23.11.06

Fadiga

[...] O medo, a raiva e a ansiedade são na guerra as personagens principais, mas é o cansaço o verdadeiro protagonista. O cansaço é a pior coisa que há numa guerra. A fadiga do corpo, a fadiga da mente, a fadiga da própria vida, que nos aproxima tanto da morte que dir-se-ia uma tentação permanente.
Acho que se há heróis numa guerra, que lutam com desprezo da própria vida é porque estão demasiado exaustos para considerarem a vida uma coisa digna de apreço. Nesta exaustão completa, o próprio instinto de sobrevivência desaparece.

[...] A lama debaixo de mim molda-se lentamente aos contornos do meu corpo como uma coisa viva que quisesse absorver-me entrando por todos os interstícios da farda até se colar à pele. Quando me levantar estarei completamente enlameado de um lado do corpo e deslavado pela chuva do outro.
Sinto a primeira sensação de prazer de todo o dia; se não fosse uma raiz que me pressiona as costelas, poderia dizer que não me lembro de melhor conforto do que este.
[...]

Veja o texto completo aqui ou no Jornal Elo da ADFA

30.10.06

O Prisioneiro


Foto do ex Alferes Miliciano Marques Lopes
[...]
Na parada, Samuel Ntaluma perfila ao lado do grupo de combate como se fosse mais um camarada de armas, roto, sujo com os lábios ainda avermelhados do molho salgado e picante das anchovas, obedecendo em perfeita sincronia com os soldados às ordens do alferes e, à voz de destroçar, Samuel Ntaluma bateu com o pé descalço no chão, mas ficou imóvel no meio da parada enquanto os soldados dispersavam.
Eu também bati com a minha bota no chão e também não me mexi e também fiquei no meio da parada, fiquei a vê-lo entrar na secretaria da companhia de cabeça erguida e ar digno, parecendo mais um convidado do que um prisioneiro. Quando passou à minha frente pareceu-me que sorriu.
[...]

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26.9.06

Aerograma

[...] como se não tivesse havido uma guerra, como se eu não tivesse feito com homens como eu, o que agora faço com as latas de cerveja.
E então sentirei um apelo enorme para te contar tudo isto, como se a música de um piano se soltasse, retinindo pérola a pérola sobre o pesado mármore do silêncio e acordasse em mim o riso e a inocência.
Se fores tu, lembraremos o Rivelino como uma criança inocente antes de lhe terem dado a missão que só é costume desculpar aos deuses e que na verdade nos transforma a todos em predadores ou em presas, em projécteis ou em alvos.


Se fores tu, terei a certeza que não aprendi a lição da morte, e este aerograma terá finalmente a sua destinatária.

Com todo o meu amor,

Manuel


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27.8.06

Villa Aquilini

Como em Setembro não se edita o Jornal Elo convido os meus visitantes a lerem o texto que publiquei no blog Villa Aquilini.

6.8.06

Do Tejo ao Rovuma

No cais de Alcântara uma onda teimosa batia no casco sujo do Niassa. Batia, batia, não sei bem se como um castigo ou se como uma carícia e eu a pensar que daria uma bela foto: a onda a aproximar-se de longe e depois a rebentar de encontro ao navio; de seguida parecia ir tomar balanço lá atrás e lá voltava ela novamente a bater, naquela teimosia sem fim.
O Niassa parece mais um cargueiro adaptado a transporte de tropas do que um paquete e ao entrarmos pela escada íngreme e acrobaticamente oscilante que lhe dava acesso a partir do cais não nos apercebemos logo do que isso significa. Mas um mês de viagem haveria certamente de chegar para nos esclarecer sobre isso e também para ficarmos a saber a consideração que os nossos governantes têm pelos seus soldados.
[...]

[...]
A história de ir ao outro lado do rio não tem nada que contar: uma entre milhares nesta guerra; o que tem que contar, é aquela ondinha obsessiva de que não consigo esquecer-me – tal qual o soluço na voz do meu avô "Quero voltar a ver-te". Onde estava centrada a dúvida daquele soluço? Em mim, por me ser difícil superar o perigo em que ia meter-me ou nele, por lhe ser difícil superar a simples passagem do tempo?
[...]

