14.3.06

O Cangalheiro

O Mistófles, como lhe chamam, talvez corrompendo o nome do agente do diabo do Fausto, não é uma personagem nova para mim; [...] Ontem com um bengalim de pau-preto – numa pose de estátua da arte de cava maconde, as esculturas de ébano que os indígenas fazem em série para a tropa – parecia uma alma penada que tivesse saído do cemitério para vir assistir à recepção aos checas; esse ritual estúpido que os soldados novatos passam gradualmente a achar interessante, num processo evolutivo, ou talvez deva dizer regressivo, que parece depender apenas da justa medida em que começam a sentir-se veteranos.

Atrás, o cemitério desleixado mostrava o respeito que se tem pelos mortos em Mueda.
A coluna avançava ainda mais lentamente então, por causa da multidão de soldados que nos recebia, aos apupos e aos insultos, como se fossemos condenados a caminho do cadafalso. – Ó checa cabrão, vai pró mato! – Checa é pior que turra! E o Mefistófoles, ele próprio, do seu poleiro, pontificando a execução.

Este é o meu primeiro dia em Mueda. Para já, o erro ortográfico é o único que me chama a atenção. Há medida que o tempo for passando, hei-de por certo, encontrar erros mais importantes. [...]

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15.2.06

Um Sorriso de Mulher



Sobre mim um rosto de mulher mansamente sorridente olha-me com ar profissional, como se olha uma peça de lombo de porco num talho, para avaliar o seu estado de frescura. Eu estou estranhamente calmo, deve ser do que o enfermeiro Costa me mandou prá veia. Ela, que veste uma t‑shirt branca em vez da parte de cima da farda, sente-me o pulso e verifica a válvula do saco de soro, mais como se seguisse um ritual do que se acudisse a uma necessidade. Haverei de vê-la, um dia numa bicha para o cinema em Lisboa pôr um marinheiro K.O., que lhe apalpou as coxas. Chutou os sapatos de salto alto, um para cada lado, arregaçou a saia travada até cima, rodopiando sobre si mesma e partiu-lhe a cana do nariz com um calcanhar. E tudo com aquele ar mansamente sorridente.
Agora, olhando-a a repartir a sua serena atenção pelo meu pulso, pelo saco do soro, e pelo que resta da minha perna esquerda – entrapada numa ligadura mal amanhada a sair por entre as tiras do camuflado, que parecem ter sido rasgadas criteriosamente para terem a mesma largura – ninguém diria que seria capaz de partir o nariz a um marujo.
Equilibra-se fazendo um bailado acrobático, à medida que o helicóptero progride, ora adornando para um lado e para o outro, ora dando solavancos que fazem estalar a maca debaixo de mim. O helicóptero tem as portas abertas e ela não parece temer ser lançada borda fora. Dança, dando pequenos passos, flectindo as pernas, passando uma por cima de mim, para o outro lado da maca, sem quase nunca precisar de se apoiar nas mãos, entretidas na sua função de auscultação, palpação e regulação. Por vezes dá pequenos piparotes com o indicador no tubo do soro, alivia o garrote que me aperta a coxa ou pousa a palma suavemente sobre a minha testa.
Baixa-se para me gritar ao ouvido, tentando sobrepor-se à percussão do motor e ao silvo da turbina do helicóptero:
− Tudo bem?
− Tenho frio!
− É normal!
E o cheiro a suor de mulher fica um pouco a pairar à minha volta.
O piloto bate no separador que divide o seu cubículo do resto do habitáculo e fecha violentamente a mão direita sobre o pulso da mão esquerda. Um sinal para que ela se segure. Só agora percebo os pequenos estalidos na fuselagem do Alouette III − estamos a ser alvejados. O piloto faz o aparelho adornar completamente, mergulhando para o lado esquerdo, e eu vejo a selva ao fundo debaixo de mim. Uma bota apenas, como um ponto de mira, a meio da porta aberta, a apontar o perigo lá em baixo e o calmo sorriso da enfermeira, agora deitada a meu lado, no chão do habitáculo, com um braço estendido para o saco do soro, passando-me por cima, e o cheiro a mulher que traz um pouco de humanidade ao que resta de mim. As feromonas femininas a inundar o macho ferido e a trazê-lo de volta para a vida. Pode ter sido do que o Costa me injectou na veia, mas não tenho nem medo nem pressa.
Nem os impactos dos projécteis das Kalashs no helicóptero me assustam. Aquele sorriso impávido e profissional da enfermeira e a sua atenção mais ao acto médico do que a mim, inspira‑me uma segurança quase total.
Se me dissessem agora que aquela enfermeira haveria um dia de ser decapitada pela hélice de uma DO, durante uma evacuação, eu converter-me-ia a uma religião qualquer, só para pedir a Deus que a poupasse.
Aquele sorriso quase esfíngico, quase angélico, quase humano, quase feminino; a um palmo do meu rosto, a encobrir o medo – porque decerto ela se sente, modestamente, com menos direito a ele do que eu, dedicada à sua missão de salvar, a única missão nobre que há numa guerra. Aquele sorriso profissional, que inspira confiança sem violar os limites pudicos da intimidade; aquele sorriso camarada, sem o humilhante paternalismo da piedade, fez renascer em mim o amor-próprio, gerando um profundo sentimento de gratidão.
Por isso, quando recebi a notícia da sua morte tive a cobardia dos ateus perante a impotência, face à finitude absurda da vida, e dei por mim a pedir a Deus que fosse mentira, que não passasse de uma das muitas mentiras da guerra.
Lentamente, com o tempo, a sua imagem desvaneceu-se, o cheiro bom das suas feromonas esfumou-se e o seu sorriso, que ministrava como um lenitivo, apenas na dose certa, feneceu devagar na minha memória.
Quando à minha frente, largando sangue, como se uma fita vermelha lhe saísse pelo nariz, um marujo com ar de rufia se levanta a medo do chão, encarando aquele vulto feminino descalço à frente dele, de saia arregaçada até às calcinhas, com aquele ar de Gioconda, sereno, quase terno, de quem se sente na maternal obrigação de cuidar dos desvalidos, a ponto de parecer ouvi-la dizer: “Tudo bem?... É normal!”; não contive as duas grossas gotas de água que inundaram os meus olhos, e toda a estrutura racional que sustenta as minhas convicções de ateu abalou de alto abaixo. Quase caí de joelhos para agradecer a Deus o que não passara de um equívoco, com todo o egoísmo dos crentes que rejubilam com o milagre que poupou os seus entes queridos, mesmo que fatalmente, o mesmo deus tenha levado outros no seu lugar.
Acho que foi aí que se operou em mim a mais gigantesca transformação metafísica de toda a minha vida.
Entre acreditar que Deus não existe e não acreditar que Deus existe há mais que um simples trocadilho, há a memória desse cândido sorriso de Gioconda a lembrar-me quão insignificantes somos nós perante os grandes conflitos da existência.
A minha falta de fé deixou de ter a arrogância dos que apenas possuem certezas, sejam crentes ou ateus, para passar a ser a simples e modesta assunção da incapacidade de conter dentro de mim, este ser exíguo e perecível, o conceito absoluto e sempiterno de Deus.
Estarei condenado a ser um limitado descrente onde não cabe a transcendência divina, mas não nego que todo o meu ser se deslumbra com a sua beleza, enquanto entidade poética.

