15.6.07

Batismo de Fogo

A CART 3503 chegou com cerca de cento e cinquenta militares a Mueda. À medida que nos íamos aproximando daquele fim-do-mundo é que ficávamos a saber realmente o que nos esperava e nessa medida também, íamo-nos sentindo cada vez mais sós, até tomarmos consciência que éramos apenas cada um de nós e a morte.
Apenas o conforto de sabermos que éramos cento e cinquenta pessoas a sentirem o mesmo. Como seria se estivéssemos sós, também fisicamente? Eu não sei. Mas o então Capitão António de Almeida sabe.
Um militar acabado de ser treinado para comandar tropas em zona de cem por cento, como então se dizia dos locais onde a probabilidade de não andar constantemente aos tiros e a rebentar minas, era nula. Era para aí que o Cap. Almeida ia. Para comandar uma companhia de militares cansados de guerra e de capitães que, ou tinham sido feridos, ou conseguiram que aquela percentagem de contacto directo com o inimigo decrescesse confortavelmente, pelo menos para eles.


Eu não conheci o Cap. Almeida porque uma mina anti-pessoal adiou para mais de trinta anos depois o primeiro encontro com ele, mas para nos pormos na sua pele basta ler o seu testemunho:



- - - §§§ - - -



As mulheres agarram as crianças, gritam, lançam-se nas valas que ladeiam as ruas. Os soldados desaparecem em direcção aos respectivos postos de combate. E o capitão... atónito, parado no meio da rua, ao volante do jipe, sem saber que fazer, nem compartilha daquela fuga desordenada das crianças que antes brincavam ou dos soldados e mulheres que bebiam...até que um estrondo mais forte e muito próximo, fê-lo saltar do jipe e correr, correr...

[…]
Fora a estreia de fogo, sem dar um único tiro. «Que fazer» - interrogando-se olhando as estrelas. O decurso do tempo haveria de lhe mostrar que o homem é um «bicho» capaz de suportar, até à morte, as situações mais adversas; apesar daqueles que não as aceitam...

© António Almeida

25.5.07

Encontro de Veteranos

Ler o texto completo no jornal Elo da ADFA ou aqui


Encontro da CART 3503 em Pardes no dia 28-04-2007


Para onde vão os sonhos quando morrem?

Para onde vão todos os projectos abandonados, todas os desejos e ilusões que um dia eram certezas e de que agora nem nos lembramos já? Quem souber que diga.

Há dias em que o passado nos visita como um intruso que surge do nada, quando uma alegria súbita e incompreensível nos ilumina todo o ser ou uma tristeza inesperada nos deixa de repente na mais dolorosa sombra.

Porém, há dias que somos nós que vamos ao encontro do passado como quem decide entrar no sótão da casa velha dos nossos avós, pela razão tão simples de o sótão ter permanecido fechado tanto tempo que sentimos curiosidade em saber o que lá se guarda ainda.

Uma ave qualquer, de que não sei o nome e que nada tem a ver com isto, crocita um lamento tristíssimo para os lados do Espírito Santo e o arfar de um helicóptero que deve dirigir-se para os HUC traz-me de volta, no mesmo instante, ressonâncias de África.

Ao cimo da encosta, as árvores inquietas com o vento. No andar de baixo os vizinhos a rirem de vez em quando. E o pássaro crocita, crocita. Pode haver mais tristeza no canto de uma ave sem nome do que no coração de uma viúva.

O carro do lixo desce a calçada da antiga estrada do Tovim num estardalhaço despropositado que me impede de pensar seja no que for durante cerca de dois minutos. Só consigo relembrar os rostos, os sorrisos e algumas frases entrecortadas que ressuscitaram, à mesa do jantar, uma parte de mim que já havia morrido há muito.

Afinal aquela mão no meu braço enquanto o helicóptero não vinha, era o enfermeiro Costa. Eu a julgar que tinham demorado horas a evacuar-me e não foram muito mais de vinte minutos.

Eu tinha frio. Eu tinha tanto frio e afinal o sol fritava os miolos dentro da cabeça de todos os soldados.

