15.4.05

Prenúncio de Abril

Abril de 72, picada de Omar, Moçambique.

... a fileira de viaturas quase em ruínas parece antes uma cicatriz cheia de crostas, nesta pele verde enferrujada do capinzal. Dá a ideia de que o nosso trabalho tem sido apenas alinhar sucata pela picada.

Acabo de comer como se tivesse gostado da refeição, bebo o resto morno da minha 2M e atiro a lata para o capim, onde há muito se encontra a lata de vomitado do alferes Barreiros que não comeu nada.

... depois desce e vem pousar-me na mão. Durante um longo momento a minha G3 transfigura-se ganhando a luz dos objectos sagrados.
− Que sabe uma borboleta de revoluções?
Um dia, armas como estas hão-de sair à rua, em mãos como estas, sujas de guerra...

... mas nesse dia serão cravos. Nesse Abril serão cravos.

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15.3.05

O Poema de Sophia

- Que é que ele tem? Pergunto eu, e o alferes a olhá-lo sem me responder. Como pude eu não saber o que tinha aquele soldado, que em vez de fazer o que lhe tinham mandado, se pusera prá 'li a chorar.

Posted by HelloSophia por Arpad Szenes

- "Nunca choraremos bastante quando vemos o gesto criador ser impedido." Disse o alferes, citando o poema de Sophia que lhe decorava a parede do quarto.

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15.2.05

Paludismo

O vale de Miteda, visto de cima, é um oceano vegetal. Para qualquer lado que se olhe só se vê a mancha verde-musgo da floresta. Ao longe, a Norte, somente o Planalto dos Macondes quebra esta monotonia oceânica. Um pouco acima das copas das árvores passa uma silhueta de insecto, com a sua cabeça grande, os olhos enormes ocupando a cabeça toda e o corpo alongado. Não se vêm as asas, apenas um halo translúcido provocado pelo movimento do ar. Chama-se Alouette III e dirige-se solitário, para Sul. É estranho que vá tão baixo e ande tão tarde longe da base.

A humidade é tanta que custa a respirar. O ar tem uma espessura oleosa. Estamos encharcados como se tivesse chovido torrencialmente. Não tenho um centímetro quadrado do corpo seco. A paisagem dissolve-se vinte metros à nossa frente, onde a picada e a fila de soldados desaparecem no nada. Parece que caminhamos em direcção a um espelho embaciado que nos vai engolindo.

Posted by Hello

…O parasita do paludismo ataca primeiro o fígado e a pouco e pouco, destrói as células sanguíneas alimentando-se da hemoglobina dos glóbulos vermelhos, o que inibe a sua capacidade de transportarem oxigénio, provocando anemia e favorecendo a introdução de toxinas que provocam febres elevadas.
Depois de uma sucessão de várias horas de frio e de outras tantas de febres altas, segue-se uma fase de transpiração intensa que precede, nas ocorrências benignas, o fim da malária e que é acompanhada por uma sensação de alívio e bem-estar…

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15.10.04

Cacimbo

(Transtorno de Stress Pós-traumático)


Confesso, tive coragem e poupei
Quem me coube um dia por inimigo.
Quando perdi a coragem, matei
Quem só partilhava o medo comigo.

15.9.04

O Primeiro Morto

Visto daqui o céu parece uma parede mal pintada em tons de ocre e tijolo com umas pinceladas de vermelho sem qualquer critério.
Não há nada a fazer, hoje é o último dia em que o Lourenço vai poder ver o pôr-do-sol, para o Lourenço amanhã vai ser o dia mais curto da sua vida, não chegará a ver o Sol.

Agora, o olhar perdido virado para o céu não vê o Alouette III que vem a padejar, esfarrapando o cacimbo e pousando como uma libélula gigante na clareira que os soldados abriram a golpes de catana. Ele vai embora na barriga da libélula e nós ficamos cá em baixo pequeninos e insignificantes como ácaros na alcatifa imensa da selva.

Não tivemos tempo de chorar a sua morte.

2.11.03

A Prenda de Natal

O soldado abraça a G3, enquanto caminha pela picada, como se fosse um ícone sagrado ou um amuleto. Era, bem vistas as coisas, o único objecto de valor que transportava consigo. Quanto custaria uma G3? Provavelmente não possuía nada de seu com um preço superior ao de uma G3.
Lembrava-se de, quando criança, ter pedido um triciclo pelo Natal e de os seus pais lhe terem dito que o Menino Jesus não dava prendas tão caras. Apesar disso, nunca pôde deixar de formular o desejo de receber uma prenda que fosse provocatoriamente superior ao orçamento do seu Menino Jesus, embora soubesse que a realidade no sapatinho haveria de ser bem mais modesta.
Nunca a realidade ultrapassou os seus sonhos.
O soldado avança, o agoiro da mina escaldando-lhe os pés, ora abraçando a arma ora atravessando-a, como uma canga, em cima do cachaço e descansando os braços sobre ela, como um crucifixo ambulante. Que pode um soldado crucificado na própria arma desejar para o Natal?


Cada passo é um lance de roleta russa.
Quando se ouve o estampido, mais no estômago do que nos ouvidos; quando se segue o instante de silêncio em que todo o som parece ter sido sugado para um buraco; quando sentimos o bafo fétido da morte que nos traz, num segundo apenas, uma eternidade de medo; então experimentamos um brevíssimo alívio, embora tão grande que não cabe em palavras. Mas quando somos nós a calcar a mina não se ouve nada, não se sente nada; tudo se apaga simplesmente.
E o soldado acordou. Nem dor, nem angústia, nem medo. Só um lento despertar. Uma dilacerante suspeita de não estar a acordar de um simples pesadelo, de cujos contornos não se recordasse bem, uma obstinada recusa em aceitar a estúpida realidade, crua e descarnada diante dos olhos. E o desejo, desta vez tão modesto, mas tão irrealista como sempre, de receber, como prenda de Natal, ao menos o corpo inteiro dentro das botas.