21.3.08

Merecer a Água que se Bebe

Texto de José Caseiro em Histórias da CART 3503


Estávamos no mês de Dezembro do ano 1972 em Mueda, quando nos foi dito a título sigiloso que a CART 3503 ia levar a cabo uma grande operação hélio transportada.
Sendo uma actuação a nível de companhia o capitão não pode escapar e assim se viu em pleno mato, onde estivemos seis dias; e num desses dias fizemos um achado, que este senhor considerou como troféu de guerra, o que afinal não passava de algumas granadas e um grande número de munições de vários calibres.


Ler o texto completo do Caseiro em Histórias da CART 3503

9.3.08

A Incerteza do Sol Nascente

Ler texto completo em Aguim em Mim ou na pág. 8 do Elo da ADFA



[...]
Havia dias, como hoje, em que o pôr-do-sol pintava tudo em cores quentes e do terraço eu olhava-o seguro de que Deus o haveria de fazer nascer no dia seguinte, e depois ia dormir sem remorsos. Mas hoje sei menos do que quando era criança; olho o sol e não acredito que Deus tenha as coisas sob controlo. Pode muito bem acontecer que se esqueça de o fazer nascer amanhã. Hoje não irei dormir sem remorsos.

Ao menos se a voz quase humana de um violoncelo acordasse o calor das vozes esquecidas; ou o som da chuva na vidraça, tão próximo da música, restituísse a alma a esta casa deserta; ou faltando tudo o mais, se ao menos um eco, que tivesse ficado reverberando por entre estas paredes dissesse o meu nome e perguntasse “Já viestes?” só para eu ter a certeza que regressei a casa…

Espreito pelo vidro sujo da janela para o pátio onde falta a velha figueira. Como morreu a velha figueira? Sinto uma dor imensa por não me lembrar; como se tivesse perdido a oportunidade de lhe dizer algo de muito importante e íntimo; como se tivesse remorsos de não ter vertido uma única lágrima pela sua morte. Até parece que uma música parou repentinamente dentro de mim. Talvez por isso a laranjeira se recuse a dar laranjas, ressentida pela minha ingratidão. Não sabe que as comíamos apenas por amizade, dado que eram um pouco azedas “São muito boas para acompanhar o leitão” desculpava-a o meu avô, que a conhecia desde pequenina… e nós sorriamos de ternura.

Também devo ter sido infeliz aqui, mas não me lembro.
[...]

Ler texto completo em Aguim em Mim ou na pág. 8 do Elo da ADFA

27.2.08

Heróis?! - 2

Texto de António Almeida Comandante da CART 3503





Continuação daqui

Numa pequena mesa, cartas na mão, os comandos «superiores» fingiam não escutar as «bocas» daquele médico feito «major», que os «operacionais» tinham como grande amigo.
A proximidade da época natalícia, e do fim do ano tornavam o ambiente ainda mais tenso que o normal. Toda a companhia preparava a sua festa de Natal. A «Companhia Macaca» com um pinheiro, símbolo clássico lá longe, na terra, e a que os soldados africanos aderiam, colocado no meio da caserna, criou o ambiente possível para esquecer, ou pelo menos, tentar amenizar as saudades, uma vez mais, exactamente naquela que é por todos considerada a festa da família.

Ler o texto completo aqui

21.2.08

Ex-combatentes na Guiné com ajuda na bagagem

in Jornal de Notícias, 21 de Fevereiro de 2008.por Leonor Paiva Watson.


Um grupo de ex-combatentes na Guiné parte hoje para aquele país com a missão de entregar 22 toneladas de material didáctico e de saúde a uma organização não-governamental (ONG) que fará a gestão dos recursos por forma a que estes cheguem a milhares de pessoas.
[...]
Ler o texto completo aqui

4.2.08

A Dor Fantasma


Ó Manuel (a minha mãe pronunciava sempre todas as sílabas do meu nome) está ali uma senhora que quer falar contigo.
Eu fui de canadianas até à sala e a senhora levantou-se e desatou a pedir desculpas numa torrente de palavras que não me dava hipótese de falar.
- E o meu home' chama-me tola, aquele bêbado diz qu' isto é maluqueira minha. E mostrou a mão a que faltava o polegar. – Qu' eu não devia vir incomodá-lo. Mas disseram-me q' o senhor tinha ficado sem uma perna em África e eu tinha que vir cá. Não estou nada maluca 'tão não?
Ainda o pó não tinha assentado bem na picada, e o Lemos para o enfermeiro Costa: – Eu sinto as minhas pernas… eu não fiquei sem as pernas, pois não, Costa? E nós a segurarmos o soluço na garganta.
Ainda nesse mesmo dia, no Hospital do mato em Mueda, o cirurgião, num exercício didáctico de psicoterapia, a explicar-me a mim que o que eu sentia era psicológico, que o fenómeno se devia ao facto de o amputado não aceitar a mutilação e isso gerar alucinações, induzindo na imaginação a presença do membro perdido. Que a dor que eu sentia era um sonho, era o desejo da preservação da integridade anatómica do corpo. E o cabo enfermeiro: - Ó furriel, isso são só as dores fantasmas, 'tá pe'ceber?