E não havia nenhuma música dos Doors enquanto o helicóptero descia na picada e no entanto, durante todos estes anos eu recordo a voz do Jim Morrisson a dizer-me: "Isto é o fim, meu belo amigo. Isto é o fim, meu único amigo, o fim. Custa deixar-te ir, mas não voltarás a acompanhar-me. É o fim do riso e das mentiras piedosas. É o fim das noites em busca da morte. Isto é o fim." E uma guitarra de cordas tangidas como nervos doridos ficou a soar para sempre dentro do meu peito.
[...]

Ler o texto completo no jornal Elo da ADFA ou aqui

17.5.07

Não me Atirem Flores

Alguns vieram. Felizmente muitos. De certo modo os que vieram foram os que sofreram mais, ou pelo menos mais tempo. É por isso que as palavras se recusam por vezes a sair. As palavras explícitas, aquelas que ao serem ditas ferem tanto como aquilo que nomeiam. Mas há coisas que não têm nome. É isso que fica no espaço entre as palavras. Foi para isso que o Homem inventou a poesia e a música: para dizer o que ainda não tem nome mas que se sente tão bem. Não procurem tratados ou obras-primas para sentirem a dor dos que sofreram, procurem antes entre as palavras e entre as linhas o que ainda não tem nome para ser dito.

O Caseiro veio. Esteve lá e veio. Deram-lhe um império inteiro para defender e ele defendeu a parte que lhe coube, como todos nós. Talvez o Caseiro não mereça flores por ter cumprido o seu dever; flores decerto não, mas merece, o Caseiro e todos nós, que um dia tivemos uma arma na mão, o respeito por termos posto a nossa juventude nas mãos de quem nos convenceu que era nosso dever lutar.


As palavras possíveis do Caseiro, que eu publico hoje, são para ser lidas devagar. Para se entenderem bem os silêncios.


===§§§===



Não me atirem flores
Tenho uma arma na mão
Estou com muitas dores
E um aperto no coração
[...]
© J. Caseiro

19.4.07

A Doce Ocarina do Vento Norte

Ler o texto completo aqui. ou no Jornal Elo da ADFA


[...]
O cigarro já esbraseia ao canto da boca e o isqueiro já esta arrumado. Agora Helena pousa os olhos numa lápide em especial, de granito negro, como se tudo o que fizera até aqui tivesse sido uma encenação ou uma preparação para que o seu olhar não se viesse a distrair com mais nada.
Daqui não se pode ver a foto no medalhão oval, de um rosto masculino, numa coloração errada de excesso de magenta, olhando de frente, com um semblante distorcido de quem tentou um sorriso e quase lhe saiu um esgar de dor; nem o livro em mármore branco com o crachá de uma unidade militar e a frase "Eterna audade" a faltar-lhe o "s" e a inspiração.
A velha passa por ela sempre olhando o chão e murmura um "bô tarde stora" como se estivesse a pedir desculpa por estar ali sem ser convidada.
Helena acompanha-a com o olhar até ao portão e então sente que está só no cemitério. Levanta-se e encaminha-se para a sepultura de granito negro. Agora vê bem a foto com excesso de magenta, olhando para ela de frente e o livro com o crachá. "Eterna audade dos companheiros de Mueda."
Quando o pai morreu Helena sentiu alívio. Mais do que uma vez reparou que a mãe remoçara como se tivesse vivido muito tempo na sombra e de repente tivesse ficado iluminada. E as amigas da mãe, que em vez dos pêsames lhe diziam "Acabou-se a tua penitência".
Se não tivesse sido a isenção de propinas por ser filha de um deficiente militar, Helena dificilmente teria conseguido licenciar-se e a sua gratidão de filha resumira-se a essa constatação, até decidir transformar a campa rasa do pai naquele belo túmulo de granito negro.
A foto com magenta a mais olha-a com aquele sorriso dorido e Helena sente uma enorme pena de não ter sofrido uma única vez com a morte do pai. Queria ter chorado, queria ter passado noites em claro com saudades dele, mas a verdade é que Helena já era órfã antes do pai morrer. Um dia ouviu a mãe dizer entre dentes "Estou casada com um cadáver".
Aquela foi a única foto recente do pai que Helena encontrara. Havia só aquele álbum que ele folheava com desvelo, repleto de fotos da guerra em África. Como era possível que o pai sentisse saudades de um tempo de horrores que lhe roubara tudo? Que procurava ele naquele álbum em que aparecia sempre com um sorriso num rosto de criança? Talvez o rosto de criança, talvez o sorriso. Depois as fotos rareavam e o sorriso nunca mais aparecia. Que terá acontecido para o seu pai se ter transformado naquele homem apagado e taciturno que parecia consumir toda a luz à sua volta, até que um dia se consumiu a si próprio totalmente, não tendo ficado nada a não ser a depressão no sofá onde ele se costumava sentar.

