar, sim,
O meu espanto sobre este,
Este amor que sinto, amor.
Devem ser os sonhos dos nossos pais.
Este amor que sinto, amor.
Devem ser os sonhos dos nossos pais.
Este amor que sinto, amor.
Devem ser os sonhos dos nossos pais.
Este amor que sinto, amor.
Deve ser o amor dos nossos pais.
Este amor que sinto, amor.