[...]

Ler o texto Completo aqui

16.1.08

A Primeira Mina

Texto de António Silvestre - Ler texto completo aqui



[...]
E lá fomos novamente eu e o meu ajudante, agora com alguns curiosos atrás que queriam ver com os seus próprios olhos o que teria acontecido. Com o máximo cuidado aproximámo-nos lentamente e verificámos que não havia nenhum mistério, simplesmente o cordão lento que já era velho ardera apenas um bocado e apagara-se, por sorte não era cordão detonante, pois os checas tinham pegado no primeiro cordão que encontraram e foi esse que utilizaram.

Resolvemos começar tudo de novo e enquanto eu preparava o detonador e o petardo, o meu ajudante, já mestre, cortava um bocado de cordão lento agora bastante maior, cerca de 25cm e desfiava os lados do mesmo para que este pudesse arder nas melhores condições. Depois de tudo novamente preparado, acendemos o rastilho, esperámos um pouco para ver se ele não se apagava e como verificámos que estava a arder normalmente iniciámos nova corrida e abrigámo-nos debaixo do rebenta minas. De repente um estrondo enorme, pedras e areias a cair por todos os lados.

Olhei para a picada e um cogumelo elevava-se no ar e um cheiro diferente entrava-me pelas narinas, cheiro esse que me iria acompanhar muitas vezes e que fiquei depois a saber que era o que os velhinhos chamavam “cheiro a trotil“.
[...]

Texto de António Silvestre - Ler texto completo aqui

8.1.08

Saudade de Azul

Ver o texto completo aqui


[...]

A minha vida parece uma tarde de chuva na praia, a baba da chuva a escorrer na pala da barraca e as gaivotas murchas no areal deserto. E eu sentado a fumar um cigarro e a olhar pra ontem. Às vezes chovia assim em Moçambique mas nós nunca parávamos por causa disso. Porque havia eu de ir embora daqui? – Ó Zé, anda embora que vai chover. E eu cá pra mim: Vai-te fornicar. Que vou eu fazer para casa? Um gajo casa com uma mulher jeitosa e a pouco e pouco ela fica seca como as palhas, e não tarda nada ficamos com a impressão que nos distraímos e casámos com a sogra.
[...]

Às vezes dou pela Zulmira na cozinha a abanar a cabeça e a olhar para mim quando me sento à frente do microondas para ver o telejornal ou quando tento aquecer a sopa na televisão; mas que tem de mais? Ela tem os dois aparelhos na cozinha ao lado um do outro, e eu sou um bocado distraído, mais nada. Às vezes pego no telecomando para fazer um telefonema ou no telemóvel para mudar de canal mas isso é porque não me dou com estas tecnologias de agora, aquilo para mim é tudo igual, e ela a abanar a cabeça…
- Põe os olhos no nosso Mário, a combater em Timor e sempre tão cheio de coragem. E mostra-me a foto do catraio com aquele nariz curto, tão parecido com o patrão dela. Demasiado parecido com o patrão dela. Eu quero que eles se forniquem todos. A combater, a combater quem? Algum deles alguma vez ouviu uma Kalash, uma costureirinha, um morteiro 122? Eles sabem o que são minas e fornilhos? Está tudo muito certo, sim senhor, mas o catraio foi pra lá por causa do guito e agora esta gaja fala dele como um herói e mostra-me a foto com aquela tromba curta a lembrar-me o amante.
[...]

Ver o texto completo aqui

17.12.07

HERÓIS?!

De António Almeida, Capitão Miliciano e Comandante da CART 3503.



Estava-se no fim do ano, no derradeiro trimestre e, como era já tradição, iria assistir-se a uma forte ofensiva da Frelimo. Os homens com quem agora compartilhava a sua vida, encontravam-se na fase derradeira da respectiva comissão. No mês de Janeiro próximo, completariam 24 meses de comissão, sempre em Mueda, o que era inédito e acabou talvez, por ser caso único.
Para obviar à escassez de homens, a direcção da guerra, em Nampula, reduziu o número de militares hospitalizados, com «altas» (doentes considerados já clinicamente aptos) que obrigou um grande número a seguir para as respectivas frentes de combate onde se situavam as suas companhias. A «companhia macaca» com alguns militares nesta situação, também viu o seu número crescer com a chegada de meia dúzia de militares que se encontravam há alguns meses no hospital de Nampula.
Um de entre eles se destacava. Há cerca de 10 meses que havia sido evacuado e voltava agora, coagido pelas decisões daqueles que viam em cada homem, um militar pronto a sacrificar-se pela guerra. Foi o comandante de Batalhão, o mais directo superior hierárquico do comandante da companhia quem lhe anunciou a chegada próxima daquele alferes e sugeriu logo, que o deveria integrar activamente como qualquer outro militar na realização das operações que a companhia era constantemente chamada a efectuar. O capitão facilmente pôde compreender que o regressado não gozava das simpatias daquele comandante. E, quando um comandante não gosta de um subalterno... a vida deste será dura.
[...]