In "Cacimbo - A vida por um fio"

9.1.06

FIM

Não tive tempo de me despedir de África. Ao menos do perfume refrescante da madrugada; ao menos das picadas que dividiam o mundo em duas partes, de nós até ao infinito; ao menos do som omnipresente da floresta, aquele som grave que se ouve no intervalo do canto dos animais, talvez a terra a respirar, talvez a voz da própria floresta, a que nós por displicência costumamos chamar silêncio.

Quem me contou isto, ou que sonho sonhei em que tudo se passou?
Às vezes dou por mim, do cimo de uma vida vivida, olhando o poço fundo do tempo com uma vertigem. Dou por mim a escrever coisas sobre a guerra colonial como se quisesse trazer de volta a magia de África que, quem sabe, só existe na minha memória. Ou simplesmente como se quisesse preservar o que de África ainda resta em mim.

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8.11.05

O Medo

Posted by Picasa Levantamento de uma mina anti-carro
...
A coluna que vem de Omar ao nosso encontro fez alto. Alguns soldados montam segurança aos flancos de ambas as colunas enquanto outros perscrutam cada centímetro quadrado do terreno entre elas, com os detectores de metais e as picas de bambu, para que nenhuma mina escape. Eu ponho a G3 ao ombro e puxo de um Caravela que acendo enquanto admiro a singularidade do lugar a que ninguém parece dar atenção.
O céu quase limpo e luminoso acentua as leves cintilações da luz nas folhas – dignas do pincel impressionista de Monet, a que Van Gogh tivesse acrescentado dissonantes pinceladas de um pesado expressionismo nos vultos toscos dos soldados, com os seus camuflados sarapintados e sujos. Se se ouvisse uma música seria seguramente Debussi.
Os soldados de ambas as colunas intercruzam-se, cumprimentam-se. Amigos que os caprichos da guerra juntam e separam. De arma ao ombro e descontraídos, confiantes no chão seguro que já foi varrido pelos picadores e que mil botas já calcaram, aumentando confortavelmente as probabilidades de sobrevivência. Eu sou apenas um deles, nada há em mim que me distinga do conjunto, que a má fortuna eleja; uma pincelada apenas entre outras pinceladas – de Van Gogh, num quadro de Monet, onde falta o piano de Debussi.
...

