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2.12.07

Black-out



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Quando o Mugeiro acordou no meio da picada ainda não tinha voltado a luz. Só as vozes à sua volta, um frio de morte no rosto e algo quente escorrendo, escorrendo. Há coisas piores que uma noite de inverno sem luz. Quando a meio de um dia de Sol com a luz mais gloriosa que se pode imaginar, a transformar todos os objectos em cristais iridescentes; nós seguimos as pegadas do soldado à nossa frente e ele fica sem as pernas e os estilhaços da mina nos batem em cheio no rosto; a luz apaga-se, mas apaga-se para sempre.
Nunca mais a réstia matinal, num risco cintilante da janela mal fechada até à parede do quarto; nunca mais as refulgências da água do tanque, espelhadas no tecto do alpendre; nunca mais o brilho das lágrimas tremeluzentes, nos três primeiros segundos do orgasmo, quando os olhos da mulher se alargam tão infantis como maternais, tão inocentes como impudicos e nos redimem de todas as nossas culpas e nos fazem esquecer todas as nossas mágoas e nos exorcizam todos os nossos fantasmas.
Foi mais difícil quando o primeiro filho nasceu. Era como se ele se escondesse permanentemente atrás de um pano negro impossível de rasgar. Mas a tudo nesta vida um ser humano se habitua, até à noite infinita.
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Ver texto completo na pág. 13 do Jornal Elo da ADFA ou aqui.