© António Almeida



Ler texto completo aqui

2.12.07

Black-out



[...]
Quando o Mugeiro acordou no meio da picada ainda não tinha voltado a luz. Só as vozes à sua volta, um frio de morte no rosto e algo quente escorrendo, escorrendo. Há coisas piores que uma noite de inverno sem luz. Quando a meio de um dia de Sol com a luz mais gloriosa que se pode imaginar, a transformar todos os objectos em cristais iridescentes; nós seguimos as pegadas do soldado à nossa frente e ele fica sem as pernas e os estilhaços da mina nos batem em cheio no rosto; a luz apaga-se, mas apaga-se para sempre.
Nunca mais a réstia matinal, num risco cintilante da janela mal fechada até à parede do quarto; nunca mais as refulgências da água do tanque, espelhadas no tecto do alpendre; nunca mais o brilho das lágrimas tremeluzentes, nos três primeiros segundos do orgasmo, quando os olhos da mulher se alargam tão infantis como maternais, tão inocentes como impudicos e nos redimem de todas as nossas culpas e nos fazem esquecer todas as nossas mágoas e nos exorcizam todos os nossos fantasmas.
Foi mais difícil quando o primeiro filho nasceu. Era como se ele se escondesse permanentemente atrás de um pano negro impossível de rasgar. Mas a tudo nesta vida um ser humano se habitua, até à noite infinita.
[...]
Ver texto completo na pág. 13 do Jornal Elo da ADFA ou aqui.

16.11.07

O Preço do Pão

De António Silvestre, Ex Alferes Miliciano e comandante da CART 3503


Foto de Manuel Bastos

Olhei para o relógio, eram 10 horas da manhã do dia 31 de Dezembro de 1973 e ali íamos nós a caminho das Bananeiras, uma dúzia de viaturas e cerca de sessenta homens, privilegiados, que tínhamos tido o bónus de ir passar a passagem do ano às Bananeiras, o pretexto era arranjar a ponte para que a coluna, que no princípio do ano viria de Porto Amélia, conseguisse chegar a Mueda .
Isso era o pretexto, pois a finalidade principal era afastar de Mueda a maioria dos homens da 3503, companhia que em Janeiro faria 24 meses de comissão, e em que a insatisfação e até mesmo a revolta já grassava tanto entre os graduados como entre os soldados.
Assim, a caminho das Bananeiras, zona a 15Kms de Mueda, famosa pelas emboscadas aí já acontecidas e pelas minas normalmente aí colocadas, seguiam cerca de 40 homens da 3503 mais 20 e tal homens da engenharia com algumas máquinas. Os atiradores tinham por missão montar a segurança e fazer a protecção aos homens da engenharia enquanto durassem os trabalhos do arranjo da picada e da reconstrução da ponte. Comandavam esses homens, o capitão Almeida e o alferes Silvestre, ambos da 3503, que por diversas vezes tinham levantado a voz em defesa dos homens da companhia e portanto não era conveniente estarem em Mueda no dia 1, onde estava previsto haver um almoço de Ano Novo com algumas individualidades vindas de Nampula, de Lourenço Marques e talvez até algum ministro da Metrópole, os quais faziam o sacrifício de nesse dia se deslocarem às zonas de guerra para, diziam eles, levantar o moral das tropas, algumas das quais já há quase 24 meses ali se encontravam.
Para evitar que Suas Excelências apanhassem algum susto enquanto estivessem em Mueda, a maioria das tropas operacionais eram colocadas no mato, quer em patrulhamentos afastados quer alguns próximos do arame farpado, de modo que os combatentes da Frelimo se mantivessem o mais longe possível e sem possibilidades de efectuar qualquer ataque.
[...]

Ler o texto completo aqui.

© António Silvestre

8.11.07

A Irreverência do Meu Pé Esquerdo

Ler o texto completo na pág. 12 do jornal Elo da ADFA ou aqui.



[...]

Para poder rastejar à vontade sobre a relva eu deixara a prótese e a canadiana equilibradas uma na outra, talvez inspirado no método que usávamos na tropa para pôr as armas de cano para cima num feixe em pirâmide a que chamávamos pitorescamente "ensarilhar armas". Não sei qual das duas coisas mais interessava aos alemães que já constituíam um público considerável nas janelas do hospital, cracanholos para os portugueses; se o ensarilhar armas da minha prótese com a canadiana se a figura altamente suspeita, deitada sobre a relva, de pijama e de máquina fotográfica em punho, apontada para coisa nenhuma, à espera que os coelhos saíssem da toca.
Enquanto a minha teimosia em não pôr o pé para baixo aumentava a indignação da menina dos olhos negros ali à minha frente; a minha teimosia em fotografar os coelhos aumentava o assombro dos alemães, na minha memória.

[...]

24.10.07

Sagal

Do Ex Capitão Mil. António Almeida - Texto completo aqui


O ataque ao aquartelamento do Sagal durava já há mais de 48 horas, quando regressou a Mueda a coluna de abastecimento a Mocimboa do Rovuma.
O empenhamento das forças da Frelimo, que actuavam em Cabo Delgado, neste ataque, possibilitou a realização da coluna, sem grandes sobressaltos, o que era inédito naquelas paragens.
Entretanto em Mueda, com as notícias que chegavam dos militares cercados no Sagal, a situação ia-se agravando. Os meios aéreos não se aproximavam, face aos dispositivos de defesa montados pelos guerrilheiros, conhecedores dos efeitos da ajuda que os aviões e hélis prestavam aos quartéis atacados. As notícias apontavam para a quase impossibilidade de uma coluna militarizada, por terra, lá chegar. Não se sabia ao certo se havia feridos graves, mas havia já a certeza que não existiam mortos.
[...]