30.9.05

O sol vai alto na picada de Omar

O condutor benze-se antes de subir para a Berliet ao mesmo tempo que se certifica que os sacos de areia estão nos sítios certos. Não custa nada tomarem-se as medidas de segurança todas quando se vai para a picada de Omar, embora aquele sinal-da-cruz, maquinal e apressado, me pareça um esforço insuficiente para atrair o olhar de Deus. Será que a guerra não é motivo suficiente para Deus ver este grupo de soldados a ir ao encontro das emboscadas e das minas e precisa de um sinal breve de aviso ao mesmo tempo que se ajeita a blindagem dos sacos de areia?

Posted by Picasa Rebentamento de mina anti-pessoal

6.9.05

Memorial dos combatentes do ultramar

Disseram-nos que tínhamos de ir combater. Porque era preciso ajudar os nossos irmãos de África. Era preciso vencer o mal. Era preciso acabar com o terrorismo.

Agora, folheada a História da frente para trás, todos temos uma opinião bem fundamentada sobre o assunto, mas um milhão de portugueses com vinte e poucos anos a quem mandaram combater, aceitaram combater, porque simplesmente acreditaram que era seu dever fazê-lo, dado que não desertaram, e este Portugal com dez milhões de habitantes, fez um esforço de guerra em África nove vezes superior ao que os Estados Unidos fizeram no Vietnam, com os seus duzentos e cinquenta milhões.


Foto de Zé Cipriano in blog Villa Aquilini Posted by Picasa

...Não sei o que motivou os ex-combatentes da freguesia de Aguim a erigirem um memorial a si mesmos, mas desejo intensamente que seja a expressão de um sublime senso de humor, para que não caia no esquecimento uma guerra que poderia ter sido evitada, ou que pelo menos poderia ter sido terminada com honra e dignidade e para que não volte a acontecer que políticos corruptos, falsos diplomatas e estrategas trogloditas, convoquem o heroísmo genuíno dos vinte e poucos anos de um jovem, para acudir à sua incompetência inoperante e à sua cobarde estupidez.



Texto completo in Villa Aquilini


Devido ao período de férias não foi publicado o Jornal Elo. Este texto vem apenas cumprir a periodicidade com que actualizo este blog, embora se afaste um pouco do tema habitual.

7.8.05

A Linha de Produção

... O que me perturba, é a memória do contentor a subir, como num filme mudo, no porto de Lourenço Marques, enquanto os soldados desciam do navio. O guindaste maneta, como uma aranha gigante com um braço apenas, metálico e desmesurado, segurando, não bem um contentor, mas uma pilha de caixas, cujas formas o oleado pressionado pelo vento deixava adivinhar...


De autor não identificado in Companhia de Moçambique

... Ontem chegou a Mueda uma coluna de reabastecimento com uma companhia que vamos escoltar para Omar. Checas, com o seu camuflado novo.
O olhar dos soldados acabados de chegar ao mato, à defesa, como que envergonhados. Envergonhados da sua inexperiência, por ainda não terem sentido medo a sério; envergonhados por não terem ainda matado ninguém; envergonhados da sua farda ainda não suficientemente surrada com os horrores e a ignomínia da guerra. O olhar deles, como o nosso há apenas uns meses atrás, à defesa, lendo a tabuleta, em mau português, pendurada na árvore: "Benvindos a Mueda, terra da guerra. Aqui trabalha-se, vive-se e morre-se. Checa é pior que turra." ...


Posted by Picasa

... Eu também, à socapa a ficar para trás à espera que as coisas serenem, para levantar o oleado e ver o que levava o navio de volta para a Metrópole. "Caixas" dissera o Silva, e lá vai ele ao longe; uma farda anónima entre fardas anónimas, numa fila, descendo a escada, e depois no cais, avançando até uma barreira metálica onde se controla a saída dos soldados. Uma longa e sinuosa linha de produção de soldados; eles a saírem do navio e por cima das suas cabeças, mais uma volumosa pilha de caixas a entrar. Dá ideia que se trata de uma fábrica gigantesca: a matéria-prima em bruto num sentido e o produto já embalado em sentido contrário...