[...]

Ler o texto completo aqui.

13.4.07

A chegada a Mueda

A Companhia de Artilharia 3503 foi o que os seus homens foram. Todos sem excepção. E cada um de nós acabou por ser um pouco aquilo que foi cada um dos restantes. É isso a camaradagem. Palavra de ressonâncias militares que significa hoje muita coisa, mas para mim significa o último cigarro partilhado por todos, a última lata de conserva que não matava a fome a um e que dava para todo o grupo de combate, a eminência da morte no olhar de um amigo, a mão a apertar-me o braço enquanto o helicóptero não vinha. ‑Coragem furriel, coragem.

O alferes Silvestre era um desses camaradas. Foi o primeiro comandante da companhia, porque fomos para a guerra sem capitão. Depois veio um capitão mas apenas por algum tempo e o alferes Silvestre voltou a ser o comandante. E depois outro e outro, mas o alferes Silvestre continuou sempre lá. Foi ferido gravemente e voltou. O alferes Silvestre voltou sempre. Posso dizer que foi o nosso comandante várias vezes, enquanto os capitães iam faltando. Tantas vezes, que para todos os homens ele é que era o nosso comandante. O verdadeiro comandante da CART 3503. Tenho a certeza que se nos pedissem para procurar uma palavra para o definir, a palavra mais escolhida seria "camarada". E ser camarada é isso também: voltar sempre a ser um de nós.

É dele o trecho que publico hoje. O espanto e a inocência dos "checas" a chegarem ao mato.
Tudo iria mudar para todos a partir dali e nenhum de nós jamais sairia de lá como entrou.



--- %%% ---



6 de Fevereiro de 1972, Porto Amélia

Vista do barco uma baía linda, enorme e a cidade a subir a partir do cais. Fomos saindo do barco de olhos bem abertos e sentidos alerta à espera da guerra e de súbito uma recepção inesperada e ensurdecedora abateu-se sobre nós. Formando duas filas por onde nós teríamos que passar, grupos de homens sujos, roupas em farrapos, cabelos e barbas compridos, olhos esbugalhados e parecendo deitar sangue, gritavam e saltavam como loucos à nossa volta, abraçando-nos e chamando-nos checas. Eram os elementos que sobravam da 2730, companhia que íamos substituir.
[...]
Aqui, um grande ataque inesperado e diferente, tão diferente que apesar de todos os treinos em Portugal, ninguém nos tinha preparado para este. Um enxame de abelhas africanas que terá sido incomodado por alguma das nossas viaturas resolveu vingar-se e cada um fugiu como pode, os que não tiveram tempo chegaram a correr perigo de vida e foram evacuados de helicóptero para Mueda.

Recompostos, seguiu a coluna enfrentando agora novas dificuldades, as chuvas tinham deixado a picada em péssimo estado, pelo que o avanço das viaturas era extremamente difícil.


12 de Fevereiro de 1972, Mueda

Finalmente, as primeiras viaturas entraram em Mueda em 12 de Fevereiro de 1972 e as restantes no dia 13.

À entrada uma grande placa de madeira dava-nos as boas – vindas


© A. Silvestre



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10.4.07

Posfácio

Chamavam esgaseados aos ex-combatentes da Grande Guerra e cacimbados aos da Guerra Colonial, associando os seus traumas, no primeiro caso às bombas de gás e no segundo ao clima de África. O povo sempre soube o que os peritos e as autoridades teimaram em ignorar durante tanto tempo: alguns ex-combatentes sofrem do distúrbio psiquiátrico conhecido por PTSD, Transtorno Pós-traumático do Stress. Para eles a guerra não acaba nunca no armistício.
Confesso a pretensão literária dos textos que aqui vos mostrei, pelo que deve ser tomada em conta a intenção de transmitir sensações em vez de veicular informações, isto é, a verdade que transmito não é tanto a dos factos, como a dos sentimentos.