(c) António Almeida

24.9.07

O Dia em que se Viu Mueda a Arder

Às vezes a solidão obriga a confrontarmo-nos com as coisas mais básicas da existência e nem o Tempo, esse grande déspota, apaga completamente o que uma vez teve verdadeiro valor para nós. Deixem-me recordar-vos a coragem de meia-dúzia de homens n’ “O Dia em que se Viu Mueda a Arder”. Coragem sim; essa sublimação do medo em generosidade.



Ler o texto completo aqui.


[...]

Não sei, nem nunca aprendi a conhecer um herói; a não ser talvez quando um enfermeiro desarmado nos socorre na picada; a não ser talvez quando um soldado se esquece momentaneamente de si para se lembrar dos outros, como ali o Caseiro e o Silvestre.
Pôr a própria vida em perigo para salvar uma nação inteira é um acto heróico por certo, mas pagar o mesmo preço para salvar um punhado de amigos acossados pelos guerrilheiros no meio do mato é sem dúvida um acto mais heróico ainda, que o valor da nossa coragem está naquilo que se oferece e não no que se recebe. [...]

Ler o texto completo aqui.

3.9.07

Louvor e Punição

É preciso dizer que acreditámos em vocês? É preciso dizer que acreditámos até ao ponto de a vossa mentira ser um insulto à nossa inteligência? Que credo era o vosso, do qual apenas nos contaram a parte que dizia respeito ao nosso dever?
Os soldados têm que estar à altura da missão que lhes confiam. Os políticos têm que estar à altura do momento histórico em que vivem e os comandantes militares têm que estar à altura de ambos.
Sabemos hoje, todos os que ainda não sabiam nessa altura, que os políticos portugueses que mantiveram a guerra colonial viviam orgulhosamente autistas num momento histórico anacrónico; sabemos que os soldados portugueses fizeram o que se lhes pediu como todos os soldados fazem em todas as guerras; e os comandos militares? Será que ao menos respeitavam aqueles que lhes ganhavam os louvores e as condecorações, com o seu suor, o seu sangue e os seus traumas?
Cada um que fale pela experiência que tem.
A CART 3503 combateu durante dois anos e dois meses, teve 58 baixas; durante esse tempo teve 6 (SEIS) comandantes e no mês de Junho de 1972, segundo os registos da unidade, já tinha sofrido 2 feridos, destruído vinte e quatro minas e feito 5 mortos ao inimigo, quando finalmente o comandante do batalhão decidiu louvar um dos seus homens. Quem? Será que louvou um militar dos que arriscaram a vida no mato e nas picadas? Ingénuos! Leiam só:

[…] o Exmo Comandante do B. Caç. 15, louvou o 1º. Sargento de Artª. NM-(xxxxxxxx) – Jxxxxx, desta CART., porque em todo o tempo que exerceu as funções de 1º sargento, responsável pela escrita da companhia, sempre levou a bom termo os inúmeros dele dependentes de forma pertinente e eficaz.

A omissão do número mecanográfico e do nome do sargento devem-se ao meu respeito pela preservação da sua identidade, a pobreza do português deve-se ao louvado sargento que foi quem escreveu isto, embora lhe tenham sido reconhecidos inúmeros. Inúmeros?! "inúmeros" quê? Parece que ninguém lhe identificou os motivos para o louvor, apesar de serem "inúmeros" e de os ter "levado a bom termo".
Mas até essa data, além dos factos acima descritos pelo menos 5 militares já se tinham evidenciado por actos de coragem, ao ponto de serem mencionados pelos seus respectivos comandantes nos relatórios de operações.
Até ao nosso primeiro morto ter ocorrido, os únicos militares louvados foram os que fizeram doações de sangue, o impedido da messe e nosso primeiro-sargento.
Daí até ao fim da comissão, muita coisa ocorreu, muitos comandantes vieram e foram embora, mas a CART 3503 continuou lá, não como chegou, porque foram muitos os que tombaram em combate, e continuou lá muito para além da sua obrigação. Cinquenta e sete dias de guerra para além da sua obrigação, para sermos precisos.
E quando chegou finalmente o dia tão esperado para a sua partida, adiado numa sucessão interminável de cinquenta e sete dias? Que se espera de um grupo de homens que deram o melhor de si, quase tudo de si, e que finalmente vêm o fim do seu degredo e do seu martírio? Alegria, não é? Normal, não?
Ingénuos! Isso é para vocês, que não sabem que entre os políticos que não estavam à altura do momento histórico e os soldados que aceitaram cumprir o seu dever como em todos os momentos da história, existia uma classe de pessoas que viviam à sombra dos primeiros e à custa dos segundos.