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27.6.05

O Tocador de Kanhembe

"Foi mai di quinhenta" disse-me o único maconde que conheci, e pousou o kanhembe sobre uma pequena pilha de tijolos que parecia servir de banco. Pousou-o com cuidado e eu percebi que se tratava de um instrumento musical. "Kanhembe" disse ele, respondendo ao meu ar de intrigado.
Mal eu entrara ele deu resposta antecipadamente a todas as minhas questões, que lhe haveriam de parecer inocentes, com uma única frase, como se dizer mais do que isso fosse impúdico. "Foi mai di quinhenta" – e nada mais de sensato havia para dizer.


Posted by Picasa

"... Depois foi diminuindo de estatura, o chorrilho de palavras abrandando, até que fez um curto silêncio para de seguida proferir pausadamente, com uma pronúncia quase irrepreensível, como quem diz algo que decorou só para ser dito em momentos solenes: – Dezasseis de Junho de mil novecentos e sessenta.


Posted by Picasa

Agora, ali estou eu, perante o pôr-do-sol, o último para mim na África profunda, não por ter desertado, em virtude de um maconde velho, que tocava kanhembe, me ter testemunhado o massacre que deu origem àquela guerra, mas porque a mina que me foi destinada vai cumprir, ela também o seu dever. O ignóbil dever de todas as guerras: fazer tanto mal aos outros quanto possível.

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27.5.05

Hoje Não Aconteceu Nada

Ia partindo os queixos. Saltei, confiante que o helicóptero estava rente ao chão, mas o capim alto ondulando por baixo de nós, fez-me calcular mal o momento do impacto com o solo e bati com um joelho na cara que quase me pôs K. O. Corri para a berma da clareira e aguardei que o grupo-de-combate se reorganizasse.

... Abandonámos apressadamente o objectivo e ao fim da tarde o soldado Gonçalves, acabrunhado, explica-se a cada pergunta: − Sim, era uma mulher. − Sim, mandei-a parar. − Sim, deixei-a fugir. − Não, levava apenas um pilão à cabeça. − Sim, eu tinha a arma carregada.
Aqui, embora já esperada, a pergunta seguinte, incomodou-me como se tivesse sido proferida uma obscenidade.
O soldado olhou para o inquisidor incrédulo e respondeu visivelmente confuso, mastigando primeiro a pergunta.
− Ti-ve-me-do-de-quê? Então, tive medo de a matar.

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Posted by Hello "Hoje o soldado Gonçalves salvou uma mulher"

15.5.05

O Cruzeiro do Sul

... Olho uma vez mais para o Cruzeiro do Sul como quem pede a bênção. Eu não odeio ninguém deste lado do equador. E a pergunta do cabo Lemos a repetir-se nos meus ouvidos. – Isto não tem solução. Você não acha furriel? Digo que não novamente com a cabeça. O que será a solução para uma guerra sem solução? Mais guerra?

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15.4.05

Prenúncio de Abril

Abril de 72, picada de Omar, Moçambique.

... a fileira de viaturas quase em ruínas parece antes uma cicatriz cheia de crostas, nesta pele verde enferrujada do capinzal. Dá a ideia de que o nosso trabalho tem sido apenas alinhar sucata pela picada.

Acabo de comer como se tivesse gostado da refeição, bebo o resto morno da minha 2M e atiro a lata para o capim, onde há muito se encontra a lata de vomitado do alferes Barreiros que não comeu nada.

... depois desce e vem pousar-me na mão. Durante um longo momento a minha G3 transfigura-se ganhando a luz dos objectos sagrados.
− Que sabe uma borboleta de revoluções?
Um dia, armas como estas hão-de sair à rua, em mãos como estas, sujas de guerra...

... mas nesse dia serão cravos. Nesse Abril serão cravos.

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15.3.05

O Poema de Sophia

- Que é que ele tem? Pergunto eu, e o alferes a olhá-lo sem me responder. Como pude eu não saber o que tinha aquele soldado, que em vez de fazer o que lhe tinham mandado, se pusera prá 'li a chorar.

Posted by HelloSophia por Arpad Szenes

- "Nunca choraremos bastante quando vemos o gesto criador ser impedido." Disse o alferes, citando o poema de Sophia que lhe decorava a parede do quarto.