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8.7.06

Não Dei Pela Noite Cair

Não dei pela noite cair, pela cor a desbotar-se primeiro no céu e depois na superfície de todas as coisas, tornando-as mais suaves, como se o dia se sentisse cansado. O reóstato do Sol a baixar a luz lentamente como acontece nas salas de cinema a fim de prepararmos a nossa atenção para coisas mais ligadas à mente que ao corpo. Não dei pela mudança dos sons à minha volta que foram perdendo a estridência e lentamente se foram tornando mais íntimos até parecerem confidências proferidas exclusivamente para nós das profundezas da mata virgem.
Quando dei por mim, estava deitado de barriga para o ar e não me lembro sequer de ter passado a palavra, "Grande alto", que me deveria advertir que iríamos parar para dormir, nem me lembro da fila de soldados a parar e a caírem de cansaço cada um para seu lado, não como se fossem dormir, mas como se tivessem sido abatidos a tiro, um a um.

[...]
Eu sei que quando lá chegarmos, não encontraremos lá ninguém, felizmente, e que só teremos que destruir com granadas de mão, meia dúzia de palhotas no meio do mato. Entraremos protegidos pelo fogo cerrado e largaremos as granadas que destruirão as palhotas.
[...] atravessaremos a aldeia maconde e não ficará nada de pé, não deixaremos nada de útil para trás e eu ainda hei-de levar comigo as imagens, como troféus ignominiosos da nossa destruição.

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6.6.06

Saudade

[...]
Lá do fundo do vale ouvem-se em resposta uns estampidos de morteiro 82 igualmente inúteis. Todas as guerras são estúpidas, mas quando se disparam obuses e morteiros só para cumprir uma formalidade – a formalidade da violência institucional, que é a guerra – a estupidez atinge níveis de difícil classificação. Os putos continuam o jogo, imperturbáveis – por certo tão habituados àquele tiroteio como se ele não passasse de um mero fogo de artifício
[...]


Procuro aqui em Mueda, com o enquadramento da máquina a grande fonte de arco de ferro do Largo da minha terra, onde, anos mais tarde, tanto encostava, às Sextas a carrinha da biblioteca, como às Terças a carrinha do peixe; só que a carrinha do peixe buzinava e a da biblioteca não; mas apenas encontro um amontoado de sucata que há-de ter sido um Hunimog antes de pisar uma mina.
Não sei porque me lembro sempre da minha mãe a regar as sardinheiras quando me vêm à cabeça estes jogos de futebol no largo da minha aldeia e a biblioteca itinerante em que o Professor atendia os seus leitores, tão convencido da nossa dedicação que não achava necessário buzinar como o peixeiro – Onde bais co essa gabela de libros? e eu a responder, fugindo à questão novamente, dez anos depois – As rosas cheiram melhor mãe, isso são flores de pobre. –Olha que nos libros do coléijo no pegas tu, retorquia ela melindrada como sempre, com a minha falta de sensibilidade.
[...]

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Ouça o Menino do Bairro Negro de Zeca Afonso aqui

9.5.06

A Bruxuleante Chama da Vida


Os sons vêm de longe, como do fim de um túnel e a consciência acorda lentamente como se eu estivesse ancorado às profundezas do inconsciente e apenas com um fio ténue da vontade a ligar-me à vida, insuficiente para acordar. Nesta zona cinzenta onde não temos controlo do corpo mas já temos consciência de nós, é que por falta de melhor explicação se inventou a alma. A minha alma ressuscitou dentro de um corpo que permaneceu ainda mais algum tempo morto.
[...]
E o sorriso da minha mãe – a única pessoa no mundo que pronuncia todas as sílabas do meu nome. Apenas uma leve entoação na voz me faz saber se está satisfeita ou zangada comigo. Para cada estado de espírito tem uma entoação diferente que eu aprendi a conhecer com o tempo, basta-lhe dizer o meu nome e eu sei que antes de mim ela já adivinhou o que me preocupa. Será que lá longe teve um sobressalto, como um anúncio telepático da minha morte?