NOTA DE PUNIÇÃO

puno com repreensão agravada o capitão milº. de Infantaria ANTÓNIO PEREIRA DE ALMEIDA, da C.ART. 3503, porque, sem para isso estar devidamente autorizado, tomou parte numa exteriorização de alegria, levada a efeito pelo pessoal da sua companhia, no dia 05ABR74, entre as 21 e as 24 horas, originada pelo final da comissão e regresso à Metrópole, […]

Não omito o nome do capitão punido, porque há punições que nos dignificam por revelarem um tal nível de estupidez que deveras embaraçoso seria recebermos um louvor.

É sim. É preciso dizer que acreditámos em vocês, políticos e comandantes. É preciso dizer também que jamais esqueceremos isso. Nós aprendemos. E vocês? Será que vocês já aprenderam a estar ao nível do momento histórico em que vivem?
Duvido. A estupidez é crónica.

20.8.07

Os Sonhos dos Nossos Filhos

Com que sonham eles? Terão herdado os nossos sonhos? Com que livros caminham, com que música voam? Que distância os separa de nós?
Ainda fazem sentido para eles as bandeiras que erguemos? Ainda ouvirão os tiros que demos? E o amor que fizemos?
Quando foi que nos distraímos e os deixámos crescer? Fomos nós que os perdemos ou foram eles que nos perderam a nós?
Com sorte, encontrar-nos-emos por aí. A meio de um livro, seria esperar muito?
Talvez possamos encontrá-los numa canção. Esta é uma amostra das canções que ouvem. Tentar entender as suas inquietações pode ser um passo para ajudar a encurtar a metade do caminho que nos cabe a nós percorrer.

Para ouvir, faça stop no leitor media player na barra lateral do blog e faça play neste

Dave Matthews Band

Os Sonhos dos Nossos Pais
(tradução livre)

Oh, eu sufoco, eu sufoco,
No fumo desta casa em chamas.
Arranho e esgravato
Mas não consigo sair daqui.
Mas quem há-de ser, quem,
Que esgravata o chão?
Oh, é o meu mundo, claro,
Mas de quem é este ouro que desenterro?

Quando vamos, para aonde vamos
Quando estivermos mortos?
A sentença ainda é válida?
Ainda estamos na fila
A seguir aos que já morreram há muito,
Com as lágrimas de dor abafadas,
Os ossos enterrados?
Já chegou a nossa hora?
Já chegou sim,
Sem apelo nem agravo.

Não quero acordar
Perdido nos sonhos dos nossos pais.
Oh, é um desperdício puto,
Viver e morrer pelos sonhos dos nossos pais.
Embora deva confessar, sim,
O meu espanto sobre este,
Este amor que sinto, amor.
Devem ser os sonhos dos nossos pais.

Quero partir, quero fugir.
Mas voltamos por saber que nos reprovam.
Estou a ser perseguido, perseguido.
Larguem-nos, libertem-nos.
Mas não acredito, não acredito,
Que este sabor na boca
Seja apenas a língua,
Tão amarga que quero cuspi-la.

Repito estas palavras,
Saem cá para fora
Sob a luz azul do céu,
Encho as folhas em branco
Com estas torpes mentiras,
Mas ouço no fundo de mim
Um eco, um eco,
De vácuo… vácuo… vacuidade,
Que vomito e engulo.

Não quero acordar
Perdido nos sonhos dos nossos pais.
Oh, é um desperdício puto,
Viver e morrer pelos sonhos dos nossos pais.
Embora deva confessar, sim,
O meu espanto sobre este,
Este amor que sinto, amor.
Devem ser os sonhos dos nossos pais.

Chove-me na cabeça.
Chove-me na cabeça.
Chove sobre mim.
E então respiro.
Chove me no amor.
Chove mais e mais.
Porque não consigo tirar-te dos meus sonhos?

Olha aqui, olha aqui,
Inchado, boiando
De pança para baixo,
De pança para cima, na água.
Mas quem é que se está a afogar?
Fomos atrás de um bêbado
E ele pegou-nos a bebedeira,
Mas é como se ele tivesse bebido o juízo
E nós ficássemos sem saída.

Não quero acordar
Perdido nos sonhos dos nossos pais.
Oh, é uma pena puto,
Viver e morrer pelos sonhos dos nossos pais.
Embora deva confessar, sim,
O meu espanto sobre este,
Este amor que sinto, amor.
Devem ser os sonhos dos nossos pais.

Este amor que sinto, amor.
Devem ser os sonhos dos nossos pais.
Este amor que sinto, amor.
Devem ser os sonhos dos nossos pais.
Este amor que sinto, amor.
Deve ser o amor dos nossos pais.

Este amor que sinto, amor.

