30.9.05

O sol vai alto na picada de Omar

O condutor benze-se antes de subir para a Berliet ao mesmo tempo que se certifica que os sacos de areia estão nos sítios certos. Não custa nada tomarem-se as medidas de segurança todas quando se vai para a picada de Omar, embora aquele sinal-da-cruz, maquinal e apressado, me pareça um esforço insuficiente para atrair o olhar de Deus. Será que a guerra não é motivo suficiente para Deus ver este grupo de soldados a ir ao encontro das emboscadas e das minas e precisa de um sinal breve de aviso ao mesmo tempo que se ajeita a blindagem dos sacos de areia?

Posted by Picasa Rebentamento de mina anti-pessoal

6.9.05

Memorial dos combatentes do ultramar

Disseram-nos que tínhamos de ir combater. Porque era preciso ajudar os nossos irmãos de África. Era preciso vencer o mal. Era preciso acabar com o terrorismo.

Agora, folheada a História da frente para trás, todos temos uma opinião bem fundamentada sobre o assunto, mas um milhão de portugueses com vinte e poucos anos a quem mandaram combater, aceitaram combater, porque simplesmente acreditaram que era seu dever fazê-lo, dado que não desertaram, e este Portugal com dez milhões de habitantes, fez um esforço de guerra em África nove vezes superior ao que os Estados Unidos fizeram no Vietnam, com os seus duzentos e cinquenta milhões.


Foto de Zé Cipriano in blog Villa Aquilini Posted by Picasa

...Não sei o que motivou os ex-combatentes da freguesia de Aguim a erigirem um memorial a si mesmos, mas desejo intensamente que seja a expressão de um sublime senso de humor, para que não caia no esquecimento uma guerra que poderia ter sido evitada, ou que pelo menos poderia ter sido terminada com honra e dignidade e para que não volte a acontecer que políticos corruptos, falsos diplomatas e estrategas trogloditas, convoquem o heroísmo genuíno dos vinte e poucos anos de um jovem, para acudir à sua incompetência inoperante e à sua cobarde estupidez.



Texto completo in Villa Aquilini


Devido ao período de férias não foi publicado o Jornal Elo. Este texto vem apenas cumprir a periodicidade com que actualizo este blog, embora se afaste um pouco do tema habitual.

7.8.05

A Linha de Produção

... O que me perturba, é a memória do contentor a subir, como num filme mudo, no porto de Lourenço Marques, enquanto os soldados desciam do navio. O guindaste maneta, como uma aranha gigante com um braço apenas, metálico e desmesurado, segurando, não bem um contentor, mas uma pilha de caixas, cujas formas o oleado pressionado pelo vento deixava adivinhar...


De autor não identificado in Companhia de Moçambique

... Ontem chegou a Mueda uma coluna de reabastecimento com uma companhia que vamos escoltar para Omar. Checas, com o seu camuflado novo.
O olhar dos soldados acabados de chegar ao mato, à defesa, como que envergonhados. Envergonhados da sua inexperiência, por ainda não terem sentido medo a sério; envergonhados por não terem ainda matado ninguém; envergonhados da sua farda ainda não suficientemente surrada com os horrores e a ignomínia da guerra. O olhar deles, como o nosso há apenas uns meses atrás, à defesa, lendo a tabuleta, em mau português, pendurada na árvore: "Benvindos a Mueda, terra da guerra. Aqui trabalha-se, vive-se e morre-se. Checa é pior que turra." ...


Posted by Picasa

... Eu também, à socapa a ficar para trás à espera que as coisas serenem, para levantar o oleado e ver o que levava o navio de volta para a Metrópole. "Caixas" dissera o Silva, e lá vai ele ao longe; uma farda anónima entre fardas anónimas, numa fila, descendo a escada, e depois no cais, avançando até uma barreira metálica onde se controla a saída dos soldados. Uma longa e sinuosa linha de produção de soldados; eles a saírem do navio e por cima das suas cabeças, mais uma volumosa pilha de caixas a entrar. Dá ideia que se trata de uma fábrica gigantesca: a matéria-prima em bruto num sentido e o produto já embalado em sentido contrário...