21.4.06

O Silêncio da Palavra



Texto escrito para o blog da turma do 6º ano da professora de História e Geografia de Portugal, Sónia Cruz, do Externato Maria Auxiliadora de Viana do Castelo.


O que vieram fazer para a rua naquele dia as pessoas de Lisboa, antes ainda do sol nascer e quando os blindados cruzavam as ruas? Porque não faziam o que os soldados lhes diziam, apelando para que ficassem em casa?

Semanas antes, outros soldados saíram à rua em Lisboa, mas não traziam armas nas mãos nem vinham devidamente aprumados. Traziam muletas, cadeiras de rodas, braços ao peito e levantavam um cartaz de protesto sobre as suas cabeças.

Sobre as suas cabeças os soldados exibiam o espaço vazio das palavras por escrever, o silêncio dos gritos por soltar; exibiam o derradeiro protesto dos amordaçados: um cartaz em branco.

Os automóveis na Avenida da Liberdade pararam para os deixarem atravessar e as pessoas pararam para ler o silêncio insultuoso do cartaz, mas em breve outros soldados que ainda tinham pernas e braços e armas vieram fazê-los parar e levaram-nos com eles. Sobre o chão ficou o cartaz em branco rasgado; a palavra duas vezes amordaçada; a palavra banida antes de ser dita; o próprio silêncio da palavra por dizer, que de tão óbvia fora previamente censurada, como um filho que é negado antes de ser concebido porque os pais se odeiam.

Agora as pessoas de Lisboa saíram à rua. E porque enchem as pessoas as ruas de Lisboa só porque os soldados apearam do poder os governantes do país? Porque não ficaram em casa, à espera que tudo se acalmasse? Que vêm dizer as pessoas umas às outras em Lisboa? Que gritam elas na rua?

Hoje nenhuma palavra foi negada. Hoje nenhum cartaz foi rasgado por ostentar a ausência da palavra proibida como se o silêncio fosse o molde da própria palavra e a repetisse incessantemente a toda a gente.

As pessoas gritam em Lisboa a plenos pulmões todas as palavras e todas as palavras são possíveis e de entre todas as palavras que dizem, o povo de Lisboa diz a palavra mais proibida de todas, aquela que foi proibida mesmo quando não foi escrita e o seu lugar em branco num cartaz fez sentir ainda mais a sua falta.

Foi isso que as pessoas foram fazer para a rua naquele dia do mês de Abril, quando as flores costumam abrir ao nascer do sol em busca da luz - enquanto os soldados apeavam do poder aqueles que proibiam até o silêncio das palavras, o povo de Lisboa saiu à rua em busca da Liberdade.