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15.2.05

Paludismo

O vale de Miteda, visto de cima, é um oceano vegetal. Para qualquer lado que se olhe só se vê a mancha verde-musgo da floresta. Ao longe, a Norte, somente o Planalto dos Macondes quebra esta monotonia oceânica. Um pouco acima das copas das árvores passa uma silhueta de insecto, com a sua cabeça grande, os olhos enormes ocupando a cabeça toda e o corpo alongado. Não se vêm as asas, apenas um halo translúcido provocado pelo movimento do ar. Chama-se Alouette III e dirige-se solitário, para Sul. É estranho que vá tão baixo e ande tão tarde longe da base.

A humidade é tanta que custa a respirar. O ar tem uma espessura oleosa. Estamos encharcados como se tivesse chovido torrencialmente. Não tenho um centímetro quadrado do corpo seco. A paisagem dissolve-se vinte metros à nossa frente, onde a picada e a fila de soldados desaparecem no nada. Parece que caminhamos em direcção a um espelho embaciado que nos vai engolindo.

Posted by Hello

…O parasita do paludismo ataca primeiro o fígado e a pouco e pouco, destrói as células sanguíneas alimentando-se da hemoglobina dos glóbulos vermelhos, o que inibe a sua capacidade de transportarem oxigénio, provocando anemia e favorecendo a introdução de toxinas que provocam febres elevadas.
Depois de uma sucessão de várias horas de frio e de outras tantas de febres altas, segue-se uma fase de transpiração intensa que precede, nas ocorrências benignas, o fim da malária e que é acompanhada por uma sensação de alívio e bem-estar…

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15.10.04

Cacimbo

(Transtorno de Stress Pós-traumático)


Confesso, tive coragem e poupei
Quem me coube um dia por inimigo.
Quando perdi a coragem, matei
Quem só partilhava o medo comigo.

15.9.04

O Primeiro Morto

Visto daqui o céu parece uma parede mal pintada em tons de ocre e tijolo com umas pinceladas de vermelho sem qualquer critério.
Não há nada a fazer, hoje é o último dia em que o Lourenço vai poder ver o pôr-do-sol, para o Lourenço amanhã vai ser o dia mais curto da sua vida, não chegará a ver o Sol.

Agora, o olhar perdido virado para o céu não vê o Alouette III que vem a padejar, esfarrapando o cacimbo e pousando como uma libélula gigante na clareira que os soldados abriram a golpes de catana. Ele vai embora na barriga da libélula e nós ficamos cá em baixo pequeninos e insignificantes como ácaros na alcatifa imensa da selva.

Não tivemos tempo de chorar a sua morte.

2.11.03

A Prenda de Natal

O soldado abraça a G3, enquanto caminha pela picada, como se fosse um ícone sagrado ou um amuleto. Era, bem vistas as coisas, o único objecto de valor que transportava consigo. Quanto custaria uma G3? Provavelmente não possuía nada de seu com um preço superior ao de uma G3.
Lembrava-se de, quando criança, ter pedido um triciclo pelo Natal e de os seus pais lhe terem dito que o Menino Jesus não dava prendas tão caras. Apesar disso, nunca pôde deixar de formular o desejo de receber uma prenda que fosse provocatoriamente superior ao orçamento do seu Menino Jesus, embora soubesse que a realidade no sapatinho haveria de ser bem mais modesta.
Nunca a realidade ultrapassou os seus sonhos.
O soldado avança, o agoiro da mina escaldando-lhe os pés, ora abraçando a arma ora atravessando-a, como uma canga, em cima do cachaço e descansando os braços sobre ela, como um crucifixo ambulante. Que pode um soldado crucificado na própria arma desejar para o Natal?


Cada passo é um lance de roleta russa.
Quando se ouve o estampido, mais no estômago do que nos ouvidos; quando se segue o instante de silêncio em que todo o som parece ter sido sugado para um buraco; quando sentimos o bafo fétido da morte que nos traz, num segundo apenas, uma eternidade de medo; então experimentamos um brevíssimo alívio, embora tão grande que não cabe em palavras. Mas quando somos nós a calcar a mina não se ouve nada, não se sente nada; tudo se apaga simplesmente.
E o soldado acordou. Nem dor, nem angústia, nem medo. Só um lento despertar. Uma dilacerante suspeita de não estar a acordar de um simples pesadelo, de cujos contornos não se recordasse bem, uma obstinada recusa em aceitar a estúpida realidade, crua e descarnada diante dos olhos. E o desejo, desta vez tão modesto, mas tão irrealista como sempre, de receber, como prenda de Natal, ao menos o corpo inteiro dentro das botas.