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27.6.05

O Tocador de Kanhembe

"Foi mai di quinhenta" disse-me o único maconde que conheci, e pousou o kanhembe sobre uma pequena pilha de tijolos que parecia servir de banco. Pousou-o com cuidado e eu percebi que se tratava de um instrumento musical. "Kanhembe" disse ele, respondendo ao meu ar de intrigado.
Mal eu entrara ele deu resposta antecipadamente a todas as minhas questões, que lhe haveriam de parecer inocentes, com uma única frase, como se dizer mais do que isso fosse impúdico. "Foi mai di quinhenta" – e nada mais de sensato havia para dizer.


Posted by Picasa

"... Depois foi diminuindo de estatura, o chorrilho de palavras abrandando, até que fez um curto silêncio para de seguida proferir pausadamente, com uma pronúncia quase irrepreensível, como quem diz algo que decorou só para ser dito em momentos solenes: – Dezasseis de Junho de mil novecentos e sessenta.


Posted by Picasa

Agora, ali estou eu, perante o pôr-do-sol, o último para mim na África profunda, não por ter desertado, em virtude de um maconde velho, que tocava kanhembe, me ter testemunhado o massacre que deu origem àquela guerra, mas porque a mina que me foi destinada vai cumprir, ela também o seu dever. O ignóbil dever de todas as guerras: fazer tanto mal aos outros quanto possível.

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27.5.05

Hoje Não Aconteceu Nada

Ia partindo os queixos. Saltei, confiante que o helicóptero estava rente ao chão, mas o capim alto ondulando por baixo de nós, fez-me calcular mal o momento do impacto com o solo e bati com um joelho na cara que quase me pôs K. O. Corri para a berma da clareira e aguardei que o grupo-de-combate se reorganizasse.

... Abandonámos apressadamente o objectivo e ao fim da tarde o soldado Gonçalves, acabrunhado, explica-se a cada pergunta: − Sim, era uma mulher. − Sim, mandei-a parar. − Sim, deixei-a fugir. − Não, levava apenas um pilão à cabeça. − Sim, eu tinha a arma carregada.
Aqui, embora já esperada, a pergunta seguinte, incomodou-me como se tivesse sido proferida uma obscenidade.
O soldado olhou para o inquisidor incrédulo e respondeu visivelmente confuso, mastigando primeiro a pergunta.
− Ti-ve-me-do-de-quê? Então, tive medo de a matar.

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Posted by Hello "Hoje o soldado Gonçalves salvou uma mulher"

15.5.05

O Cruzeiro do Sul

... Olho uma vez mais para o Cruzeiro do Sul como quem pede a bênção. Eu não odeio ninguém deste lado do equador. E a pergunta do cabo Lemos a repetir-se nos meus ouvidos. – Isto não tem solução. Você não acha furriel? Digo que não novamente com a cabeça. O que será a solução para uma guerra sem solução? Mais guerra?

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15.4.05

Prenúncio de Abril

Abril de 72, picada de Omar, Moçambique.

... a fileira de viaturas quase em ruínas parece antes uma cicatriz cheia de crostas, nesta pele verde enferrujada do capinzal. Dá a ideia de que o nosso trabalho tem sido apenas alinhar sucata pela picada.

Acabo de comer como se tivesse gostado da refeição, bebo o resto morno da minha 2M e atiro a lata para o capim, onde há muito se encontra a lata de vomitado do alferes Barreiros que não comeu nada.

... depois desce e vem pousar-me na mão. Durante um longo momento a minha G3 transfigura-se ganhando a luz dos objectos sagrados.
− Que sabe uma borboleta de revoluções?
Um dia, armas como estas hão-de sair à rua, em mãos como estas, sujas de guerra...

... mas nesse dia serão cravos. Nesse Abril serão cravos.

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15.3.05

O Poema de Sophia

- Que é que ele tem? Pergunto eu, e o alferes a olhá-lo sem me responder. Como pude eu não saber o que tinha aquele soldado, que em vez de fazer o que lhe tinham mandado, se pusera prá 'li a chorar.

Posted by HelloSophia por Arpad Szenes

- "Nunca choraremos bastante quando vemos o gesto criador ser impedido." Disse o alferes, citando o poema de Sophia que lhe decorava a parede do quarto.