Mueda – Hospital e morgue – Foto do ex-capitão Almeida
último comandante da CART 3503)

[...] Todas as guerras começam cedo demais, todas acabam demasiado tarde. O tempo que duram serve apenas para medir a dimensão da imbecilidade humana.


Última formatura da CART 3503
antes de abandonar Mueda
Foto do ex Alferes Silvestre - ao centro
(o verdadeiro comandante da 3503)


Que estas minhas palavras sejam entendidas como um apelo para que não caia no esquecimento uma guerra que poderia ter sido evitada, ou que pelo menos poderia ter sido terminada com honra e dignidade e para que não volte a acontecer que políticos corruptos, falsos diplomatas e estrategas trogloditas, convoquem o heroísmo genuíno dos vinte e poucos anos de um jovem, para acudir à sua incompetência inoperante e à sua cobarde estupidez.

[...]

27.3.07

Nunca Voltarei a Mueda



Nunca
meu amor
odiei em Mueda
deram-me
demasiado iguais
amigos e inimigos
Sentados à noite
em redor do fogo
bebendo do mesmo vinho
que canto não nos uniria
onde o ladrar das armas
nos separou

Nunca
meu amor
amei em Mueda
estive sempre só
da minha alma para dentro
Ainda se ao menos
tivesse visto
alguém nascer em Mueda
mas o mais disponível que esteve
a graça divina
foi quando às vezes
ninguém morria


Queria
meu amor
levar-te a Mueda
para ouvirmos
o silêncio das armas
ao pôr-do-sol
e de manhã
à hora que a ignição da vida
acorda o Vale de Miteda
queria amar-te
meu amor

Queria amar-te
na humidade uterina da selva
que não estando ainda
deus disponível
pudéssemos ao menos
iniciar uma vida
onde tantas acabaram

Mas nunca
meu amor
nunca te amarei em Mueda
porque o amor
não germina
onde um homem
nunca viveu
e no entanto
matou


Fotos do ex-Capitão Miliciano António Pereira de Almeida
Último comandante da CART 3503

26.2.07

Desaparecido em Combate

Um dia há-de aparecer a boiar no rio Douro. Antes disso há-de ser feliz durante curtos espaços de tempo, agarrando-se à vida sempre que puder, como um alpinista que sobe dois metros e escorrega um.
Tem nome, tem família, mas agora é apenas uma farda suja que caminha à minha frente. Mal dá para ver que leva alguém lá dentro.
Um dia chamar-lhe-ão ex-combatente, deficiente militar, cacimbado, porque a história dele caminhará sempre alguns passos à sua frente, como agora faz ele em relação a mim.
[...]
Os tiros de todos os lados e os projécteis a estalarem no ar por cima da sua cabeça. Aquele som de chicote das balas a passarem a barreira do som. A fila da frente tomba e ele mergulha no capim. Rasteja, gatinha, corre, foge mata adentro. Sem saber se dos tiros, se do sorriso pegajoso da ordenança, se dos olhos mortiços do major, se do ar demasiado atencioso da mulher que fica em Mueda, enquanto ele tem que ir para o mato.
[...]

Ler o texto completo aqui.

27.1.07

Variações de uma Harmónica no Cacimbo


[...]
Há aqui uma solidão líquida como em certas estações de caminho de ferro em noites de Inverno e eu sinto-me um passageiro solitário à espera de um comboio de que não sei o horário.
A harmónica flutua no cacimbo como um desgosto ou um remorso, em ondas imprecisas como se fosse um improviso casual de alguém que tem o pensamento noutro lado, bem longe daqui. Pouco mais do que uma respiração sonora.
O furriel enfermeiro sai agora a caminho da batota nocturna com a sua permanente mordacidade. "Pensei que os vampiros precisavam de lua cheia" e eu com um sorriso complacente "estou a apanhar um banho de cacimbo antes de ir dormir".
O aerograma no bolso. Sinto-o na mão, fala-me de coisas que entretanto se tornaram estranhas. Parece impossível que para o meu amigo Zé os problemas estejam relacionados com futebol e mulheres; copos e festas. Depois no fim recomenda-me cuidado, como se eu estivesse em risco de apanhar um resfriado.
[...]