1.4.06

O Cancioneiro do Niassa


Foto do ex-Alferes Miliciano António Silvestre

O alferes Gonçalves vai molhando a garganta entre as estrofes da canção. Leva à boca a garrafa de litro da cerveja, sem deixar de balançar o corpo ao ritmo da guitarra manhosa do cabo Rosmaninho. Dá impressão que acompanha a canção com um instrumento de sopro, donde afinal só saem uns gorgolões sonoros de Cuca mal confeccionada.
A verdade é que nem o alferes tem uma boa voz nem o cabo grandes unhas para a guitarra, e aquela canção do Bob Dylan no português alfacinha do Gonçalves, ganha requebros de faduncho canalha. Mas é o que temos de mais aparentado com a música.
Cada um de nós tem uma “bazuca” de Cuca à frente e, a servir de bucha, um casqueiro e manteiga surripiados à dispensa do rancho geral.
O furriel vagomestre tem aqui a difícil missão de não deixar morrer à fome os soldados com os géneros que conseguirem sobreviver à rapacidade de todos os responsáveis pelo seu transporte, desde Lourenço Marques até lhe chegarem às mãos, em Mueda. Não sem antes ele próprio retirar a sua maquia que, claro está, lhe cabe por direito. Se há alguma coisa que se aprende depressa na tropa é que, se formos tão escrupulosos que não nos apropriemos de nada que não nos seja devido mas que esteja à mercê, é porque somos tansos, dado que somos os únicos a fazê-lo – num código de conduta a que damos o nome de desenrascanço.
O alferes Gonçalves e o cabo Rosmaninho desfiaram, pela ordem habitual, como se fosse um rosário, quase todas as canções do Cancioneiro do Niassa. Essas canções populares com letras adaptadas vão do brejeiro ao revolucionário.
Carpem-se as dores e faz-se a catarse da raiva contida dos combatentes, sob a complacência magnânima dos comandos militares que por vezes até assistem divertidos aos serões e tainadas. Complacência que a mim me sabe a uma espécie de concessão da última vontade aos condenados à morte.
Quando a miséria não é extrema, o vagomestre ainda arranja algo de mais substancial. Mas hoje temos que nos sentir felizes por aquele casqueiro cheio de gorgulho e larvas cozidas que aqui em Mueda, à medida que o tempo vai passando e a nossa repugnância diminuindo, vão perdendo a reputação de porcaria para ganharem o estatuto de recheio, em jeito de boroa merendeira da minha aldeia.
O meu analfabetismo musical só me permite abanar a cabeça e bater umas palmadas nas coxas, a dar a ideia que comungo do espírito de grupo. Mas não me atrevo a engrossar o coro que diz “Estou farto deles, estou farto deles; só mandam vir e não fazem nada”, com a minha voz que levou o padre de canto coral do colégio de Anadia, num acto desesperado de impotência, a propor-me fazer, pelo menos de vez em quando, gazeta às aulas.
Quando a música das diferentes canções já nos parece a todos a mesma, e a guitarra do cabo Rosmaninho não consegue ir além de um doloroso latir de animal ferido, está na hora da cachaça da sossega. A garrafa da cirrose a haver aparece repentinamente em cima da mesa, pronta para uma geral com despudores convidativos de prostituta.
Ou é do álcool ou a Lua está linda hoje, e surpreendentemente a minha voz de falsete esganiçado parece até nem destoar muito das outras. De repente, a noite ganha encantos boémios de fim de festa, enquanto gritamos a plenos pulmões:
“Estou farto deles, estou farto deles; só mandam vir e não fazem nada”, dado que a versão original, “Eles comem tudo e não deixam nada”, seria aqui, em bom rigor, até um pouco injusta.
Separamo-nos à saída da arrecadação onde decorreu o nosso banquete de casqueiro, manteiga, cerveja e cachaça. Os outros vão-se calando à medida que se encontram sozinhos na noite, mas eu sinto-me inesperadamente confiante nos meus dotes canoros e continuo a repetir o estribilho vezes sem conta.
Entro assim na flat, fazendo as despesas da festa sozinho. Os olhares dos meus companheiros de quarto pousam em mim, com um ar de desgosto que eu atribuo à minha crónica inaptidão musical. Mas quando repito “O que foi? O que foi?” ofendido com tanta insensibilidade, as três palavras que me atiram como resposta, dão-me volta ao estômago e fazem-me cair de joelhos num vómito de enjoo, raiva e dor: – O furriel Camões.
Estas frases não precisam de verbos. Aqui, quando se diz o nome de alguém entre dois silêncios, só perguntamos “Uma mina?”, “Um tiro?” – Foi um fornilho.
Acabo de curtir a bebedeira aos pontapés a um bidão, enquanto grito a plenos pulmões que “estou farto deles, estou farto deles”, já sem qualquer vestígio da música do Zeca Afonso.

14.3.06

O Cangalheiro

O Mistófles, como lhe chamam, talvez corrompendo o nome do agente do diabo do Fausto, não é uma personagem nova para mim; [...] Ontem com um bengalim de pau-preto – numa pose de estátua da arte de cava maconde, as esculturas de ébano que os indígenas fazem em série para a tropa – parecia uma alma penada que tivesse saído do cemitério para vir assistir à recepção aos checas; esse ritual estúpido que os soldados novatos passam gradualmente a achar interessante, num processo evolutivo, ou talvez deva dizer regressivo, que parece depender apenas da justa medida em que começam a sentir-se veteranos.