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15.2.05

Paludismo

O vale de Miteda, visto de cima, é um oceano vegetal. Para qualquer lado que se olhe só se vê a mancha verde-musgo da floresta. Ao longe, a Norte, somente o Planalto dos Macondes quebra esta monotonia oceânica. Um pouco acima das copas das árvores passa uma silhueta de insecto, com a sua cabeça grande, os olhos enormes ocupando a cabeça toda e o corpo alongado. Não se vêm as asas, apenas um halo translúcido provocado pelo movimento do ar. Chama-se Alouette III e dirige-se solitário, para Sul. É estranho que vá tão baixo e ande tão tarde longe da base.

A humidade é tanta que custa a respirar. O ar tem uma espessura oleosa. Estamos encharcados como se tivesse chovido torrencialmente. Não tenho um centímetro quadrado do corpo seco. A paisagem dissolve-se vinte metros à nossa frente, onde a picada e a fila de soldados desaparecem no nada. Parece que caminhamos em direcção a um espelho embaciado que nos vai engolindo.

Posted by Hello

…O parasita do paludismo ataca primeiro o fígado e a pouco e pouco, destrói as células sanguíneas alimentando-se da hemoglobina dos glóbulos vermelhos, o que inibe a sua capacidade de transportarem oxigénio, provocando anemia e favorecendo a introdução de toxinas que provocam febres elevadas.
Depois de uma sucessão de várias horas de frio e de outras tantas de febres altas, segue-se uma fase de transpiração intensa que precede, nas ocorrências benignas, o fim da malária e que é acompanhada por uma sensação de alívio e bem-estar…

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15.10.04

Cacimbo

(Transtorno de Stress Pós-traumático)


Confesso, tive coragem e poupei
Quem me coube um dia por inimigo.
Quando perdi a coragem, matei
Quem só partilhava o medo comigo.

15.9.04

O Primeiro Morto

Visto daqui o céu parece uma parede mal pintada em tons de ocre e tijolo com umas pinceladas de vermelho sem qualquer critério.
Não há nada a fazer, hoje é o último dia em que o Lourenço vai poder ver o pôr-do-sol, para o Lourenço amanhã vai ser o dia mais curto da sua vida, não chegará a ver o Sol.

Agora, o olhar perdido virado para o céu não vê o Alouette III que vem a padejar, esfarrapando o cacimbo e pousando como uma libélula gigante na clareira que os soldados abriram a golpes de catana. Ele vai embora na barriga da libélula e nós ficamos cá em baixo pequeninos e insignificantes como ácaros na alcatifa imensa da selva.

Não tivemos tempo de chorar a sua morte.

2.11.03

A Prenda de Natal

O soldado abraça a G3, enquanto caminha pela picada, como se fosse um ícone sagrado ou um amuleto. Era, bem vistas as coisas, o único objecto de valor que transportava consigo. Quanto custaria uma G3? Provavelmente não possuía nada de seu com um preço superior ao de uma G3.
Lembrava-se de, quando criança, ter pedido um triciclo pelo Natal e de os seus pais lhe terem dito que o Menino Jesus não dava prendas tão caras. Apesar disso, nunca pôde deixar de formular o desejo de receber uma prenda que fosse provocatoriamente superior ao orçamento do seu Menino Jesus, embora soubesse que a realidade no sapatinho haveria de ser bem mais modesta.
Nunca a realidade ultrapassou os seus sonhos.
O soldado avança, o agoiro da mina escaldando-lhe os pés, ora abraçando a arma ora atravessando-a, como uma canga, em cima do cachaço e descansando os braços sobre ela, como um crucifixo ambulante. Que pode um soldado crucificado na própria arma desejar para o Natal?


Cada passo é um lance de roleta russa.
Quando se ouve o estampido, mais no estômago do que nos ouvidos; quando se segue o instante de silêncio em que todo o som parece ter sido sugado para um buraco; quando sentimos o bafo fétido da morte que nos traz, num segundo apenas, uma eternidade de medo; então experimentamos um brevíssimo alívio, embora tão grande que não cabe em palavras. Mas quando somos nós a calcar a mina não se ouve nada, não se sente nada; tudo se apaga simplesmente.
E o soldado acordou. Nem dor, nem angústia, nem medo. Só um lento despertar. Uma dilacerante suspeita de não estar a acordar de um simples pesadelo, de cujos contornos não se recordasse bem, uma obstinada recusa em aceitar a estúpida realidade, crua e descarnada diante dos olhos. E o desejo, desta vez tão modesto, mas tão irrealista como sempre, de receber, como prenda de Natal, ao menos o corpo inteiro dentro das botas.