29.12.06

A Madrinha de Guerra


[...]
Vacilo entre o comum e o vulgar. Na parede ao fundo vê-se quase completamente um quadro que mostra em letra gótica muito elaborada a palavra "Motel" e depois uma lista de advertências destinadas aos utentes. A pose estudada faz adivinhar a voz do homem que disparou a máquina ‑ Agora olha pela janela… isso! E ela atirou o cabelo para trás com um gesto desajeitado e deixou que o seu olhar caísse da janela, lento e triste como uma ave pousando cansada no passeio da rua lá em baixo e vestiu à pressa um sorriso pouco convincente, que lhe ficou pendurado no rosto como um lenço solitário a enxugar, num estendal vazio.
[...]

Ler o texto completo aqui

23.11.06

Fadiga

[...] O medo, a raiva e a ansiedade são na guerra as personagens principais, mas é o cansaço o verdadeiro protagonista. O cansaço é a pior coisa que há numa guerra. A fadiga do corpo, a fadiga da mente, a fadiga da própria vida, que nos aproxima tanto da morte que dir-se-ia uma tentação permanente.
Acho que se há heróis numa guerra, que lutam com desprezo da própria vida é porque estão demasiado exaustos para considerarem a vida uma coisa digna de apreço. Nesta exaustão completa, o próprio instinto de sobrevivência desaparece.

[...] A lama debaixo de mim molda-se lentamente aos contornos do meu corpo como uma coisa viva que quisesse absorver-me entrando por todos os interstícios da farda até se colar à pele. Quando me levantar estarei completamente enlameado de um lado do corpo e deslavado pela chuva do outro.
Sinto a primeira sensação de prazer de todo o dia; se não fosse uma raiz que me pressiona as costelas, poderia dizer que não me lembro de melhor conforto do que este.
[...]

Veja o texto completo aqui ou no Jornal Elo da ADFA

30.10.06

O Prisioneiro


Foto do ex Alferes Miliciano Marques Lopes
[...]
Na parada, Samuel Ntaluma perfila ao lado do grupo de combate como se fosse mais um camarada de armas, roto, sujo com os lábios ainda avermelhados do molho salgado e picante das anchovas, obedecendo em perfeita sincronia com os soldados às ordens do alferes e, à voz de destroçar, Samuel Ntaluma bateu com o pé descalço no chão, mas ficou imóvel no meio da parada enquanto os soldados dispersavam.
Eu também bati com a minha bota no chão e também não me mexi e também fiquei no meio da parada, fiquei a vê-lo entrar na secretaria da companhia de cabeça erguida e ar digno, parecendo mais um convidado do que um prisioneiro. Quando passou à minha frente pareceu-me que sorriu.
[...]

Ler o texto completo aqui ou no Jornal Elo da ADFA

26.9.06

Aerograma

[...] como se não tivesse havido uma guerra, como se eu não tivesse feito com homens como eu, o que agora faço com as latas de cerveja.
E então sentirei um apelo enorme para te contar tudo isto, como se a música de um piano se soltasse, retinindo pérola a pérola sobre o pesado mármore do silêncio e acordasse em mim o riso e a inocência.
Se fores tu, lembraremos o Rivelino como uma criança inocente antes de lhe terem dado a missão que só é costume desculpar aos deuses e que na verdade nos transforma a todos em predadores ou em presas, em projécteis ou em alvos.


Se fores tu, terei a certeza que não aprendi a lição da morte, e este aerograma terá finalmente a sua destinatária.

Com todo o meu amor,

Manuel


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27.8.06

Villa Aquilini

Como em Setembro não se edita o Jornal Elo convido os meus visitantes a lerem o texto que publiquei no blog Villa Aquilini.