Atrás, o cemitério desleixado mostrava o respeito que se tem pelos mortos em Mueda.
A coluna avançava ainda mais lentamente então, por causa da multidão de soldados que nos recebia, aos apupos e aos insultos, como se fossemos condenados a caminho do cadafalso. – Ó checa cabrão, vai pró mato! – Checa é pior que turra! E o Mefistófoles, ele próprio, do seu poleiro, pontificando a execução.

Este é o meu primeiro dia em Mueda. Para já, o erro ortográfico é o único que me chama a atenção. Há medida que o tempo for passando, hei-de por certo, encontrar erros mais importantes. [...]

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15.2.06

Um Sorriso de Mulher



Sobre mim um rosto de mulher mansamente sorridente olha-me com ar profissional, como se olha uma peça de lombo de porco num talho, para avaliar o seu estado de frescura. Eu estou estranhamente calmo, deve ser do que o enfermeiro Costa me mandou prá veia. Ela, que veste uma t‑shirt branca em vez da parte de cima da farda, sente-me o pulso e verifica a válvula do saco de soro, mais como se seguisse um ritual do que se acudisse a uma necessidade. Haverei de vê-la, um dia numa bicha para o cinema em Lisboa pôr um marinheiro K.O., que lhe apalpou as coxas. Chutou os sapatos de salto alto, um para cada lado, arregaçou a saia travada até cima, rodopiando sobre si mesma e partiu-lhe a cana do nariz com um calcanhar. E tudo com aquele ar mansamente sorridente.
Agora, olhando-a a repartir a sua serena atenção pelo meu pulso, pelo saco do soro, e pelo que resta da minha perna esquerda – entrapada numa ligadura mal amanhada a sair por entre as tiras do camuflado, que parecem ter sido rasgadas criteriosamente para terem a mesma largura – ninguém diria que seria capaz de partir o nariz a um marujo.
Equilibra-se fazendo um bailado acrobático, à medida que o helicóptero progride, ora adornando para um lado e para o outro, ora dando solavancos que fazem estalar a maca debaixo de mim. O helicóptero tem as portas abertas e ela não parece temer ser lançada borda fora. Dança, dando pequenos passos, flectindo as pernas, passando uma por cima de mim, para o outro lado da maca, sem quase nunca precisar de se apoiar nas mãos, entretidas na sua função de auscultação, palpação e regulação. Por vezes dá pequenos piparotes com o indicador no tubo do soro, alivia o garrote que me aperta a coxa ou pousa a palma suavemente sobre a minha testa.
Baixa-se para me gritar ao ouvido, tentando sobrepor-se à percussão do motor e ao silvo da turbina do helicóptero:
− Tudo bem?
− Tenho frio!
− É normal!
E o cheiro a suor de mulher fica um pouco a pairar à minha volta.
O piloto bate no separador que divide o seu cubículo do resto do habitáculo e fecha violentamente a mão direita sobre o pulso da mão esquerda. Um sinal para que ela se segure. Só agora percebo os pequenos estalidos na fuselagem do Alouette III − estamos a ser alvejados. O piloto faz o aparelho adornar completamente, mergulhando para o lado esquerdo, e eu vejo a selva ao fundo debaixo de mim. Uma bota apenas, como um ponto de mira, a meio da porta aberta, a apontar o perigo lá em baixo e o calmo sorriso da enfermeira, agora deitada a meu lado, no chão do habitáculo, com um braço estendido para o saco do soro, passando-me por cima, e o cheiro a mulher que traz um pouco de humanidade ao que resta de mim. As feromonas femininas a inundar o macho ferido e a trazê-lo de volta para a vida. Pode ter sido do que o Costa me injectou na veia, mas não tenho nem medo nem pressa.