1.8.07

Prefácio Para Um Livro Qualquer

[...]
Nessa idade eu tinha poucas dúvidas e tudo fazia sentido para mim nesta vida, por isso encarava aquele portão, estoicamente no seu posto, como algo de transcendente que eu nem me atrevia a questionar; tal e qual um fiel devoto perante os dogmas da sua religião.
Uma vez por ano, quando o meu avô ia buscar a carrada de mato àquele pinhal perdido numa encosta da Serra do Buçaco, eu erguia-me antes da curva da estrada para ver se o portão ainda lá estava, interrompendo o caminho que dava acesso à seara. Será que as pessoas paravam junto ao portão, o abriam, como quem abre a porta de armas de um quartel e depois o transpunham e fechavam de novo, para impedir os intrusos de devassarem a propriedade alheia, apesar de toda a seara em redor estar completamente desimpedida?
– Avô, para que serve aquele portão? – Atão, prá 'brir e fechar, no é? E eu ficava a magicar… Que mundos invisíveis, que universos paralelos, que prodígios se nos revelariam ao atravessarmos aquele portão; tal como o delirante País das Maravilhas estava para lá do espelho da Alice?
Nunca consegui convencer o meu avô a parar para eu experimentar passar pelo portão, só para ver o que acontecia. Mas o cavalo resfolegava sempre logo a seguir à curva da estrada, talvez sentindo algo oculto ao entendimento humano, e imediatamente a rela do meu avô acordava-o para as coisas deste mundo.
Entretanto cresci e fui perdendo todas as certezas que tinha. Deixei de ir com o meu avô buscar o mato. Depois o cavalo morreu. Depois houve uma guerra e eu fui combater. Depois houve uma revolução e a guerra acabou. Depois o meu avô morreu também.
Acho que o mundo todo se modificou e nem uma só certeza de criança me acompanhou pela vida fora.
[...]

Ler o texto completo no Jornal Elo da ADFA que afinal ainda não tirou férias este ano.

12.7.07

A Cena do Ódio

Em Agosto o Jornal Elo não se publica e é um bom álibi para exibir aqui uma montagem de excertos de um poema de um dos maiores vultos do futurismo português, entre a genialidade e a polémica e entre a paixão e o génio (no dizer de Pessoa).

O poema; narcísico, procraz, iconoclasta, virulento, delirante e anti-burguês:
A Cena do Ódio

O autor; pintor, escritor, ensaísta, dramaturgo, romancista, poeta d'Orpheu, futurista e tudo:
Almada Negreiros


Auto-retrato

A Cena do Ódio (Três excertos)