6.8.06

Do Tejo ao Rovuma

No cais de Alcântara uma onda teimosa batia no casco sujo do Niassa. Batia, batia, não sei bem se como um castigo ou se como uma carícia e eu a pensar que daria uma bela foto: a onda a aproximar-se de longe e depois a rebentar de encontro ao navio; de seguida parecia ir tomar balanço lá atrás e lá voltava ela novamente a bater, naquela teimosia sem fim.
O Niassa parece mais um cargueiro adaptado a transporte de tropas do que um paquete e ao entrarmos pela escada íngreme e acrobaticamente oscilante que lhe dava acesso a partir do cais não nos apercebemos logo do que isso significa. Mas um mês de viagem haveria certamente de chegar para nos esclarecer sobre isso e também para ficarmos a saber a consideração que os nossos governantes têm pelos seus soldados.
[...]

[...]
A história de ir ao outro lado do rio não tem nada que contar: uma entre milhares nesta guerra; o que tem que contar, é aquela ondinha obsessiva de que não consigo esquecer-me – tal qual o soluço na voz do meu avô "Quero voltar a ver-te". Onde estava centrada a dúvida daquele soluço? Em mim, por me ser difícil superar o perigo em que ia meter-me ou nele, por lhe ser difícil superar a simples passagem do tempo?
[...]

Ler o texto completo aqui

8.7.06

Não Dei Pela Noite Cair

Não dei pela noite cair, pela cor a desbotar-se primeiro no céu e depois na superfície de todas as coisas, tornando-as mais suaves, como se o dia se sentisse cansado. O reóstato do Sol a baixar a luz lentamente como acontece nas salas de cinema a fim de prepararmos a nossa atenção para coisas mais ligadas à mente que ao corpo. Não dei pela mudança dos sons à minha volta que foram perdendo a estridência e lentamente se foram tornando mais íntimos até parecerem confidências proferidas exclusivamente para nós das profundezas da mata virgem.
Quando dei por mim, estava deitado de barriga para o ar e não me lembro sequer de ter passado a palavra, "Grande alto", que me deveria advertir que iríamos parar para dormir, nem me lembro da fila de soldados a parar e a caírem de cansaço cada um para seu lado, não como se fossem dormir, mas como se tivessem sido abatidos a tiro, um a um.

[...]
Eu sei que quando lá chegarmos, não encontraremos lá ninguém, felizmente, e que só teremos que destruir com granadas de mão, meia dúzia de palhotas no meio do mato. Entraremos protegidos pelo fogo cerrado e largaremos as granadas que destruirão as palhotas.
[...] atravessaremos a aldeia maconde e não ficará nada de pé, não deixaremos nada de útil para trás e eu ainda hei-de levar comigo as imagens, como troféus ignominiosos da nossa destruição.

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6.6.06

Saudade

[...]
Lá do fundo do vale ouvem-se em resposta uns estampidos de morteiro 82 igualmente inúteis. Todas as guerras são estúpidas, mas quando se disparam obuses e morteiros só para cumprir uma formalidade – a formalidade da violência institucional, que é a guerra – a estupidez atinge níveis de difícil classificação. Os putos continuam o jogo, imperturbáveis – por certo tão habituados àquele tiroteio como se ele não passasse de um mero fogo de artifício
[...]


Procuro aqui em Mueda, com o enquadramento da máquina a grande fonte de arco de ferro do Largo da minha terra, onde, anos mais tarde, tanto encostava, às Sextas a carrinha da biblioteca, como às Terças a carrinha do peixe; só que a carrinha do peixe buzinava e a da biblioteca não; mas apenas encontro um amontoado de sucata que há-de ter sido um Hunimog antes de pisar uma mina.
Não sei porque me lembro sempre da minha mãe a regar as sardinheiras quando me vêm à cabeça estes jogos de futebol no largo da minha aldeia e a biblioteca itinerante em que o Professor atendia os seus leitores, tão convencido da nossa dedicação que não achava necessário buzinar como o peixeiro – Onde bais co essa gabela de libros? e eu a responder, fugindo à questão novamente, dez anos depois – As rosas cheiram melhor mãe, isso são flores de pobre. –Olha que nos libros do coléijo no pegas tu, retorquia ela melindrada como sempre, com a minha falta de sensibilidade.
[...]