Nem os impactos dos projécteis das Kalashs no helicóptero me assustam. Aquele sorriso impávido e profissional da enfermeira e a sua atenção mais ao acto médico do que a mim, inspira‑me uma segurança quase total.
Se me dissessem agora que aquela enfermeira haveria um dia de ser decapitada pela hélice de uma DO, durante uma evacuação, eu converter-me-ia a uma religião qualquer, só para pedir a Deus que a poupasse.
Aquele sorriso quase esfíngico, quase angélico, quase humano, quase feminino; a um palmo do meu rosto, a encobrir o medo – porque decerto ela se sente, modestamente, com menos direito a ele do que eu, dedicada à sua missão de salvar, a única missão nobre que há numa guerra. Aquele sorriso profissional, que inspira confiança sem violar os limites pudicos da intimidade; aquele sorriso camarada, sem o humilhante paternalismo da piedade, fez renascer em mim o amor-próprio, gerando um profundo sentimento de gratidão.
Por isso, quando recebi a notícia da sua morte tive a cobardia dos ateus perante a impotência, face à finitude absurda da vida, e dei por mim a pedir a Deus que fosse mentira, que não passasse de uma das muitas mentiras da guerra.
Lentamente, com o tempo, a sua imagem desvaneceu-se, o cheiro bom das suas feromonas esfumou-se e o seu sorriso, que ministrava como um lenitivo, apenas na dose certa, feneceu devagar na minha memória.
Quando à minha frente, largando sangue, como se uma fita vermelha lhe saísse pelo nariz, um marujo com ar de rufia se levanta a medo do chão, encarando aquele vulto feminino descalço à frente dele, de saia arregaçada até às calcinhas, com aquele ar de Gioconda, sereno, quase terno, de quem se sente na maternal obrigação de cuidar dos desvalidos, a ponto de parecer ouvi-la dizer: “Tudo bem?... É normal!”; não contive as duas grossas gotas de água que inundaram os meus olhos, e toda a estrutura racional que sustenta as minhas convicções de ateu abalou de alto abaixo. Quase caí de joelhos para agradecer a Deus o que não passara de um equívoco, com todo o egoísmo dos crentes que rejubilam com o milagre que poupou os seus entes queridos, mesmo que fatalmente, o mesmo deus tenha levado outros no seu lugar.
Acho que foi aí que se operou em mim a mais gigantesca transformação metafísica de toda a minha vida.
Entre acreditar que Deus não existe e não acreditar que Deus existe há mais que um simples trocadilho, há a memória desse cândido sorriso de Gioconda a lembrar-me quão insignificantes somos nós perante os grandes conflitos da existência.
A minha falta de fé deixou de ter a arrogância dos que apenas possuem certezas, sejam crentes ou ateus, para passar a ser a simples e modesta assunção da incapacidade de conter dentro de mim, este ser exíguo e perecível, o conceito absoluto e sempiterno de Deus.
Estarei condenado a ser um limitado descrente onde não cabe a transcendência divina, mas não nego que todo o meu ser se deslumbra com a sua beleza, enquanto entidade poética.