Clique em Play para ouvir o poema dito por Mário Viegas

de José Almada Negreiros
poeta sensacionista e Narciso do Egipto


Ergo-Me Pederasta apupado d'imbecis,
Divinizo-Me Meretriz, ex-líbris do Pecado,
e odeio tudo o que não Me é por Me rirem o Eu!
Satanizo-Me Tara na Vara de Moisés!
O castigo das serpentes é-Me riso nos dentes,
Inferno a arder o Meu Cantar!
Sou Vermelho-Niagara dos sexos escancarados nos chicotes
dos cossácos!
Sou Pan-Demónio-Trifauce enfermiço de Gula!
Sou Génio de Zaratrusta em Taças de Maré-Alta!
Sou Raiva de Medusa e Danação do Sol!
Ladram-Me a Vida por vivê-La
e só Me deram Uma!
Hão-de lati-La por sina!
Agora quero vivê-La!
Hei-de Poeta cantá-La em Gala sonora e dina
Hei-de Glória desanuviá-La!
Hei-de Guindaste içá-La Esfinge
da Vala pedestre onde Me querem rir!
Hei-de trovão-clarim levá-La Luz
às Almas-Noites do Jardim das Lágrimas!
Hei-de bombo rufá-La pompa de Pompeia
nos Funerais de Mim!
Hei-de Alfange-Mahoma
cantar Sodoma na Voz de Nero!
Hei-de ser Fuas sem Virgem do Milagre,
hei-de ser galope opiado e doido, opiado e doido...
Hei-d'Átila, hei-de Nero, hei-de Eu,
cantar Átila, cantar Nero, cantar Eu!
Sou Narciso do Meu Ódio!
- O Meu ódio é Lanterna de Diógenes,
é cegueira de Diógenes,
é cegueira da Lanterna!
(O Meu Ódio tem tronos d' Herodes,
histerismos de Cleópatra, perversões de Catarina!)
O Meu ódio é Dilúvio Universal sem Arcas de Noé,
só Dilúvio Universal!
e mais Universal ainda:
Sempre a crescer, sempre a subir...
até apagar o Sol!
Sou trono de Abandono, mal-fadado,
nas iras dos Bárbaros meus Avós.
Oiço ainda da Berlinda d'Eu ser sina
gemidos vencidos de fracos,
ruídos famintos de saque,
ais distantes de Maldição eterna em Voz antiga!
Sou ruínas rasas, inocentes
como as asas de rapinas afogadas.
Sou relíquias de mártires impotentes
sequestradas em antros do Vício.
Sou clausura de Santa professa,
Mãe exilada do Mal, Hóstia d'Angústia no Claustro,
freira demente e donzela,
virtude sozinha da cela
em penitência do sexo!
Sou rasto espezinhado d'Invasores
que cruzaram o meu sangue, desvirgando-o.
Sou a Raiva atávica dos Távoras,
o sangue bastardo de Nero,
o ódio do último instante
do Condenado inocente!
A podenga do Limbo mordeu raivosa
as pernas nuas da minh'Alma sem baptismo...
[…]
E vós ó gentes que tendes patrões,
autómatos do dono a funcionar barato!
Ó criadas novas chegadas de fora p'ra todo o serviço!
Ó costureiras mirradas,
emaranhadas na vossa dor!
Ó reles caixeiros, pederastas do balcão,
a quem o patrão exige modos lisonjeiros
e maneiras agradáveis pròs fregueses!
Ó Arsenal fadista de ganga azul e coco socialista!
Ó saídas pôr-do-sol das Fábricas d'Agonia!
E vós também, ó toda a gente, que todos tendes patrões!
E vós também, nojentos da Política
que explorais eleitos o Patriotismo!
Macrots da Pátria que vos pariu ingénuos
e vos amortalha infames!
E vós também, pindéricos jornalistas
que fazeis cócegas e outras coisas
à opinião pública!
E tu também roberto fardado:
Futrica-te espantalho engalonado,
apeia-te das patas de barro,
Larga a espada de matar
e põe o penacho no rabo!
Ralha-te mercenário, asceta da Crueldade!
Espuma-te no chumbo da tua Valentia!
Agoniza-te Rilhafoles armado!
Desuniversidadiza-te da doutorança da chacina,
da ciência da matança!
Groom fardado da Negra,
pária da Velha!
Encaveira-te nas esporas luzidias de seres fera!
Despe-te da farda,
desenfia-te da Impostura, e põe-te nu, ao léu,
que ficas desempregado!
Acouraça-te de senso,
vomita de vez o morticínio,
enche o pote de raciocínio,
aprende a ler corações,
que há muito mais que fazer
do que fazer revoluções!
Ruína com tuas próprias peças-colossos
as tuas próprias peças colossais,
que de 42 a 1 é meio-caminho andado!
Rebusca no seres selvagem
no teu cofre do extermínio
o teu calibre máximo!
Põe de parte a guilhotina,
dá férias ao garrote!
Não dês língua aos teus canhões,
nem ecos às pistolas,
nem vozes às espingardas!
– São coisas fora de moda!
Põe-te a fazer uma bomba
que seja uma bomba tamanha
que tenha dez raios da Terra.
Põe-lhe dentro a Europa inteira,
os dois pólos e as Américas,
a Palestina, a Grécia, o mapa
e, por favor, Portugal!
Acaba de vez com este planeta,
faze-te Deus do Mundo em dar-lhe fim!
(Há tanta coisa que fazer, Meu Deus!
e esta gente distraída em guerras!)
[…]
Mas tu nem vives nem deixas viver os mais,
Crápula do Egoísmo, cartola d'espanta-pardais!
Mas hás-de pagar-Me a febre-rodopio
novelo emaranhado da minha dor!
Mas hás-de pagar-Me a febre-calafrio
abismo-descida de Eu não querer descer!
Hás-de pagar-Me o Absinto e a Morfina
Hei-de ser cigana da tua sina
Hei-de ser a bruxa do teu remorso
Hei-de desforra-dor cantar-te a buena-dicha
em águas fortes de Goya
e no cavalo de Tróia
e nos poemas de Poe!
Hei-de feiticeira a galope na vassoura
largar-te os meus lagartos e a Peçonha!
Hei-de Vara Magica encantar-te Arte de Ganir
Hei-de reconstruir em ti a escravatura negra!
Hei-de despir-te a pele a pouco e pouco
e depois na carne-viva deitar fel,
e depois na carne-viva semear vidros,
semear gumes,
lumes,
e tiros.
Hei-de gozar em ti as poses diabólicas
dos teatrais venenos trágicos do persa Zoroastro!
Hei-de rasgar-te as virilhas com forquilhas e croques,
e desfraldar-te nas canelas mirradas
o negro pendão dos piratas!
Hei-de corvo marinho beber-te os olhos vesgos!
Hei-de bóia do Destino ser em brasa
e tu náufrago das galés sem horizontes verdes!
E mais do que isto ainda, muito mais:
Hei-de ser a mulher que tu gostes,
hei-de ser Ela sem te dar atenção!
Ah! que eu sinto claramente que nasci
de uma praga de ciúmes.
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo
e a Alma dos Bórgias a penar!...



Este poema foi escrito durante os três dias e as três noites
que durou a revolução de 14 de Maio de 1915.



A Álvaro de Campos a dedicação intensa de todos os meus avatares.


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24.6.07

O Tiro

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[...]
Há uma grande confusão quanto aos conceitos de cobardia e de coragem. Normalmente as instituições militares invertem esses conceitos e rotulam de corajosa uma típica acção instintiva de medo, dado que um soldado, que face ao perigo mantenha a serenidade e se abstenha de matar primeiro o inimigo, é um elemento perigoso para si mesmo e para os seus pares, justamente porque o medo dos inimigos é que os torna a eles verdadeiramente perigosos também.
Foi o medo que fez Ricardo manter o olhar fixo no olhar do rosto por detrás da folhagem, sem vacilar; o medo, que aumentou a produção de adrenalina; o medo, que estimulou o coração; o medo, que elevou o nível de açúcar no sangue; o medo, que escolheu criteriosamente que músculos contrair e que músculos relaxar; o medo, que fez as mãos erguerem, nessa ínfima fracção de tempo, a sua Heckler & Koch Gewehr 3; G3 para os amigos.
A mão esquerda, que a pegou pelo guarda-mão de baclite, e a direita, que já a segurava pelo punho, ergueram a arma, apontando-a àqueles olhos de íris negras e brilhantes por entre a folhagem.
À segunda batida do seu coração já o corpo de Ricardo estava ligeiramente curvado para a direita para se estabilizar na nova posição a que a arma erguida obrigava; mas nem assim os seus olhos se afastaram, pupila com pupila, dos olhos negros por detrás das folhas.
[...]
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15.6.07