Ler o texto completo aqui

Ouça o Menino do Bairro Negro de Zeca Afonso aqui

9.5.06

A Bruxuleante Chama da Vida


Os sons vêm de longe, como do fim de um túnel e a consciência acorda lentamente como se eu estivesse ancorado às profundezas do inconsciente e apenas com um fio ténue da vontade a ligar-me à vida, insuficiente para acordar. Nesta zona cinzenta onde não temos controlo do corpo mas já temos consciência de nós, é que por falta de melhor explicação se inventou a alma. A minha alma ressuscitou dentro de um corpo que permaneceu ainda mais algum tempo morto.
[...]
E o sorriso da minha mãe – a única pessoa no mundo que pronuncia todas as sílabas do meu nome. Apenas uma leve entoação na voz me faz saber se está satisfeita ou zangada comigo. Para cada estado de espírito tem uma entoação diferente que eu aprendi a conhecer com o tempo, basta-lhe dizer o meu nome e eu sei que antes de mim ela já adivinhou o que me preocupa. Será que lá longe teve um sobressalto, como um anúncio telepático da minha morte?

21.4.06

O Silêncio da Palavra



Texto escrito para o blog da turma do 6º ano da professora de História e Geografia de Portugal, Sónia Cruz, do Externato Maria Auxiliadora de Viana do Castelo.


O que vieram fazer para a rua naquele dia as pessoas de Lisboa, antes ainda do sol nascer e quando os blindados cruzavam as ruas? Porque não faziam o que os soldados lhes diziam, apelando para que ficassem em casa?

Semanas antes, outros soldados saíram à rua em Lisboa, mas não traziam armas nas mãos nem vinham devidamente aprumados. Traziam muletas, cadeiras de rodas, braços ao peito e levantavam um cartaz de protesto sobre as suas cabeças.

Sobre as suas cabeças os soldados exibiam o espaço vazio das palavras por escrever, o silêncio dos gritos por soltar; exibiam o derradeiro protesto dos amordaçados: um cartaz em branco.

Os automóveis na Avenida da Liberdade pararam para os deixarem atravessar e as pessoas pararam para ler o silêncio insultuoso do cartaz, mas em breve outros soldados que ainda tinham pernas e braços e armas vieram fazê-los parar e levaram-nos com eles. Sobre o chão ficou o cartaz em branco rasgado; a palavra duas vezes amordaçada; a palavra banida antes de ser dita; o próprio silêncio da palavra por dizer, que de tão óbvia fora previamente censurada, como um filho que é negado antes de ser concebido porque os pais se odeiam.

Agora as pessoas de Lisboa saíram à rua. E porque enchem as pessoas as ruas de Lisboa só porque os soldados apearam do poder os governantes do país? Porque não ficaram em casa, à espera que tudo se acalmasse? Que vêm dizer as pessoas umas às outras em Lisboa? Que gritam elas na rua?

Hoje nenhuma palavra foi negada. Hoje nenhum cartaz foi rasgado por ostentar a ausência da palavra proibida como se o silêncio fosse o molde da própria palavra e a repetisse incessantemente a toda a gente.

As pessoas gritam em Lisboa a plenos pulmões todas as palavras e todas as palavras são possíveis e de entre todas as palavras que dizem, o povo de Lisboa diz a palavra mais proibida de todas, aquela que foi proibida mesmo quando não foi escrita e o seu lugar em branco num cartaz fez sentir ainda mais a sua falta.

Foi isso que as pessoas foram fazer para a rua naquele dia do mês de Abril, quando as flores costumam abrir ao nascer do sol em busca da luz - enquanto os soldados apeavam do poder aqueles que proibiam até o silêncio das palavras, o povo de Lisboa saiu à rua em busca da Liberdade.