In "Cacimbo - A vida por um fio"

9.1.06

FIM

Não tive tempo de me despedir de África. Ao menos do perfume refrescante da madrugada; ao menos das picadas que dividiam o mundo em duas partes, de nós até ao infinito; ao menos do som omnipresente da floresta, aquele som grave que se ouve no intervalo do canto dos animais, talvez a terra a respirar, talvez a voz da própria floresta, a que nós por displicência costumamos chamar silêncio.

Quem me contou isto, ou que sonho sonhei em que tudo se passou?
Às vezes dou por mim, do cimo de uma vida vivida, olhando o poço fundo do tempo com uma vertigem. Dou por mim a escrever coisas sobre a guerra colonial como se quisesse trazer de volta a magia de África que, quem sabe, só existe na minha memória. Ou simplesmente como se quisesse preservar o que de África ainda resta em mim.

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8.11.05

O Medo

Posted by Picasa Levantamento de uma mina anti-carro
...
A coluna que vem de Omar ao nosso encontro fez alto. Alguns soldados montam segurança aos flancos de ambas as colunas enquanto outros perscrutam cada centímetro quadrado do terreno entre elas, com os detectores de metais e as picas de bambu, para que nenhuma mina escape. Eu ponho a G3 ao ombro e puxo de um Caravela que acendo enquanto admiro a singularidade do lugar a que ninguém parece dar atenção.
O céu quase limpo e luminoso acentua as leves cintilações da luz nas folhas – dignas do pincel impressionista de Monet, a que Van Gogh tivesse acrescentado dissonantes pinceladas de um pesado expressionismo nos vultos toscos dos soldados, com os seus camuflados sarapintados e sujos. Se se ouvisse uma música seria seguramente Debussi.
Os soldados de ambas as colunas intercruzam-se, cumprimentam-se. Amigos que os caprichos da guerra juntam e separam. De arma ao ombro e descontraídos, confiantes no chão seguro que já foi varrido pelos picadores e que mil botas já calcaram, aumentando confortavelmente as probabilidades de sobrevivência. Eu sou apenas um deles, nada há em mim que me distinga do conjunto, que a má fortuna eleja; uma pincelada apenas entre outras pinceladas – de Van Gogh, num quadro de Monet, onde falta o piano de Debussi.
...

30.9.05

O sol vai alto na picada de Omar

O condutor benze-se antes de subir para a Berliet ao mesmo tempo que se certifica que os sacos de areia estão nos sítios certos. Não custa nada tomarem-se as medidas de segurança todas quando se vai para a picada de Omar, embora aquele sinal-da-cruz, maquinal e apressado, me pareça um esforço insuficiente para atrair o olhar de Deus. Será que a guerra não é motivo suficiente para Deus ver este grupo de soldados a ir ao encontro das emboscadas e das minas e precisa de um sinal breve de aviso ao mesmo tempo que se ajeita a blindagem dos sacos de areia?

Posted by Picasa Rebentamento de mina anti-pessoal

6.9.05

Memorial dos combatentes do ultramar

Disseram-nos que tínhamos de ir combater. Porque era preciso ajudar os nossos irmãos de África. Era preciso vencer o mal. Era preciso acabar com o terrorismo.

Agora, folheada a História da frente para trás, todos temos uma opinião bem fundamentada sobre o assunto, mas um milhão de portugueses com vinte e poucos anos a quem mandaram combater, aceitaram combater, porque simplesmente acreditaram que era seu dever fazê-lo, dado que não desertaram, e este Portugal com dez milhões de habitantes, fez um esforço de guerra em África nove vezes superior ao que os Estados Unidos fizeram no Vietnam, com os seus duzentos e cinquenta milhões.


Foto de Zé Cipriano in blog Villa Aquilini Posted by Picasa

...Não sei o que motivou os ex-combatentes da freguesia de Aguim a erigirem um memorial a si mesmos, mas desejo intensamente que seja a expressão de um sublime senso de humor, para que não caia no esquecimento uma guerra que poderia ter sido evitada, ou que pelo menos poderia ter sido terminada com honra e dignidade e para que não volte a acontecer que políticos corruptos, falsos diplomatas e estrategas trogloditas, convoquem o heroísmo genuíno dos vinte e poucos anos de um jovem, para acudir à sua incompetência inoperante e à sua cobarde estupidez.



Texto completo in Villa Aquilini


Devido ao período de férias não foi publicado o Jornal Elo. Este texto vem apenas cumprir a periodicidade com que actualizo este blog, embora se afaste um pouco do tema habitual.

7.8.05

A Linha de Produção

... O que me perturba, é a memória do contentor a subir, como num filme mudo, no porto de Lourenço Marques, enquanto os soldados desciam do navio. O guindaste maneta, como uma aranha gigante com um braço apenas, metálico e desmesurado, segurando, não bem um contentor, mas uma pilha de caixas, cujas formas o oleado pressionado pelo vento deixava adivinhar...