Batismo de Fogo

A CART 3503 chegou com cerca de cento e cinquenta militares a Mueda. À medida que nos íamos aproximando daquele fim-do-mundo é que ficávamos a saber realmente o que nos esperava e nessa medida também, íamo-nos sentindo cada vez mais sós, até tomarmos consciência que éramos apenas cada um de nós e a morte.
Apenas o conforto de sabermos que éramos cento e cinquenta pessoas a sentirem o mesmo. Como seria se estivéssemos sós, também fisicamente? Eu não sei. Mas o então Capitão António de Almeida sabe.
Um militar acabado de ser treinado para comandar tropas em zona de cem por cento, como então se dizia dos locais onde a probabilidade de não andar constantemente aos tiros e a rebentar minas, era nula. Era para aí que o Cap. Almeida ia. Para comandar uma companhia de militares cansados de guerra e de capitães que, ou tinham sido feridos, ou conseguiram que aquela percentagem de contacto directo com o inimigo decrescesse confortavelmente, pelo menos para eles.


Eu não conheci o Cap. Almeida porque uma mina anti-pessoal adiou para mais de trinta anos depois o primeiro encontro com ele, mas para nos pormos na sua pele basta ler o seu testemunho:



- - - §§§ - - -



As mulheres agarram as crianças, gritam, lançam-se nas valas que ladeiam as ruas. Os soldados desaparecem em direcção aos respectivos postos de combate. E o capitão... atónito, parado no meio da rua, ao volante do jipe, sem saber que fazer, nem compartilha daquela fuga desordenada das crianças que antes brincavam ou dos soldados e mulheres que bebiam...até que um estrondo mais forte e muito próximo, fê-lo saltar do jipe e correr, correr...

[…]
Fora a estreia de fogo, sem dar um único tiro. «Que fazer» - interrogando-se olhando as estrelas. O decurso do tempo haveria de lhe mostrar que o homem é um «bicho» capaz de suportar, até à morte, as situações mais adversas; apesar daqueles que não as aceitam...

© António Almeida

25.5.07

Encontro de Veteranos

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Encontro da CART 3503 em Pardes no dia 28-04-2007


Para onde vão os sonhos quando morrem?

Para onde vão todos os projectos abandonados, todas os desejos e ilusões que um dia eram certezas e de que agora nem nos lembramos já? Quem souber que diga.

Há dias em que o passado nos visita como um intruso que surge do nada, quando uma alegria súbita e incompreensível nos ilumina todo o ser ou uma tristeza inesperada nos deixa de repente na mais dolorosa sombra.

Porém, há dias que somos nós que vamos ao encontro do passado como quem decide entrar no sótão da casa velha dos nossos avós, pela razão tão simples de o sótão ter permanecido fechado tanto tempo que sentimos curiosidade em saber o que lá se guarda ainda.

Uma ave qualquer, de que não sei o nome e que nada tem a ver com isto, crocita um lamento tristíssimo para os lados do Espírito Santo e o arfar de um helicóptero que deve dirigir-se para os HUC traz-me de volta, no mesmo instante, ressonâncias de África.

Ao cimo da encosta, as árvores inquietas com o vento. No andar de baixo os vizinhos a rirem de vez em quando. E o pássaro crocita, crocita. Pode haver mais tristeza no canto de uma ave sem nome do que no coração de uma viúva.

O carro do lixo desce a calçada da antiga estrada do Tovim num estardalhaço despropositado que me impede de pensar seja no que for durante cerca de dois minutos. Só consigo relembrar os rostos, os sorrisos e algumas frases entrecortadas que ressuscitaram, à mesa do jantar, uma parte de mim que já havia morrido há muito.

Afinal aquela mão no meu braço enquanto o helicóptero não vinha, era o enfermeiro Costa. Eu a julgar que tinham demorado horas a evacuar-me e não foram muito mais de vinte minutos.

Eu tinha frio. Eu tinha tanto frio e afinal o sol fritava os miolos dentro da cabeça de todos os soldados.

E não havia nenhuma música dos Doors enquanto o helicóptero descia na picada e no entanto, durante todos estes anos eu recordo a voz do Jim Morrisson a dizer-me: "Isto é o fim, meu belo amigo. Isto é o fim, meu único amigo, o fim. Custa deixar-te ir, mas não voltarás a acompanhar-me. É o fim do riso e das mentiras piedosas. É o fim das noites em busca da morte. Isto é o fim." E uma guitarra de cordas tangidas como nervos doridos ficou a soar para sempre dentro do meu peito.
[...]

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