1.4.06

O Cancioneiro do Niassa


Foto do ex-Alferes Miliciano António Silvestre

O alferes Gonçalves vai molhando a garganta entre as estrofes da canção. Leva à boca a garrafa de litro da cerveja, sem deixar de balançar o corpo ao ritmo da guitarra manhosa do cabo Rosmaninho. Dá impressão que acompanha a canção com um instrumento de sopro, donde afinal só saem uns gorgolões sonoros de Cuca mal confeccionada.
A verdade é que nem o alferes tem uma boa voz nem o cabo grandes unhas para a guitarra, e aquela canção do Bob Dylan no português alfacinha do Gonçalves, ganha requebros de faduncho canalha. Mas é o que temos de mais aparentado com a música.
Cada um de nós tem uma “bazuca” de Cuca à frente e, a servir de bucha, um casqueiro e manteiga surripiados à dispensa do rancho geral.
O furriel vagomestre tem aqui a difícil missão de não deixar morrer à fome os soldados com os géneros que conseguirem sobreviver à rapacidade de todos os responsáveis pelo seu transporte, desde Lourenço Marques até lhe chegarem às mãos, em Mueda. Não sem antes ele próprio retirar a sua maquia que, claro está, lhe cabe por direito. Se há alguma coisa que se aprende depressa na tropa é que, se formos tão escrupulosos que não nos apropriemos de nada que não nos seja devido mas que esteja à mercê, é porque somos tansos, dado que somos os únicos a fazê-lo – num código de conduta a que damos o nome de desenrascanço.
O alferes Gonçalves e o cabo Rosmaninho desfiaram, pela ordem habitual, como se fosse um rosário, quase todas as canções do Cancioneiro do Niassa. Essas canções populares com letras adaptadas vão do brejeiro ao revolucionário.
Carpem-se as dores e faz-se a catarse da raiva contida dos combatentes, sob a complacência magnânima dos comandos militares que por vezes até assistem divertidos aos serões e tainadas. Complacência que a mim me sabe a uma espécie de concessão da última vontade aos condenados à morte.
Quando a miséria não é extrema, o vagomestre ainda arranja algo de mais substancial. Mas hoje temos que nos sentir felizes por aquele casqueiro cheio de gorgulho e larvas cozidas que aqui em Mueda, à medida que o tempo vai passando e a nossa repugnância diminuindo, vão perdendo a reputação de porcaria para ganharem o estatuto de recheio, em jeito de boroa merendeira da minha aldeia.
O meu analfabetismo musical só me permite abanar a cabeça e bater umas palmadas nas coxas, a dar a ideia que comungo do espírito de grupo. Mas não me atrevo a engrossar o coro que diz “Estou farto deles, estou farto deles; só mandam vir e não fazem nada”, com a minha voz que levou o padre de canto coral do colégio de Anadia, num acto desesperado de impotência, a propor-me fazer, pelo menos de vez em quando, gazeta às aulas.
Quando a música das diferentes canções já nos parece a todos a mesma, e a guitarra do cabo Rosmaninho não consegue ir além de um doloroso latir de animal ferido, está na hora da cachaça da sossega. A garrafa da cirrose a haver aparece repentinamente em cima da mesa, pronta para uma geral com despudores convidativos de prostituta.
Ou é do álcool ou a Lua está linda hoje, e surpreendentemente a minha voz de falsete esganiçado parece até nem destoar muito das outras. De repente, a noite ganha encantos boémios de fim de festa, enquanto gritamos a plenos pulmões:
“Estou farto deles, estou farto deles; só mandam vir e não fazem nada”, dado que a versão original, “Eles comem tudo e não deixam nada”, seria aqui, em bom rigor, até um pouco injusta.
Separamo-nos à saída da arrecadação onde decorreu o nosso banquete de casqueiro, manteiga, cerveja e cachaça. Os outros vão-se calando à medida que se encontram sozinhos na noite, mas eu sinto-me inesperadamente confiante nos meus dotes canoros e continuo a repetir o estribilho vezes sem conta.
Entro assim na flat, fazendo as despesas da festa sozinho. Os olhares dos meus companheiros de quarto pousam em mim, com um ar de desgosto que eu atribuo à minha crónica inaptidão musical. Mas quando repito “O que foi? O que foi?” ofendido com tanta insensibilidade, as três palavras que me atiram como resposta, dão-me volta ao estômago e fazem-me cair de joelhos num vómito de enjoo, raiva e dor: – O furriel Camões.
Estas frases não precisam de verbos. Aqui, quando se diz o nome de alguém entre dois silêncios, só perguntamos “Uma mina?”, “Um tiro?” – Foi um fornilho.
Acabo de curtir a bebedeira aos pontapés a um bidão, enquanto grito a plenos pulmões que “estou farto deles, estou farto deles”, já sem qualquer vestígio da música do Zeca Afonso.