De autor não identificado in Companhia de Moçambique

... Ontem chegou a Mueda uma coluna de reabastecimento com uma companhia que vamos escoltar para Omar. Checas, com o seu camuflado novo.
O olhar dos soldados acabados de chegar ao mato, à defesa, como que envergonhados. Envergonhados da sua inexperiência, por ainda não terem sentido medo a sério; envergonhados por não terem ainda matado ninguém; envergonhados da sua farda ainda não suficientemente surrada com os horrores e a ignomínia da guerra. O olhar deles, como o nosso há apenas uns meses atrás, à defesa, lendo a tabuleta, em mau português, pendurada na árvore: "Benvindos a Mueda, terra da guerra. Aqui trabalha-se, vive-se e morre-se. Checa é pior que turra." ...


Posted by Picasa

... Eu também, à socapa a ficar para trás à espera que as coisas serenem, para levantar o oleado e ver o que levava o navio de volta para a Metrópole. "Caixas" dissera o Silva, e lá vai ele ao longe; uma farda anónima entre fardas anónimas, numa fila, descendo a escada, e depois no cais, avançando até uma barreira metálica onde se controla a saída dos soldados. Uma longa e sinuosa linha de produção de soldados; eles a saírem do navio e por cima das suas cabeças, mais uma volumosa pilha de caixas a entrar. Dá ideia que se trata de uma fábrica gigantesca: a matéria-prima em bruto num sentido e o produto já embalado em sentido contrário...

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27.6.05

O Tocador de Kanhembe

"Foi mai di quinhenta" disse-me o único maconde que conheci, e pousou o kanhembe sobre uma pequena pilha de tijolos que parecia servir de banco. Pousou-o com cuidado e eu percebi que se tratava de um instrumento musical. "Kanhembe" disse ele, respondendo ao meu ar de intrigado.
Mal eu entrara ele deu resposta antecipadamente a todas as minhas questões, que lhe haveriam de parecer inocentes, com uma única frase, como se dizer mais do que isso fosse impúdico. "Foi mai di quinhenta" – e nada mais de sensato havia para dizer.


Posted by Picasa

"... Depois foi diminuindo de estatura, o chorrilho de palavras abrandando, até que fez um curto silêncio para de seguida proferir pausadamente, com uma pronúncia quase irrepreensível, como quem diz algo que decorou só para ser dito em momentos solenes: – Dezasseis de Junho de mil novecentos e sessenta.


Posted by Picasa

Agora, ali estou eu, perante o pôr-do-sol, o último para mim na África profunda, não por ter desertado, em virtude de um maconde velho, que tocava kanhembe, me ter testemunhado o massacre que deu origem àquela guerra, mas porque a mina que me foi destinada vai cumprir, ela também o seu dever. O ignóbil dever de todas as guerras: fazer tanto mal aos outros quanto possível.

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27.5.05

Hoje Não Aconteceu Nada

Ia partindo os queixos. Saltei, confiante que o helicóptero estava rente ao chão, mas o capim alto ondulando por baixo de nós, fez-me calcular mal o momento do impacto com o solo e bati com um joelho na cara que quase me pôs K. O. Corri para a berma da clareira e aguardei que o grupo-de-combate se reorganizasse.

... Abandonámos apressadamente o objectivo e ao fim da tarde o soldado Gonçalves, acabrunhado, explica-se a cada pergunta: − Sim, era uma mulher. − Sim, mandei-a parar. − Sim, deixei-a fugir. − Não, levava apenas um pilão à cabeça. − Sim, eu tinha a arma carregada.
Aqui, embora já esperada, a pergunta seguinte, incomodou-me como se tivesse sido proferida uma obscenidade.
O soldado olhou para o inquisidor incrédulo e respondeu visivelmente confuso, mastigando primeiro a pergunta.
− Ti-ve-me-do-de-quê? Então, tive medo de a matar.

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Posted by Hello "Hoje o soldado Gonçalves salvou uma mulher"

15.5.05

O Cruzeiro do Sul

... Olho uma vez mais para o Cruzeiro do Sul como quem pede a bênção. Eu não odeio ninguém deste lado do equador. E a pergunta do cabo Lemos a repetir-se nos meus ouvidos. – Isto não tem solução. Você não acha furriel? Digo que não novamente com a cabeça. O que será a solução para uma guerra sem solução? Mais guerra?

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